**Primeira traição de Paulo: a lição que ficou gravada no seu inconsciente**
Desde pequeno, Paulo sentiase pequeno demais, como se fosse um grão de areia num deserto de crianças. No berçário da Escola Básica de Alfama, era o menor da fila; até as meninas pareciam árvores altas à sua frente. Não tinha colegas, brincava só, e quando os outros tiravam-lhe o brinquedo, ficava mudo, absorvendo a dor como se fosse água do mar, sem nunca reclamar aos pais.
Na Escola Secundária de São Vicente nada mudou. Chamavamlhe miúdo, zombavam, e ele apertava os punhos como se fossem bússolas que ainda não tinham encontrado o norte. Quando as piadas se tornaram um peso insuportável, pediu aos pais que o inscrevessem numa aula de judo.
Passados alguns verões, quase não o reconheciam. O corpo transformouse em pedra e músculo, a postura ganhou a firmeza de uma torre de Belém. No nono ano, as meninas começaram a lançar olhares curiosos, mas Paulo carregava as cicatrizes da infância como marcas invisíveis e não deixava que ninguém se aproximasse demais.
**O primeiro romance e a primeira desilusão**
Ao ingressar na Universidade de Coimbra, tudo mudou como num relâmpago em noite de inverno. Sentiuse mais seguro, as conversas fluíam como o Tejo ao entardecer, e as raparigas sorriam-lhe como se fossem flores de azinheiras.
Foi então que conheceu a Alzira, estudante de História que morava num apartamento antigo em Coimbra, cujas paredes sussurravam lendas medievais. No início, ele apenas a acompanhava até à porta; numa noite, porém, ela o convidou para dentro. Assim, o sonho de intimidade começou a desenrolarse entre lençóis que cheiravam a chá de hortelã.
Mas o contentamento não se fixou. Num instante de coragem, Paulo propôslhe, como se fosse um salto de ponte em Lisboa:
Vamos casar.
Alzira riu, um riso que ecoou como o tilintar de copos de vinho do Porto:
Paulo, ainda tens todo o futuro pela frente! És bonito, forte, e vais ter muitas outras moças. Podes namorar quem quiseres e depois escolher a melhor.
Falas a sério? a voz dele ficou fria como gelo na neve.
Claro! deu de ombros. Tenho um noivo, o mais bonito e rico do bairro, que me envia dinheiro para não ter de viver no dormitório. Só nos vemos nas férias; contigo passo as noites.
Essas palavras cortaramo como facas de prata.
Então sou só um plano temporário? perguntou ele, amargurado.
Paulo, gosto mesmo de ti! Mas sabes como é
Paulo levantouse, começou a recolher as suas coisas.
Ficas magoada? provocou Alzira, olhandoo com um sorriso de quem sabe que tudo é passagem. Ainda bem que descobriste a verdade agora. Não confies nas raparigas de imediato; conheceas antes de abrir o coração.
Ele saiu, sentindose utilizado como um brinquedo esquecido no sótão.
**O aconchego doméstico em vez de ilusões despedaçadas**
Ao regressar à sua casa em Lisboa, largou a mala à porta.
Filho, o que se passou? perguntou a mãe, preocupada. Não haverá casamento?
Que se dane, respondeu ele, tirando do bolso um anel de prata. Guarda isso. Vai servirte mais do que a mim.
A mãe, com um olhar triste, respondeu:
Que anel bonito, vou usálo eu mesma. Vai à cozinha; fiz os teus pastéis de nata favoritos e preparei um chá de hortelã. Sentemonos, falemos.
Paulo sentiu o calor e o cuidado que há tanto tempo lhe faltavam, como o sol que desponta depois de um temporal.
**Mais um golpe ao orgulho**
Na universidade, evitava encontrar Alzira, porém ela continuava a caminhar como se nada tivesse mudado. Após as aulas, ia de mãos dadas com o Carlos, sussurrava-lhe segredos, e depois desaparecia por rumo desconhecido.
Paulo percebeu então que as palavras dela eram apenas desculpas. Ele fora apenas um entretenimento passageiro, um substituto até surgir a próxima opção conveniente. Esse pensamento ficou na sua alma como uma sombra persistente.
Alguns dias depois, outra prova surgiu.
Paulo, vem ao meu aniversário! disse Tamara, uma das estudantes mais deslumbrantes da sua turma, aparecendo como uma brisa perfumada de jasmim.
Mas seria esse convite um verdadeiro caminho ou mais uma armadilha disfarçada? O sonho continuava a mudar, entre ruas que se dobravam como fitas de papel, sussurros de bicicletas e sombras que se estiravam ao som de fados distantes.







