Tiago Sousa ficou imóvel, enquanto a cidade ao redor continuava a despachar‐se ao seu ritmo incansável, e eu fixava o rosto de uma mulher que jamais pensei voltar a encontrar não assim, ao menos.
Olívia Martins. O seu primeiro amor. O único, se eu fosse sincero.
A menina que lhe fez subir às torres de água, que dançava descalça nas tempestades, que o beijara sob as gradas depois das aulas e lhe sussurrava sonhos de Paris, de poesia e de um mundo maior que o pequeno vilarejo onde ambos cresceram.
Mas ela desaparecera depois da formatura. Sem bilhete. Sem telefonema. Simplesmente sumiu.
E agora estava ali, nos braços de duas pequenas que tremiam na calçada em frente a uma boutique Chanel da Rua Garrett, como se o mundo a tivesse esquecido.
Ajoelheime.
Bem ali, com o meu sobretudo sob medida e os sapatos italianos, na calçada suja da Avenida da Liberdade.
Olívia sussurrei, ainda mais baixinho.
Ela não ousava cruzar o olhar comigo.
Não queria que me visse assim respondeu, a voz rouca. Quase fogei quando te reconheci.
As duas meninas o fitavam, olhos arregalados, assustados. Uma puxou a manga de Olívia.
Mãe, está frio.
O coração apertouse. Mãe.
Olívia virouse para mim, num tom mais doce do que eu lembrava. São minhas?
Ela acenou com a cabeça. Lia e Inês. Têm três anos.
O ar ficou denso.
Três anos.
Pareciamse com ela, mas havia algo familiar no jeito como Inês apertava os olhos ao sol, tal como eu fazia quando era menino.
O peito batia forte.
São minhas?
Olívia ergueu finalmente o olhar, lágrimas a cintilar. Não sabia como encontrarte. Tentei mas quando descobri quem te tornaste, pensei a voz tremia que não querias isto. A mim. A elas.
Um silêncio mais pesado que qualquer coisa que eu já tivesse conhecido pairou entre nós.
Não sabia quanto tempo ficámos assim.
Então, lentamente, como se a decisão já estivesse tomada no fundo da alma, tirei o sobretudo e o envolvi nos ombros de Olívia. Segurei Lia nos braços com delicadeza e estendia a mão a Inês.
Venham disse firme. Vamos para casa.
Nos dias que se seguiram, a imprensa fervilhava.
O milionário da tecnologia Tiago Sousa visto com mulher e crianças desconhecidas no centro da cidade
Família secreta do magnata recluso?
Do semteto ao ático: a mulher que quebrou o silêncio de Tiago Sousa
Mas a mim nada importava.
Nem os manchetes. Nem os telefonemas preocupados dos membros do conselho de administração. Nem os rumores nas festas da alta sociedade.
Porque Olívia e as meninas dormiam no topo da minha cobertura, aquecidas, seguras, alimentadas.
E eu sentia, finalmente, algo a renascer.
Algumas semanas depois, Olívia estava à janela que ia do chão ao teto, a observar o horizonte.
Não pertenço a este mundo, Tiago disse baixinho. Tu és tu. E eu sou apenas
És a mãe delas interrompi. És a única que me conheceu de verdade. Pertences a este lugar mais que ninguém.
Ela virouse para mim, os olhos úmidos. Tinha medo.
Eu também sussurrei. Mas agora já não.
Ajoelheime não com um anel, ainda não mas com o coração.
Fica. Vamos encontrar uma solução. Juntos.
E Olívia ficou.
Não pelos euros. Nem pelo apartamento, pelos jornais ou pelo luxo.
Mas porque o homem que lhe havia segurado a mão num corredor da escola a encontrou de novo desta vez na rua mais fria, no momento mais difícil da sua vida.
E em vez de virar as costas
Eu voltei para casa.
Para ela.
Para as nossas filhas.
Para a vida que nos estava destinada.






