— Se soubesses o que a irmãzinha faz em Lisboa, jamais a mencionarías. E ainda por cima não se gabariaEla secretamente prepara poções de cura no sótão da casa dos avós, entregando-as disfarçadamente aos enfermos da cidade.

A minha filha é uma génia! vangloriase Catarina às vizinhas. Passou a sessão inteira com 20 valores! Ainda arranja trabalhos à porta, e não nos cobra um único euro!
Invejote, Catarina! suspira a vizinha. Os meus filhos só sabem pedir dinheiro, não aprendem nada. A Madalena diz que vai casar logo após a faculdade, que o marido vai sustentar a família. E o filho a mulher faz um gesto de desânimo. Já a tua Lurdes é fantástica, já pensa em viver só de inteligência.

Miguel murmura baixinho ao afastarse das fofocas. Quer ir para casa, mas a mãe ainda não fez todas as compras. Se o pai estivesse no trabalho, hoje seria ele o responsável pelas sacolas. Se soubesses o que a irmã faz na capital, nem lhe darias ouvidos, muito menos a elogiarias.

Disseramme alguma coisa? pergunta Catarina, irritada, ao rapaz que resmunga. Ele não aguenta cinco minutos de espera; ainda falta a mãe contar tudo.

Sim, mãe, respondi. Tenho de preparar a apresentação para amanhã e escrever o ensaio. Talvez, outra hora, possas vangloriarte. responde Miguel calmamente.

Que isso, filho! Não deixam as pessoas falar! Muito bem, vamos

Miguel levanta os ombros ao notar o alívio nas vizinhas, que já não parecem tão felizes por terem sido vistas pela mãe carinhosa. Catarina não para de falar da filha, num tom que dá a entender que Lurdes é o ideal a que todos devem aspirar.

Mas só ele conhece a verdade. Sabe, mas calase, para não preocupar a mãe.

A Lurdes Melro mora aqui? lança a mulher de olhar desdenhoso, desorientando Catarina. Dois rapazes atrás dela não ajudam a acalmar a situação.

A minha filha vive na capital. Estuda na universidade responde a mulher, orgulhosa. O que querem dela?

Na universidade? Lurdes? Falam a sério? a intrusa tenta rir. Ela fugiu logo após a primeira sessão. Não passou nenhum exame, mas não é de surpreender: não ia às aulas, só procurava um namorado.

Como ousam difamar a minha filha! Levoos ao tribunal por difamação! grita Catarina, mas o barulho atrás da porta a cala. Convidar a intrusa para dentro seria admitir que tem razão. Ignorála? Que diria? As pessoas ficam indiferentes a saber se é verdade ou boato.

Entrem, impede o próprio filho, interrompendo a hesitação da mãe. Não dêem motivo às fofocas. Mãe, deixaos entrar.

Mas, Miguel!

Deixa.

Miguel parece ter mais de dezesseis anos, mas está sério e ligeiramente nervoso. Conduz os convidados ao salão, indicando o sofá com um gesto. A senhora sorri e prefere a poltrona um pouco mais afastada; os homens permanecem em pé.

Miguel! Como te atreves a convidaros à casa! Não ouves o que disseram sobre Lurdes!

Ouvi. Por isso deixeios entrar responde ele, irritado, ao reprovar da mãe. Enquanto o pai está fora em viagem, cabe a ele assumir o papel de chefe da família e minimizar os danos.

Que

Talvez conheças melhor a irmã provoca a mulher, sarcástica. Sabe onde está?

Em Lisboa, não te enganas. Não mora em nenhum dormitório universitário diz Miguel com um sorriso. Vive num apartamento arrendado que o marido paga. Não sei o endereço, mas o marido tem vinte anos a mais que Lurdes, três filhos já adultos e é extremamente rico.

O marido chamase António?

Posso adivinhar, és a esposa dele? pensa Miguel. Onde se meteu a minha irmã, que não entende nada? Por que a procuram aqui?

Graças a Deus que não. Sou a irmã dele, cansada das artes do meu irmão responde a mulher, com um sorriso frio. António tem uma esposa exemplar, filha do nosso principal parceiro de negócios. Ele fica irritado quando vê outras mulheres por perto e pensa em pedir o divórcio.

Isso não se pode permitir, certo?

Menino inteligente murmura a senhora. Alguma pista de onde está a tua atrevida irmã?

Não sei, mas a amiga dela pode saber. Posso contactara, mas antes quero conhecer os teus planos. Tenho outra irmã, sabes?

Miguel, o que tudo isto significa? Que António? Que apartamento arrendado? O que aconteceu com a minha filha? O rosto de Catarina muda ao ouvir. Miguel corre ao banheiro, onde a mãe guarda os comprimidos.

E se chamarmos uma ambulância? parece que a senhora sente alguma culpa.

Miguel faz o que tem de fazer e liga para a emergência. Enquanto procura os comprimidos, a enfermeira Ana Vítoria promete chegar em cinco minutos, provavelmente nas proximidades.

Miguel Como sabes tudo isto? pergunta Catarina, incrédula. A sua filha, a amante como viver com isso?

Quando Lurdes apareceu pela última vez, o telemóvel quebrou, lembrate? Ela deixou o portátil comigo para falar com a amiga. Não consegui sair da conta. Li as mensagens, fiquei surpreso e perguntei diretamente. Ela não negou nada, só pediu que não contasses a ninguém.

Miguel preocupase sinceramente com a mãe. Ela é muito boa, mas tem o defeito de se gabar constantemente dos filhos e das conquistas deles. Ele também ruborizase quando a mãe espalha a todos os seus diplomas e medalhas.

Mais tarde, enquanto colocam Catarina na cama sob a vigilância dos médicos, Miguel volta ao salão, curioso sobre os planos da mulher para a irmã.

Então, o que pretendem fazer?

Nada de especial. Vou dar dinheiro e apresentar algumas pessoas. Solteiros, o que é essencial. Se for mais inteligente, poderá casar bem.

Está bem, já vejoa suspira Miguel, antecipando uma conversa desconfortável. A amiga de Lurdes era atrevida e danosa. Tivemos de improvisar. Surgiu então o pretexto da sessão encerrada com sucesso. Talvez o irmão queira fazer um presente à irmã? E estando tão longe, só um estafeta pode ajudar.

Aqui está entrega Miguel um papel aos convidados. Espero que cumpram a palavra.

Pode ficar tranquilo.

Ao sair do apartamento, a mulher exclama alto, como se os vizinhos estivessem a ouvir:

Desculpem o alvoroço, mas precisava conversar sem ouvidos curiosos. Espero que não se espalhem rumores ruins. Se necessário, peço desculpa pessoalmente à Lurdes. Mas acredito que aqui vivem pessoas boas que não fofocam.

Os rumores circulam, mas são fracos. Catarina silenciaos imediatamente, pedindo que não se fale mal da filha. Começa a gabarse menos e a sair de casa com menos frequência.

Miguel conversa com o pai e decidem mudarse. Catarina sente vergonha de encarar os vizinhos, pois percebe que os enganou todo esse tempo.

Então, num dia ensolarado, a família mudase para Lisboa, mais perto de Lurdes, como lhe explicou Miguel: É melhor, há bons médicos e a mãe tem estado mal de saúde.

Lurdes não volta mais; casouse bem e esqueceuse da família.

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— Se soubesses o que a irmãzinha faz em Lisboa, jamais a mencionarías. E ainda por cima não se gabariaEla secretamente prepara poções de cura no sótão da casa dos avós, entregando-as disfarçadamente aos enfermos da cidade.
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