Eu sou a sua netaE trouxe consigo o perfume das flores de Lisboa, lembrando os dias de infância que ainda guardo no coração.

A tua mãe chegou, preparate.
Costumase dizer que toda criança num orfanato aguarda esse chamado com esperança. Mas a Filomena recuou como se fosse uma bofetada.

Vamos, levantate, por que está a ficar aí parada? perguntou Dona Margarida, a educadora, sem entender por que a menina não demonstrava alegria. A vida num orfanato nunca foi doce; muitos jovens fugiam para as ruas. Agora, porém, devolviamlhe a própria casa, e a Filomena não se mostrava satisfeita.

Não quero respondeu, virandose para a janela. A sua amiga Leonor lançou-lhe um olhar, mas nada disse. Também lhe parecia estranho aquele desânimo. Leonor voltaria ao lar com prazer, embora lá ninguém a esperasse.

Filomena, por que isso? insistiu Dona Margarida. A tua mãe está à tua espera.

Não quero vêla. Nem voltar para ela.

As outras meninas ouviam curiosas, e Dona Margarida decidiu que a conversa não era para ouvidos alheios.

Vem comigo.

A cuidadora conduziu a Filomena a um dos escritórios e, com compaixão, disse:

A tua mãe cometeu muitos erros, mas parece estar a tentar mudar. Não foi à toa que lhe permitiram levarte de volta.

Achas que é a primeira vez? bufou Filomena, balançando a cabeça. Já estou duas vezes no orfanato. Na primeira vez que me levaram, a mãe fingiu que ia mudar de vida: escondeu as garrafas, limpou a casa, comprou algumas coisas, arranjou um emprego. Quando a inspeção chegou, tudo parecia bonito. Mas depois devolveume e ela relaxou de novo. Serve só para receber subsídios.

Filomena, eu não posso fazer nada contra isso. E, ainda assim, o lar costuma ser melhor tentou persuadir Dona Margarida.

Melhor? Sabes o que é passar fome? Ou ir à escola com botas rasgadas quando lá fora fazse trinta graus negativos? Ou ficar no teu quarto a rezar para que os bêbados da tua mãe não entrem? Por que não lhe tiram a patria potestade?

Lágrimas subiram aos olhos da menina. No orfanato, ao menos lhe davam comida e roupa; sentiase relativamente segura. Em casa, tudo era diferente.

Não posso ajudarte suspirou a educadora, sentindo verdadeira pena pela Filomena, uma menina esperta e combativa, incomum para o orfanato. Talvez a própria mãe, antes de se afogar em álcool, fosse alguém interessante. Mesmo depois de sete anos ao serviço do orfanato, Dona Margarida nunca tinha encontrado uma criança que não quisesse voltar para casa.

Posso viver sozinha? perguntou Filomena. Eu trabalharia, arranjaria um quarto.

Só quando fores maior de idade balançou a cabeça Dona Margarida.

Já tenho quase dezesseis! Já sou adulta!

A educadora achava que a Filomena já era madura para a idade, mas nada podia fazer.

É preciso que estejas sob a tutela de um adulto responsável. Talvez alguém possa assumir essa tutela e, quem sabe, pedir a retirada da autoridade parental da tua mãe.

Não tenho mais ninguém Quando a avó ainda vivia, as coisas eram toleráveis; agora, é insuportável.

E o teu pai?

Bebeu até a morte.

Falouse como se fosse algo normal; para ela, era a realidade.

Ele tem parentes?

Filomena hesitou.

Parece que ele tinha uma mãe viva, mas nunca a conheci. Não se aproximava do filho. Eu também não o faria.

Então vamos fazer assim avançou Dona Margarida : tenta ficar com a mãe, enquanto eu descubro algo sobre a tua avó. Está bem?

Filomena assentiu. Não lhe restava outra escolha.

A mãe encenou todo um drama, chorando pelos corredores do orfanato, implorando perdão e abraçando a filha. Filomena não reagiu. Sabia que, ao regressar, a mãe voltaria ao antigo comportamento.

E assim aconteceu. No primeiro dia a mãe mantinhase firme; no segundo já chegava da loja carregada de álcool. Tudo voltou ao ponto de partida. A mãe bebia, perdeu o emprego; Filomena voltou a viver num inferno.

Alguns meses depois, um homem embriagado invadiu o quarto durante a noite e, com grande esforço, Filomena expulsouo. Sentiu que já não aguentava mais. Por sorte, Dona Margarida entregoulhe o próprio número de telefone. Filomena ligou e disse que precisava ou ir para as ruas ou regressar ao orfanato.

Encontrei a tua avó anunciou a educadora. Vou tentar falar com ela. Se concordar e as condições permitirem, poderá ficar sob sua tutela.

Filomena implorou para ir com elas. Mesmo sem conhecer a avó, esperava que não a rejeitasse. Preciso esperar uns dois anos até ser livre.

A porta abriuse para uma senhora de sessenta e poucos anos, alta e elegante.

O que desejam? perguntou.

A senhora Antónia Maria? confirmou Dona Margarida.

Sou eu.

És a minha avó exclamou a menina, com um sorriso tímido.

O quê?

Sou filha do teu filho.

Entendo. E como posso ajudar? respondeu Antónia, mantendo a calma.

Podemos conversar? interrompeu Dona Margarida antes que Filomena dissesse algo mais.

Muito bem, mas não por muito tempo. Tenho de prepararme para o trabalho.

Antónia serviu chá. Por momentos, fitava Filomena como se fosse uma estranha. Não lhe dizia nada, porém. Enquanto isso, Dona Margarida descrevia a situação.

Veja, a sua neta corre o risco de ser devolvida ao orfanato, mas a senhora poderia adotála.

Por quê eu? perguntou Antónia.

Porque hesitou a educadora. Ela é a sua neta.

Não a conheço. E, honestamente, não tenho vontade de conhecêla. O meu filho já me trouxe demasiados problemas. Quero esquecer tudo o que ele fez.

Filomena, porém, não deixou a senhora terminar.

Antónia, a senhora não me conhece, eu também não a conheço. E, sinceramente, também não quero saber da sua vida. Não acredito que vá gostar de mim, mas preciso de um lar. Por lei ainda sou menor; não posso ficar sozinha. Só preciso de um teto, de comida e de alguma ajuda para estudar. Não peço nada além de papelada e permissão para viver consigo até ser maior de idade. Concluo o nono ano e depois trabalho. Planejo continuar os estudos quando puder sustentarme. O dinheiro da tutela servirá como um acréscimo à sua pensão; não pretendo nada. Apenas preciso de burocracia resolvida.

Antónia arqueou as sobrancelhas, mas pareceu intrigada.

Dizem que filhos de alcoólatras são frequentemente deficientes, mas não é o caso. Vais viver comigo dois anos e depois irás embora?

Prometo respondeu Filomena.

Está bem. Aceito, mas há regras: não me chames de avó, não mexas nas minhas coisas, não traga amigos ao lar. Entendido?

Perfeitamente.

Dona Margarida tratou dos trâmites, e a mãe de Filomena foi novamente chamada para inspeção. Desta vez, o Ministério da Família apresentou um processo de retirada da autoridade parental. Antónia, após preencher a papelada, tornouse tutora legal da menina.

Filomena, embora ainda tímida, sentiase ao mesmo tempo assustada e aliviada. Restavam-lhe dois meses de escola e nenhum dinheiro. E se a avó não a alimentasse?

Na primeira noite, Antónia convidoua para a mesa. Há muito tempo Filomena não havia provado uma refeição caseira decente. A mãe, na sua casa, raramente cozinhava; a própria Filomena quase não sabia preparar nada, sobretudo quando a despensa está vazia.

No dia seguinte, ao observar os ténues ténis rasgados da menina, Antónia suspirou.

Depois da escola, comprarei calçado e roupa decente para ti.

Não tenho dinheiro recuou Filomena.

Eu pago. Prefiro gastar do que ficar a verte envergonhada.

Filomena concordou, sentindose grata. Antónia encheua de roupas e sapatos. A menina ficou um pouco desconfortável, mas agradeceu. Também lhe pediu opinião sobre as peças, algo que Filomena não esperava.

Uma semana depois, Antónia chamoua novamente.

Como vais com os estudos?

Bem, mais ou menos respondeu Filomena, encolhendo os ombros.

Mostrame o teu diário.

Temos o portal digital da escola disse a menina, tentando sorrir.

Por Deus Em Portugal ainda temos papel, mas tudo bem, mostra o digital.

Filomena exibiu as notas; eram boas. Ainda cedo, já percebia que ninguém iria pagar a sua formação nem garantir-lhe um emprego. Teria de contar apenas com esforço e inteligência.

Muito bem elogiou Antónia. Com notas assim, avanças para o décimo ano e depois à universidade.

Isso se houver quem me sustente retrucou Filomena. A minha situação é outra.

Então, vamos fazer assim tossiu Antónia, preparandose para um discurso sério : vais ao décimo ano, vais viver comigo até entrares na universidade. Está claro?

Claro.

Filomena quase não acreditava à sua sorte. Sempre desejara continuar os estudos, mas nunca imaginara ter condições.

A relação entre avó e neta foi se estreitando; Antónia mostrava interesse pela vida de Filomena e, ocasionalmente, perguntava sobre o filho que ambas perderam. Parecia que, embora relutante, a senhora se sentia curiosa para saber mais.

Filomena terminou o liceu e conseguiu ingressar numa universidade. Antónia contratoulhe tutores, e nos últimos dois anos antes da licenciatura, Filomena aprimorou todo o seu conhecimento.

No verão que antecedeu a entrada na universidade, Filomena arranjou um emprego. Mesmo com um quarto na residência estudantil, sabia que ainda precisava de recursos. Afinal, assim tinham combinado: ao concluir o liceu, partiria de casa.

Em agosto, Antónia sofreu um infarto e foi internada. Filomena, ao chegar, encontroua inconsciente no chão e ficou apavorada, pensando que a avó já tinha partido. Por sorte, a senhora sobreviveu. Quando lhe foi permitido visitar, Filomena correu ao quarto.

Avó, como está? exclamou, quase a chorar.

Desculpe Antónia, como se sente? perguntou, segurandoa pela mão.

A mulher sorriu e acariciou os cabelos da neta.

Chamame de avó. Fazme bem ouvir isso. Estou a recuperar, embora demore. Mas vou conseguir.

Vou cuidar de ti! Enquanto não estiver bem, ficarei contigo!

Não quero ser peso. murmurou Antónia.

Eu fui o peso que caíste respondeu Filomena. Fiz tudo o que pude, como a minha mãe nunca fez. Agora é a tua vez de ser cuidada.

Antónia respirou fundo, tentando conter as lágrimas.

Muito bem. Mas há uma condição.

Qual? sorriu Filomena.

Não vais para nenhum dormitório universitário. O que há lá é um caos! Ficarás comigo.

Está feito aceitou Filomena, abraçando a avó. Há muito tempo queria fazer isso, mas nunca teve coragem.

Assim, a história que lembro, há muitos anos, permanece viva na minha memória: a menina que fugiu de um ciclo de abandono e encontrou, contra todas as probabilidades, uma avó inesperada, um lar e a oportunidade de transformar o próprio destino.

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