– E quero a casa limpa quando eu voltar! Dona Leonor Fernandes saiu a correr para o patamar e bateu a porta com tanta força, que os vidros da entrada do prédio estremeceram, quase se dissolvendo no ar.
Margarida, que descia as escadas nesse instante com passos leves e desatentos, também levou um salto. Depois ficou estática, como quem se esqueceu do próprio corpo. Esperava, no fundo de si, que a vizinha não reparasse nela. Puro engano. Reparou.
– Oh, Margaridinha Bom dia!
Dona Leonor pousou como quem não quer a coisa uma caixa de cartão no chão, desajeitando rapidamente os botões do casaco. Vinha com ar apostado de quem tem pressas que ninguém percebe.
– Bom dia, Dona Leonor sorriu Margarida de canto de boca. Os miúdos pregaram mais alguma?
– Escusado será dizer! A minha paciência já escorregou pelo ralo desabafou a vizinha, às voltas com o último botão.
Foi então que a caixa ao chão tremeu, como se tivesse despertado de sonho profundo.
Margarida quase saltou, embora à distância segura da cena.
Nunca tinha sido medrosa, Margarida. Só que, francamente, nunca lhe ocorreu que algo dentro de uma caixa de multicozedora pudesse viver, bufar, ou se inquietar…
Mas quem estará lá dentro?
Logo ali, a cabeça voou na imaginação e viu uma multicozedora viva, tão birrenta que atirava legumes crus contra as paredes, condenada por mau feitio a ir parar ao ecoponto, exilada do convívio com tachos cordiais.
– Vá, espreita, convidou Dona Leonor, erguendo a caixa para mostrar o insólito lá dentro.
Margarida desceu para o patamar, pecando pela curiosidade, e lançou um olhar oblíquo ao mistério da caixa.
Sabia, claro, que não estavam ali panelas endiabradas nem receio algum precisava de ter. O que viu, no entanto, surpreendeu-a de modo afável.
Do fundo da caixa, dois olhos redondos e brilhantes assestavam na sua direção. Olhos de um pequeno gatinho.
– Ai, que coisa mais linda! exclamou Margarida, numa onda de ternura.
– Ora, não enchas tanto balão resmungou Leonor, tapando a caixa com brusquidão.
– Mas como é que ele lhe veio parar às mãos?
Os meus filhos trouxeram-no, feitos uns tolinhos Bem me arrependo de lhes ter deixado ficar com o bicho. Dá cá uma trabalheira, a sério! Também eu me rendi àquela carinha laroca, mas não se diz já: Nem tudo o que luz é ouro? Tão mimoso no exterior, mas de feitio igualzinho ao meu antigo marido!
– Deixe lá, Dona Leonor, daqui a nada acalma-se e tudo passa tentou Margarida animar a vizinha. Vai levá-lo ao veterinário? Fazer as vacinas?
– Estás doida? Vacinas? Veterinário? Margaridinha, já nem o posso ver à frente suspirou. Vou despachá-lo para a casa da aldeia lida-se melhor por lá.
Margarida arregalou os olhos, tinha esperança que fosse apenas uma piada.
Mas nas sobrancelhas franzidas e no olhar severo de Dona Leonor, percebeu rapidamente que não havia ali ponta de brincadeira nem era 1 de abril, estávamos no dia 15 de novembro.
– Um gatinho, sozinho, na aldeia? Agora, quase inverno?
– E queres esperar pela Primavera? Qual é a diferença? Se fosse Janeiro ia na mesma. Isto não é um gato, é um problema.
Dona Leonor, exausta de emoção, ficou sem ar, mas logo o recuperou para seguir:
– Vias tu o que esta criatura faz! Não tomei tantos calmantes nem quando fiquei sozinha a criar dois miúdos! Portanto, ficou decidido vai para a aldeia e ponto final!
– Mas olhe que
– Deixar no quintal também era uma hipótese. Foi lá que o encontraram. Só que depois os meus filhos metem-no em casa outra vez, escondem-no no armário, e ainda me aparece aos pés. Não quero mais alegrias dessas!
Aproximou-se o instante da fuga. Dona Leonor tira o telemóvel do bolso, vê as horas e abana a cabeça em desespero:
– Temos conversa que nunca mais acaba, Margaridinha! Se me atraso, perco o autocarro não convém nada.
Pegou firme na caixa, deu meia-volta no patamar e desceu as escadas agarrada ao corrimão, como quem foge de si e do mundo todo.
Margarida ficou a olhar para trás, com a alma num transe: como podia alguém deixar um gatinho sozinho, entregue ao destino entre campos e noites frias? Nem um dia aquele pequeno iria resistir.
– Espere, Dona Leonor! gritou depois.
– Que foi agora? Disse-te que tenho pressa!
– Não o leve para a aldeia, por favor. Eu posso arranjar-lhe um lar. Dê-mo a mim.
A vizinha estacou.
…voltou-se devagar, com olhos de faca:
– Bom lar? Queres insinuar que o meu é mau? Fui eu que criei dois filhos com estas mãos!
– Não estou a insinuar nada. Só quero encontrar um sítio bom para o pequeno. Na aldeia não se safa.
– Se quiser viver, vive. Se não, é porque não tinha de cá estar
– Não diga isso
– E eu com isso? É o gato que não se sabe comportar. Não nasceu para viver porta a dentro.
– É apenas um bebé. Vai aprender! respondeu Margarida. Nunca a ouvi dizer que levava os seus filhos para a aldeia, embora passe dias a ralhar com eles
– Meus filhos são meus filhos, não confundas! Olha, queres? Fica com isto.
E pousou a caixa no chão:
– Sempre poupo a viagem e uns euros em gasolina. Quero ver quanto tempo aguentas! riu-se, com acidez, Leonor.
Entrou em casa batendo a porta de novo, e lá dentro irrompeu um grito:
– Mas ainda não começaram a limpar?! Tragam-me já esses telemóveis!
Ao que se passou a seguir, Margarida já não ligou o ouvido. Pegou com jeitinho na caixa, espreitou o interior, e subiu devagar ao seu andar.
Assim, de repente, Margarida tornara-se a nova proprietária de uma caixa de multicozedora e…
…de um gatinho que achou lá dentro.
Nunca lhe passou pela cabeça ter um ocupante felpudo. Menos ainda naquele dia ia só comprar café, que faltara sem aviso, e deu por si bem ali, no limiar do improvável.
A bicharada nunca a fascinou. Não houve nela aquele apego dramático que os donos de cães e gatos contam em poesia.
Mas por mais que sentisse pouco, não podia permitir que Dona Leonor despachasse o miúdo para o abandono rural.
Porque indiferença não é o mesmo que falta de humanidade. Não se podia fazer assim.
E pensava: para quê tal drama, se bastava encontrar quem quisesse o pequeno? Quem não havia de querer um gato tão bonito? Nisso, Margarida tinha certeza.
Era só tirar umas fotos bonitinhas, lançar nos sites e logo uma fila de gente se espaiaria diante da porta para adotar o seu pequeno felpudo.
Fácil, fácil.
*****
Margarida não perdeu tempo. Chegada a casa, fotografou o gato de vários ângulos e partilhou pelos fóruns todos: Dá-se, Procura-se bom lar.
E lá foi ao supermercado comprar o seu café, e claro
…ração de gatinhos (não se podia dar leite e pão, que ele precisava crescer saudável).
Acrescentou à despesa um caixote de areia e o próprio granulado. Custos inesperados, mas como mandar vir mal ao mundo?
Mais tarde ofereço isto a quem ficar com ele, pensava, sorrindo com o coração leve dinheiro bem empregue por uma boa ação nunca dói.
Contou Dona Leonor que o gato se chamava Boliço, mas por esse nome não se virava. Margarida, então, puxou outra ideia da cabeça e ficou-se pela centésima trigésima segunda tentativa:
– Agora és o Gugas! De acordo, meu querido? disse ela.
– Miau! respondeu o bicho, disparando para a entrada num duelo feroz com um par de chinelos igualmente felpudos, de quem Gugas não gostava nem um pouco.
Pois naquele lar só havia lugar para um rei do pêlo.
Margarida sorriu, vendo-o brincar pelo corredor, e decidiu voltar ao trabalho.
Era fotógrafa freelancer, fazia sessões ao gosto do freguês, e adorava a rotina. Além de alegria, o trabalho dava mesmo um excelente rendimento.
Naquele dia, havia urgência em tratar as últimas fotografias tiradas. Ligou o computador, abriu o Photoshop, e começou a retocar o primeiro retrato, com ar sério de quem vai mudar o mundo.
Mas paz era o que não existia.
Gugas, exausto dos chinelos, começou a correr pela casa fora, batendo-se em móveis e paredes a cada curva.
Ruído estrondoso, que não se encaixava nem em sonhos.
– Ei touro, ralhou Margarida, virando-se para ele no cadeirão e abalançando o dedo em advertência.
O pequeno parou ao centro da sala, fitou-a de olhos grandes. Queria jogo? Ouvir lhe o discurso? Não, estava ocupado.
Percebo, entendeste as regras: tens de brincar. Mas lembra-te: estás cá por pouco tempo
– Miau!
– Nem respondas! És meu hóspede. Porta-te bem e deixa-me trabalhar, por favor.
Foi dizer isto que a atirou para o remorso.
Gugas fez olhar sentido (quem sabe em que pensou?), tão triste que Margarida se sentiu miúda diante da sua própria severidade.
A vontade era meter-se debaixo da terra.
Raios, como se pode ralhar com alguém tão pequeno?
– Pronto, brinca, mas caladinho cedeu Margarida.
E Gugas lá foi, disparando caroços por toda a casa: cadeira, armário, estante, nada lhe fazia frente.
Vejo um objetivo e ignoro tudo à volta é mesmo ele, pensava a dona.
Para não enlouquecer, Margarida pôs auriculares, música no PC e retomou os retoques de fotografia.
Minutos depois, Gugas, com velocidade de um Alfa Romeu invisível, disparou debaixo da secretária, acertando em cheio no fio do computador e desligando tudo num segundo. Depois desapareceu, ingénuo.
– Bolas, como é possível? murmurou, encarando o ecrã negro.
Durante meia hora, correu ela e correu o gato. Não apanhou. Mas acertou com o dedo grande no móvel e com o joelho no cadeirão, duas vezes.
Ao ligar tudo, tentava disfarçar a raiva e checava as mensagens nos fóruns das fotos de Gugas.
Ao contrário do esperado, só houve likes, muitos.
Mas nos comentários, sempre o mesmo:
Uau, que querido!, Sortuda, com um gato assim!, É mesmo um doce!.
Mas adotar? Ninguém.
Nem telefonema, nem mensagem, quanto mais fila à porta.
Margarida começou a escrever em todos os posts: levava o gato onde fosse preciso, outro bairro, outra cidade, até à pontinha de Portugal se necessário.
Se calhar o problema é a deslocação agora alguém há de aparecer, pensava.
Entretanto, esgotado, Gugas saltou para o sofá e esticou-se em pose de receba-me tal qual sou, com a barriga ao céu. Ela sentou-se do lado e acariciou-o longamente, até os dois caírem no sono juntos.
E assim passou o dia, sem trabalho nem remorsos.
*****
Depois de uma semana, Margarida entendeu que dar Gugas a uma boa família era muito mais difícil do que parecia. Os likes e comentários continuavam, mas nada mudava. Ninguém chamava. Ninguém piscava o olho.
Três dias depois, Margarida pensou seriamente:
E se ninguém nunca o leva? Fica aqui comigo?
– É só o que me faltava! disse, já a rir-se de si mesma.
Gugas dormia ao lado do teclado, abraçado ao rato, e Margarida há quarenta minutos sem conseguir trabalhar. Mas, ouvindo-a gritar, abriu um olho e miou protestando:
Hora de silêncio, e tu a gritar-me? Tem dó!
Ela suspirou fundo, pegou no telemóvel e reviu os comentários. Era sempre o mesmo: Gugas era maravilhoso, que sorte, etc.
Mas, com cada comentário, a esperança de Margarida vacilava.
Lembrou-se da consulta à psicóloga, há tempos, onde buscou entender o que lhe faltava para ser feliz.
Tinha trabalho de eleição, dinheiro, até casa própria (graças aos pais). Teoricamente, tinha tudo.
Só que ultimamente sentia sempre aquele vazio, um não-sei-quê que não era amor (pois andava solteira por decisão própria).
Concluiu nada depois da consulta, só um copo de água e um comprimido para as dores de cabeça.
A tal falta ficou perdida no fundo, como quem se afunda no mar sem boia.
Perguntou às amigas.
– Sinceramente, acho que estragas-te é de fartura, lançou Filomena, sempre com inveja saudável do emprego e da sorte de Margarida.
– Nem penses, Filomena. Trabalho tanto como tu, ou mais. Fartura de quê?
– Sabes o que te digo? Acho que te falta um bocado de banha para ser mesmo feliz, gracejou Carminho, lambendo a colher de baba de camelo.
– Não entendi
– Não é quem, é quê. Falta-te gordura, pá! Estás tão magra, deve dar dó olhar para ti!
A conversa não serviu de nada. Margarida esqueceu tudo até voltar a ecoar-lhe o pensamento incómoda.
Só me faltava essa Talvez o que me faltava Fosse o Gugas? Vamos ver
*****
Passara um mês desde que Gugas se tornara, a título provisório, parte da casa de Margarida. Ou melhor: voou um mês como um pequeno relâmpago laranja.
Ninguém o veio buscar. Surpreendida, Margarida questionava: como é possível que dos mil duzentos e vinte e oito que gostaram das fotos, nenhum quisesse o gato?
Agora, trinta dias depois, Margarida entendia.
Muita coisa mudou. Demasiadas coisas para um só conto. Mas resumindo: Gugas era esperto como poucos.
Percebendo a dona num abrir e fechar de olhos, mesmo quando ela tentava, pela décima vez num só dia, impedir que ele destruísse o sofá.
Enveredou ainda por outras profissões, como design de interiores: foi graças a ele que Margarida trocou sucessivamente várias cortinas. No fim, percebeu que a casa ficava melhor sem elas.
Tentou, também, astronauta de fogão explorou todos os ingredientes, de pepino a grão-de-bico e batata cozida, para os rejeitar logo em seguida.
Sabia, claro, que comia melhor da latinha da dona.
E então, resignou-se ao melhor ofício de todos os gatos, o de dar alegria.
Margarida elegeu que felicidades se medem em pequenas tréguas: dormir inteira uma noite, ou completar a edição das sessões de fotos pendentes.
Mas com Gugas, dormir era só mesmo um sonho. Com ele, dentro de casa, parecia que o mundo dizia: “Estás demasiado tranquila, Margarida. Faz-te à vida!”. E lá vinha Gugas, mesmo do nada, pedir jogos, lançar caos, pedir companhia.
Agora entendia bem Dona Leonor, embora nunca aceitasse levar um gato para a aldeia. Nem pensar.
E havia pequenas vitórias: Margarida já mal pensava no vazio de antes. Agora, até limpava a casa a seu modo: rápida, eficiente, antes do despertar do título fofo.
E tantas emoções novas! Como toda mãe, Margarida quase chorava de alegria ao ver Gugas, enfim, usar sozinho o caixote de areia até aí ela transportava-o de noite, de madrugada. O progresso é uma bênção; a solidão de uma noite ganha segundos de setenta minutos por cada avanço felino.
Havia, também, particularidades: o bicho amava brincar com o candeeiro, durante a noite. Liga e desliga, liga, desliga. Até que Margarida guardou tudo, junto das velhas cortinas.
Acabou por se habituar; aprende-se a adaptar.
Mais: um mês de convivência e Margarida descobriu uma verdade surpreendente.
Era ela, afinal, a hóspede. Passava os dias no trabalho, deixava o lar nas patas de Gugas, e era ele quem a recebia à noite ou a despedia de manhã. O verdadeiro dono da casa!
E percebeu, por fim, que não precisava de ninguém para o pequeno: ela era as mãos boas, capaz de aceitar todas as diabruras!
Disposta a brincar à meia-noite, a correr atrás da bola de papel e a ceder espaço na cama, mesmo não sobrando lugar para as pernas.
Sim, Margarida estava pronta, e não se arrependia. Porque o amava. Porque era impossível não o amar.
E Gugas também a amava
Agora, já não a despertava cedo deixava-a dormir, deitado junto dela, paciente. Apenas observava em silêncio, como quem diz:
Por quanto mais vais dormir, dona? Estou com saudades….






