Oi, amiga, imagine só a cena: a avó Maria Antunes entrou no prédio onde mora a família do filho dela, Sérgio, toda empolgada, com aquele brilho nos olhos que só quem sente uma alegria enorme tem. Ela trouxe um presentinho especial para a netinha, a querida e travessa Benedita. Na mão, uma caixa de meio metro, amarrada com fita de cetim rosa, com um laço grande que balançava.
Maria Antunes não poupou nada: força, tempo, nem dinheiro. Partiu numa missão digna de filme! Viajou até Porto, para o artesão que restaura bonecas antigas. Costurou à mão um vestidinho azul celeste e um dedalinho, fez um capuz fofo, e ainda acrescentou um casaco de feltro, botas de peluche, um cachecol com touca, delicadíssimos rendas e até um corpete, além de um vestidinho de bolinhas. Tudo feito por ela mesma! Essa era a boneca que, quando era pequena uma menina de oito anos de família humilde nos anos 60 lhe deram de aniversário. Era o único brinquedo bonito que tinha. Quantas emoções trouxe para aquela menina então! A avó resolveu dar nova vida àquela lembrança. Porque, convenhamos, as bonecas modernas são sem graça, caras e cheias de carinhas esquisitas. Mas esta…
Uau exclamou a nora Inês, curiosa e onde encontrou esse tesouro?
É a única boneca que eu já tive! respondeu Maria, sem notar a surpresa de Inês. Fui buscar na casa da minha irmã, lá na aldeia, onde ficou guardada no quarto dos pais. Só nasci filhos homens, ninguém podia me ajudar a trazêla. Ela ficou anos num caixote, com a perna partida Eu chorei muito quando a perna quebrou! O tempo mudara tudo Mas olha agora, parece nova, até melhor! O restaurador fez milagre!
Vovó, dá, dá! pulava Benedita, enquanto os adultos examinavam a boneca.
Gostou?
Que linda Que vestidinho! Eu também quero!
Que tal eu costurar um pertinho pra você? Assim ficamos quase iguais?
Ah, mãe, quem é que usa essas roupas tão à moda soviética hoje? cutucou o filho Tiago.
Calma, pai! Eu quero, eu quero! implorou a pequena Carolina, de cinco anos, admirando a boneca.
Vai ficar sua, minha joia, tudo vai ficar! garantiu a avó. Ah, e o nome dela é Benedita.
Biii… protestou a menina, nome feio! Vou chamar ela Lis
Mas, menina! retrucou a avó, isso é nome de cachorro!
Não, ela vai ser a Lis, como na série! deu um pontapé e acariciou o rosto da boneca. Os olhos azuis da recémrenascida Lis brilharam de novo. Viu? Incrível!
A sogra, ao contrário da nora, ficou realmente encantada:
Ah, eu tive quase a mesma quando era pequena! Só que o corpo era de pano, bem mole. Que fofura! Lis, deixa eu segurar um pouquinho
Benedita entregou a boneca relutante à segunda avó, que começou a observar o presente girando nas mãos deles.
Que beleza! continuou a sogra. Vejam esse rubor e esses olhos claros! Que olhar sincero! A roupa está tão bem feita Eu também tive um vestido azul igual quando era menina!
Eu costurava pelos moldes da época, explicou Maria, meio envergonhada.
O quê??? Você mesma?! E tudo o resto? Trabalho incrível! Senhora Maria, que craque! Não sabia que você costurava.
Que coisa mais linda, concordou o sogro, acariciando a própria barba grisalha como se fosse um campo de trigo maduro.
Maria, sem estar acostumada a tantos elogios, abanou a mão e surgiram rubizinhos nas bochechas, quase tão vivos quanto os da Lis.
Os olhos da sogra brilharam de novo, como se fosse a primeira vez. Ela, toda criança de novo, quase fez travessura:
Vamos ver o que essa boneca faz? Então, Lis, meu amor Deus ajuda
A sogra apertou a barriga da boneca e ela respondeu com voz de joguinho infantil: Mamã!
Os pais, Sérgio e Tiago, trocaram olhares irônicos e sorriam, enquanto nas lágrimas de Maria aparecia a nostalgia da infância. A sogra deu um grunhido estranho e a avó ficou com aquele sorriso bobo, como água cristalina. Benedita, a causa da festa, batia palmas e pedia a boneca: Dá aí, vovó!
Espera mais um pouquinho! desviou a sogra, colocando a boneca no chão e cantando: Toca, toca, o bebê caminha Olha! Ela anda!
Mãe, riu Tiago, não acho que isso surpreenda as crianças de hoje
Você sabe tudo! Quando eu era pequena, eu daria a minha vida por uma boneca assim. Era tudo que eu queria Teresa, você é um encanto! concluiu, entregando a boneca à netinha. O melhor presente de hoje foi seu!
Ah, obrigada ruborizouse Maria, caminhando até a mesa. Olhou para Benedita, que vasculhava a roupa da boneca em busca daquele botão. Mamã! Mamã! ecoava sem parar.
Bia, querida, não abre esse botão só pra descobrir como funciona, tá? Também restauramos o botão explicou a avó à nora tudo acabou se desgastando com o tempo.
Inês pensou, com aquela cara de quem sabe que os velhos sempre puxam coisas do baú e ficam babando nas tralhas.
Bia, ouviu a avó? perguntou Maria à filha.
Ah respondeu a menina, meio distraída.
Os adultos continuaram a conversar. Levantaram o primeiro brinde ao aniversariante. Benedita corria à mesa, pegava novos brinquedos e assistia a desenhos ao mesmo tempo. A boneca, já sem roupa, jazia no chão Ao lado, um gatinho subiu e começou a lamber delicadamente os cabelos brancos da boneca. Maria estava sentada à janela, sem notar o que acontecia com a sua Lis. Todo mundo parecia ter esquecido da boneca.
Onde está o neto mais velho, o André? de repente perguntou Maria.
Está a passear com os amigos, respondeu Sérgio. Não curte muito ficar aqui, a juventude tem os próprios rolês.
Já deu parabéns à aniversariante? perguntou a sogra.
Claro! Levanteia pelos orelhinhos cinco vezes, um por cada ano, e depois, ainda chorando, entreguei-lhe lápis de cor e um livro de colorir.
Não dá pra puxar criança pelos orelhinhos! se indignou a sogra.
Mas foi brincadeira, sem querer retrucou a nora, lembrando antigas briguinhas, quando a irmã mais velha me puxava pelos cabelos, você nunca se importava.
O sogro largou a dose, revirou os olhos e, rindo, disse hehe, apoiando a mão no encosto da cadeira da esposa.
Não inventa. Vocês brigaram, não se queriam bem, mas eu sempre tentei separar vocês. Essas mágoas de infância desabafou a sogra a Maria, sempre foram assim, batidas, humilhadas. O pai nunca deu um tapa, eu só bati um pano de prato quando precisava!
Não, a gente levou tapa, eu lembro. A Olga era a querida da família, eu insistiu a nora.
Lembra de coisas boas, não dessas invenções! Quanto já lhe demos, ingrata! reclamou a sogra. E a Olga até apartamento comprou
Começamos a ajudar, sim, pagamos a faculdade, sustentamos até os 22 anos! A Olga estudou, trabalhou desde o segundo semestre, comprou seu apê, a gente só deu aquele empurrão
A nora fez beicinho, ia dizer outra coisa, mas Maria percebeu o ar de pão quente e tentou aliviar o clima:
E eu tinha um papagaio novo, acredita? Saí ontem de manhã pra varanda e ele estava lá na porta do armário dizendo olá, lindona!
Todo mundo riu, menos a nora, que ficou irritada. O sogro achou que fosse o vizinho.
Perguntei a todo mundo que entrou, ninguém sabia! A tia Marta, nossa vizinha do andar de baixo, deume a gaiola velha que tinha o periquito. Chamamos ele de Pêro, vermelhoamarelo, grandão Ele ainda faz o pápá
De repente, o rosto de Maria ficou pálido, como se tivesse visto um fantasma. Todos olharam onde ela apontava.
Ai, que está a fazer, minha joia! exclamou ela, levantando a mesa. Não pode, não pode! Tira logo esses lápis de cor!
Benedita levantou os olhos inocentes. Ela estava sentada no chão, segurando a boneca com a mão esquerda como se fosse um bebé, e na mão direita trazia um marcador vermelho que havia usado para dar mais cor às bochechas da Lis.
Ai, ai! tirou o marcador o pai, Tiago, que estava mais perto. Por que estragaste a boneca? A avó vai chorar, e a Lis também, olha como ficou feia!
Oh, Benedita balançou a sogra, olhando assustada para Maria, que agora parecia num funeral.
A menina chorou, largou a boneca e correu para a mãe. Tiago pegou a boneca, com um semblante de arrependimento.
Vai dar para lavar?
Tenta tu, Tiago, na casa de banho com sabão. Só não molha o cabelo sugeriu a sogra, colocando a mão sobre a mão da avó e apertando com carinho.
Criança mimada, não valoriza nada tudo esses tempos disse Maria, quase chorando. Vou sair um minuto, ajudo o Tiago.
Tiago voltou primeiro, depois Maria, já mais calma. Ela segurou a boneca como se fosse viva. Todos observaram em silêncio enquanto ela levantava o vestidinho azul do chão, sentava no sofá e vestia a boneca novamente. Ainda havia marcas de marcador nas bochechas. Alisou o cabelo e sorriu para a netinha.
Vem cá, Benedita. Quero te contar uma coisa. Vai, vai, não fica com medo, a avó não vai brigar.
A menina, desconfiada, aproximouse. Maria sentouse num joelho, deixando a boneca azul de olhos grandes no outro.
Quando eu era pequena, um pouquinho mais velha que tu, quase não tinha brinquedos nem roupas novas contou. Tinha que pegar o que as irmãs mais velhas usavam, e eu tinha três irmãs. Também tinha um irmão maior, o Kiko, que trabalhava na colmeia e depois foi chamado para o exército. Vivíamos com pouca coisa, a mãe segurava a gente sozinha. Meu pai morreu antes mesmo de eu fazer um aninho. No aniversário, a mãe comprava um pãozinho por seis cêntimos era o que dava. Eu, a caçula, recebia o que sobrava, mas nunca me queixava, entendia a situação A mãe fazia tudo o que podia, eu a ajudava a cuidar das galinhas desde os cinco anos.
Quando o Kiko já estava no segundo ano do serviço militar, as coisas ficaram ainda mais duras. Na primavera, o armazém da aldeia trouxe alguns brinquedos e, entre eles, apareceu uma boneca de beleza incrível! Ninguém comprava, era cara demais. Chamamos ela de Lis.
(pausa) disse Maria, indicando a boneca.
E então?
O Kiko voltou no dia antes do meu aniversário, eu estava completando oito anos. A mãe fez um bolo de cereja e outro de morango, convidou as amigas De repente, chegaram um bando de meninas gritando:
Lis, Lis, teu irmão trouxe a boneca pra ti! Que sorte, Lis! Deixa a gente brincar, por favor!
Fiquei sem acreditar Eu, que nunca tinha tido brinquedo novo, nunca tinha nada Uma boneca? Não podia ser! Elas estavam a pregarme uma partida!
Mas o Kiko chegou, sorrindo, com algo escondido nas costas! Beijoume nas bochechas e disse:
Feliz aniversário! Tenho um presentinho, minha irmãzinha! Que sejas sempre bonita, obediente e querida! É para ti!
E entregoume a caixa com a boneca. Fiquei ali, sem saber se era um sonho. Eu até invejava a mim mesma! Ele disse:
Quando a vi, soube na hora: essa boneca é tua. Tem o mesmo rosto da nossa irmãzinha!
Quantas alegrias trouxe essa boneca! Eu costurava a roupa, alimentavaa, ensinavaa a ler, dormia com ela Um dia um menino quebrou a perna dela na rua. Mesmo assim, fui inseparável dela até os catorze anos. À noite, ela ficava ao meu lado, guardava o sono, cantava cantigas, fazíamos piadas Depois guardeia numa caixa, mas a Lis ficou no meu coração para sempre.
Meu Deus murmurou a sogra, soluçando nos ombros do marido.
Maria olhou surpresa para todos. As lembranças a levaram tão longe que só pensava na boneca e na neta. Todos ficaram emocionados, até a nora, que limpou as lágrimas com um lenço.
Agora, minha querida, essa boneca é tua disse Maria. Restaurada, renovada, como nova. Podes fazer o que quiseres, não me importo. É tua.
Benedita agarrou a boneca, abraçoua forte, balançandose. Depois encostoua na blusa da avó:
Vó, nunca mais vou magoar a Lis, ela será a minha preferida, juro! Ela merece.
Lis? Mas eu pensei que a chamaste de … titubeou Maria.
Não, Lis, Lis respondeu Benedita, beijando a boneca na touca. Que linda és, minha joia!
A família trocou sorrisos.
Então vamos brindar de novo! levantou o sogro, copo cheio à Benedita e à Lis! Aos nossos tesouros!







