Lembrome como, há muitos anos, vivi quase metade da minha vida só. Não, eu fora casada; porém, o meu marido, António, abandonounos um ano após o enlace. Na altura, acabara de nascer a minha filha, a pequena Lurdes. No fim, o António deixounos a ela e a mim um apartamento de três quartos em Lisboapelo menos assim cumpriu a sua palavra. Não pretendia voltar a casar; e, de resto, eu mesma não era propensa a isso.
Lurdes ia crescendo e precisava de ser sustentada, de aprender a pôr os pés no chão. As despesas eram tantas que eu me sentia afogada em obrigações. Fazia tudo o que podia, mas sentia que a minha menina ainda precisava do ombro de um pai. Não podia suprir essa falta. Por isso, Lurdes acabou por criar uma dependência enorme de todos os rapazes com quem mantinha amizade ou algum relacionamento. Essa necessidade de afeto não agradava a todos. Muitas vezes, eu tinha de acalmar a filha e curar o seu coração despedaçado. Mas, graças a Deus, o tempo trouxe-lhe um marido, o Rui, homem trabalhador e de bom coração. Eu só queria que Lurdes se casasse com ele; ele tratavanos a mim e à minha filha com o respeito que se esperava. Parecia o genro perfeito.
Contudo, nem tudo era um conto de fadas. Seis meses depois da boda, Rui mudou drasticamente. Enquanto eu cuidava da minha mãe, ainda viva, que, como eu, fora mãe cedo e ainda testemunhava a infância da neta, a senhora começou a adoecer gravemente. A enfermidade a consumia a tal ponto que precisei trazêla para casa e cuidar dela 24 horas por dia. Não havia outro lugar aonde a senhora pudesse ficar; então, vivia comigo. Essa situação irritou profundamente o genro. Não sei bem o que lhe causava tanto desagradoeu nunca o forcei a cuidar da minha mãe; ao contrário, todo o fardo recaiu sobre mim. A mãe, apesar da idade, não era excessivamente exigente, e ainda mantinha o juízo. Não compreendia o que lhe desagradava.
Com o passar do tempo, a situação só se agravou. Lurdes acabou por alinharse ao lado de Rui; passaram a evitarme. Antes partilhávamos a mesma mesa, hoje os filhos se recolhem ao quarto e eu fico à porta, a tentar conversar, mas em vão. O silêncio tornouse o seu idioma, e só encontram desculpas para fugir.
Os netos também não me traziam alegria. Diziam que, enquanto não tivessem pressa, viviam só para si. Primeiro insisti, depois desisti; era da conta deles, que resolviam por si. Contudo, Rui começou a comportarse como se fosse o dono da casa. Não levantou sequer o dedo para fazer reparações ou comprar algo necessário ao apartamento; em vez disso, desaparecia frequentemente nos clubes com os amigos. O genro que eu vira no início já não existia mais; só agora revelara a sua verdadeira face.
A cada semana o seu temperamento tornavase mais insuportável. Chegou o Natal e Rui recusouse a celebrálo connosco. Levaram Lurdes para o quarto e festejaram à parte, enquanto a minha mãe e eu esperávamos ao corredor. À meianoite, Lurdes apareceu para nos cumprimentar, mas o marido nem sequer lhe dirigiu a palavra.
No dia seguinte, Rui anunciou: Vendemos a casa da sua mãe e compramos um apartamento à parte. Fiquei sem saber como reagir. Como assim, já viviam comigo há meio ano, às minhas custas? Não era suficiente?
Não, não penso assim respondi, irritada. Ganhem o que for preciso para comprar o vosso próprio lar. Esta é a casa da minha mãe; não vamos vender. É a propriedade dela e ela própria decidirá o que fazer.
Rui ficou ainda mais indignado. Na mesma hora, empacotou as coisas, agarrou Lurdes e partiu para a casa dos pais dele. Foi triste ver a filha partir sem protestar, mas era a vida dela. Se acreditava que assim seria melhor, deixema viver com Rui.
Fiquei a pensar: teria eu agido corretamente? E vocês, que fariam no meu lugar?
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