Toma aqui, minha filha, para ti e para os teus maninhos. Comam, meus amores. Não é pecado partilhar, pecado é fechar os olhos.
Marília tinha só seis anos, mas a vida já lhe pesava nas costas de forma que outras crianças nem conseguiriam explicar. Vivia num vilarejo esquecido por Deus, numa casa velha que se sustinha mais à custa de Fados sussurrados do que de cimento. Quando o vento soprava forte, as tábuas gemiam como velhas a rezar, e à noite o frio escorria pelas frestas, sem pedir licença.
Os pais trabalhavam à jorna. Hoje havia trabalho, amanhã um talvez. Às vezes regressavam de mãos feridas e olhar vazio, outras vezes os bolsos vazios como sonhos por cumprir. Marília ficava a tomar conta dos dois irmãos mais novos, apertando-os no colo sempre que a fome feria mais que a brisa de inverno.
Era dezembro. Um dezembro profundo, de céu de chumbo e ar frio a cheirar a chuva miúda. O Natal ouvia-se ao longe, batendo noutras portas, mas não naquela. No tacho, sobre o fogão a lenha, borbulhava um guisado pobre de batata, sem carne, sem coentros, mas guisado com todo o carinho materno. Marília mexia devagar, como quem tenta fazer render o pouco por todos.
De repente, um cheiro quente e doce viajou desde o quintal dos vizinhos, invadindo-lhe o nariz e o peito antes do estômago. Os vizinhos matavam o porco para o Natal. Ouviam-se conversas soltas, gargalhadas, copos a tilintar e o crepitar da carne a fritar. Para Marília, aquele som era como uma canção de embalar vinda de um país distante.
Aproximou-se do muro, com os irmãos agarrados à manga do seu casaco de lã coçado. Engoliu em seco. Nada pedia. Só olhava. Os seus olhos grandes, avelã, brilhavam secos de quem só deseja em silêncio. Sabia que não era bonito cobiçar, assim a ensinara a mãe. Mas o coração menino não aprendeu a não sonhar.
Senhor, sussurrou baixinho, pelo menos um bocadinho
Nesse instante, como se o céu tivesse ouvido, uma voz meiga cortou o ar fresco:
Marilinha!
A menina estremeceu.
Marilinha, chega-te cá, minha filha!
Dona Bernardete, velhota do rosto rosado do lume, olhos ternos como lareira acesa, mexia devagar a sua açorda. Olhava para Marília com doçura de avó que a vida não lhe dera.
Toma lá, minha querida, para ti e os teus irmãos disse, simples, boa como só quem conhece o frio sabe ser.
Marília ficou indecisa. A vergonha, quente e dorida, apertava-lhe o peito. Não sabia se podia aceitar tamanha alegria. Mas Dona Bernardete acenou outra vez, e, com mãos trémulas, encheu uma caixa com nacos de carne tenra, dourada, ainda a fumegar, perfume a festa autêntica.
Comam, meus anjos. Partilhar não é pecado. Fechar os olhos, sim.
As lágrimas de Marília caíram, sem que as pudesse deter. Não chorava de fome, chorava por, pela primeira vez, alguém a ver. Não era só a pobrezinha, era apenas uma criança.
Correu para casa com o tesouro aconchegado ao peito, como relíquia sagrada. Os irmãos saltaram contentes, e durante alguns minutos aquela casinha se encheu de riso, calor e um cheiro nunca antes sentido ali.
Quando, já noite fechada, chegaram os pais, cansados e gelados, encontraram os filhos a sorrir, boca suja de felicidade. A mãe chorou baixinho, o pai tirou a boina e agradeceu aos Céus.
Naquela noite não houve pinheiro, nem prendas. Mas houve humanidade.
E, às vezes, basta isso para não nos sentirmos sós no mundo.
Há crianças como Marília, mesmo agora, que nada pedem… só olham.
Olhando para quintais iluminados, mesas fartas, o Natal de outros.
Às vezes, um prato de comida, um pequeno gesto, uma palavra quente podem ser o maior presente de todos.
Se esta história te tocou, não passes indiferente…







