O Ingrato Graciano

O INGRATO DO GRACIANO

De manhã, o marido telefonou para Beatriz diretamente para o escritório e avisou que, logo depois do trabalho, ia passar pela casa dos Vasconcelos celebrar o seu dia profissional.
Se quiseres, aparece, acrescentou com aquele tom indiferente, certo de que ela não ia mesmo. Estaria mas era com um livro ou a perder horas no computador.
Está bem, respondeu ela com a mesma falta de cor, mas logo à hora do almoço rumou ao centro comercial atrás de um presente para o marido. O departamento de perfumaria parecia o Metro em hora de ponta, cheio de mulheres de saco e carteira em punho.

A Beatriz saltaram-lhe logo aos olhos um frasco de colónia caro na caixinha preta brilhante, um galã de atitude descontraída, casaco aos ombros e um meio sorriso de quem já sabe ao que vem. Era o retrato fiel do seu Graciano.

A funcionária despachava prendas à velocidade da luz, embrulhava-as em papel metalizado de cores garridas, colava os laços. Eis que se aproxima uma velhota bem disposta:
Ai meninas, vocês andam aí a dar colónias aos maridos, mas quem lhes há de cheirar é outra gente, e os vossos laços é que ficam a ver navios
As meninas desataram a rir. Mas a Beatriz ficou a remoer: a vida toda a dar tudo ao Graciano, e ele sempre bem-disposto para os outros. No tempo de namoro, era uma paixão cega; ele, o rei da simpatia, deixava, com um ar tolerante, que ela corresse por ele. Entrou para o curso à noite e foi ela, noite fora, a fazer-lhe os trabalhos. Vieram os filhos, ela tomou conta de tudo.

No começo, sentiu-lhe a gratidão. Depois, ele afeiçoou-se tanto ao conforto que já via tudo como obrigação dela. Para os outros, parecia a família perfeita: conta bancária equilibrada, paz e sossego, filhos educados e inteligentes. Só que os miúdos cresceram, estudaram e foram-se embora. Beatriz ficou com o marido. E foi então que percebeu que lhe faltava qualquer coisa.

Recordou o sermão da mãe, há vinte anos, quando lhe tentou abrir os olhos: Olha bem, filha, que ele é tão bonito e sabe disso. E adora-se ao espelho. Homem bonito é para toda a gente, não é só para ti. Todas a espreitá-lo, e no fim ficas tu com os direitos mas pouco proveito.
Primeiro ponto: mulher não amada. Segundo ponto: está nos 43 Terceiro ponto: quem é que lhe pega agora?

Beatriz foi até à janela. O sol já ia em modo primavera, a derreter gelados e paciência. Daqui a nada, o Dia da Mulher, pensou, sem grande entusiasmo. Mais um, sozinha Já vivi quase tudo. E agora, o quê?

Do lado de fora, chilreio de pardais, depois insistência no vidro. Beatriz olhou: um pardal despenteado desfilava pela beira da janela e piscava-lhe o olho redondinho.
Isto é um sinal!, concluiu, com aquele tipo de convicção que aparece quando não sabemos o que fazer. Como por magia, o relógio da sala deu horas, ecoando as suas ideias.

Há tempo ainda há tempo. Primeiro ponto: se ninguém nos ama, tratamos de nos amar nós mesmas Bateu a porta e fugiu escadas abaixo: cabeleireira primeiro, depois loja de roupa

Eram seis e meia quando o espelho quase pediu autógrafo: uma mulher misteriosa, ligeiramente balouçante, sentada na cadeira do computador. Vestidinho preto básico, corte de cabelo novo e moderno com madeixas de três cores, olhos profundos bem desenhados (sombra, lápis, tudo no sítio), lábios carnudos, traço de batom e brilho coisa fina.

E eis o segundo ponto: aos 40, a vida recomeça!

Foi à cozinha, regressou com um copo de vinho, brindou-se ao espelho: Terceiro ponto para que nos serve um marido que não sabe apreciar tal mulher?

Preciso dizer que entrou em casa dos Vasconcelos a desfilar nos saltos finos? O ambiente parou, alguns homens vieram apressar-se a ajudá-la a tirar o casaco, dar-lhe um lugar, quem sabe, até uma maçã.
Ai, o meu marido está cá? Nem dei por ele, veja lá!

O adversário ficou desconcertado com a chegada súbita, baralhado na estratégia, arrasado com os sorrisos de admiração geral.

Na manhã seguinte, armado em vencedor, quis contra-atacar:
Então, não vamos tomar o pequeno-almoço?
Mas enganou-se nos tempos ou não acordou de todo, porque já ali não estava a mesma a da rotina de pão com manteiga e despacha-te.

Ao lado ressonava, serena, uma mulher caprichosa, segura, feita gata borralheira com upgrade.
Sem virar os cabelos tricolores, ronronou:
Já fizeste tu o pequeno-almoço, querido?

Esticou-se, a entrar de novo no sono, e pensou para os seus botões:
Pois é, querido ou então saltamos já para o ponto três.

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