Dona Filomena, posso entrar? na porta do gabinete da diretora da fábrica apareceu um dos seus adjuntos.
Claro, Joaquim Manuel, entre assentiu a diretora, com ar prático. Então, conte-me, como vão as coisas hoje?
Quais coisas? Onde?
No setor.
Ah, no setor No setor está tudo em ordem. Por quê?
Ora, você não veio aqui do nada, deve ter algo a dizer sobre o trabalho.
Pois é, há mesmo algo que preciso pedir disse o adjunto, franzindo o cenho.
Pedir? Dona Filomena olhou atentamente para aquele homem de aparência respeitável e abanou a cabeça. Ó Joaquim, você anda estranho ultimamente, sabia?
Estranho?
Sim. Tem andado abatido, como se carregasse uma tragédia em casa. Está tudo bem com a sua família?
Bem como hei de dizer suspirou Joaquim. Se não me ajudar com um documento, daqui a pouco vai estar tudo muito mal lá em casa.
Documento? Dona Filomena ficou alerta. Não percebo. De que está a falar?
Eu sei que parece estranho Joaquim assumiu um ar quase trágico. Mas preciso de um atestado seu. Para a minha mulher.
Como? O rosto da diretora alongou-se de surpresa. Um atestado? Para a sua mulher? Em que sentido?
Um atestado de que entre nós nunca houve, nem há, qualquer tipo de envolvimento além do profissional.
De quê? Que nunca houve o quê?
Relações de proximidade O homem começou a corar rapidamente. Como de mulher para com homem.
Está a brincar? Dona Filomena empalideceu. Ou está a gozar comigo?
Infelizmente não. O futuro da minha família depende desse papel, com a sua assinatura. Com a sua palavra. A minha mulher está convencida de que somos amantes.
A diretora ficou algum tempo de boca aberta e, depois, perguntou com cautela:
Ela é maluca? Exigir um atestado desses ao marido Nunca ouvi tamanha coisa. Nem nos velhos filmes portugueses se via disto!
Eu sei, dona Filomena! lamentou-se Joaquim. Mas não posso fazer nada. Temos filhos E ela disse-me: ou trazes esse papel, assinado por ela, ou peço o divórcio. Depois pega nos miúdos e vai para Faro, para a casa da mãe. Sabe onde é? Parece longe, o fim do mundo. Por isso, suplico-lhe, escreva essa carta, nem que seja só para me salvar.
Olhe, Joaquim Manuel! Dona Filomena não acreditava na conversa. De onde veio essa ideia da sua mulher? Nunca sequer nos cruzámos fora do trabalho! Nem marcas de batom nas suas camisas ela podia ter visto. De onde tirou ela essas fantasias?
Ora, Joaquim tirou do bolso do casaco o telemóvel, buscou uma fotografia e mostrou-lhe. Ela viu isto aqui e encasquetou.
E então? Dona Filomena olhou a foto, onde toda a administração da fábrica estava reunida. Eu também tenho essa foto. Foi quando recebemos aquelas distinções da Câmara Municipal.
Pois é Joaquim esboçou um sorriso amarelo. Só que, na foto, estou ao seu lado e pus-lhe a mão no ombro.
Porque estávamos todos juntos, e o fotógrafo quis que nos encaixássemos!
Exato. Mas olhe para a sua cabeça. A Conceição diz que só uma mulher apaixonada encosta assim a cabeça ao peito de um homem.
O quê?! Os olhos de Dona Filomena brilharam de indignação. Mas que disparate! Ela é cega? Inclinei-me assim porque a Rosa Amélia, ao meu lado, segurava flores e ia tapar-me a cara!
Também tentei explicar tudo isto à Conceição, durante horas Quanto mais justificava, mais ela suspeitava. Sem o tal documento, estou perdido.
Não acredito nisto! voltou a exclamar Dona Filomena. Não me diga que tem tanto medo da sua mulher!
Tenho, sim sussurrou Joaquim, bastante sério para que a diretora o ouvisse. Pelos meus filhos, faria qualquer coisa. Não aguentava viver longe deles. Compreende?
Que coisa absurda murmurou Dona Filomena, resumindo-se a pegar numa folha em branco. Pronto se insiste dite lá o que quer.
Sim murmurou o adjunto. Escreva: “Eu, Filomena dos Reis, certifico que não suporto o meu adjunto Joaquim Manuel”.
Dona Filomena ergueu os olhos para ele, surpresa, mas Joaquim acenou para não hesitar.
É isso mesmo. Não suporto. E ponha também: Aliás, detesto-o.
Detestar? ela retorquiu. Não posso dizer que detesto o meu próprio adjunto! Como iria trabalhar com ele, então?
Ponha só: detesto-o como homem. Nem por todo o ouro do mundo aceitaria partilhar uma cama com ele. Nem que me pagassem um milhão de euros. Agora assine e ponha o carimbo, para ter peso.
O carimbo está na contabilidade disse automaticamente Dona Filomena. Depois leu a carta e estremeceu.
Mas isto é uma loucura! Isto não existe! protestou, dobrando de repente a folha ao meio, rasgando-a uma e outra vez.
O que faz? assustou-se Joaquim. Era o meu documento!
Ó Joaquim sorrindo de forma estranha, a diretora disse , sabe o que acho? Que devia era divorciar-se da Conceição, enquanto é tempo.
Isso não! ficou aflito o adjunto. Ela leva os meus filhos. Vai mesmo!
Não leva nada continuou Dona Filomena a sorrir calmamente. Conheço um advogado experiente que consegue manter as crianças consigo. O tribunal vai decidir a seu favor.
Mas eu
Se for preciso, interrompeu ela, ajudo pessoalmente na educação dos seus filhos.
A senhora? Ajuda-me? Mesmo?
Claro. Gosto de si como adjunto. Prometo encontrar-lhe uma ama fabulosa. Vai ficar descansado.
E a Conceição?
Que vá para Faro, para casa da mãe. Ou, se quiser, pode vir cá. Teremos uma conversa, só nós as duas, a sério. Vai ser melhor assim do que com uma papelada absurda e carimbada.







