– Que tipos de malandros passaram por aqui? Liga a tua família, que venham pôr ordem – exclamou Lília. – Não vou limpar depois deles. Já basta eu ter que lavar a roupa de cama dos teus amigos toda a hora. Eles ainda se instalaram a noite na nossa casa de campo.

Que bichos foram aqui fazer o que? Lurdes gritou, levantando a voz. Liga para a tua família, que venham pôr ordem nesta casa. Não vou limpar depois deles. Já basta eu ter de lavar a roupa de cama depois dos teus amigos. Eles ficaram a dormir na nossa casa de campo.

Olha, a mãe ligou eu disse, enquanto preparávamos o jantar. Eles vão passar o fimdesemana aqui a fazer churrasco com a família.

Que bom por eles respondeu Lurdes. Vão embora, que eu não suporto a sogra.

Mas eles querem ir à nossa casa de campo expliquei. Não têm quinta própria e eu tenho de ir ao mecânico no sábado. Falava como se fosse óbvio. Disse que não podíamos ir ao fimdesemana, por isso a mãe pediu as chaves.

Lurdes não teve escolha senão aceitar, e depois se arrependeu. Quando, no fimdesemana seguinte, eu e ela fomos à casa de campo, ela ficou pasma com o que encontrou. O lugar parecia depois de uma festa.

Frutas colhidas espalhadas, o chão sujo, uma panela velha com sopa às brasas na cozinha, a cortina tirada da janela. Lurdes não conseguia entender o que se tinha passado. O pai do meu lado já tinha sessenta anos.

Ela despejou tudo no meu ouvido.

Que bichos foram aqui? Liga para a tua família, que venham pôr ordem repetiu Lurdes, irritada. Não vou limpar depois deles. Já basta eu ter de lavar a roupa de cama dos teus amigos. Eles ficaram a dormir na nossa casa de campo.

Pensa que estás a exagerar. Metade na máquina, tira e põe a secar.

E na próxima vez faz tudo tu! Estás satisfeito com o estado da nossa casa e do quintal?

Eu não liguei para ninguém. Lurdes calouse, depois reconciliámosnos. Casámos há dois anos, por amor, embora ela às vezes pense que foi precipitada. Ainda não temos filhos.

A vida seguia: trabalho, casa, trabalho, casa. Nos fins desemana íamos passear ou fazíamos excursões com amigos. Tudo mudou quando a mãe de Lurdes casouse de repente e mudouse para outra cidade. A casa de campo ficou a ela.

De repente, toda a família do meu lado começou a adorar a Lurdes. Sempre alguém pedia para ir à casa de campo. Todos sabem que o churrasco tem sabor melhor ao ar livre!

Parentes apareceram como se tivessem nascido do nada: primos, tios, tias, até a avó do meu lado, todos a correr à natureza, ao rio e ao churrasco. E ainda os amigos do Tiago.

Chegavam para ficar a noite. Eu costumava fazer o carvão, mas Lurdes já estava cansada disso, embora não quisesse magoar os laços da família. Era preciso fazer alguma coisa.

Agora, ao aproximarse do fimdesemana, eu esperava com ansiedade. Quando Lurdes e eu casámos, a mãe dela já era idosa. Ela teve um filho tarde na vida e ainda tem uma irmã, Margarida, dez anos mais velha que eu, nascida no interior e que acha que tudo se partilha.

Margarida e a sogra levavam tudo da casa de campo cremes, champôs, esponjas e até as pantufas da Lurdes. E outra vez a sogra telefonou pedindo as chaves. Desta vez Margarida quis levar a chef da empresa para um fimdesemana de churrasco.

E, como sempre, não me perguntaram a mim o que eu achava.

Vamos dar as chaves à mãe eu disse. Claro que me lembrava da reação da Lurdes ao último visita da sua família, mas não quis falar sobre isso.

Lurdes percebeu que precisava agir, e eu, neste caso, ficava do lado oposto. Pensou em várias soluções, ligou à mãe e queixouse.

Vou devolverte a chamada respondeu a mãe, curta.

Em menos de vinte minutos, Lurdes telefonou e disse que a irmã e o marido iriam à casa de campo por um tempo. Não te preocupes. A tia Olívia ajudate.

Lurdes ficou atônita. Sempre temeu a tia Olívia; na infância foi levada várias vezes a passar verões na casa da tia, memórias que a marcaram para sempre. Olívia Sabino sabia criar disciplina.

A tia ligou à noite.

Olá, minha sobrinha, faz tempo que não falamos. Como é que devo comportarme? Um pouco de cautela ou algo mais firme? e riu, preparandose para a situação.

Lurdes ficou nervosa. Tu disseste que a casa de campo era tua? perguntou a tia.

Não me lembro, mas todos acreditam que é minha.

Não te preocupes, querida, vamos resolver tudo da melhor forma.

No domingo, a sogra, irritada, ligou para mim. Venderam a casa de campo? Onde está o dinheiro? Por que não nos avisaram?

Descobri que, no sábado, Margarida chegou com a chefe e a sogra com o marido. Já havia um grupo de cinco pessoas a grelhar na horta.

Quem são vocês? gritou eu, surpresa.

E vocês, quem são? respondeu a mulher que se apresentava como dona da casa, em tom autoritário. Sou a proprietária, não conheço vocês. Como entraram aqui? Onde estão as chaves?

A sogra ficou sem saber o que dizer. Margarida tentou explicar que tinham as chaves porque a família as tinha dado. A dona da casa, irritada, olhou para elas e Margarida ficou sem argumentos. Eu permaneci em silêncio.

No fim, levaramas as chaves e pediramas que saíssem, avisandoas de que, se voltassem, haveria consequências.

De longe, ouvi a sogra a gritar ao telefone. Eu não entendia nada, mas nem consegui dizer uma palavra.

Passa o telefone à esposa eu entreguei o aparelho a Lurdes. A casa de campo não é tua! exclamou a sogra, quase que solenemente.

Mas vocês pediram, não? Lurdes tentou manter a calma. Acham que tudo ao redor é de vocês e o nosso também.

Sabes que a Margarida trouxe a chefe para impressionar o patrão? Se a demitirem, será a tua culpa protestou a sogra.

E eu? A tia Olívia vem descansar na sua casa, nem me perguntaram. Podem ficar onde quiserem, mas não me envolvam! rebeliu Lurdes. Vocês já viveram sem esta casa de campo e agora vão viver sem ela.

Depois disso não volto mais, nem a minha família, tremiu o marido.

Foi a primeira grande discussão que tivemos. Eu fiquei magoado. Margarida acabou despedida. Nunca te perdoarei por isso disse eu. A minha família sempre te tratou com carinho e tu nos enganaste.

Lurdes estava convencida de que o despedimento de Margarida tinha outra causa. Percebeu, de repente, que não sentia pena de ninguém. E não era a primeira vez que as coisas se complicavam. O nosso casamento tinha chegado a um beco sem saída.

Mãe, acho que estou a pedir o divórcio ao Tiago.

Decida o que quiser, já és adulta. E onde vais viver? Já entreguei o meu apartamento. Vai ficar com a Olívia.

Obrigada, então. Lurdes ficou surpresa. Acho que vou alugar um apartamento.

Lurdes entrou com o divórcio, alugou um apartamento e saiu de casa. Não volta mais à casa de campo.

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– Que tipos de malandros passaram por aqui? Liga a tua família, que venham pôr ordem – exclamou Lília. – Não vou limpar depois deles. Já basta eu ter que lavar a roupa de cama dos teus amigos toda a hora. Eles ainda se instalaram a noite na nossa casa de campo.
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