O cardiologista Tomás Brandão decide descansar num balneário bem no interior do Alentejo. Resolve fazer a barba e preparar-se para a noite, afinal, quem tem mais de 40 ainda pode aproveitar. Ele já passou dos 60 mas quem é que vai notar?
De repente, entra a correr no quarto uma mulher. Para a descrever faltam palavras e pinceladas à la Paula Rego. É o tipo de pessoa perfeita para usar num curso didático: a mulher é composta por. Ela traz energia de sobra. De imediato grita: que sorte teve o balneário de receber um cardiologista tão famoso! Porque mesmo agora o encarregado está a empurrar para a sala de procedimentos um doente grave. O cardiologista habitual foi chamado de urgência para Lisboa. E um enfarte não marca hora. Felizmente, o dr. Brandão está ali, de férias, pronto para ajudar.
Tomás já percebe que não há saída fácil. A senhora, com mais de cem quilos e um batom vermelho chamativo cravado bem no meio do rosto como se fosse um selo da Inquisição em reportagem da RTP perde-se em detalhes e repete a história. Com estas mulheres, é inútil explicar que até um cardiologista dos melhores nada pode quando lhe calham como assistência um encarregado e uma enfermeira vestida de boneco de neve sedutor.
Ao chegar à sala de procedimentos, Tomás depara-se com o encarregado à beira de um ataque de nervos e uma maca. Em cima dela, um homem barbudo, abatido, de ar resignado, esmagado debaixo de um processo clínico gordo. Parece um miúdo de 13 anos com cara de lenhador. Normalmente, esse biotipo é de investigador sénior do Instituto Gulbenkian.
Está em delírio explica o encarregado. Só fala em rosa, rosa. Julga que está numa florista.
A enfermeira mede a tensão e diz que está tudo de mal a pior. 7 por 5, e ainda a cair. Isso nem é tensão, isso são as medidas das minhas pernas e braços, brinca ela antes de largar uma gargalhada que arrepia Tomás dos pés à cabeça. Já o processo clínico avisa: para este doente, 18 por 10 é só aquecimento.
Tomás avalia a sala, procura o que precisa. De repente, ouve sons pouco habituais. Olha e a enfermeira chora. Tomás questiona: «Então?» Responde-lhe: «Tenho pena dele coitado do homem.»
Sente uma inquietação a crescer.
Dê a adrenalina diz, desinfetando as mãos. Sabes ao menos o que é? E para onde se tira?
Ai, que pena do homem! soluça a enfermeira encostada à ombreira, lavada em lágrimas.
Tomás pega ele próprio na seringa, prepara tudo. Cruza o olhar com o encarregado, que arregala os olhos ao ver o tamanho da agulha capaz de servir de lança em filme de piratas. Nunca viu ninguém que não estremecesse só de a olhar.
A enfermeira berra pelo desfibrilador, mas Tomás vê que mais valia dar-lhe uns tabefes para a pôr nos eixos. Mas e se for reflexo? Não vale a pena arriscar, senão ainda vai parar com ela pelo terceiro andar abaixo.
Já farto da cena, Tomás decide: acabou a paciência. Localiza o sítio na caixa torácica do doente e crava a agulha. Nisto, o encarregado despenca-se ao chão.
Ai, que pena do encarregado! grita a enfermeira.
Mas o que é isso?! Onde anda o amoníaco?
Eles vão morrer?… Isto é o fim não quero ver, ó meus Deus…
Na mesa está uma lâmpada de ferro fundido, cinco quilos de puro peso, representando Lusíadas cura o Leão pela garganta. Tomás ainda pondera usá-la para pôr termo à confusão. Mas engole a irritação, exige disciplina e tranquilidade. Isto está a fugir do controlo. Quem trata de quem, afinal?
Ordem! Tratem-se, ponham-se direitos!
Ao grito, o doente ergue-se na maca, olhos fechados.
Não façam disparates, senhor avisa a enfermeira, pressionando-lhe com firmeza a cabeça na maca. A amónia está na gaveta, claro.
O encarregado está praticamente desacordado, pulsação em pausa. Do outro lado, o braço barbudo volta a cair da maca. Fugiu novamente. Que inferno, pensa Tomás.
Massagem! ordena, enquanto puxa o encarregado por uma perna para fora da maca.
A enfermeira vira o doente de barriga para baixo, ajeita a saia, pronta a trepar a maca.
Ao coração, ao coração! Massagem cardíaca, pá! berra Tomás.
A enfermeira senta-se em cima do homem. A maca geme. Tomás ouve o ranger sinistro do ferro. Tenta reanimar o encarregado com algodão e amoníaco, mas observa: cento e cinquenta quilos em cima de sessenta o doente solta o ar como se fosse uma bomba de encher pneus.
Tomás levanta o encarregado; é quase líquido, não tem ângulos. Sentou-o no divã. Olha e vê a enfermeira prestes a partir o pobre homem. Tira-a de cima dele, esfrega-lhe amoníaco sob o nariz, sentando-a ao lado do encarregado. Ficam os dois ali, qual galinhas: um de calças abaixo dos joelhos, o outro de saia pelos ombros. Equipa de emergência, dizem eles.
Nesse momento, o doente volta a erguer-se como encosto de banco, olhos fechados, vira a cabeça para o divã. O encarregado assusta-se, cai para a frente. Tomás ainda nota o padrão de estilhaços no chão gerados pela testa a bater no mosaico.
Amigos lamuria-se o doente, olhos fechados. Peço-vos encarecidamente para não me tratarem mais
E começa a explicar: é hipotenso de família. Antes de chover já anda a esvair-se, no trovão varre-se pelo chão de canto a canto. Não tem culpa, nasceu assim. De tensão de trabalho, 8 por 5, às vezes menos, mas resolve-se com um expresso bem tirado. Agora, problema não se resolve é com esta mulher por cima dele, com fio de bolas de bilhar ao pescoço, carregando o peso do destino. Achou mesmo que ia morrer. Ia a esposa à casa de banho, acaba ele enterrado.
Tomás sente as cãs a multiplicar-se. Lê a ficha: Rosa Duarte. Recorda-se: vinha ao balneário na esperança de conhecer alguma senhora local, viver aventuras… Quem sabe algo mais. Agora só quer esquecer tudo.
Então isto? mostra a ficha à enfermeira.
É o processo clínico responde, indiferente, com algodão no nariz.
Isto não é Rosa Duarte, pois não? nota Tomás. Isto é pelo menos um Duarte Rosa!
Como médico responsável, devia ter reparado nisso
Vais ver se…
Calma, explico interrompe o doente. A minha mulher está aqui. Trouxe-lhe iogurte, deixou a ficha ao meu lado e foi ao WC. Senti-me mal e o senhor que acabou de desafiar as leis da física meteu-me na maca. E pronto, aqui estou. Agora já estou bem, tirando o susto. Se alguém pegar num isqueiro e acender por baixo, entro em órbita. E dormitar, não faço tão cedo perfeito para acabar o novo artigo para a revista científica.
Só tenho uma proposta diz a enfermeira depois do homem com o iogurte se ir embora. Não estivemos cá hoje.
Tomás pensa em retorquir com a lâmpada, mas ela antecipa-se:
O encarregado é comigo.
Tomás acaba a noite sem conhecer ninguém no balneário.







