Igor, o porta-malas! Abriu o porta-malas, pára o carro! – gritava a Marina, mas já percebia que tudo estava perdido… As malas com presentes, iguarias e a manta para a avó caíram pela estrada durante a viagem para o interior, e os carros de trás nem viram. Entre o azar, a tristeza e a esperança, chegaram de mãos vazias para celebrar o Ano Novo com a família em Viseu – só para descobrirem que o destino dos seus presentes trouxe felicidade a quem mais precisava naquela aldeia esquecida, graças a um milagre de São Nicolau.

Ó Manuel, a bagageira! Abriu-se a bagageira, pára o carro gritava Filomena, mas já percebia que tudo estava perdido. Os pertences iam saltando da bagageira para a estrada e, com tantas viaturas atrás, duvidava que alguém os tivesse visto ou conseguido evitar passar por cima deles.

E lá se foram os presentes e mimos que andavam a juntar nos últimos dois meses! O bacalhau especial, o presunto de Chaves, o queijo da Serra, as caixas de bombons e outras iguarias que só se permitiam comprar nas festas grandes. As sacolas com tudo aquilo que era caro iam em cima, para não se amassarem. Levaram muita coisa porque iam passar o Natal ao campo, na aldeia da avó do Manuel.

Na estrada, as filas eram intermináveis, todos a fugir da cidade. Os carros seguiam colados, não muito depressa, mas parar de repente era impossível. Tudo o que ali ficou, ficava para trás!

Os meninos, que iam atrás, começaram a chorar ao ver a mãe tão triste. Filomena tentou acalmá-los enquanto Manuel encostava finalmente à berma e parava. Ainda tinham esperanças de que alguma coisa tivesse rolado para fora da estrada. Voltaram a pé pelo acostamento, mas, claro, foi tempo perdido. Procurar não adiantava, só atrasava ainda mais.

Vá, não penses mais nisso, paciência. Quando muito compramos outra vez; se não, passamos sem. Manuel encostou Filomena ao peito ao ver a sua tristeza. Não vale a pena chorar pelo leite derramado. Bora lá para dentro, está a cair uma bátega de neve, a escurecer cedo, e a estrada não está fácil.

Durante o resto do caminho, Filomena calou-se. Ia zangar-se com Manuel por não ter trancado bem a bagageira? O carro já era velho, e o fecho dava problemas. Tentava não pensar nisso, mas a mágoa voltava com força. Custara tanto a juntar aquele dinheiro para a festa! Porquê tanta pouca sorte sempre com ela? Ainda por cima, lembrou-se do presente da avó uma manta felpuda, linda, fofinha também perdida na estrada.

Chegaram à aldeia já passava da meia-noite. Julgavam que a avó Lurdes já estaria na cama. Mas a luz do alpendre brilhava e, ao abrirem o portão, saía disparada a avó e a vizinha, senhora Amélia.

Ah, chegaram, graças a Deus! A avó Lurdes pegou nos netos e bisnetos, beijando-os a todos sem parar. Filomeninha, Manoelito, ainda bem que chegaram! Onde andava o Simão e a Benedita? Com os meus olhos, nunca mais! Graças a Deus está tudo certo!

Ó avó, cá estamos, não precisa de se preocupar tanto! Manuel abraçou-a. Vamos mas é para dentro que está de rachar e só tem esse xale nos ombros! Porque ficou tão aflita?

A avó fez um gesto largo. Nem queiras saber! Estivemos toda a noite a rezar, a pedir proteção! Não te rias, Manoel, que bem sabes que estas coisas existem! Tive uma visão enquanto dormia, vi-vos a sair da estrada, foi uma aflição tão grande! Acordei a suar… sentia-me cheia de maus pressentimentos. Falava disto à Amélia, que, sem saber de nada, veio perguntar por vocês.

A Amélia logo disse: Mal sinal, é preciso fazer promessa! E ali estivemos uma noite inteira a rezar pelo vosso caminho, a pedir ao Santo António e a São Nicolau, a oferecer tudo para que chegassem bem. Graças ao Senhor, cá estão todos sãos e salvos; já não sei o que demos ou pagámos, mas estão todos juntos, que é o mais importante!

Tens razão, avó concordaram Manuel e Filomena. E, se por acaso, os nossos presentes não se perderam e chegaram a alguém, que seja para lhes dar alegria. Algum bem hão-de ter feito!

O Ano Novo foi festejado com a família toda à mesa. Batatas da horta, tomates e pepinos em conserva, um bacalhau espiritual de comer e chorar por mais, ganso assado no forno e os famosos bolinhos da avó. Simão e Benedita não saíam de perto do fogão, só queriam bolinhos quentes! Durante o dia, a criançada correu com os vizinhos até à exaustão. De olhos quase fechados de sono, só esperavam dar a meia-noite e ver se o Menino Jesus deixava presentes no sapatinho.

A avó Lurdes ria, abraçava os netos, os das vizinhas também que felicidade, todos juntos! E que importa mais na vida?

De outro lado, numa aldeia esquecida perto do Douro, três velhos sentavam-se à mesa posta. Duas irmãs, Esperança e Felicidade, e o vizinho, senhor Joaquim. Ainda tinham vida dentro deles. De família, nada, no verão ainda davam conta da horta, mas no inverno era frio e solidão. Mas juntos faziam companhia, e isso bastava. O senhor Joaquim trouxera um pinheirinho e, na mesa, havia o que comer simples mas suficiente.

Pela manhã, Joaquim foi ao mato buscar lenha. Atou os ramos e, ao prender os molhos no trenó, viu qualquer coisa debaixo de um monte de neve. Aproximou-se, puxou pelas alças um saco. Abriu-o: estava repleto de coisas boas. Havia caviar, salmão, presunto, até um cobertor branco, fofo e quente no fundo. Olhou em redor ninguém. Levou tudo para casa, abriu a manta para as senhoras, acendeu a lareira; Esperança e Felicidade puseram a comida na mesa.

Já pensava que nunca mais ia provar nada tão bom nesta vida admirava-se Felicidade.

Pois eu também julgava que um milagre destes não me calhava! dizia Esperança.

Está visto, foi o Senhor que nos enviou. Se calhar tínhamos direito a uma recompensa, por isso cá estamos, e ainda havemos de ver muita coisa boa. concluiu o senhor Joaquim.

Não vale a pena chorar pelo que se perde. Talvez o Senhor nos dê forma de escapar a um infortúnio maior. Importa é não nos apegarmos às coisas, mas valorizarmos aquilo que na verdade mais importa: a vida, os nossos e estarmos juntos.

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