Ele vai te arruinar a vida toda, — a família de Ana a desencorajava a assumir a custódia do irmãoMas, ao ver o irmão encurralado pela crise, Ana decidiu enfrentar a pressão familiar e aceitar a responsabilidade, mesmo sabendo que o sacrifício seria imenso.

Natália, não te precipites, pensa outra vez dizia a tia Lurdes, a tia da prima. E se não conseguires? Olha quem são as crianças agora. Tu ainda és uma menina acabaste de fazer dezenove anos. E o César tem treze. Essa é a idade de encrenca para os rapazes. Se começar a fazer travessuras, o que farás?

Tia Lurdes, não consigo aceitar que o meu irmão fique num lar de crianças. Sei que não será fácil, mas não vou conseguir dormir tranquila se ele estiver lá. Estará saudável? Alimentado? E se o maltratem? respondeu Natália.

Há pouco perderam a mãe. Na casa reuniramse os poucos parentes: as duas irmãs da mãe Elisabete e Irene, o primo com a esposa e a sobrinha de dezasseis anos filha da Irene. Chegaram ainda duas colegas de trabalho da mãe e a sua amiga tia Zélia.

Depois do funeral ficaram só os parentes, a decidir o futuro das crianças. A situação da Natália era simples tinha dezenove anos, acabara de concluir o segundo ano da universidade. Recebia bolsa de estudo, teria de arranjar um bico; seria difícil, mas conseguiria sobreviver.

O problema era o César, de treze anos. Como sempre, ninguém dos parentes podia acolhero.

Vivemos apertados: num apartamento de dois quartos, eu e o meu marido, dois rapazes e a sogra. Onde cabe mais alguém? explicou a tia Lurdes.

Nós íamos mudar, mas o Berto acabou por entrar num desvario havia sido despedido da fábrica na semana passada. Vai ficar um mês, pelo menos. Eu e a filha fechamos a porta a chave à noite. Como é que pode uma criança viver assim? queixouse Irene.

O primo respondeu de forma seca:

Cada um com os seus.

Assim, se a irmã mais velha não conseguisse obter a tutela, o César seria encaminhado directamente para o lar de crianças.

No conselho familiar o César não estava presente. Estava sentado no recreio da rua, num banco, ao lado do seu amigo Márcio. Os rapazes permaneciam calados.

Já discutiram muito? perguntou Márcio.

Já duas horas. A Natinha quer ser a minha tutora, mas as tias a desencorajam. Dizem que sou um rufião e que ela não conseguirá lidar comigo respondeu César.

E tu, o que achas?

Não sei. Mas não quero ir para o lar. Quero ficar em casa, ir à escola e jogar futebol.

As tias, tentando afastar Natália da ideia que consideravam insensata, usaram os últimos argumentos:

Nat, és jovem, deves pensar no teu futuro formar a tua família, ter filhos. O César seria como uma pedra no teu colo que homem se quer com uma menina a carregar esse peso? insistiu Irene. Não hesites, manda o irmão ao lar. Podes visitálo, levarlhe presentes nos feriados. Pensamos no teu bem. O César arruinaria a tua vida.

Ao ver que a neta estava decidida, a tia sugeriu:

Vende o teu carro antigo, compra algo mais modesto para ti e para o César, e com a diferença vais viver enquanto estudas.

Ao cair da noite, todos foram-se embora. Natália chamou o irmão para casa:

Vai, come algo decente, deixaste de ralar o dia todo.

César comeu, e a irmã sentouse à sua frente, como a mãe fazia.

Então, César, vamos conseguir? perguntou ela.

Ele acenou em silêncio, sem desviar o olhar da travessa.

No dia seguinte Natália começou a procurar emprego. Mas o que poderia conseguir após o segundo ano em Economia? Mandou o currículo para vagas de gerente, assistente de contabilidade, mas nada respondeu. Reduziu as expectativas e começou a candidatarse a funções de vendedorconsultor. Compareceu a duas entrevistas; numa delas quase a conseguiu, mas ao saber que queria continuar a estudar à distância, disseramlhe que não cabia:

Precisamos que estejas disponível duas vezes por ano para as sessões de exames, quem vai trabalhar assim?

Natália ficou desanimada. Restou-lhe apenas uma opção: o caixa do supermercado ao lado da sua casa. Uma vizinha que lá trabalhava asseguroulhe que a aceitariam não havia quem a recusasse.

Ao voltar para casa encontrou a sua antiga professora de matemática, a professora Olga Sérgio. Ela agora era a orientadora de turma do César.

Olga sabia da situação familiar e prometeu ajudar na tutela fornecendo todas as declarações necessárias. Ainda lhe deu um conselho:

Dentro de uns dias a secretária da escola sai de licença de maternidade. O cargo não é permanente, mas enquanto a bebé está a ser criada, podes assumiro. O salário é baixo, mas fica perto de casa e o César estará sempre à vista.

Natália conseguiu o trabalho e mudouse para o curso à distância. O salário era realmente pequeno, mas a pensão do César e a ajuda da tutela permitiramlhe viver modestamente, sem chegar à pobreza.

César era um adolescente normal; havia desentendimentos e algumas discussões. O irmão ficava irritado quando Natália se mostrava demasiado protetora, e ela temia não conseguir criálo, temendo que ele se juntasse a maus influenciadores.

No fim viveram bem. Cada um tinha as suas responsabilidades. Natália cozinhava, lavava roupa; César limpava a casa, tirava o lixo, lavava a louça e podia ir ao mercado sem problemas.

Mas a tia Irene tinha razão em parte: Vítor, o namorado de Natália, com quem tinha estado quase um ano, não gostava da carga que ela assumira.

Não percebo por que te ficas com esse peso. Poderias viver tranquila, estudar como todo mundo. Eu não quero ser o herói da história. Da última vez que a nossa turma foi ao fimdesemana num parque, recusastete a ir porque não podias deixar o irmão. Eu fui sozinho. Quando o Léo nos convidou para a casa dele, recusartete outra vez. Isso não me agrada.

Acabaram por terminar. No começo Natália ficou triste, mas depois pensou: «Para que um homem egoísta?»

Sozinha, Natália encontrou a sua força precisamente no irmão mais novo.

César continuou a jogar futebol na escola desportiva. Quando fez catorze anos, o treinador o colocou na equipa principal, e ele passou a participar não só nos treinos, mas também nas partidas oficiais.

Num desses jogos, a equipa enfrentou um clube da vila vizinha. Natália foi à baliza torcer pelo irmão. O jogo correu bem; César marcou um dos três golos da vitória. Nos minutos finais, porém, torceu o tornozelo.

Prestaram-lhe primeiros socorros no posto de saúde do estádio, e o assistente do treinador ofereceulhe a si e a César um transporte até casa.

Não sabia que o César tinha uma mãe tão jovem comentou.

Não é mãe, é irmã corrigiu César.

No dia seguinte, Igor, o assistente do treinador, telefonou a Natália para saber como o irmão estava. Depois ligou outra vez, convidoua para um café e, mais tarde, para um jantar.

Passado um ano, celebraram duas conquistas: o casamento de Natália com Igor e a admissão de César no colégio desportivo de reserva olímpica.

Assim segue a vida, com tristezas e alegrias, e aprendese que o compromisso e o amor familiar podem transformar a adversidade em oportunidade, mostrando que a verdadeira força nasce quando cuidamos uns dos outros.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

5 × 1 =

Ele vai te arruinar a vida toda, — a família de Ana a desencorajava a assumir a custódia do irmãoMas, ao ver o irmão encurralado pela crise, Ana decidiu enfrentar a pressão familiar e aceitar a responsabilidade, mesmo sabendo que o sacrifício seria imenso.
Naše deti sú nevlastní súrodenci