Não, Sérgio, e o que ela vai fazer? A minha mulher é de madeira, não lhe importa nada. Não te preocupes, já tenho um comprador para o apartamento dela.
Fiquei parada no corredor, duas sacas de compras nas mãos. As chaves ainda balançavam no fecho nem consegui fechar a porta atrás de mim. Dentro das sacas havia batatas, cebolas, sobrecoxas de frango, trigo sarraceno em promoção e três iogurtes para o Kiko só os brancos e sem açúcar. Já imaginava se conseguiria descongelar a carne a tempo ou se, outra vez, a jogaria na frigideira como um bloco de gelo, acabando por ficar cozida a vapor.
Vítor ficava com as costas contra a entrada, o telemóvel colado ao ouvido, mexendo alguma coisa numa chávena o seu café instantâneo com três colheres de açúcar. Nunca lavava a loiça.
Ela nem vai notar nada continuou ele, derramando o líquido da chávena. Digo-lhe que são papéis de transferência, assinas. Ela acredita em mim. De madeira. Sem emoções, sem carácter. A empregada doméstica é grátis.
Riu. Conhecia esse riso era o mesmo com que brincava com os amigos na garagem, enquanto eu lavava a loiça depois das festinhas deles. Também riu quando, pequeno, o Kiko caía da bicicleta e eu corria com o gel, e Vítor ficava ali a dizer: «Então, que é que vais ser, galinha? Levanta-te sozinho».
Um barulho ensurdecedor preencheu os ouvidos, como antes de uma tempestade. Os dedos cravaramse nas alças das sacas, o plástico rasgou a pele até ficar a branco. Lenteime a colocar as compras no chão, tirei o telemóvel e ativei a gravação.
Da cozinha vinha um murmúrio Vítor já falava com Sérgio sobre anzóis e a viagem ao lago do dia seguinte. Ele era assim: primeiro cuspia veneno e depois passava ao papo furado, como se nada tivesse acontecido, como se eu fosse realmente de madeira.
Aproximei o telemóvel à fresta da porta entreaberta e esperei até que ele se despedisse de Sérgio e prometesse «fechar o negócio na próxima semana».
Depois Vítor pendurou o aparelho, trovejou e, de chinelo, foi direto ao frigorífico. Desliguei a gravação, guardei o telemóvel no bolso, agarrei as sacas e deslizei silenciosa pela cozinha até ao quarto. Fechei a porta e encosteime ao batente.
Um frio cortante se instalou sob a minha língua queria gritar ou uivar como um cão. Vinte e quatro anos de casamento. O Kiko, a escola, a universidade, os empréstimos que eu pagava com o meu subsídio de férias. A mãe dele, que eu levava ao hospital três vezes por semana até à morte. As meias, as almôndegas, o eterno «Lúcia, onde está a minha camisa azul?». E agora eu era de madeira. E já havia um comprador.
Senteime na cama, observando as minhas mãos. Nelas grudava pó de trigo sarraceno. Olhei para o anel de casamento fino, gastado. Ele deumeo quando ainda vivíamos numa república estudantil e comíamos esparguete com ketchup. Quis atiraro pela janela, mas não o fiz. Respirei fundo, como a mãe me ensinara: «Lúcia, se alguém te magoar, conta até dez antes de decidir o que fazer».
Contei até vinte. Levanteime, laveime o rosto com água gelada e tirei do armário um caderno velho. Lá encontrei o número do serviço de finanças anotava quando regulava a incapacidade da minha mãe.
Na linha, a voz feminina explicava que o impedimento à alteração da escritura podia ser colocado online, mas que era melhor comparecer pessoalmente. Disse que iria. Agora mesmo.
Era quase três horas. Vítor rugia na cozinha provavelmente fritava ovos. Saí para o corredor, vesti o sobretudo.
Onde vais? perguntou ele, sem virar. A frigideira chiava.
Vou buscar pão. Para o jantar não há nem migalha.
Ah, leva também um maço de cigarros para mim.
Desci ao elevador. O coração batia forte, não de medo, mas de consciência. Vinte e quatro anos sem fazer nada sem a bênção dele. Até a cor das paredes decidíamos juntos, e ele depois dizia: «Bege é boring, devia ser verde». E eu calava.
No balcão de finanças estava vazio. Uma funcionária olhava os documentos através da janela.
Tem a certeza que quer impedir a venda? Sem a sua presença, ninguém, nem mesmo com procuração, pode vender, doar ou trocar o apartamento.
Tenho a certeza.
Ela batucou nas teclas. Quinze minutos depois saí para a rua com um papel na mão, guardeio no bolso interno do sobretudo, onde estava o telemóvel com a gravação.
Voltei a casa com um pão e um maço dos cigarros dele. Vítor jazia no sofá, a ver um filme de ação. Passei à cozinha, liguei a chaleira. Na frigideira ficavam restos queimados de ovo. Laveios, como sempre.
Por volta das sete, alguém bateu à porta. Vítor saltou, tirou a camisola.
Ah, é para mim. Lúcia, põe a chaleira, vem aí um cliente simpático.
Acenei.
Um homem de cinquenta e poucos anos, num sobretudo caro, com pasta em mãos, entrou no corredor. Vítor se agitou, sorriu forçado.
Apresentolhe o Óscar Pereira, corretor. Sobre o apartamento, vamos resolver.
Saí da cozinha, enxugando as mãos no pano. Olhei Vítor o rosto satisfeito.
Vítor, lembraste que hoje à tarde falaste com Sérgio?
Ele congelou. O sorriso desfezse lentamente, como papel mal colado.
O quê? Só foi isso.
Chamasteme de esposa de madeira. Disteme de pronto um comprador e disseste que não saberia nada.
Um silêncio pesado. O corretor cambaleou, alterando o peso de um pé para o outro. Vítor primeiro empalideceu, depois as bochechas começaram a ficar manchadas.
Que estás a dizer, Lúcia? começou ele, mas eu levantei a mão.
Não. Já ouvi tudo. Ouve.
Ativei a gravação. A voz dele encheu a sala: «A minha mulher é de madeira já tenho comprador para o apartamento ela acredita em mim a empregada doméstica é grátis»
O corretor recuou para a porta.
Senhor Vítor, não sabia que havia complicações.
Vítor me fitava como se eu fosse estranha.
Estavas a gravar? A observarme? bufou ele.
Eu estava ali, com as sacas que comprei com o meu salário, para que o Kiko e a sua namorada tivessem jantar. E tu, nesse meiotempo, negociavas a minha casa. A minha, Vítor. Não a nossa. A da minha mãe.
Ele avançou, mas eu continuei calma:
E ainda mais. Hoje fui ao balcão de finanças e impus um impedimento a qualquer ato sobre o apartamento sem a minha presença. Assim, o teu comprador apontei para o corretor pode procurar outra solução. Este apartamento já não se vende.
O corretor recuou, hesitante.
Acho que devo ir. Vítor, falamos depois. Desculpe.
Ele saiu pela porta.
Ficámos só nós dois. Vítor ficou no meio da sala, respirando como um peixe foradaágua.
O que fizeste? Destruíste tudo! Tinhamnos planos!
Tinhas planos. Eu tinha fé. E hoje rasgastea, chamandome de madeira. Uma árvore, Vítor, arde. E eu queimei.
Ele sentouse no sofá, abraçando a cabeça.
Lúcia, perdão. Foi um acidente. Não queria. Foi o Sérgio que me empurrou
Sérgio, sorri eu. Claro, sempre há alguém mais para culpar. Não tu, que viveste vinteequatro anos à conta dele, bebeste o seu chá, dormiste nas suas cobertas e me trataste como parte da decoração.
Tirei o anel. Puso em cima da mesa de centro.
Amanhã entro com o pedido de divórcio. O apartamento fica comigo é herança da minha mãe, tu não tens direito. Arruma as coisas dentro de uma semana. O Kiko eu explico eu mesmo, ele já é adulto.
Lú
Não precisas. Nem imaginas o alívio que sinto agora. Pela primeira vez em anos não penso no jantar. Penso que tenho casa e, sobretudo, sou eu mesma.
Retireime para o quarto, fechei a porta. O telemóvel vibrou mensagem da amiga: «Então, como foi o dia?»
Respondi: «Perfeito. Já não sou mais de madeira».
A manhã acordou às sete. Em vez de correr para a chaleira para o Vítor, levanteime, pusme o roupão e fui preparar café. Moído, com canela. Vítor só bebia instantâneo. Eu sempre preferi o café de verdade.
Ele saiu da divisão com o rosto amassado, cruzou o olhar para a cafeteira na minha mão.
E eu?
Vítor, é altura de arranjares outra empregada doméstica. As de madeira às vezes despertam.
Um gole. O café era abrasador. As mãos ainda tremiam, e o copo bateu nos dentes. Mas era o café mais saboroso da minha vida, porque o tinha feito só para mim.
Batem à porta. Pus o copo na mesa e fui abrir. No limiar, Óscar Pereira, o corretor, sem pasta, mas ainda com o sobretudo, parecia desorientado.
Desculpe o incômodo. O seu marido mencionou ontem que o apartamento era seu, mas eu não sabia Queria oferecer os meus serviços, caso decida vender ou comprar honestamente, sem truques.
Fiquei estupefata, olhandoo. Da cozinha, Vítor surgiu com o rosto torcido.
O que fazes aqui? bradou ele.
Trabalho, respondeu Óscar, calmo. Agora tenho um novo cliente.
Entregou o cartão. Segureio, vireio na mão, depois olhei para Vítor, para a sua fúria impotente, para o corretor com sorriso profissional.
Óscar, agradeço, mas hoje não. Tenho outros planos disse eu. Vou comprar um gato. E talvez uma nova frigideira.
Ele assentou, despediuse e saiu. Vítor murmurou algo e desapareceu no quarto. Eu fechei a porta, encosteime a ela e ri, quase sem som. Pela primeira vez em décadas, ria pela manhã no meu próprio hall.
Acabei o café com um sorriso, a pensar no nome do gato: Marta. Em homenagem àquela que viveu connosco quando ainda éramos crianças, antes do pai a dar aos vizinhos «pelo rabo pelos cantos da casa». Agora a Marta será minha, e ninguém dirá que o pelo é problema.







