Ana, vai à cozinha! ouvi do marido e não aguentei.
Benedita estava a olhar para a tela do telemóvel. Tiago escrevia, pela quarta vez em meia hora: «Desatento, atende ao telefone».
Ela estava ao volante da carrinha de aprendizagem o instrutor explicava o estacionamento paralelo. O telemóvel vibrou outra vez.
Posso responder? O marido está a precisar.
Claro.
Tiago, estou ao volante
Por que não atendes? Eu já ligo!
Não posso falar enquanto
Ah, percebo. Conseguir a carta parece mais importante que o marido. Quando chega a casa?
Dentro de uma hora.
Quem vai preparar o jantar? Ou devo eu?
O instrutor virou‐se, fingindo não ouvir.
Já chego, faço a comida.
Ótimo. Pensava que a minha esposa fosse agora uma empresária de sucesso.
Em casa, Tiago estava deitado no sofá, a deslizar o telemóvel entre os dedos. Já faz três meses que perdeu o emprego; dizia que era temporário, mas a procura prolongavase.
Como vai a escola de condução? Difícil?
A sua voz trazia um sorriso familiar.
Normal. Hoje praticámos o estacionamento paralelo.
Ah, sério? É toda uma ciência, não?
Benedita atravessou a cozinha. Na pia havia a louça suja o pequeno-almoço que ele não tinha lavado.
Tiago, talvez devêssemos desfazer as caixas finalmente? Já é fevereiro e ainda parece que chegámos ontem.
Ele ergueu a cabeça do ecrã.
O quê desfazer? Vais sozinha.
Podemos fazer juntos. E limpar ao mesmo tempo
Tiago levantouse e aproximouse. Nos seus olhos refletiuse algo frio.
Ana, vai à cozinha!
Dissea baixo, mas de forma bem clara. Não gritou. Apenas disse e o silêncio ficou mais assustador que qualquer berro.
Benedita ficou imóvel.
O que disseste?
O que ouvi! Vai preparar o jantar!
Falámos das caixas
Do que falámos? Tu calaste. Eu disse que irias fazer tudo sozinha.
Algo quebrou dentro de Benedita. Não foi por ofensa, mas por compreensão. Lembrouse da festa de Natividade na casa dos amigos de Tiago, onde ele era a alma da festa.
Conquistava todas as mulheres, brincava, ajudava a anfitriã. Mais tarde, no carro, dizia:
Por que ficaste calada a noite toda? Foi embaraçoso?
Não vou à cozinha!
Tiago levantou as sobrancelhas, surpreso.
O quê?
Não vou!
Benedita, não me ponhas à parte. Falávamos normalmente.
Normalmente? Quando foi a última vez que realmente falaste comigo?
Tiago pôs o telemóvel de lado.
Que reclamações? Só fiz uma piada.
Piada? «Desatento, atende ao telefone» isso também é piada?
Não podia escrever isso à esposa?
Podia, mas não «desatento».
Senhor, que diferença há! Tu sabes que não é por maldade.
Entendo. Por isso fiquei calada todo esse tempo.
Benedita sentouse à beira da cama.
Sabes o que o instrutor me disse hoje? Tem mãos firmes. Imagina? Firmes. E em casa tenho medo de pedir ajuda com as caixas.
Tens medo?
Tiago riu.
Claro que tens!
Tenho medo. Porque sei que vais encontrar uma forma de me fazer sentir inútil.
Não! Estás a inventar tudo.
Invento? Lembraste quando, na casa de amigos, disseste que eu divirtome na escola de condução?
Era engraçado!
Tu achas engraçado. Eu fico envergonhada.
Tiago sentouse ao lado no sofá.
Olha, se não gostas da forma como falo
E então?
As portas continuam onde estavam.
Silêncio. Benedita olhava para o marido. Ele não pediu desculpa. Não explicou. Apenas apontou para a porta.
Está bem.
Levantouse, tirou da guardaroupa a mala de viagem e começou a dobrar as coisas.
O que fazes?
O que sugeriste.
Para onde vais?
Até à Inês.
Vais dar uma volta e depois voltares. Como sempre.
Como sempre?
As mulheres adoram criar dramas. Bater à porta, chorar para as amigas.
Benedita pôs na mala documentos, maquilhagem, carregador.
E depois rastejar de volta!
Apontou para a caixa com fotos do casamento. Tirou a fotografia estavam no registo civil, sorridentes.
Falarias assim comigo aqui?
Tiago olhou a foto.
Lá havia gente.
E aqui?
Aqui há família. Podemos relaxar.
Benedita devolveu a foto com delicadeza, fechou a mala.
Relaxar Entendo.
Espera. Vamos conversar.
Sobre o quê? Já mostraste quem eu sou para ti em casa.
No corredor, vestiu o casaco. Tiago estava descalço, de calças de casa.
Lançafora! Todos os casais discutem.
Não discutimos.
Benedita segurou a maçaneta:
Decidiste que agora podes fazer o que quiseres.
A porta estalou. Por trás, ouviuse:
Não vais fugir tão longe!
Duas semanas depois chegou a mensagem: «Chego amanhã, assim que terminar o turno».
A amiga Inês balançou a cabeça:
Por que ainda queres encontrarte com ele?
Quero ter a certeza de que estou certa.
Um café perto da estação. Tiago chegou trinta minutos atrasado.
Como vai?
Sentouse, sem pedir desculpa pelo atraso.
Bem.
Onde vives?
Na casa da Inês, por enquanto.
A expressão «por enquanto» saiu como um velho hábito de suavizar a situação.
Em casa está uma bagunça. Louça suja, roupa por lavar. Ainda bem que a vizinha ajudou com as compras.
A garçonete aproximouse uma simpática morena de uns vinte e cinco anos.
O que desejam?
Duas bicas, respondeu Tiago, sorrindo à rapariga.
E alguma coisa doce?
Temos os melhores pastelitos
Então tudo fica ainda melhor.
Tiago tirou o anel de casamento e pôso na mesa.
Agora, que em casa tudo está arrumado, posso mimarme com sobremesas.
A garçonete riu.
Sabes cozinhar também?
Claro! O marido até faz papas. O importante é que ninguém tropeça nos meias no chão.
Benedita observava o anel.
E ninguém pede ajuda para limpar a casa.
Tiago continuou. Nesse momento, ela percebeu que ele transformava a história deles num anedota para outra mulher.
Então, virouse para a esposa, acabamos o espetáculo? Em casa sem ti é monótono.
Não.
Porquê não?
Não volto.
Tiago, pela primeira vez, olhoua atentamente.
A sério?
Sim.
Benedita levantouse, pôs o dinheiro do café na mesa.
Espera. Sabes o que estás a fazer?
Sei. É a primeira vez em três meses.
Benedita! Somos adultos!
Por isso é que vou embora.
Lá fora caía neve molhada. No café, Tiago explicava à garçonete provavelmente reclamava da esposa inadequada.
Um mês depois, Benedita alugou um apartamento de um quarto, tirou a carta de condução e começou um novo emprego.
Num supermercado, cruzouse com Tiago estava com uma jovem. Riam ao escolher os produtos. Benedita passou despercebida.
Pensou: quanto tempo vai passar até ele dizer novamente «Ana, vai à cozinha»? Um mês? Dois?
À noite, Benedita estava à janela do apartamento, com um copo de chá. Sobre a mesa jazia o telemóvel, calmo, silencioso. Já ninguém lhe enviava «Desatento, atende ao telefone».
Recordouse das mulheres que permanecem, que acreditam que ele não tem má intenção, que todos os homens são assim. Sentiulhe, não condenação, mas tristeza.
O telemóvel piscou mensagem de um colega sobre a reunião de amanhã. Formal, respeitosa.
Benedita sorriu e respondeu. Depois sentouse no sofá no seu próprio lar, onde pode pedir ajuda sem temer piadas.







