28 de fevereiro de 2024 Diário
Não consigo deixar de pensar que não há como não amar os filhos, mas a verdade é que, nesses dias de neve na Serra da Estrela, o que sinto é cansaço, raiva e uma impotência que não me abandona. Quando ainda tinha o meu marido, o Joaquim, vivo, e eu estava grávida da quinta, a vizinha do sexto andar, certafeira, certa de que eu já tinha fechado a porta e não me ouvia, dirigiuse ao marido:
É por causa das prestações que nascem crianças que são sempre abandonadas!
Aquilo me fez chorar até perder o fôlego. Sim, consegui conciliar o trabalho enquanto criava quatro crianças; a mãe passava a casa quando podia, depois contratámos uma babá. O emprego era algo que eu amava e não queria largar só porque os miúdos eram pequenos. E quando crescessem, quem eu seria então?
Depois que o Joaquim partiu, o salário pouco suado ainda bastava para cobrir as necessidades dos filhos; guardava a pensão em contas de poupança para que eles tivessem um capital quando partissem para a vida adulta. Porém, ser viúvo de cinco filhos provou ser mais difícil do que eu imaginava.
A neve continuou a cair a noite inteira, e os caminhos, antes estreitos, tornaramse quase indistinguíveis. Deveria ter estacionado o carro num lugar mais seguro, mas tive de arrastar o Tiago e a Lurdes, literalmente a arrasto, até ao jardim de infância e depois fazer o caminho de regresso, que não era nada fácil. Olhava para os meus pés, tentando não tropeçar nas botas cheias de neve, e não reparei num homem que vinha na minha direção. Colidimos; ele manteve o equilíbrio, eu escorreguei nos cristais e caí na neve. Estendeume a mão para me levantar e, no processo, deixou escapar um grande balão vermelho em forma de coração.
Dia de São Valentim de tolice! amaldiçoei em silêncio.
Até às doze da noite ajudei a minha filha do meio, a Inês, a calçar as botas de pele, e escrevi um relatório sobre o feriado para o filho Tiago, enquanto consolava a filha maior, a Vânia, que tinha um enorme espinha no lóbulo da testa e acreditava que o rapaz de que gostava lhe enviaria uma carta de amor no dia seguinte. Enquanto tudo isso acontecia, os irmãos mais novos apanharam os marcadores de tinta e pintaram a cômoda branca da sala, o chão de linóleo e, por fim, um ao outro. A cuidadora matutina, ao ver o caos, chamounos ciganos e sugeriunos comprar acetona para remover a tinta.
Desculpe, não o vi, pediu o homem, ainda ofegante.
Dentro de mim lutavam duas emoções: a ira de não ter sido notado e o desconforto por ter perdido o balão que, seguramente, era destinado a alguém querido. O último sentimento acabou por vencer.
Sou eu a culpada. Que pena o balão, murmurei.
Ele ergueu os olhos ao céu.
Nada. Os pássaros também vão festejar.
A sua esposa deve ficar chateada.
É para a minha filha, sorriu ele. Vou comprar outro.
As lágrimas começaram a brotar dos meus olhos; o homem parecia perplexo, sem saber o que fazer.
Desculpe, foi acidente, soltei entre soluços.
Tudo bem aconteceu algo?
Não costumo lamentarme, raramente falo sobre a vida de viúvo com cinco filhos, mas aquele desconhecido era um alívio inesperado para o meu cansaço.
Ele então disse:
Precisamos apresentar-lhe à minha esposa. Ela está obcecada com o terceiro filho e eu lhe digo: deixaa respirar um pouco, só assim vai ser melhor. Não é que eu ache que ter muitos filhos seja mau ao contrário, eu também quero o terceiro, mas desculpe, estou a dizer coisas sem sentido. Sou um mau consolador.
Calma, balancei a mão. Às vezes olho para eles e penso: devo amálos muito, mas na prática só fico irritado e zangado. Não sei onde está esse amor.
Ele respondeu com firmeza:
O amor está aí, só está enterrado na neve, como este caminho. Pausa. Lembrase que no verão crescem?
O quê?
Amarelos.
Percebi que se referia aos dentedeleão que despontam nos campos após o deshielo. Ainda assim, o vazio não me abandonava.
Ele acompanhoume até ao carro, desejoume um bom dia e eu, ao sentarme, refiz a maquilhagem e parti para o trabalho. No coração, um peso, lembranças de dias em que, nesta data, encontrava sob o espelho pequenas cartas de amor ou flores no banco de trás. O marido já não estava há quatro anos e estas celebrações sempre me traziam saudade. Ainda hoje tinha um encontro marcado, onde o irritante Sr. Sérgio Pacheco iria, por meia hora, falar dos seus resultados com a mesma monotonia de sempre.
No escritório havia um leve rebuliço: não é costume celebrar o Dia de São Valentim, mas em algum canto via flores, as raparigas cochichavam e riam; os homens, como sempre, pareciam tensos acontece quando se tenta adivinhar o que as mulheres esperam de nós. Ao entrar na sala, quase entrei na porta errada, recuei e encontrei um buquê de rosas vermelhas sobre a mesa. Ainda que fosse o meu espaço, aproximeime cautelosamente, observando as flores como se fossem um animal exótico, sem saber se traziam garras ou ronronos.
Acompanhando as rosas, havia um cartão. Segureio com delicadeza:
Nunca teria coragem, mas hoje, se não for hoje Nos teus olhos vejo o universo, o teu sorriso dita o meu humor. Jantamos? L.
Fiquei a imaginar quem, entre os colegas, poderia ter escrito aquilo. O nome L não se ligava a ninguém que eu conhecesse. No canto, anotado, estava o nome de um restaurante e a hora 19:00. Os únicos L que trabalhavam connosco eram o Luís, o Lúcio e o Leandro; nenhum demonstrava interesse. Talvez fosse o Luís, com quem, antes da quinta gravidez, quase me apaixonei. Naquela altura eu tinha acabado de regressar ao trabalho, o marido não estava bem e eu ansiava por emoções e romance. O Luís era novo, simpático, e almoçávamos juntos algumas vezes. Cheguei a sentir borboletas no estômago, mas, ao fazer o teste, percebi que não eram borboletas, era o meu organismo a protestar contra mais uma gravidez inesperada. Quando finalmente engravidei, deixei de lado a paixão; o Joaquim adoeceu e o Luís desapareceu da minha memória.
Passei o dia a ponderar se deveria aceitar aquele convite ou não. Observei o Luís, o Lúcio e o Leandro; nada mudou. Talvez fosse uma piada? Como poderia organizar um jantar quando a mãe já não sai de casa há seis anos, não há dinheiro para babá, e a filha mais velha poderia fugir para um encontro? Decidi que não iria a lado nenhum.
Os irmãos, Egon e Lurdes, entregaramme um coração torto, agora até nas escolas ensinam a fazer cartões de São Valentim. Embaleios nos macacões e carregueios ao carro pela neve, recordando o homem da manhã que trouxe à filha um balão vermelho. Sentiame semelhante a ele, e os olhos encheramse de lágrimas.
No carro, as crianças brigavam sobre qual desenho animado ligar e exigiam paradas para comprar chocolates Kinder, pois hoje é festa. Cansada dos gritos, concilieias, comprei três Kinder para as maiores e, ainda sem forças para cozinhar, agarrava um pacote de bolinhos congelados.
Chegando a casa, esperava uma surpresa: o cheiro de batatas fritas e compota de cereja. A Vânia exclamou que o rapaz que lhe gosta a convidou para sair, portanto não teria mais amigas nem namorado, o que, segundo ela, era até melhor, pois a espinha no lóbulo só aumentava. Decidiuse preparar o jantar. Os filhos do meio limparam as paredes e removeram a tinta da cômoda. Abraceios, percebi que, apesar de tudo, os amava não só quando se comportavam bem, mas sempre. No armário encontrei um vestido preto que há mil anos não vestia, tomei o perfume da filha maior e o brilho labial da média.
Mãe vai a um encontro! exultou Vânia.
Egon chorou; tive de o consolar e prometerlhe que voltaria logo.
No restaurante, cheguei nervoso, sem saber o que esperar. Era estranho ir a um jantar com um desconhecido, mas na verdade era alguém que eu conhecia, embora não soubesse quem. Era como o jogo do Amigo Secreto. Se fosse o Luís, escolheria um presente simples; se fosse o chefe de recursos humanos, talvez uma bicicleta. Mas, quando entrei, vio: o próprio Sr. Sérgio Pacheco, em pessoa, de pé, esticado no balcão, a observar a porta. Ao notarme, corou, mas não desviou o olhar. O coração disparou, a confusão instalouse.
Temia que não viesse, disse ele.
Nunca tínhamos falado por tu, mas percebi que naquele dia estranho podia acontecer qualquer coisa. Respirei fundo e segui a garçonete até à mesa junto à janela. Do teto pendiam corações de diferentes tamanhos, e pensei que talvez fosse a Vânia que deveria estar a sair num encontro, não eu. Queria fugir, inventar um incêndio e dizer que a casa estava a arder.
A conversa não fluía. O Sérgio parecia nervoso, alternava entre falar demais e calarse, fitandome com um olhar triste que me fazia compadecero. Queria escapar, não mastigar berinjela crocante nem cortar um bife suculento. Que algo aconteça! rogome. Os pequenos pintam as paredes, o do meio dá banho ao gato, a amiga da Vânia percebe que a traiu e tenta reconciliarse.
A minha prece foi atendida quando, após a terceira garfada de bife, o telemóvel vibrou. Na ecrã, o nome da Vânia. Assim que atendi:
Mãe, há fogo! soluçou a menina. O Tiago tentou fritar palitos de queijo; o óleo pegou fogo
O sangue subiu ao meu rosto como se fosse estourar.
O que aconteceu? assustouse o Sérgio.
Incêndio exaltei.
Ele, surpreendentemente calmo, puxou um cartão, chamou a garçonete, ligou para os bombeiros e, ao mesmo tempo, orientou as crianças a calçarem os sapatos e correrem para a porta, batendo à porta dos vizinhos e, sobretudo, não tentando salvar os pertences.
Em quinze minutos chegámos a casa; o carro dos bombeiros já esperava no résdochão, os vizinhos juntavamse ao redor das crianças choronas, a fumo saía da janela da cozinha. Nunca mais direi que não os amo, declarei, apertando os filhos contra mim. Serei a melhor mãe que puder ser! O calor dos casacos e chapéus alheios ao meu redor lembravame que o mundo tem gente boa.
Felizmente o fogo foi controlado rapidamente; só a cozinha ficou danificada, o resto da casa cheirava a cinzas. Até a gata da Vânia escapou ilesa.
Não se pode ficar aqui a dormir, concluiu o Sérgio. Vai ser preciso reparar tudo. Que tal ir à minha casa?
Como assim? perguntei, assustado.
Ele olhoume nos olhos e respondeu:
Como quiseres. Podes vir só a visitar, ou ficar para sempre.
As crianças observaramno curiosas, como se nunca tivessem notado a sua presença antes. Egon choramingou novamente, Tiago franziu a testa, Lurdes perguntou se haveria desenhos animados.
Há, prometeu o Sérgio. Também tenho gato e cão. Vamos?
Que cão? indagou Tiago, ainda a levantar as sobrancelhas.
Um bassethound, respondeu o Sérgio, e percebi que Tiago se lembrava do velho cão da família, o Volante.
Vânia, avaliando a situação, disse:
Vou buscar as minhas coisas. Egor, chega de chorar, vamos apanhar os carrinhos.
Olhei para a filha com gratidão; ela piscoume num gesto quase feminino. Como crescem rápido! Tiago nunca verá isso
Tudo bem, afirmei. Passaremos a noite aí, obrigado. Amanhã pensarei no que fazer.
De repente, a filha do meio, Inês, gritou:
Mãe, olha! E, ao olhar para o céu, vi um balão vermelho em forma de coração a flutuar. Sorri e disse:
Até os pássaros celebram.
Sérgio, quase imperceptivelmente, seguroume a mão. O toque era suave e quente, diferente de tudo o que conheço. Não me apressei a deixaro partir, mas percebi que, apesar da dor e do cansaço, há sempre espaço para a gentileza.
**Lição:** Mesmo quando a vida parece um inverno interminável e o coração se sente pesado, o amor que sentimos pelos que dependem de nós nunca desaparece; basta escavar a neve para encontrálo novamente.







