ExEla decidiu, finalmente, fechar o capítulo da antiga relação e seguir em frente.

28 de junho Diário

Não pode ser! Quando avistei a minha exesposa, o João ficou sem fala.
Não não pode ser a Filomena. Não acredito que a Filomena tenha mudado tanto. pensei, parado diante da vitrine do restaurante de luxo no Chiado, tentando observar a mulher sem ser notado.

A loira elegante sentava à janela, concentrada num portátil. Um empregado trouxe-lhe um copo de sumo natural fresco e um pastel de nata decorado com framboesas e morangos.

Como consegue estar tão impecável? E que bracelete da moda tem no pulso deve custar uma fortuna. mordi o lábio inferior e afastei-me, para que ela não percebesse a minha presença.

Conhecíamosnos há seis anos. Eu acabara de concluir a licenciatura e ingressara numa grande empresa de construção civil. A minha carreira subia rapidamente.

Numa feira de equipamentos, conheci a simpática Filomena, que trabalhava num dos estandes.

O que fazes aqui entre estas escavadoras? Que tal um café? sugeri, descontraído.

Conversámos e percebi rapidamente que a Filomena, tímida e cortês, tinha algo de especial.

Esta é a mulher que preciso. Não discute, concorda com tudo. Vai ser a esposa obediente ideal. pensei.

Um bocadinho cheia mas quem impede que vá ao ginásio? E se, depois dos filhos, ficar cansada, então arranjo uma amante. brinquei, entregando-lhe um copo de café.

E o que fazes aqui na feira? perguntei, ao sairmos.

Escrevo contos, sonho em ser roteirista. respondeu Filomena com um sorriso tímido, os grandes olhos azuis a brilhar.

Acabei de terminar o curso de Letras. Ainda a aprender o ofício, mas preciso de pagar o aluguer. respondi.

Na minha cabeça, a Filomena era uma ratacinza que poderia ser moldada: cozinhar, cuidar da casa, criar os filhos, obedecer-me ao pé da letra. Comecei a vanglorizarme.

Peguei um café num quiosque ao lado da rua, senteime num banco e continuei a observar Filomena. Quando saiu, não pude acreditar nos meus olhos. Passos graciosos, um casaco de vison Não imaginava que, em três anos, ela tivesse mudado tanto. Quando entrou num carro desportivo impecável, fiquei sem palavras.

Ela não pode ter mudado assim. Deve ter encontrado um marido rico Não há outra explicação. terminei o café quente num gole rápido, apertando o copo como se fosse um escudo.

Filomena desapareceu naquela direção desconhecida.

Naquela noite, não consegui dormir. Depois da separação, Filomena bloqueoume nas redes. Insisto e crio uma conta nova para bisbilhotar as fotos dela.

Ciúmes, inveja, ódio, fúria Bebi meia garrafa de aguardente e senti o turbilhão de emoções.

Como pôde mudar tanto? Era ninguém, chamariaa de nada. Eu a ajudei sem dinheiro, sem casa, sem aparência De onde vêm essas fotos luxuosas? observavaa em hotéis cincoestrelas, comprando bolsas caras e jóias reluzentes.

Deve ter perdido uns dez quilos Onde vem essas curvas perfeitas? Cirurgias? Ou o ginásio? apertei o telemóvel com raiva.

Na manhã seguinte, recordei um dos diálogos que tivemos.

Isso não faz sentido. Quem vai ler isto? disse, ao ler um conto novo da Filomena.

Cada um tem o seu gosto, João. Tenho já admiradores. respondeu ela, tímida.

Admiradores? sorri, pensando que quem não tem cérebro talvez goste dessas histórias simples.

Filomena, a voz trémula, pediume explicação.

Estamos juntos há um ano, mas não aceitas que eu tenha projetos próprios. Por que desvalorizar o que me é caro? Não critico o teu trabalho; tu passas o dia inteiro a construir casas.

Exatamente. Se ajudasses de verdade, passaria menos tempo no escritório.

Então, isso! levanteime, irritado. A partir de hoje, deixas de escrever contos e passas a ajudarme no trabalho.

Como assim, deixo de escrever? Filomena ficou pálida junto à janela.

É isso, Filomena. Basta de brincar. Se queres salvar o nosso casamento e melhorar a vida, deixa de perder tempo com histórias e começa a fazer o que eu mando.

Mas nos meus contos está a minha alma Não posso simplesmente enterrála. os olhos dela encheramse de lágrimas.

Não me importo. Ninguém mais precisa disso. Por enquanto, és inútil. Quero que trabalhes para mim todos os dias; eu doute uma lista de tarefas.

Não entendo Por que tiras de mim o que é importante? soluçou Filomena, virandose.

Ingrata! Eu sustentote há um ano. Vivo no meu apartamento, doute presentes, levote ao mar. Ou ajudasme, ou vais à falência.

Se não gostas, a porta está ali. lancei, apontando para a saída.

Filomena ficou, secando as lágrimas e desligando o computador. Nunca mais a vi escrever.

Um ano depois, juntei contactos e capital. Vendi parte do apartamento da avó e fundei a minha própria empresa de construção. Filomena trabalhou comigo o dia inteiro: documentos, apresentações, gestão de trabalhadores, organização de reuniões de negócios.

Outro ano passou, construí um loteamento de casas de luxo e ganhei bem. Tudo parecia perfeito, exceto a aparência de Filomena. Sob a pressão constante, ela passou a comer demasiados doces e engordou rapidamente.

Como vou sair com esta porca? É humilhante. Ela já era gordinha antes do casamento, mas agora está tão cheia que dá vontade de vomitar. desabafei a um amigo num bar da Baixa.

É mesmo um espectáculo desagradável respondeu o amigo, vendo a foto no telemóvel.

Então, hora de colocar Filomena no banco dos suplentes bebi uma cerveja e instalei no telemóvel uma aplicação de encontros. Pensei que teria um caso quando a Filomena engravidasse, mas ela virouse num monstro.

Encontrei rapidamente a substituta: a atléticaelegante Óscar, que aceitou ser minha companhia durante um jantar num restaurante chique do Parque das Nações.

Gostas do meu visual? sussurrou Óscar ao pé do ouvido, na suite com vista panorâmica da cidade, que alugara por longos períodos para encontros secretos.

Claro que gosto respondi, acariciando a sua nuca.

Preciso de uns 3000 para cabelo, manicure, cosmetologia, ginásio listoua, mas eu só admirava a sua beleza, já sabia que podia alcançar o próximo nível de sucesso.

Em pouco tempo, Óscar substituiu Filomena na minha vida e nos meus pensamentos. Quase não voltava ao lar onde Filomena me esperava todas as noites.

Fiz macarrão ao pesto para ti, como gostas cumprimentoua Filomena ao regressar da viagem com Óscar. Como correu a reunião?

Normal. resmunguei.

Não quero comer. fezele, franzindo a cara.

Melhor focar no trabalho. Como vão as contas? Perguntei. Filomena, agora só funcionária, era ainda mais exigente comigo, embora não recebesse salário.

Depois de um mês, a presença de Filomena no escritório me repugnava. O negócio começou a falhar; contratos caíam, parceiros iam embora. Culpeia por tudo e, num escândalo, termineia. Não lhe dei nada na partilha; ela saiu de casa num dia.

Três anos depois

Ao analisar a localização das fotos, percebi que vivia na zona de Alvalade, numa mansão de um rico empresário. Eu teria uma reunião com um investidor ali perto. Passaria a dar uma olhada Não me agrada que a ratacinza floresça e vire rosa. tomei outro gole de café.

De repente, chegou mensagem de Óscar, que tinha enviadome para os Emirados.

João, é melhor terminarmos. Conheci outra pessoa. Não há nada pessoal. A amiga minha vai apanhar as minhas coisas.

E ainda por meu dinheiro! Eu paguei a viagem! O que estás a fazer? explodi, escrevendo com mãos trêmulas.

João, estás a agir por impulso. Entendo. Falaremos calmamente quando te acalmares. Agora bloqueiote; drama não faz bem à minha pele. respondeu Óscar num áudio e bloqueoume.

Com o investidor a recusar, o humor em baixa e sem saber porquê, dirigi até ao condomínio de luxo onde Filomena morava. Após horas no carro e um maço de cigarros, esperei o carro dela chegar.

João, o que fazes aqui? perguntou Filomena, confusa, ao abrir o portão depois de eu tocar três vezes.

Vim ver como estás gaguejei.

Vi o medo no rosto dela, mas eu precisava ver a nova vida dela, descobrir detalhes. Acalmei a pressão.

Vim pedir desculpa. Reconheço que agi mal enquanto não estavas aqui Foi feio tudo. procurei palavras.

Feio? riuse Filomena, abanando a cabeça. Proibisteme escrever. Trabalhei dois anos de graça para ti cozinhei, limpei, cuidei da casa. Acreditei em ti, mesmo quando todos diziam que não conseguirias E depois expulsasteme num dia.

Vai, Filomena, desculpate. abraçouse a mim.

Posso entrar? Sintome desconfortável Olhei para o chão e atirei um pequeno pedra ao chão.

Talvez eu te deixe entrar Filomena, no fundo, queria humilharme com o seu sucesso, depois de tanto sofrimento.

Como é que te sustentas? Não há quem te dê? perguntei, invejoso, ao olhar a sala ampla.

Eu mesma comprei tudo. respondeua, dirigindose à cozinha.

Mentiras exclamei, seguindoa.

E então surpreendeste? Ou achas que não mereço realizar os meus sonhos? Filomena pôs um copo de água à minha frente.

Mas como Como mudaste tanto em três anos? Como consegui tanto dinheiro para viver assim? vireio, perplexo.

Voltei aos roteiros. Escrevi dois pilots para produtoras e Não acharam nada. sorriua, ajeitando a franja.

Hoje sou uma das roteiristas mais reconhecidas de Portugal. Séries e filmes baseados nos meus guiones estão nos principais canais. acrescentou modestamente.

Se bem me lembro, vieste pedir perdão. sentouse à minha frente.

Há quem diga que a melhor vingança é triunfar onde o inimigo falhou. Naquele instante, sentime esmagado; a raiva voltou a inundarme. A ruptura com Óscar, a recusa do investidor, o meteórico sucesso da exesposa Precisava descarregar tudo.

Tu eras a ratacinza, feia, sem talento, sem contactos, sem casa Todo o teu sucesso… é graças a mim. Eu que te pus nos trilhos. Metade do teu dinheiro ainda me pertence.

João, isso não parece pedido de desculpas. Filomena sorriu. O único favor que me deste foi mostrar como são sujos os homens.

Não receberás nada; já é hora de partir. levantouse, apontando para a porta.

Não percebeste, rato? Abrame o cofre ou devolveme o dinheiro, ou nunca sairás vivo daqui. perdi o controlo, agarreia pelo cotovelo e arrasteia para a sala.

Soltame, dói! gritou Filomena.

A ratacinza deve ficar sempre cinza. rosnei, empurrandoa ao sofá.

Diz-me onde está o cofre e o dinheiro, ou morrerei aqui. segurei um pedaço de lenha do lareira, avançando.

As mulheres solteiras adotam gatos Filomena esfregouse o cotovelo, fitoume nos olhos e sorriu. Mas eu não sou como as outras.

Se não me deres a parte que quero, matote. rosnei, brandindo a lenha.

Ah, João Não sabes, eu troquei os gatos por cães. sorriua, apontando para os dois grandes dóbermans que estavam a observarnos. Tóxi e Vasco soltavam baba sobre o mármore frio.

Tóxi, Vasco, ladrões! gritei.

Se tivessem visto o meu rosto naquele instante, teriam rido. Perdi a confiança, engoli a saliva, e olhei suplicante para Filomena.

Os dóbermans, famintos, esperavam ser alimentados. Filomena ia darlhes comida quando eu chegasse. Não havia como fugir; a liberdade limitada a meio metro. O próximo plano era um espetáculo de justiça, seguidos por ambulâncias, polícia e inúmeros pontos de sutura.

A casa de Filomena tinha câmaras; acabei preso, com pena suspensa, e nunca mais encontrei o caminho de volta à vida que tinha ao lado dela.

Hoje Filomena está bem. Dizem que casouse com um talentoso realizador e espera um bebé.

Dizem que por trás de toda mulher bemsucedida há um homem que lhe partiu o coração. E que a melhor vingança é provar que se pode viver sem ele Se isso é verdade ou não, cabe a cada um decidir.

Mas uma coisa sei: quando alguém acredita verdadeiramente em si mesmo, tudo se torna possível.

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