Calhou-me a Feia

Hoje, ao escrever no meu diário, revivo os momentos dramáticos que mudaram tudo. Um clarão intenso um estrondo poderoso escuridão absoluta

A escuridão começou a desaparecer lentamente. Ouvi uma voz:
Beatriz Oliveira, este é o socorrista, houve uma explosão por lá.

Através da dor, senti o toque de uma mão no meu pescoço. Tentei abrir os olhos, mas foi com grande esforço. Diante dos meus olhos vi um pingente retangular com signos do zodíaco gravados O olhar da mulher de bata branca
Para a sala de operações! soou uma voz bem perto.

Os meus pais voltaram do trabalho. A minha mãe correu para a cozinha, mas o meu pai entrou no quarto e notou logo o meu estado de espírito.
António, o que é que se passa? perguntou, passando-me a mão pelo cabelo.
Nada, murmurei eu, que era aluno do quarto ano.
Vamos lá, conta!
O Dia da Mulher aproxima-se. A professora deteve-nos hoje e disse que tínhamos de preparar presentes para as raparigas.
E qual é o problema? sorriu ele.
Temos o mesmo número de rapazes e raparigas. Ela decidiu quem dá a quem. A mim calhou a Beatriz, que eu considerava não bonita.
Todas as raparigas querem um presente no Dia da Mulher, incluindo as menos bonitas, o pai tentava falar comigo como se eu fosse adulto. E como distribuiu? Por ordem alfabética?
Não, pelos signos do zodíaco.
Como é isso? o pai não conseguiu evitar sorrir novamente.
Por compatibilidade. Beatriz é Virgem, e o signo que mais combina com Virgem é Touro. E eu sou Touro.
Isso é positivo se combinam! Quando cresceres, talvez te enamores dela.

O pai não aguentou e riu alto. A mãe entrou de imediato:
O que é que se passa aqui?
Maria, vai para a cozinha, o rosto do pai ficou sério. Nós temos uma conversa importante com o nosso filho.

Quando a mãe saiu, perguntei com voz triste:
Pai, e agora o que é que eu faço?
Prepara o presente!
Qual?
Amanhã no trabalho faço eu o presente para a tua escolhida.
Pai, que presente podes fazer? Tu trabalhas na fábrica.
Sim! Mas trabalho na galvanização. Lá produzem todos os tipos de revestimentos para metais.
Pai, não percebi.
Amanhã vais ver por ti mesmo!

No dia seguinte, o pai trouxe um pingente numa corrente que parecia de ouro. Num dos lados estavam gravados os dois signos do zodíaco, Touro e Virgem, e no outro lado, escrito de forma pequena mas bonita:
«À minha colega Beatriz no Dia da Mulher! António».

Como este pingente ficava bonito! E quando a minha mãe o colocou num saquinho de celofane, ficou ainda mais espetacular.

Chegou o dia 7 de Março. A professora não planeava dar aulas. Primeiro, os alunos entregaram-lhe o presente. Ela agradeceu durante muito tempo. Depois anunciou que os rapazes deviam oferecer os presentes às raparigas.

Que barulho! Todos os rapazes correram para as suas “escolhidas”. Eu também me aproximei de Beatriz e disse, como o pai me tinha ensinado:
Beatriz, parabéns pelo Dia da Mulher! Talvez um dia o destino una o Touro e a Virgem.

Depois de pronunciar a frase memorizada, dirigi-me para o meu lugar e, claro, não reparei como o coração desta rapariga, que eu achava não bonita, começou a bater mais forte.

Pouco tempo depois, os pais de Beatriz mudaram-se para outro bairro, e a Beatriz a partir do quinto ano começou a estudar noutra escola.

Abri os olhos. O teto branco da enfermaria hospitalar. Tentei mexer as mãos e as pernas. Apenas a mão esquerda se mexia.
Onde estou? dirigi-me a ninguém em específico.

Ouviu-se um som de passos e um doente apoiado em muletas aproximou-se da minha cama, observou-me com atenção e perguntou:
Já recuperaste os sentidos? Estás no departamento de cirurgia de emergência.
As minhas mãos e pernas estão todas intactas? perguntei em voz baixa.
Parece que sim, tudo no lugar, comunicou ele a boa notícia. Só estás todo enfaixado da cabeça aos pés.
É bom, se está tudo inteiro.

Então aproximou-se a enfermeira e perguntou com preocupação:
– Como te estás a sentir?
– O que foi que me aconteceu! respondi com outra pergunta.
– A tua vida não está em perigo. As mãos e as pernas vão voltar a funcionar. Só vão ficar muitas cicatrizes, entregou-me o telemóvel ligado. A tua mãe pediu para ligares quando acordasses.

– Filho, ouviu-se a voz da mãe através das lágrimas.
– Mãe, está tudo bem, tentei falar o mais animado possível. Disseram que só vão ficar pequenas cicatrizes. Em breve vou ter alta.
– Não me deixaram ficar contigo durante a noite. Filho, vou já para aí.
– Mãe, não te angusties tanto!

Coloquei o telefone ao meu lado, tentei sorrir para a enfermeira:
– Obrigado!
– Bem, não te vão dar alta tão depressa, sorriu em resposta. Vais ficar pelo menos três semanas. Isso é certo!

– O que aconteceu contigo? perguntou o vizinho de cama, quando a enfermeira saiu.
– Eu sou socorrista. Na fábrica os cilindros de oxigénio começaram a explodir, comecei a lembrar-me. Chamaram-nos. Chegámos antes dos bombeiros. O espaço é enorme, lá dentro havia três feridos. Entrámos, os cilindros estavam espalhados, havia fogo em alguns locais. Começámos a retirar os feridos… Eu saí por último… Quando já estava perto da porta, outro cilindro explodiu… Não me lembro de mais nada.
– Sim, apanhaste uma grande.

– António Costa, ouviu-se a voz da enfermeira. Tem um colega do trabalho a visitar-te.
– Olá, António! Como estás?
– As mãos e as pernas estão bem! respondi de forma otimista. Mas só posso dar a mão com a esquerda por enquanto!
– Não te preocupes com isso!
– O que aconteceu depois?
– Nós já estávamos a sair quando explodiu. Voltámos imediatamente, tiraram-te de lá… estavas coberto de sangue… os médicos já estavam presentes…
– Obrigado!
– António, do que é que estás a falar?! de repente o rosto do amigo mostrou um sorriso. Parece que nos querem indicar para medalhas.
– Até lá já terei alta.
– Está bem, vou andando. Agora vão fazer a ronda. A enfermeira disse que não demore.

Não deu para o amigo sair, quando entrou o médico, um homem de cerca de quarenta anos:
– Então, como estás, herói? aproximou-se da cama.
– Normal.
– Se já consegues falar, significa que vais viver. Vamos, deixa-me examinar-te!
– Foi você que me suturou? perguntei.
– Não, foi a Dra. Beatriz Oliveira. Ela vem depois de amanhã.

Passaram dois dias. Já tentava levantar-me. A verdade é que a dor nas pernas ainda era forte, a mão direita estava rasgada. E feridas por todo o corpo, não menos de dez. Duas no rosto, quando explodiu bati contra a porta, menos mal que estendi a mão direita a tempo. Olhei-me ao espelho. O rosto continuava inchado.

Hoje a ronda devia ser feita pelo médico que me suturou durante cinco horas seguidas na sala de operações. Até fiquei um pouco nervoso.

E então ela entrou. Jovem, esbelta, usava óculos, mas eles não a prejudicavam em nada, e a bata branca ficava-lhe muito bem. Eu aos meus vinte e sete anos já tinha sido casado. Mas ao fim de seis meses separamo-nos os caracteres não combinavam, como escreveram no requerimento, mas na realidade à minha ex-mulher não agradava o salário de socorrista.
– Bom dia! disse a médica e dirigiu-se à minha cama.
– Bom dia! Foi você que me suturou?
– Fui eu, sorriu. Há algum problema?
– Deixa-me examinar-te!

E ela inclinou-se sobre mim… Diante dos meus olhos o pingente com os signos do zodíaco, balançando no seu pescoço:
– Beatriz Oliveira!!! exclamei.

Ela observou atentamente o meu rosto inchado.
– Desculpe! disse, sem me ter reconhecido.
– Eu sou Touro, e apontei para o pingente.
– António Costa? os lábios dela tremeram. Ainda te lembras de mim?
– Claro que sim, Beatriz! vendo as lágrimas nos olhos da mulher, coloquei a minha mão boa sobre a dela.
– Desculpa! ela tirou um lenço e secou os olhos. Nunca pensei que nos iríamos encontrar assim.

Não voltou mais à minha enfermaria nesse dia. Mas eu já tinha percebido que o horário dela era igual ao meu: um dia, uma noite e dois dias de folga.

Não queria parecer indefeso diante dela. Durante todo o dia seguinte tentei andar pela enfermaria apoiando-me nas camas, algumas vezes, segurando-me à parede, saí para o corredor.

Noite. O médico do turno da tarde saiu. Chegou o novo turno percebia-se pelas conversas no corredor. Agora a ronda…

De repente, gritos, passos apressados no corredor. Isso acontece quando trazem outro ferido.

Já eram dez horas. Entrou a enfermeira, apagou a luz na enfermaria. Mas não conseguia dormir. Já passava da meia-noite quando se ouviram passos no corredor, calaram-se, e nesse silêncio eu mais senti do que ouvi que alguém chorava no corredor. Levantei-me e saí com cuidado.

Sentada à mesa do serviço, com a cabeça apoiada nos braços, chorava a minha antiga colega de escola. Aproximei-me e coloquei a mão boa no ombro dela:
– O que se passa, Beatriz?

Ela levantou-se e encostou a cabeça ao meu ombro:
– Operei uma mulher, ela foi atropelada por um carro, começou a contar sufocada pelas lágrimas. Fiz tudo o que era possível e impossível… Ela está agora nos cuidados intensivos, mas não vai sobreviver. Tem dois filhos… o marido está com ela na enfermaria agora…
– Acalma-te, Beatriz!
– Já trabalho há três anos como cirurgiã e ainda não me consigo habituar ao facto de as pessoas morrerem.
– Acalma-te, acalma-te! São as nossas profissões. Em cinco anos também vi tantas mortes, mas também salvámos muitas vidas, suspirei pesadamente. Foi por isso que a minha mulher me deixou. Diz que chego a casa diferente e que ganho pouco dinheiro. Mas eu tenho sempre quarenta euros, dá para viver.
– Comigo é a mesma coisa, olhou para o meu rosto. Os rapazes olham para mim como se eu fosse doida. Ainda não casei, vivo com os pais como se fosse menor de idade.
– Não te preocupes, nós temos só vinte e sete anos ainda temos toda a vida pela frente.
– Não, António, já temos vinte e sete anos.

– Dra. Beatriz Oliveira, o pulso dela está a desaparecer, gritou a enfermeira que saiu.
– Desculpa! e Beatriz correu para os cuidados intensivos.

Não consegui dormir nessa noite. De manhã veio a enfermeira, fez-me a injeção como habitual.
– A mulher que operaram esta noite, está viva? perguntei inesperadamente, mesmo para mim.
– Está viva, mas o estado é extremamente grave.

Passaram três semanas. As feridas no meu corpo cicatrizaram. Com a Beatriz víamo-nos quando ela tinha turnos, e cada vez me sentia mais atraído por ela. Mas o departamento de cirurgia de emergência não é o local para falar de coisas muito pessoais.

E durante uma das rondas da manhã, o médico homem comunicou:
– Hoje dou-te alta, sorriu e acrescentou. Quero dizer, do hospital. Vais diretamente à tua clínica, e lá decidem quanto tempo ainda tens de estar de baixa.
– Posso arrumar as coisas!
– Sim, sim! Não te apresses demasiado. Agora preparam-te a alta.

Quando o médico saiu, barbeei-me. Olhando no espelho, notei com satisfação que as duas cicatrizes que restavam não estragavam o rosto, antes acrescentavam masculinidade. Quanto às outras cicatrizes, não vale a pena dar-lhes importância.

Arrumei-me, saí para o corredor. Ao meu encontro, segurando-se à parede, vinha uma doente.
«Ela conseguiu sobreviver!» passou-me pela cabeça um pensamento alegre.

Saiu a enfermeira, entregou-me a alta:
– Adeus, António! Não voltes para cá!

Tinha o meu próprio apartamento de um quarto, mas fui para casa dos pais. Afinal a mãe esperava-me tanto e estava preocupada. Até tirou férias.
– Filho! atirou-se aos meus braços.
– Pronto, mãe! Como vês, estou vivo e de boa saúde.
– Anda, preparei-te comida. Ficaste tão magro.
– Ai, como senti falta da comida caseira!
– Enquanto não te recuperares e não casares, vais viver em casa dos pais. O teu quarto ainda está vazio, e gritou como se eu fosse criança. Vai, lava as mãos!

Até à noite fui ao cabeleireiro. Entrei no meu apartamento. Busquei alguma roupa. A mãe logo começou a arrumá-la.

À noite chegou o pai do trabalho. Sentámo-nos, como antigamente, todos juntos e conversámos até tarde da noite.

Fui deitar-me no meu quarto, onde passei a infância e a juventude, mas não adormeci logo:
«Amanhã preciso de ir à clínica. Depois ao trabalho. E à noite…»

Com o pensamento no serão seguinte adormeci… já muito depois da meia-noite.

No dia seguinte, de manhã fui à clínica. Até ao almoço passei pelos consultórios. Depois do almoço fui ao meu trabalho, exatamente quando era o meu turno.
– Tu, para onde vais? perguntou o pai.
– Pai, lembras-te há muito, muito tempo, quando eu ainda andava no quarto ano. Tu fizeste-me um pingente para presente à colega?
– À Beatriz Oliveira, a que achavas não bonita? Lembro-me.
– Lembras-te, disseste ainda: «Quando cresceres, talvez te apaixones por ela».
– E lembro-me disso também.
– Pai, a Beatriz agora é cirurgiã. Foi ela que me operou. E ainda usa aquele pingente no pescoço.
– Isso sim!
– Pai, as tuas palavras concretizaram-se. Vou ter com ela!

Esta experiência ensinou-me que o destino pode unir pessoas de formas inesperadas e que nunca é tarde para recomeçar com alguém especial. Devemos estar abertos às surpresas da vida e valorizar as oportunidades que nos são dadas.Hoje, ao escrever no meu diário, revivo os momentos dramáticos que mudaram tudo. Um clarão intenso um estrondo poderoso escuridão absoluta

A escuridão começou a desaparecer lentamente. Ouvi uma voz:
Beatriz Oliveira, este é o socorrista, houve uma explosão por lá.

Através da dor, senti o toque de uma mão no meu pescoço. Tentei abrir os olhos, mas foi com grande esforço. Diante dos meus olhos vi um pingente retangular com signos do zodíaco gravados O olhar da mulher de bata branca
Para a sala de operações! soou uma voz bem perto.

Os meus pais voltaram do trabalho. A minha mãe correu para a cozinha, mas o meu pai entrou no quarto e notou logo o meu estado de espírito.
António, o que é que se passa? perguntou, passando-me a mão pelo cabelo.
Nada, murmurei eu, que era aluno do quarto ano.
Vamos lá, conta!
O Dia da Mulher aproxima-se. A professora deteve-nos hoje e disse que tínhamos de preparar presentes para as raparigas.
E qual é o problema? sorriu ele.
Temos o mesmo número de rapazes e raparigas. Ela decidiu quem dá a quem. A mim calhou a Beatriz, que eu considerava não bonita.
Todas as raparigas querem um presente no Dia da Mulher, incluindo as menos bonitas, o pai tentava falar comigo como se eu fosse adulto. E como distribuiu? Por ordem alfabética?
Não, pelos signos do zodíaco.
Como é isso? o pai não conseguiu evitar sorrir novamente.
Por compatibilidade. Beatriz é Virgem, e o signo que mais combina com Virgem é Touro. E eu sou Touro.
Isso é positivo se combinam! Quando cresceres, talvez te enamores dela.

O pai não aguentou e riu alto. A mãe entrou de imediato:
O que é que se passa aqui?
Maria, vai para a cozinha, o rosto do pai ficou sério. Nós temos uma conversa importante com o nosso filho.

Quando a mãe saiu, perguntei com voz triste:
Pai, e agora o que é que eu faço?
Prepara o presente!
Qual?
Amanhã no trabalho faço eu o presente para a tua escolhida.
Pai, que presente podes fazer? Tu trabalhas na fábrica.
Sim! Mas trabalho na galvanização. Lá produzem todos os tipos de revestimentos para metais.
Pai, não percebi.
Amanhã vais ver por ti mesmo!

No dia seguinte, o pai trouxe um pingente numa corrente que parecia de ouro. Num dos lados estavam gravados os dois signos do zodíaco, Touro e Virgem, e no outro lado, escrito de forma pequena mas bonita:
«À minha colega Beatriz no Dia da Mulher! António».

Como este pingente ficava bonito! E quando a minha mãe o colocou num saquinho de celofane, ficou ainda mais espetacular.

Chegou o dia 7 de Março. A professora não planeava dar aulas. Primeiro, os alunos entregaram-lhe o presente. Ela agradeceu durante muito tempo. Depois anunciou que os rapazes deviam oferecer os presentes às raparigas.

Que barulho! Todos os rapazes correram para as suas “escolhidas”. Eu também me aproximei de Beatriz e disse, como o pai me tinha ensinado:
Beatriz, parabéns pelo Dia da Mulher! Talvez um dia o destino una o Touro e a Virgem.

Depois de pronunciar a frase memorizada, dirigi-me para o meu lugar e, claro, não reparei como o coração desta rapariga, que eu achava não bonita, começou a bater mais forte.

Pouco tempo depois, os pais de Beatriz mudaram-se para outro bairro, e a Beatriz a partir do quinto ano começou a estudar noutra escola.

Abri os olhos. O teto branco da enfermaria hospitalar. Tentei mexer as mãos e as pernas. Apenas a mão esquerda se mexia.
Onde estou? dirigi-me a ninguém em específico.

Ouviu-se um som de passos e um doente apoiado em muletas aproximou-se da minha cama, observou-me com atenção e perguntou:
Já recuperaste os sentidos? Estás no departamento de cirurgia de emergência.
As minhas mãos e pernas estão todas intactas? perguntei em voz baixa.
Parece que sim, tudo no lugar, comunicou ele a boa notícia. Só estás todo enfaixado da cabeça aos pés.
É bom, se está tudo inteiro.

Então aproximou-se a enfermeira e perguntou com preocupação:
– Como te estás a sentir?
– O que foi que me aconteceu! respondi com outra pergunta.
– A tua vida não está em perigo. As mãos e as pernas vão voltar a funcionar. Só vão ficar muitas cicatrizes, entregou-me o telemóvel ligado. A tua mãe pediu para ligares quando acordasses.

– Filho, ouviu-se a voz da mãe através das lágrimas.
– Mãe, está tudo bem, tentei falar o mais animado possível. Disseram que só vão ficar pequenas cicatrizes. Em breve vou ter alta.
– Não me deixaram ficar contigo durante a noite. Filho, vou já para aí.
– Mãe, não te angusties tanto!

Coloquei o telefone ao meu lado, tentei sorrir para a enfermeira:
– Obrigado!
– Bem, não te vão dar alta tão depressa, sorriu em resposta. Vais ficar pelo menos três semanas. Isso é certo!

– O que aconteceu contigo? perguntou o vizinho de cama, quando a enfermeira saiu.
– Eu sou socorrista. Na fábrica os cilindros de oxigénio começaram a explodir, comecei a lembrar-me. Chamaram-nos. Chegámos antes dos bombeiros. O espaço é enorme, lá dentro havia três feridos. Entrámos, os cilindros estavam espalhados, havia fogo em alguns locais. Começámos a retirar os feridos… Eu saí por último… Quando já estava perto da porta, outro cilindro explodiu… Não me lembro de mais nada.
– Sim, apanhaste uma grande.

– António Costa, ouviu-se a voz da enfermeira. Tem um colega do trabalho a visitar-te.
– Olá, António! Como estás?
– As mãos e as pernas estão bem! respondi de forma otimista. Mas só posso dar a mão com a esquerda por enquanto!
– Não te preocupes com isso!
– O que aconteceu depois?
– Nós já estávamos a sair quando explodiu. Voltámos imediatamente, tiraram-te de lá… estavas coberto de sangue… os médicos já estavam presentes…
– Obrigado!
– António, do que é que estás a falar?! de repente o rosto do amigo mostrou um sorriso. Parece que nos querem indicar para medalhas.
– Até lá já terei alta.
– Está bem, vou andando. Agora vão fazer a ronda. A enfermeira disse que não demore.

Não deu para o amigo sair, quando entrou o médico, um homem de cerca de quarenta anos:
– Então, como estás, herói? aproximou-se da cama.
– Normal.
– Se já consegues falar, significa que vais viver. Vamos, deixa-me examinar-te!
– Foi você que me suturou? perguntei.
– Não, foi a Dra. Beatriz Oliveira. Ela vem depois de amanhã.

Passaram dois dias. Já tentava levantar-me. A verdade é que a dor nas pernas ainda era forte, a mão direita estava rasgada. E feridas por todo o corpo, não menos de dez. Duas no rosto, quando explodiu bati contra a porta, menos mal que estendi a mão direita a tempo. Olhei-me ao espelho. O rosto continuava inchado.

Hoje a ronda devia ser feita pelo médico que me suturou durante cinco horas seguidas na sala de operações. Até fiquei um pouco nervoso.

E então ela entrou. Jovem, esbelta, usava óculos, mas eles não a prejudicavam em nada, e a bata branca ficava-lhe muito bem. Eu aos meus vinte e sete anos já tinha sido casado. Mas ao fim de seis meses separamo-nos os caracteres não combinavam, como escreveram no requerimento, mas na realidade à minha ex-mulher não agradava o salário de socorrista.
– Bom dia! disse a médica e dirigiu-se à minha cama.
– Bom dia! Foi você que me suturou?
– Fui eu, sorriu. Há algum problema?
– Deixa-me examinar-te!

E ela inclinou-se sobre mim… Diante dos meus olhos o pingente com os signos do zodíaco, balançando no seu pescoço:
– Beatriz Oliveira!!! exclamei.

Ela observou atentamente o meu rosto inchado.
– Desculpe! disse, sem me ter reconhecido.
– Eu sou Touro, e apontei para o pingente.
– António Costa? os lábios dela tremeram. Ainda te lembras de mim?
– Claro que sim, Beatriz! vendo as lágrimas nos olhos da mulher, coloquei a minha mão boa sobre a dela.
– Desculpa! ela tirou um lenço e secou os olhos. Nunca pensei que nos iríamos encontrar assim.

Não voltou mais à minha enfermaria nesse dia. Mas eu já tinha percebido que o horário dela era igual ao meu: um dia, uma noite e dois dias de folga.

Não queria parecer indefeso diante dela. Durante todo o dia seguinte tentei andar pela enfermaria apoiando-me nas camas, algumas vezes, segurando-me à parede, saí para o corredor.

Noite. O médico do turno da tarde saiu. Chegou o novo turno percebia-se pelas conversas no corredor. Agora a ronda…

De repente, gritos, passos apressados no corredor. Isso acontece quando trazem outro ferido.

Já eram dez horas. Entrou a enfermeira, apagou a luz na enfermaria. Mas não conseguia dormir. Já passava da meia-noite quando se ouviram passos no corredor, calaram-se, e nesse silêncio eu mais senti do que ouvi que alguém chorava no corredor. Levantei-me e saí com cuidado.

Sentada à mesa do serviço, com a cabeça apoiada nos braços, chorava a minha antiga colega de escola. Aproximei-me e coloquei a mão boa no ombro dela:
– O que se passa, Beatriz?

Ela levantou-se e encostou a cabeça ao meu ombro:
– Operei uma mulher, ela foi atropelada por um carro, começou a contar sufocada pelas lágrimas. Fiz tudo o que era possível e impossível… Ela está agora nos cuidados intensivos, mas não vai sobreviver. Tem dois filhos… o marido está com ela na enfermaria agora…
– Acalma-te, Beatriz!
– Já trabalho há três anos como cirurgiã e ainda não me consigo habituar ao facto de as pessoas morrerem.
– Acalma-te, acalma-te! São as nossas profissões. Em cinco anos também vi tantas mortes, mas também salvámos muitas vidas, suspirei pesadamente. Foi por isso que a minha mulher me deixou. Diz que chego a casa diferente e que ganho pouco dinheiro. Mas eu tenho sempre quarenta euros, dá para viver.
– Comigo é a mesma coisa, olhou para o meu rosto. Os rapazes olham para mim como se eu fosse doida. Ainda não casei, vivo com os pais como se fosse menor de idade.
– Não te preocupes, nós temos só vinte e sete anos ainda temos toda a vida pela frente.
– Não, António, já temos vinte e sete anos.

– Dra. Beatriz Oliveira, o pulso dela está a desaparecer, gritou a enfermeira que saiu.
– Desculpa! e Beatriz correu para os cuidados intensivos.

Não consegui dormir nessa noite. De manhã veio a enfermeira, fez-me a injeção como habitual.
– A mulher que operaram esta noite, está viva? perguntei inesperadamente, mesmo para mim.
– Está viva, mas o estado é extremamente grave.

Passaram três semanas. As feridas no meu corpo cicatrizaram. Com a Beatriz víamo-nos quando ela tinha turnos, e cada vez me sentia mais atraído por ela. Mas o departamento de cirurgia de emergência não é o local para falar de coisas muito pessoais.

E durante uma das rondas da manhã, o médico homem comunicou:
– Hoje dou-te alta, sorriu e acrescentou. Quero dizer, do hospital. Vais diretamente à tua clínica, e lá decidem quanto tempo ainda tens de estar de baixa.
– Posso arrumar as coisas!
– Sim, sim! Não te apresses demasiado. Agora preparam-te a alta.

Quando o médico saiu, barbeei-me. Olhando no espelho, notei com satisfação que as duas cicatrizes que restavam não estragavam o rosto, antes acrescentavam masculinidade. Quanto às outras cicatrizes, não vale a pena dar-lhes importância.

Arrumei-me, saí para o corredor. Ao meu encontro, segurando-se à parede, vinha uma doente.
«Ela conseguiu sobreviver!» passou-me pela cabeça um pensamento alegre.

Saiu a enfermeira, entregou-me a alta:
– Adeus, António! Não voltes para cá!

Tinha o meu próprio apartamento de um quarto, mas fui para casa dos pais. Afinal a mãe esperava-me tanto e estava preocupada. Até tirou férias.
– Filho! atirou-se aos meus braços.
– Pronto, mãe! Como vês, estou vivo e de boa saúde.
– Anda, preparei-te comida. Ficaste tão magro.
– Ai, como senti falta da comida caseira!
– Enquanto não te recuperares e não casares, vais viver em casa dos pais. O teu quarto ainda está vazio, e gritou como se eu fosse criança. Vai, lava as mãos!

Até à noite fui ao cabeleireiro. Entrei no meu apartamento. Busquei alguma roupa. A mãe logo começou a arrumá-la.

À noite chegou o pai do trabalho. Sentámo-nos, como antigamente, todos juntos e conversámos até tarde da noite.

Fui deitar-me no meu quarto, onde passei a infância e a juventude, mas não adormeci logo:
«Amanhã preciso de ir à clínica. Depois ao trabalho. E à noite…»

Com o pensamento no serão seguinte adormeci… já muito depois da meia-noite.

No dia seguinte, de manhã fui à clínica. Até ao almoço passei pelos consultórios. Depois do almoço fui ao meu trabalho, exatamente quando era o meu turno.
– Tu, para onde vais? perguntou o pai.
– Pai, lembras-te há muito, muito tempo, quando eu ainda andava no quarto ano. Tu fizeste-me um pingente para presente à colega?
– À Beatriz Oliveira, a que achavas não bonita? Lembro-me.
– Lembras-te, disseste ainda: «Quando cresceres, talvez te apaixones por ela».
– E lembro-me disso também.
– Pai, a Beatriz agora é cirurgiã. Foi ela que me operou. E ainda usa aquele pingente no pescoço.
– Isso sim!
– Pai, as tuas palavras concretizaram-se. Vou ter com ela!

Esta experiência ensinou-me que o destino pode unir pessoas de formas inesperadas e que nunca é tarde para recomeçar com alguém especial. Devemos estar abertos às surpresas da vida e valorizar as oportunidades que nos são dadas.

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