28 de março Diário
O que fazes? Já há dez anos que somos casados! Que amante? Estou satisfeita contigo!
Não consegui ficar parada. Sentia o peso da desconfiança como se fosse uma pele que se apertava ao redor do peito. A incerteza corria-me nas veias e, finalmente, reuni coragem para confrontar o marido.
Perguntei-lhe diretamente se havia alguém, mas ele respondeu apenas:
O que fazes? Já há dez anos que somos casados! Que amante? Estou satisfeita contigo!
Parecia que o José falava com franqueza, sem sombra de dúvida nos olhos nem no sorriso. Ainda assim algo me corroía por dentro. Não sou mulher que deixe o destino decidir; precisava de descobrir a verdade, mas não sabia por onde começar.
Depois de ler vários conselhos nos fóruns, decidi primeiro revistar o telemóvel dele. Não encontrei nada de suspeito, apenas conversas vazias com antigas colegas da escola. Não me alarmou. O José nunca tinha colocado senha no aparelho; nada para esconder, ao que parecia. Sem diálogos secretos, sem mensagens ocultas como um anjo na terra.
Por vezes pensava que estava a imaginar tudo, mas toda vez que ele chegava tarde do trabalho sentia um mau pressentimento. A minha amiga sempre me dizia:
São apenas suposições! O José amate e nunca te daria as costas! Só estás a estragar tudo com a tua desconfiança!
Eu não a ouvia. O meu coração dizia outra coisa e recusei-me a aceitar que o marido partilhasse a cama com outra.
Um dia, atrevime a ir à empresa dele para descobrir se ele se distraía com mulheres no escritório. Quando me viu, ficou irritado, como se eu o tivesse envergonhado perante os colegas. Pedi desculpas, mas ele perdoou rapidamente.
Parecia que tudo corria bem em casa: a casa está cheia, os dois filhos crescem, a vida segue. Ainda assim, eu procurava um escape, um ponto de fuga. Como dizem por aqui: Quem procura, sempre acha! só que eu ainda não encontrava o que desejava.
Sentiame como muitas mulheres de trinta e poucos anos que tem medo de ficar sozinhas com dois filhos. Apresentavame calma, mas por dentro tudo bullia. O José não mostrava nenhum sinal: nem perfume estranho, nem mudança de estilo, nada. Ainda assim, algo me dizia que algo não estava bem.
Se não fosse por um acaso, talvez nunca tivesse descoberto a verdade. Será que era tudo inventado? O futuro dirá.
Quando o meu filho mais novo entrou na primeira classe, decidi aprender a conduzir. Inscrevime na escola de condução e, à noite, após o trabalho, frequentava as aulas. Três meses depois fiz o exame e recebi a carta de condução. O José ficou tão orgulhoso que comproume um carro pequeno, mas perfeito para mim. Sou baixa e magra, e o carro me cabe bem, além de ser fácil de estacionar.
Ele não admitiu, mas comprou o carro só para que eu não pedisse ao seu Audi para dar uma volta. Ainda é cedo para ti, dizia ele, precisas de ganhar experiência.
Numa manhã de fim de semana, acordei mais cedo que o habitual e decidi agradar a família com um pastel de bacalhau e frango. Queria fazer o bolo, mas percebi que havia ficado sem farinha. Lá fora estava a geada, a neve cobria o quintal, mas eu já sabia conduzir no inverno. Fui ao carro para ir ao supermercado, mas o motor recusouse a ligar. Voltei para dentro, ainda tudo a dormir, e caminhei silenciosamente para não acordar ninguém.
A pé no frio não era nada agradável, então decidi tomar uma atalho e levar o carro do José sem pedir permissão. Só um passeio de poucos quilómetros, pensei, ele nem vai notar.
Peguei nas chaves, entrei no carro e, enquanto o motor aquecia, limpei os vidros. No portamalas sabia que havia guardanapos, então abrio e, sem querer, deixei cair algo ao chão. Levantei e encontrei um telemóvel que não reconhecia. Não era o telefone do José o seu era bem conhecido. O aparelho era de outra marca, diferente de tudo o que ele costuma usar.
Um pensamento sombrio cruzoume a cabeça: E se o José o tiver apanhado sem querer? Mas a curiosidade venceu. Toquei o botão de energia e o ecrã acendeu. A primeira mensagem era de uma Oksana:
Amor meu, que saudade! Vem depressa, estou à tua espera!
Fiquei boquiaberta. Não havia senha, então continuei a ler a conversa. O carro ainda aquecia, mas eu não conseguia parar de ler. A troca de mensagens era longa, parecia durar uma vida inteira.
Descobri que o José trabalhava até às dez da noite e só chegava a casa às sete da manhã. Nunca me tinha perguntado a que horas terminava. Era quase diário ele passar uma hora com a Oksana antes de regressar, como se nada tivesse acontecido. Ele enviava-lhe palavras carinhosas que eu nunca tinha ouvido.
Nas fotos que apareciam, havia uma mulher mais velha, por volta dos quarenta anos. Pergunteime por que razão ele se sentia atraído por ela.
A raiva explodiu dentro de mim. Quando me preparava a sair do carro, vi o José a entrar pelo portal do apartamento. Eu tinha deixado uma nota dizendo que tinha ido ao supermercado. Ele, provavelmente, aproveitaria para enviar outra mensagem à Oksana.
Lembreime de que ele frequentemente saía à noite para o carro, dizendo que tinha esquecido a carteira ou outra coisa. Quase todas as noites ele desaparecia, mas sempre voltava rapidamente, e eu não suspeitava de nada.
O José viume ao volante e avançou em minha direção.
Quem te deu permissão? Não combinámos isto!
A ira me consumiu ainda mais. Apertei o pedal de marcha à ré, acelerei e o carro arremessouse contra a cerca. O impacto foi brusco, mas senti um alívio estranho. Saí do carro, encarei o marido atordoado e gritei:
Vai para a tua! Vou ver como te vais virar sem casa, sem carro! Largame! Não quero mais te ver!
Lancei as chaves do Audi num monte de lixo e fui para casa. Os meus filhos ainda dormiam; eles não entenderam nada do que se passava. Quando o José tentou entrar, tranquei a porta e não o deixei passar.
Vai para a tua! Esquece este caminho! gritei por todo o corredor.
Ele saiu com as pantufas, de roupão e um casaco, dirigindose à casa da Oksana. Pensavase em confortála, mas não era ali que ele encontraria o que procurava. Quando chegou à porta, Oksana abriua, mas do outro lado ouviuse a voz de outro homem:
Querida, já estás aqui? Estou à tua espera!
Descobri que a Oksana também tinha outro amante nos fins de semana. Ela fechou a porta na cara do José, deixandoo sozinho no corredor.
Sem saber aonde ir, o José acabou por buscar refúgio na casa da mãe, Maria da Conceição, que mora duas ruas adiante. Ao vêlo, ela percebeu imediatamente o que se passava, recebeuo, ofereceu-lhe comida, aqueceuo e ouviu a sua história de traição.
Não te preocupes, meu filho! Quem diria que a tua Lurdes fosse assim! Ainda há festas nas tuas ruas, ainda tens trinta e cinco anos! Ainda encontrarás o teu amor verdadeiro, não duvides! disse ela, consolandoo.
Assim, o José passou a viver na casa da mãe, decidido a recomeçar a vida. Sentiase aliviado por estar livre, embora Lurdes ainda lhe exigisse pensão alimentícia. Só então percebeu que recomeçar não seria fácil, mas ao menos a mãe não o abandonou, e isso lhe dava alguma esperança.
Hoje, ao escrever estas linhas, ainda me pergunto que caminho escolher. Talvez, como dizem por aqui, depois da tempestade vem a bonança. Só o tempo dirá.






