Vera regressava apressada para casa com sacos de compras pesados nas mãos, a pensar no jantar e nas tarefas dos filhos, quando se preocupou ao ver uma ambulância à porta do prédio – seria o marido, de saúde frágil? Aliviada ao saber que era a vizinha Dona Nina que precisava de ajuda, acabou por assumir o cuidado da gata desta e recebeu um pedido especial: caso algo corresse mal, avisar a filha afastada, Sónia, com quem não falava há anos. Entre decisões, conversas difíceis e desabafos emocionantes, Vera percebe o valor dos laços familiares e faz de tudo para reaproximar mãe e filha mesmo antes do Natal, provando que às vezes a verdade e a compaixão são os maiores presentes – uma história tocante de vizinhança, perdão e resistência, passada num típico prédio português às vésperas do Ano Novo.

Vera apressa-se a caminho de casa, carregando sacos pesados cheios de compras.

Os seus pensamentos estão ocupados a calcular tudo o que ainda precisa de fazer: preparar o jantar, pôr comida para os rapazes, e ainda ajudar o mais novo com os trabalhos de casa.

De longe, Vera repara que há uma ambulância parada em frente ao prédio. O coração começa a bater mais rápido o marido tem andado com a saúde fraca, será que lhe deu para chamar uma ambulância com urgência?

Vai à porta vinte e cinco? pergunta, com voz trémula, ao condutor da ambulância.

Não, à vinte e quatro. É uma senhora de idade que não se está a sentir nada bem… responde ele.

Vera respira de alívio. Afinal, não era para o marido. Devem ter vindo pela vizinha, a Dona Nazaré. Também não deixa de ser triste, porque Nazaré já vai a caminho dos oitenta e vive completamente sozinha.

Ai, a Nazaré tem a gata, se a levarem para o hospital alguém tem de tratar da bichana pensa Vera, subindo as escadas até ao seu andar.

À porta da vizinha, um pequeno bulício. A porta escancarada, a maca, o marido de Vera, António, está a ajudar o paramédico a levar a idosa.

O motorista já está a subir, tratamos disto juntos diz o socorrista.

Dona Nazaré, ao ver Vera, sorri com um alívio sincero:

Vera, minha querida, levaram-me agora para o hospital. Fico mais descansada se ficarem com a chave de casa para tratar da minha Fofinha. Tem comida no balcão da cozinha, a areia já está, por favor troque-a pelo menos uma vez ao dia. Espero voltar antes da passagem de ano diz ela, entregando-lhe a chave da casa com uma mão trémula.

Claro, dona Nazaré, eu trato da sua gata, recupere depressa! responde Vera, colocando a sua mão sobre as mãos da vizinha com carinho.

Fique deitada, não se levante alerta o paramédico. Ora aqui está o outro ajudante, pronto, já tratamos disto…

Espere lá um bocadinho interrompe Dona Nazaré. Vera, tenho mais um favor a pedir. No corredor, em cima do móvel, está um papel com um número de telefone. Se acontecer alguma coisa pior comigo, ligue para esse número. É da minha filha, Leonor. Já não falamos há muitos anos, zangámo-nos…

Vera promete que tudo correrá bem, e assim que os paramédicos levam Nazaré, ela agarra no papel, certifica-se de que a Fofinha está em segurança, e fecha o apartamento.

Imagina, António, vivemos tantos anos na mesma entrada e eu nem sabia que a dona Nazaré tinha uma filha comenta ela assim que o marido regressa.

Também nunca vi ninguém a visitá-la responde António. Vais fazer o jantar ou já são horas?

Vera suspira, mergulha nas afazeres domésticos, e quando tudo está em ordem e os rapazes já estão na cama, lembra-se do papel com o telefone da filha da vizinha. Olha para o relógio, decide não ligar, é tarde, não faria sentido agora.

No dia seguinte, ao entrar para ver como está a Fofinha, encontra a gata já satisfeita a ronronar-lhe no colo. Vera debate-se com dúvidas deve ligar à tal Leonor ou não?

Resolve-se, enfim:

Estou, Leonor? diz quando atendem. Não me conhece, sou a vizinha da sua mãe. Ontem vieram levá-la de ambulância para o hospital. A senhora devia ir visitá-la.

Isso não me diz nada, responde Leonor, fria. Já não tenho mãe há muitos anos.

Ó santa paciência, mas o que é isso! irrita-se Vera. O que é que aconteceu assim de tão grave? A sua mãe pode não voltar para casa Vai mesmo fechar-lhe a porta dessa maneira?

Olhe, não se meta onde não é chamada Leonor nem quer ouvir.

Não tem coração! Se eu pudesse voltar a ver a minha mãe, dava metade da vida por isso! Acredite, quando ela se for, vai sentir tudo de outra maneira. Cuidei da minha durante seis anos, foi duro. Às vezes, quase não aguentava. Mas agora, que ela partiu há quase dez anos, dói não a ter comigo, preferia mais dez anos com ela acamada do que esta saudade.

Vera desliga, de lágrimas nos olhos.

Ora então, Fofinha diz à gata. Se a tua dona não voltar, venho buscar-te, vais ter de te dar com o nosso Bolinhas. Telefonei para o hospital e a dona Nazaré continua sem melhoras…

…Chega o fim do ano. Vera e António voltam das compras com uma árvore de Natal nas mãos do marido.

Espere, segure a porta para nós! pede Vera, apressando-se para o prédio com duas senhoras à frente.

António, despacha-te!

O marido apressa o passo, equilibrando a árvore.

Vera olha para as senhoras e fica boquiaberta:

Ai, Dona Nazaré, já está de alta?

Sim, pedi tanto aos médicos que me deixaram vir para passar o fim de ano em casa! Apresente-se, esta é a Leonor a minha filha! diz ela, e o rosto ilumina-se de felicidade.

Já nos conhecemos… à distância! graceja Leonor.

Sobem juntos, Leonor carinhosamente ampara a mãe, e ao chegar ao patamar, sussurra a Vera:

Obrigada por me abrir os olhos. Posso passar aí mais logo?

Claro… responde Vera, espantada.

Meia hora depois, Leonor bate à porta de Vera e António, trazendo um bolo. Sentam-se para o chá e Leonor desabafa:

Eu e a minha mãe zangámo-nos há dez anos por uma tolice que já nem sei explicar. Ela foi sempre professora, sempre a corrigir-me, e eu perdi a cabeça. Ficámos um ano sem falar, depois só nos cumprimentávamos nos aniversários, e sempre por telefone. Lembro-me de ter dito à minha mãe que preferia que ela não existisse a continuar sempre a mandar em mim.

Quando Vera me telefonou… Olhe, por momentos, até me senti aliviada. Mas depois das suas palavras, entrei em pânico. Pensei: se a mãe me faltar, leva-se a infância e o que significa ainda ser filha…

Leonor conta que dois dias depois foi ao hospital, engolindo o orgulho. Quando a mãe a viu, melhorou logo. “Nunca mais a abandono”, promete.

Afinal, o que lhe disseste? pergunta António, mal ela parte.

Disse-lhe a verdade. Só mesmo a verdade é capaz de abrir os olhos a uma pessoa responde Vera. Vá lá, António, não te esqueças de telefonar à tua mãe hoje. Ou então, e se formos lá passar o fim de ano com ela? Agora que temos apenas uma mãe para os dois…

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Vera regressava apressada para casa com sacos de compras pesados nas mãos, a pensar no jantar e nas tarefas dos filhos, quando se preocupou ao ver uma ambulância à porta do prédio – seria o marido, de saúde frágil? Aliviada ao saber que era a vizinha Dona Nina que precisava de ajuda, acabou por assumir o cuidado da gata desta e recebeu um pedido especial: caso algo corresse mal, avisar a filha afastada, Sónia, com quem não falava há anos. Entre decisões, conversas difíceis e desabafos emocionantes, Vera percebe o valor dos laços familiares e faz de tudo para reaproximar mãe e filha mesmo antes do Natal, provando que às vezes a verdade e a compaixão são os maiores presentes – uma história tocante de vizinhança, perdão e resistência, passada num típico prédio português às vésperas do Ano Novo.
— Ниночка! — майка веднага се хвърли към дъщеря си, я прегърна и целуна. — Скъпа ми дете! А аз мислех, че няма да дойдеш.