O Aniceto, que se ofereceu para me levar até à casa dos meus pais, revelou-se tão estrábico que me largou à porta do lar de crianças, ai galinha mal passada!

O António, que se comprometeu a dar-me boleia até à casa dos meus pais, revelou-se de um estrabismo notável. Acabou por me deixar em frente ao lar de crianças, um belo disparate. E pronto, logo aí tudo começou a andar mal.

Só cá pelos quarenta anos consegui sair do buraco em que me meteu aquela ave desmiolada. Consegui construir casa, arranjei uma mulher, comprei um carro em segunda mão, claro. Faltava plantar qualquer coisa e educar alguém. Educar um miúdo, a Joana e eu até conseguíamos; pensar num segundo, nunca equacionámos sequer.

Naquela manhã chuvosa, estava com estes pensamentos enquanto preparava o café. As cuecas de algodão secavam ao sabor do vento, agitadas pela corrente de ar. Curiosamente, tive cuecas de família muito antes de ter uma família. Ironias.

De repente, começou um bater insistente no vidro da varanda. Teriam os miúdos lá do bairro voltado à carga, desta vez a atirarem pedras aos pombos? Havia de vos calhar uma cegonha, malandros. Bateram mais uma vez. E outra. Mas quem é que será, no terceiro andar?

Espreitei por trás da cortina. Na varanda, estava mesmo lá a tal cegonha estrábica das minhas antigas fantasias de infância.

Desaparece, bicho gritei, assustado. O meu pão com manteiga saltou logo de cabeça para baixo.

Perdão, António, desculpa lá a cegonha enfiou o pescoço pela fresta da porta da varanda Eu assumo, estou em falta. Podes bicar, se quiseres. Escolhe a asa direita, é maior.

Vai-te embora tentei empurrar-lhe o pescoço magro para fora. Agarrei-o com as duas mãos.

Ó António, não faças disparate gaguejou a ave ouve o que tenho para dizer.

Agora até falas, é? continuei, determinado Dou-te um nó nesse bico, ó estouvada.

Vim aqui pedir desculpa.

Já vens tarde, ó bico comprido.

De súbito, o intercomunicador tocou. Era a Joana a chegar a casa.

Rua, vai-te embora disse à cegonha, conseguindo empurrá-la para a varanda. E desaparece entretanto.

Instintivamente, corri para a porta de entrada.

Desculpa mesmo, António implorou ainda a cegonha por uma fresta, desculpa lá. Está tudo corrigido.

A Joana entrou em casa, ensopada mas radiante. O cabelo colado às faces, olhos a brilhar. Terá ela visto a cegonha também?

Antes que pudesse dizer alguma coisa, largou o chapéu-de-chuva para um canto e lançou-se-me ao pescoço:

Quatro! Quatro! gritou, à beira de explodir.

Quatro o quê? perguntei, sem perceber.

Vamos ter quadrigémeos! continuava Joana, exultante Quatro bebés, António!

Foi aí que associei as desculpas da cegonha à nossa quadrigemia. Disparei para a varanda. A cegonha estrábica já alçava voo. Tentei ainda apanhar-lhe a cauda.

Não consegui.

Pára, seu bicho! berrei-lhe Espera aí, ó bico de palmo!

Já está resolvido! ouvi lá do alto.

Voltei-me. Atrás de mim estava a Joana. Chorava de alegria.

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O Aniceto, que se ofereceu para me levar até à casa dos meus pais, revelou-se tão estrábico que me largou à porta do lar de crianças, ai galinha mal passada!
Todos os dias, a minha filha chegava da escola a dizer: “Há uma criança na casa da professora que é igualzinha a mim.” Discretamente, decidi investigar—e acabei por descobrir uma verdade cruel ligada à família do meu marido