Não chores, Salvador! Não te entristeças! Pelo menos o AnoNovo o celebraste em grande estilo!
Ali está a cidade natal. Salvador desceu da plataforma da estação de São Bento, cruzou a praça da estação e encaminhouse à paragem de autocarro. Não avisou a sua esposa que iria chegar naquele dia.
O humor de Salvador estava abatido; acabara de ter uma discussão amarga com a Gonçalina. Ela o reprovaria outra vez, reclamaria, chamariao de egoísta e insensível.
Mas por que insensível? Ele, aliás, tinha-lhe desejado feliz AnoNovo, e ela desligou o telefone. Sentiuse magoado!
Tentou ligar-lhe durante três dias; ela não atendia. Então ele, ferido, deixou de ligar.
E ainda por cima nem sequer se lembrara de cumprimentar os pais e a irmã dela, quanto mais a própria Gonçalina. Ele prometialhe dizer tudo isso assim que cruzasse a soleira.
Não era só a culpa dela; também havia falhas da parte dela, então que responda! Como dizem, a melhor defesa é o ataque.
Salvador animouse e entrou no prédio, quase a marchar, com o espírito de guerreiro.
O apartamento recebeuo em silêncio.
Ei! Quem está vivo aqui? Anjuta, cheguei! bradou Salvador, mas ninguém respondeu.
Olhou para a cozinha a Gonçalina não estava lá; avançou para um quarto vazio; outro igualmente vazio. De repente, tudo lhe pareceu estranho: ao lado da parede faltava o berço infantil, desaparecera o cómodo onde pousava a fralda e o carrinho que os pais de Inês lhe tinham dado.
Correu ao armário: a metade onde geralmente pendia as roupas da esposa estava vazia.
Perdida de juízo? Será que me abandonou? pensou Salvador.
Lembrouse da sogra, mas ninguém atendeu. Então tentou a amiga da Gonçalina, a Carolina. Também silêncio. Por fim, conseguiu contato com Miguel, o marido de Carolina.
Miguel, boa! Dáme o telefone da Carolina, não consigo falar com ela pediu.
A Carolina está com a filha no concelho, celebrámos o AnoNovo ali. Por aqui a rede está caprichosa.
Eu cheguei ontem porque hoje tinha de mudar de turno. Eles ainda estão a descansar respondeu Miguel. Por que precisas da Carolina?
Pensava que ela soubesse onde está a Inês. Vim da casa dos pais dela, mas não há nada nela nem nos objetos que comprámos para a criança explicou Salvador.
Mas a tua esposa ia tornarse mãe em breve! Ficaste tu a viajar nas festas e a deixaste sozinha em casa? exclamou Miguel.
Ela própria não quis ir. Apesar de lhe terem marcado a data de 10 a 11 de janeiro teria sido possível deslocarse.
Parabéns, Salvador, és um boneco riu Miguel.
Porquê? não entendeu Salvador.
Porque provavelmente já és divorciado. Idiota! Liga ao hospital, provavelmente está lá sugeriu Miguel.
Dez dias antes.
Não percebo, Salvador dizia a mãe ao telefone por que deves ficar em casa no feriado? Inês não quer ir, tu vem sozinho. O prazo dela é daqui a duas semanas, ainda dá tempo de voltares.
Ainda mais que quase toda a família vai reunirse: a tia Vera e o tio Sérgio, a Natália com o Vítor, a Olívia com o Paulo. Eu, o pai, a Vânia com o Guilherme.
Vânia reservou quartos num hotel rural na Serra da Estrela, só para nós, por quatro noites, do dia 30 ao 2 de janeiro.
No dia 30, o restaurante O Miradouro terá um banquete com artistas convidados. Eu já paguei por ti, depois devolves. Ficas connosco até ao Natal e no dia 8 vais embora. Chegarás a tempo do prazo da tua esposa.
Inês recusouse a ir:
Salvador, a qualquer momento pode ser que eu dê à luz. Imagina: todos a festejar e, de repente, eu parto. Ainda mais o hotel longe da cidade será que a ambulância chega a tempo?
Não irei a lado nenhum.
A mãe tem razão: as mulheres contam o parto como um feito heroico, mas ainda assim se dão ao luxo de adiar. Ela trouxe-nos ao mundo e nunca ficou em licença, sempre a fazer tudo a tempo.
Salvador percebia que Inês tinha um ponto, mas a ideia de passar a noite de AnoNovo sozinho, à mesa humilde, o entristecia. Enquanto a família cantava, dançava e brindava no restaurante, ele partiu só.
No hotel rural a festa era, de fato, animada. Por volta da uma hora da madrugada, já no AnoNovo, Salvador saiu da sala para o vestíbulo e tentou ligar à Gonçalina, mas ela não atendeu.
Bem, se estás magoado, a culpa é tua. Poderia estar aqui a festejar também pensou, como um eco distante.
No dia seguinte, a mãe desabafou:
Inês nem sequer te ligou para te cumprimentar neste feriado. Vêse que está magoada! Tu deixaste a mulher à deriva, filho.
Não entende o que é família de verdade. Por isso estamos aqui todos juntos e ela sozinha ali. Deixea pensar, quem sabe se acalma.
Inês, naquela noite de AnoNovo, só pensava em Salvador, não nos sogros nem na multidão. Quando soube que a filha estava sozinha nos feriados, os pais chamarama para casa; não planeavam grande jantar.
O irmão de Inês trabalhava na capital, numa fábrica de produção contínua, e não teria folga. Assim, os pais decidiram celebrar o AnoNovo a dois.
No dia 30, às nove da noite, Inês e a mãe preparavam a mesa quando, de repente, Inês sentiu-se mal.
Chamaram a ambulância. A mãe saiu com Inês, o pai seguiua de carro.
Inês acabou o AnoNovo num quarto de hospital, enquanto os pais esperavam no vestíbulo do setor. Inês tornouse mãe
Decidi seguir o conselho do amigo e ligar ao hospital disse Salvador, ainda atordoado.
A Costa? Discharge ontem, respondeu a linha de informação.
Como? Já tem filho? não acreditava Salvador.
Sim, nas primeiras horas de 1.º de janeiro.
E quem a recolheu? perguntou.
Um jovem médico, não anotamos esse detalhe nos registos.
Salvador percebeu que só os pais podiam ter levado Inês e a criança. Comprou um ramo de rosas e dirigiuse até à casa deles.
Bateu à porta; o sogro abriu.
Diga, por favor.
Boa tarde, vim falar com a Gonçalina disse Salvador.
Porquê? perguntou o pai.
Na verdade, sou o marido dela respondeu o nora, com voz trémula.
Inês! gritou o sogro, chamando: Há um homem aqui que diz ser teu marido. Queres conversar?
Não, deixao entrar respondeu Inês, de dentro do apartamento.
O sogro, impaciente, balançou a cabeça:
Não quer. Adeus, jovem! e fechou a porta.
Salvador esperou alguns minutos e tentou outra vez.
Desta vez abriu a sogra, alta, robusta, de voz forte. Salvador sentiuse um pouco intimidado.
Não percebeste nada? perguntou ela.
Deixame entrar, por favor começou corajosamente Salvador. Tenho direito
Antes que terminasse, a sogra arrancoulhe as rosas das mãos e, num gesto brusco, lhe deu vários tapas nas faces.
Sobre o que achas que tens direito, o teu advogado explicará em breve! E não ligues mais; o neto está a dormir disse, lançando o bouquet ao chão e fechando a porta.
Salvador voltou para casa. No caminho, esfregouse o rosto com as mãos as rosas eram belas, mas cheias de espinhos.
Chegando, telefonou à mãe.
Imagina, não me deixaram entrar no apartamento e nem ver o filho.
Não te preocupes, Salvador. A Inês vai voltar, com o bebé nos braços, onde quer que vá. Não a chamem, não lhe enviei dinheiro.
Deixa que os pais a alimentem, se forem tão sábios. Dentro de uma ou duas semanas volta sozinha. Agora vai dormir, amanhã tens trabalho.
Fez exatamente isso: jantou uns pastéis de bacalhau comprados na mercearia e foi para a cama.
Dormiu tranquilo, sem imaginar que seria a última noite naquele apartamento.
No dia seguinte, ao chegar do trabalho, encontrou todas as suas coisas empilhadas em caixas e sacos pretos no corredor.
Lembrouse de tocar a campainha. A sogra, dona do apartamento de dois quartos onde viviam Inês e ele, abriu a porta.
Então, querido genro? Lembraste bem do teu alojamento universitário ou precisas de um lembrete? Arruma as tuas tralhas. Amanhã a limpeza vai recolher tudo o que ficar!
Salvador foi obrigado a mudarse para a residência estudantil.
O tribunal tinha terminado o casamento. Cansado da vida no dormitório, tentou alugar um apartamento, mas ao receber o salário, do qual a contabilidade já deduzira a pensão alimentícia e ainda cinco mil euros para sustentar a exesposa, viu que restava quase nada.
Fazes-me favor de ser mais econômico! Ainda tens de juntar para o teu próprio lar aconselhou Miguel. Não te preocupes, Salvador! Não chores! Pelo menos celebraste o AnoNovo em grande estilo!
Inês passou três anos a viver na casa dos pais, que a ajudavam a cuidar do pequeno Sashko; o apartamento estava a ser alugado nesse meiotempo.
Quando Inês voltou ao trabalho, ela e Sashko mudaramse novamente para o seu próprio lar. Depois da remodelação, já não havia nada que lembrasse Salvador e a sua família.
E tu, o que achas das atitudes do Salvador? Deixa o teu comentário, dá um like.
Amigos, se querem ler mais histórias nossas, comentem abaixo e não se esqueçam dos likes. Isso nos inspira a escrever mais!







