Amiga Imaginária
À volta de Beatriz, era já o terceiro dia consecutivo em que se juntava uma grande multidão de alunos. A rapariga ganhou fama na escola inteira, tida ora como vidente, ora como psicóloga de mão cheia. Todos queriam um pouco da sua sabedoria. Abordavam-na junto ao recreio, sentavam-se a seu lado no refeitório, traziam-lhe pastéis de nata, cadernos com trabalhos de casa e outros pequenos presentes ofertas que, vá-se lá saber porquê, ela teimava em recusar.
Beatriz, eu gosto do Rui do 5º B. Achas que vamos casar no futuro? perguntou, sonhadora, a colega Mariana.
Não te aconselho. O Rui parece boa pessoa, mas anda sempre com o dedo no nariz e come macacos. Comida não lhe vai faltar, mas nada mais além disso. Vai passar a vida nisto respondeu Beatriz, mastigando uma carcaça e sorvendo um galão.
Que horror, credo! E o Gonçalo? Ele tira só notas boas e está a aprender guitarra insistiu Mariana, sorrindo outra vez.
O Gonçalo anda a fazer mal aos gatos. Já o vi a amarrar latas à cauda deles e depois corre atrás pela rua. Vai tornar-se cruel e, mais tarde ou mais cedo, começa a beber.
Como sabes disso tudo?
Alguma vez viste guitarristas que não bebessem? Olha, não desperdices o teu tempo com isso e preocupa-te em melhorar a matemática e parares de roer as unhas, senão acabas cheia de lombrigas.
Por perto, o Paulo do 4º C afastou bruscamente a colega apaixonada, empurrando-a de uma ponta à outra do banco.
Não tenho amigos. Todos gozam comigo e ninguém me convida para nada desabafou.
Na quarta-feira abrem inscrições para judo. Pede ao professor de educação física. Não vais ficar mais magro, mas pelo menos não gozam contigo. E não ponhas mais a tua futura esposa a voar pelo ar dessa maneira respondeu Beatriz.
Levantou-se e foi levar o tabuleiro à copa.
Eh, Beatriz, achas que vale a pena tirar a carta este ano ou deixo para o que vem? abordou a professora de geografia, junto à bicha da loiça, disfarçando a curiosidade.
Ó dona Margarida, para aprender a conduzir é preciso ter carro, e o seu é o velho Renault do seu pai. Não é a mesma coisa, percebe?
Se-calhar respondeu a professora, cheia de dúvidas.
Beatriz revirou os olhos, lavou as mãos e continuou:
Venda esse carrito e, com o dinheiro, compre antes uma bicicleta e calções. Dentro de dois meses já arranja quem a leve ao trabalho. Ou melhor, pense em arranjar uma casa própria neste momento os juros estão baixinhos, e viver com os pais aos 35 não é vida. Falo por experiência!
Enquanto todos a seguiam com os olhos arregalados, Beatriz entrou na sala para a aula de trabalhos manuais.
Durante quarenta minutos, enquanto as colegas aprendiam a riscar tecidos e a enfiar linhas na máquina, Beatriz remendou as calças que trouxera de casa, ajustou uma saia e ainda fez à mão um par de peúgas que ofereceu à professora, dizendo que grávidas deviam manter os pés quentes. A professora, nervosa, saiu apressada a correr para a farmácia a comprar um teste. No dia seguinte, toda a turma provou um delicioso bolo de chocolate em agradecimento da professora.
Em casa, Beatriz também se portava de forma inusitada. Repreendeu a mãe por ter comprado carne já picada e ela própria fez empadas em casa. À noite, em vez de ficar no Youtube, pôs-se a ler Os Três Mosqueteiros e falava baixinho com alguém de vez em quando. O pai espreitava-a de detrás do computador e ela não deixava passar: fez-lhe logo notar que estava corcunda e que mais valia ir bater o tapete do que passar o tempo em sites duvidosos.
Os rumores começaram a correr pela escola, os professores ficaram alarmados e exigiram a intervenção da psicóloga. Marcou-se uma reunião durante o horário de aulas, com toda a direcção presente.
Beatriz, querida, alguém te anda a fazer mal aqui na escola? perguntou a psicóloga, de óculos e com um ar moderno.
O que me faz mal é ver que a escola recebeu milhares de euros e na ginástica só compraram um banco velho e dois metros de corda respondeu com desdém.
Todos olharam para o diretor, que de repente se lembrou de uma reunião urgente e saiu sorrateiramente pela janela aberta.
Não tens amigos?
Amizade é um conceito vago replicou Beatriz, balançando as tranças. Hoje jogam ao mata com uma colega e amanhã ela está a lavar a tua louça enquanto tu preenches papéis para o IRS.
Espera lá, IRS e louça Quem te fala disso?
A minha amiga.
Está aqui o problema! Podes chamá-la?
Ela está aqui respondeu Beatriz, sem se alterar. Todos ficaram boquiabertos.
Mas nós não a vemos. Como se chama?
Dona Odete.
Hum, e quantos anos tem?
Setenta.
Que te diz ela mais?
Que os dentes se lavam da gengiva para baixo, que o cão do nosso prédio não é mau, só tem medo e fome, que não se devem esquecer os familiares. E que o vosso imposto sobre o património tem sido mal calculado há cinco anos. Devia ir às Finanças e pedir para reverem fazem sempre pelo valor patrimonial, nunca pelo do mercado.
A psicóloga tomou nota de tudo, sublinhando a última parte por duas vezes.
No final, o telefone chamou os pais, que estavam no trabalho.
Esperem! ouvia-se o pai, emocionado, do outro lado. Assim se chamava a minha mãe! Morreu há dez anos.
Houve um murmurinho estranho na sala, misturado com preces baixas.
Pois é, já passaram dez anos e ninguém foi ao cemitério. Aquilo está cheio de ervas, a vedação está torta criticou Beatriz.
Eu queria ir, mas nunca há tempo balbuciou o pai.
A reunião terminou.
No dia seguinte, a família inteira foi ao cemitério. Beatriz nunca tinha conhecido a avó, só ouvia falar dela nos escassos relatos do pai. Custou a encontrar a campa, de tão crescido que ficou aquele campo de mármore, antes um pinhal.
A rapariga trouxe um ramo de tulipas amarelas e pô-lo num frasco improvável. O pai endireitou a vedação, a mãe tirou as ervas.
Pai, a avó diz que és boa pessoa, mas que te perdes no trabalho e na internet, e por isso nunca tens tempo nem para mim.
O pai ficou vermelho e assentiu em silêncio, envergonhado.
Diz que vamos mudar passou-lhe a mão nos cabelos, depois fez o mesmo à foto desbotada da avó.
Agora ela está em paz e já não vai aparecer-me, mas eu vou ter muitas saudades porque era mesmo muito divertida, bondosa e sabia tudo.
Era mesmo. A tua avó via tudo ao longe. Queres dizer mais alguma coisa?
Quero. Ela diz que a tua dieta das alfaces não presta para nada. Se queres emagrecer vai ao ginásio. E que abriste aquela conta em dólares para quê? É melhor pensar antes de tomar decisões dessas. E aquele betão barato que mandaste para a garagem
No fim, ficou a lição: mesmo quem já partiu pode, de algum modo, ajudar-nos a lembrar o que é realmente importante valorizar quem amamos, cuidar dos nossos e não esquecer as pequenas grandes coisas da vida.







