Eles Não São Meus Filhos! Ajuda a Tua Irmã se Quiseres, Mas Não À Minha Custa: Ela Acabou com a Família e Agora Quer Impingir-nos as Crianças Para Tratar da Própria Vida — Que casa acolhedora que vocês criaram, mano. Até fico com inveja. Joana passou o dedo pela toalha da mesa, observando a cozinha com ar crítico. Neusa colocou a saladeira na mesa e sentou-se em frente ao marido. Estêvão sorriu para a irmã, sem perceber como a mulher apertava o guardanapo com força. — Demos o nosso melhor. Foram seis meses à procura até encontrarmos algo decente. Para esta casa, venderam o apartamento e mudaram-se para perto da família do Estêvão, numa freguesia sossegada perto do Porto. Quintal próprio, horta, silêncio — Neusa sonhava com isso há três anos. Dois meses antes, o sonho tornou-se real. — Eu é que não consegui segurar a família — suspirou Joana, baixando o olhar para o prato. — Passaram-se três meses e ainda parece um nevoeiro. Acordo de noite, não está lá ninguém. Os miúdos perguntam pelo pai… E eu sem saber o que dizer. Dona Teresa, sentada à cabeceira, estendeu a mão para afagar a filha. — Aguenta, querida, tudo se resolve. O importante é que as crianças estejam bem. O teu ex ainda vai chorar por ter ido embora. O Gil, o sobrinho de quatro anos, escorregou da cadeira e foi correr para a sala. Logo a seguir, ouviu-se uma queda — algo partira-se. — Gil, cuidado! — gritou Joana, sem se levantar. A pequena Alice, de três anos, começou a lamuriar-se ao colo da mãe. Joana balançava-a distraidamente e continuava a conversa: — Pelo menos estão por perto agora. Se não fosse isso, a mãe depois da operação mal se mexe, não tenho quem me ajude. — Olha que mal cheguei cá de táxi — queixou-se Dona Teresa, esfregando o joelho. — Quarto andar sem elevador, a tensão sempre aos saltos. Quase que caía antes de chegar. Tomara eu ter energia para netos… Neusa levantou-se para ir buscar o almoço. No parapeito da janela estavam as mudas de tomateiros — pequenas raízes verdes em copinhos de turfa. Daqui a um mês já podia plantá-los na terra. Primeiros tomates caseiros da vida. — Espero que não levem a mal se um dia ou outro deixar aqui os miúdos… — a voz de Joana apanhou-a na cozinha. — Só mesmo em aperto. Raramente. Preciso procurar trabalho, tratar de papéis do divórcio, ir a médicos… E as crianças? Neusa virou-se. Joana olhava para o irmão com aquele ar meigo que Neusa já conseguia descodificar. Vinte e sete anos, mas sempre a mesma cantiga. Estêvão acenou, solidário. — Claro, Joaninha. Estamos cá para ajudar, não é Neusa? Todos se viraram para ela. Três pares de olhos à espera do sim inevitável. — Sim, claro, quando for preciso — disse Neusa. Joana iluminou-se. — Vocês são os meus salvadores. Prometo que não abuso, só umas horinhas. As visitas saíram perto das onze. Estêvão chamou um táxi para a mãe, ajudou-a nas escadas. Joana acomodou os filhos na velha “Renault” e, acenando da janela, gritou: “Obrigada pelo serão, são os melhores!” Neusa arrumava a mesa, colocava pratos na pia. Estêvão apareceu por trás, abraçou-a e beijou-lhe o cabelo. — Correu bem, não achas? A mãe ficou feliz, a Joaninha já ri. Fizemos bem em vir. — Pois. — Estás cansada? — Um pouco. Neusa não disse o que lhe pesava. “Só quando for mesmo preciso” — esse tipo de promessa ela conhecia bem. Sempre virava “todos os dias, porque é mais fácil assim”. Na semana seguinte, o telemóvel tocou cedo. — Neu, salva-me. Tenho consulta e a mãe não aguenta com os miúdos. É mesmo só três horinhas, juro que passo antes do almoço! Neusa olhou para o portátil, para as tabelas do relatório trimestral. O cliente esperava para sexta-feira. — Joaninha, o relatório está apertado… — Eles portam-se bem, é só ligares a televisão! Por favor, Neu, estou mesmo aflita. Meia hora depois, os miúdos estavam lá. Almoçaram, Joana não apareceu. O resto do dia foi-se arrastando até ao fim da tarde. Estêvão chegou às seis, encontrou os sobrinhos na sala: — Olha que a Joaninha ainda não veio? — Não… prometeu vir ao almoço, mas depois disse que se atrasava. — Não faz mal — encolheu os ombros, tirando uma cerveja do frigorífico. — São da família. Ficam à vontade. Neusa calou-se. O Gil já tinha entornado sumo no tapete, e a Alice tinha ficado sem fraldas — só havia uma no saco. Joana só apareceu perto das nove, fresca, alegre, a cheirar a café. — Desculpa, perdeu-se o tempo. Obrigada, salvaste-me! O relatório Neusa acabou de madrugada, já sem cabeça, com o grito das crianças ainda na cabeça. Quatro dias depois — outra vez. Entrevista importante. Joana aparece às nove, promete buscar às três. Estêvão estava de folga na noite anterior, dormia até ao almoço. Levantou-se, foi para a cozinha. — Ainda aqui andam? — Pois. — Deixa lá, não stresses, eu cá fico. Cá ficou, mas colado ao futebol, enquanto Neusa corria entre miúdos e portátil. Gil chamou duas vezes: “Tio, joga comigo”. “Já vou, agora não posso.” Joana levou-os às oito da noite. À terceira semana já era rotina: três vezes por semana, às vezes mais. Médicos, advogados, entrevistas, amigas. “Só umas horas” acabavam à noite. Uma noite, depois de mais uma maratona: — Estêvão, isto não pode continuar assim. — Então? — Três vezes por semana. Não consigo trabalhar. Franziu o sobrolho. — Neusa, ela está a passar um mau bocado. Ficou sozinha com dois filhos. Temos de ajudar. — Mas diz que vem buscar à hora de almoço e aparece à noite. Não é ajuda, é… — É o quê? Neusa engoliu “abuso” e “calcar-nos”. Olhou-o e calou-se. — A mãe ligou hoje — disse ele. — Diz que a João precisa de tempo. Ficou num oito, nova, vida desfeita. Eu sou o irmão, tenho de apoiar. — E eu? — Tu és a minha mulher, é óbvio. Somos uma família. Neusa desviou o olhar para a janela. Lá fora anoitecia, o parapeito com as mudas esticadas a pedir terra. Ela queria tratá-las no sábado. Discutir era inútil. Na sexta à noite, Estêvão chegou e logo disse: — A Joana ligou. Pediu para ficar com os miúdos amanhã. Tem duas entrevistas e o carro está a precisar de mecânico. Neusa fechou o portátil e olhou-o. — Já falámos disto, Estêvão. Não posso todos os fins-de-semana. — Não sejas assim, é minha irmã. Que custa? Vais estar em casa. — Trabalho em casa. Não fico sem fazer nada. — Então trabalhas enquanto veem desenhos animados. Vai lá. Viu-lhe o rosto cansado, irritado. Calou-se. Sábado ela ia tratar das plantas. Ou ia tentar. — Está bem. Que traga. De manhã, Joana apareceu com vestido novo, cabelo arranjado, maquilhada como para uma festa. — Obrigada, obrigada, são uns anjos! Seis horas no máximo vou buscar. — E o saco? — Já trago! Dois minutos, entra com a mochila quase vazia. — Fraldas, roupa. Obrigada, vou-me atrasar! A porta bateu. Neusa ficou na entrada com duas crianças e o saco. Estêvão estava na garagem, a tratar do carro do vizinho. Ao meio-dia, Gil fartou-se dos desenhos e começou a correr pela casa. Alice choramingava — queria comer, depois água, depois colo. Neusa dividia-se entre os miúdos e a cozinha a tentar fazer almoço. Estêvão entrou por volta das duas: — Está tudo bem? — Preciso tratar das mudas, podes olhar por eles? — Sim, já vou. Ela foi para a horta, começou a plantar. Passados dez minutos, ouviu-se estrondo e choro. Largou tudo e correu. Na sala, Gil estava ao pé do parapeito, vaso estilhaçado, terra espalhada, mudas desfeitas. As que ela cuidara dois meses. — O que se passou? — Subiu ao parapeito, não deu para evitar. Neusa olhava a terra no chão, os caules partidos. — Tia Neu, estás zangada? — Gil olhava assustado. — Não, vai ter com o tio Estêvão. — Deixa lá, são só mudas. Plantas mais. Ela calou-se. Não eram só mudas. Era o sonho dela de paz que adiava por causa dos filhos dos outros. Às seis Joana envia sms: “Atraso-me mais um pouco”. Às sete, silêncio. Neusa liga, está desligado. Pelas oito, ouve um jipe de luxo a chegar. Joana sai, alegre, cheiro a licor. Nenhuma entrevista. Nenhum mecânico. Joana largou os filhos e foi divertir-se. — Então, como correu a entrevista? — Ah, disseram que depois chamam. — E o carro? — Para a semana há vaga. Mentira. — Olha, na quarta pode ser? Preciso de ir a outra entrevista. — Não. Seco, firme. Joana ergueu o olhar. — Como assim? — Não posso. Tenho coisas para fazer. Fez beicinho, olhos húmidos. — Tu sabes o que eu estou a passar. Pensei que vocês me iam apoiar. Nem um dia… — Já apoio há três semanas. Mas não sou ama nem creche. — Que descaramento! Eles não te são estranhos! — Não são meus filhos. São teus. A tua responsabilidade. Estêvão surgiu. — O que se passa aqui? Joana foi logo lamuriar-se. — A tua mulher não me quer ajudar. Só peço um dia. Engoliu em seco, pegou nos filhos e saiu sem agradecer. Neusa ficou a ver as luzes da rua, um misto de culpa e alívio. — Para quê isto tudo? — perguntou Estêvão. — Só disse não. — Ela pediu com jeitinho… Depois — silêncio durante dias. Até que Estêvão aparece: — Joana ligou para mais uma entrevista. Só mais esta vez. — Já chega… — Só desta. Se se atrasar, eu resolvo. Ela acedeu. No dia seguinte, Joana entra, beijos rápidos aos filhos e desaparece. Neusa acabou por espreitar o telemóvel. Foto nova no Facebook: Joana numa esplanada, copos à volta, alguém a abraçá-la. “Saudades da minha vida normal”. Nenhuma entrevista. Telefonou ao Estêvão. — Vem ficar com os teus sobrinhos. — O quê? Estou a trabalhar… — Então chama a tua mãe. Eu não cuido mais deles. — Mas… — Vai ao Facebook da tua irmã. Vê tu. Estêvão chegou, viu as fotos. — Se calhar foi só um lanche… — Ela anda sempre alegre, sai em carros caros, nunca foi a entrevistas nenhumas. Não vês? — São meus sobrinhos, não têm culpa. — E eu tenho? Não são meus filhos. Não tenho de os criar. Se quiseres ajudar a tua irmã, faz tu isso. Mas não à minha custa. Silêncio. Joana chegou tarde, Estêvão travou-a. — Joana, chega. Isto não volta a acontecer. Não largues mais os miúdos aqui para desaparecer. — Ela pôs-te contra mim, foi? — Não, fui eu. Puxou os filhos e foi-se embora. No dia seguinte, telefonema: a sogra. — Então não ajudam a tua irmã? Já não têm coração! — Mãe, temos a nossa vida. — Casa nova, perderam a vergonha! Que bela família… Desligou. Estavam na cozinha, sol na janela, o vaso já vazio. Estêvão apertou-lhe a mão. — Desculpa. Devia ter travado isto antes. Neusa não respondeu. Mas era a primeira vez, em semanas, que sentia alívio. O resto… logo se vê.

Isso não são os meus filhos. Queres ajudar a tua irmã, ajuda, mas não é à minha custa. Ela desfez o casamento e decidiu empurrar os miúdos para nós enquanto trata da vida.

Que casa acolhedora ficou, mano. Juro, até dá inveja.

Rita passou o dedo pela toalha da mesa, de olhos de avaliadora pela cozinha arejada. Inês pousou na mesa um alguidar com salada e sentou-se em frente ao marido. Hugo sorria para a irmã sem notar como a mulher dela apertava o guardanapo na mão até quase o desfazer.

Demos o litro. Meia dúzia de meses à procura até acertar no sítio certo.

Venderam o apartamento, mudaram-se de Lisboa para Évora, mais perto da família do Hugo. Um quintal só deles, horta pequena, silêncio: Inês sonhava com aquilo há três anos. Finalmente, há dois meses, o sonho era palpável.

Eu não tive a mesma sorte. Rita suspirou e olhou para o prato. Três meses e ainda me sinto perdida. Acordo à noite, a cama vazia. Os miúdos perguntam pelo pai. Nem sei o que inventar.

Dona Graça, a matriarca na ponta da mesa, esticou o braço para fazer uma festinha na mão da filha.

Há de-se arranjar, querida. O mais importante é a saúde das crianças. E esse bandalho ainda vai chorar por se ter ido embora.

Tiago, o sobrinho de quatro anitos, escorregava do banco e corria para a sala. Segundos depois, um estrondo de qualquer coisa a cair.

Tiaguinho, cuidadinho! gritou Rita, sem se levantar.

A Leonor, de três anos feitos há dias, começou a choramingar no colo da mãe a pedir mimo. Rita embalava-a no joelho enquanto continuava a conversa:

Pelo menos agora estão mais perto. A mãe depois da operação mal anda, ninguém ajuda.

Olha a mim, foi um frete chegar cá de táxi, atirou logo a Dona Graça, esfregando o joelho. Quarto andar sem elevador, a tensão salta que é uma maravilha. Subi aquilo a pensar que me dava uma coisa. Olha, mal tenho forças para netos.

Inês foi buscar o prato quente. Na janela, a crescer em copos de iogurte, a prenda dela para si: as primeiras mudas de tomate para o quintal. Com sorte, daqui a pouco ia plantar os primeiros que gostava de pensar serem só dela.

Não te importas se, de vez em quando, deixar os miúdos aqui? Rita perguntou quando Inês já estava de costas aos fogões. Só se for mesmo preciso, prometo. Entre entrevistas, médicos e advogada, nem sei como me desenrascar. E não quero pôr a mãe nisto.

Inês virou-se, Rita olhava para o irmão com aquele ar desamparado que Inês já conhecia de ginjeira. Vinte e sete anos, mas sempre pronta para o papel de coitadinha.

Hugo assentiu, cara de bondade a olhar para a irmã.

Está descansada, Rita. Ajudamos, está descansada. Não é Inês?

Três pares de olhos caíram em cima dela, todos à espera do sim.

Sim, claro suspirou ela. Quando for mesmo preciso.

Rita abriu um sorriso de alívio.

Salvaram-me. Só vai ser um bocadinho, prometo. Duas horinhas, vá.

Ao cair da noite, a família começou a dispersar. Hugo chamou um táxi para a mãe, desceu as escadas penosamente com ela pendurada ao braço, tanta queixa pelo caminho que até as paredes suspiraram. Rita enfiou os pequenos sonolentos no seu Renault Clio velhinho e foi-se dali logo atrás, ainda gritando da janela: Obrigada pela noite, são os melhores!

Inês arrumava a mesa e ia empilhando pratos para a máquina. Hugo abraçou-a por trás, um beijo terno na cabeça.

Viste como foi uma noite boa? A mãe ficou mais animada, a Rita também. Viemos para o sítio certo.

Ya.

Estás cansada, não é?

Um pouco.

Inês não disse o que lhe pesava. Aquele quando for mesmo preciso ecoava-lhe na cabeça. Sabia bem como aquilo se transformava: de vez em quando em quase todos os dias porque dá jeito.

Passada uma semana, Rita ligou numa manhã.

Inês, vale-me! Marquei médico e a mãe não pode com eles. Só por três horinhas, à hora de almoço já os levo.

Inês olhou para o portátil, para as tabelas do relatório trimestral. O cliente à espera para sexta.

Rita, tenho um prazo em cima…

Eles são calminhos, vêem desenhos, nem notas. Vá, Inês, é mesmo preciso, por favor!

Meia hora depois, os miúdos estavam ali. O almoço passou, a Rita nem sinal, e a tarde caiu devagar.

Hugo chegou das obras às seis. Espreitou a sala, viu os miúdos atrelados à televisão.

A Rita ainda não veio?

Não. Jurou que era só até ao almoço; afinal ficou retida.

Deixa lá encolheu os ombros, a sacar uma Sagres do frigorífico. São da família, que fique à vontade.

Inês não respondeu. O Tiago já tinha entornado sumo no tapete e à Leonor já não restava uma fralda seca no saco vinha só uma.

A Rita só apareceu já passava das nove. Fresca, cheirosa a café e a risos.

Desculpem, perdi-me no tempo. Salvaram-me outra vez!

O relatório, esse, ficou pronto às três da manhã, a cabeça já nem dela parecia de tanto barulho infantil colado aos miolos.

Quatro dias depois, o mesmo. Entrevista de emprego, importantíssima. Rita largou as crianças às nove, prometeu-os buscar às três. Hugo estava de folga da noite, só acordou ao meio-dia, foi todo lampeiro beber chá à cozinha.

Ainda cá estão?

Como vês.

Bem, deitou mais uma colher de açúcar e ligou a televisão, não te preocupes, eu tomo conta.

Tomar conta? Ficou foi a ver o Benfica, enquanto Inês corria da sala ao portátil. Tiago ainda lhe foi pedir festas, mas Hugo só dizia: Agora não, pá, estou a ver o jogo.

A Rita só apareceu às oito da noite.

Ao fim da terceira semana, as emergências já eram mais que rotina: três, às vezes quatro vezes por semana. Médicos, advogada, entrevistas, amigas tudo servia. O um bocadinho alongava-se até à noite.

Uma dessas noites, depois de finalmente despachar os miúdos, Inês sentou-se em frente ao marido.

Hugo, isto não pode continuar assim.

O que é que não pode?

Três vezes por semana. Não consigo trabalhar.

Ele fez cara de poucos amigos.

Inês, ela está mal. Foste abandonada, ficas sozinha com dois miúdos, o que fazias? Isto é família.

Eu percebo. Mas ela promete buscar os miúdos à hora de almoço e vem buscá-los à hora do telejornal. Isto já não é ajudar, é…

É o quê?

Inês quase diz abuso e viver à conta dos outros. Mas viu a cara dele e calou-se.

A mãe também me ligou hoje continuou Hugo. A Rita só precisa de tempo, está a recomeçar a vida. Eu sou irmão, tenho obrigação de ajudar.

E eu?

Tu és minha mulher até soou solene. Somos família.

Inês virou-se para a janela. Lá fora, o escuro. Na varanda, aquela esperança em copos de iogurte já meio desmaiada, à espera do dia em que ia finalmente ao quintal. Planeava tratá-los ao sábado.

Discutir era inútil.

À sexta-feira, Hugo chegou do emprego e, mal pôs o pé em casa:

A Rita ligou. Amanhã quer largar os putos. Tem duas entrevistas e ainda vai pôr o carro na oficina.

Inês pousou o computador, olhou para o marido.

Hugo, já falámos disto. Não posso passar todos os sábados nisto.

És mesmo de fora, atirou ele, largando a jaqueta na cadeira e marchando até ao frigorífico. É minha irmã, custa-te muito? Ficas em casa, ficas com eles.

Não fico em casa: trabalho em casa. Diferente.

Ai, olha, trabalhas enquanto os miúdos vêem TV. Qual é o drama.

Inês quase discutia, mas viu-lhe a cara: cansado, farto, olhos de quem não ia ouvir. Amanhã era finalmente para plantar as mudas.

Pronto suspirou. Que traga eles.

A Rita apareceu às onze, vestida como para casamento, cabelo no ponto, maquilhada que até metia respeito.

Obrigada, adorados! e lá empurrou o Tiago e a Leonor para dentro. Venho buscá-los algures entre as cinco ou seis.

E as coisas deles?

Vou só buscar ao carro! Já venho.

Voltou com um saco pimpão.

Estão aí as fraldas e muda de roupa. Pronto, já vou atrasada.

Porta bateu. Inês ficou com dois miúdos e um saco que parecia só de enfeite. O Hugo estava na garagem, a arranjar qualquer coisa do vizinho.

À uma, Tiago fartou-se dos desenhos, começou a correr pela casa. Leonor ora queria comer, ora birras, ora colo. Inês dividía-se entre a criançada e o almoço.

Às duas, Hugo deu um ar de sua graça.

Tudo em ordem?

Mais ou menos. Olha, ficas um bocado com eles? Preciso de tratar das plantas antes que morram.

Trato já disso, deixa só lavar as mãos.

Lá no quintal, ela debruçou-se sobre a terra, começou a plantar. Ao fim de dez minutos, ouviu um estrondo vindo da sala, logo seguido de choro.

Largou a enxada e correu.

Na sala, Hugo estava enroscado no telemóvel, no sofá. Tiago no meio de um monte de terra e cacos: os tomateiros, desfeitos no tapete. Aqueles que ela cultivara com tanto carinho desde fevereiro.

O que se passou?

Olha, subiu à janela, não tive tempo de o agarrar. Nem tirou os olhos do ecrã.

Inês olhou para a terra espalhada, os talos quebrados. Dois meses a cuidar daquelas mudas. Era só uma planta, mas era esperança dela.

Tia Inês, está chateada? Tiago tremia de medo.

Não, ajoelhou-se a apanhar os cacos. Vai ter com o tio Hugo.

Hugo pousou o telemóvel.

Deixa isso, mulher. São só tomates. Plantas outros.

Nem respondeu. Tinha um nó na garganta. Não eram só tomates: era o pequeno sonho que, outra vez, ficava para trás por causa de filhos alheios.

Às cinco, Rita, nem sombra. Às seis manda msg: Estou quase. Às sete, silêncio. Inês liga, telefone desligado.

Às oito, barulho de motor: chega um SUV preto, daqueles que nem parece vir da oficina. Sai Rita, risonha, bochechas rosadas, de saltos altos. Ao volante, um quarentão de cabedal.

Obrigada, Alexandre! acenou. Falamos depois!

O carro foi-se. Rita virou-se, viu Inês à porta.

Olá! Desculpa o atraso. Cruzei-me com um conhecido, deu-me boleia.

Inês apanhou logo o cheiro: vinho e licor, nada de entrevistas.

Então, correu bem a entrevista? perguntou pausadamente.

Hein? Ah, sim, disseram que iam ligar.

E a oficina?

Um segundo de hesitação.

Só para a semana. Tinha muita gente.

Mentira descarada.

Olha, Rita saca do telemóvel, na quarta podes ficar? Preciso de mais uma entrevista.

Não.

Saiu-lhe seco, curto. Rita olhou-a, surpresa.

Como assim não?

Assim mesmo. Na quarta não posso.

Porquê? Estás em casa…

Trabalho em casa. E tenho vida própria.

Rita fez beicinho, já de lágrima no olho.

Inês, tu sabes a fase que eu estou. Duas crianças, sozinha. Pensei que de ti e do Hugo podia esperar apoio. Afinal nem uma tarde…

Apoiei, Rita. Três semanas. Mas não sou ama, nem creche.

O que te deu? a voz dela subiu. Só te peço um bocado. Não são estranhos!

São teus filhos, Rita. A obrigação é tua.

Entrou Hugo, ouviu o fim da discussão, cara feia.

O que se passa aqui?

Rita virou-se de imediato para o mano, fito magoado.

Hugo, a tua mulher não quer ajudar-me. E eu com tudo em cima…

Fez-se a vítima, pronto.

Achava que podia contar convosco. Afinal…

Fez um gesto dramático e marchou para o carro. Ainda gritou da porta:

Tens de ser mais humana, Inês!

Sentou-se no degrau, a ver o telemóvel. Quando chegou o táxi, levou os miúdos e nem um adeus.

Inês ficou diante da porta, um sabor estranho a ficar-lhe entre a culpa e o alívio. Teria sido demasiado dura?

Hugo olhou para o carro a afastar-se, depois para a mulher.

Para quê isto tudo?

Isto o quê?

Ela só pediu como gente, tu…

Estou farta.

Uma semana de silêncio. Depois, Hugo chega do trabalho:

A Rita ligou. Outra entrevista, importante. Deixa lá, vá. Só desta vez, eu prometo. Se passa dos limites, trato eu.

Inês olhou-o. Desgastado, perdido entre a irmã e a esposa.

Pronto. É a última vez.

No dia seguinte, Rita atirou os filhos para dentro, beijos curtos.

Mil obrigadas! Já me esperam!

Porta bateu, ficaram os miúdos e Inês.

À hora do almoço, ela deu por si no Instagram. Perfil da Rita: novo post, café cheio de amigos, um braço masculino em cima dos ombros, copos para todos, legenda: Saudades da vida normal com os amigos!

Postado há vinte minutos.

Tudo ficou claro. Nunca houve entrevistas nem médicos Rita só queria largar aos outros e aproveitar. O ex dela, se calhar, não era assim tão canalha, só estava exausto de ser saco de pancada.

Ligou ao Hugo.

Vem tu ficar com os teus sobrinhos.

O quê? Estou no trabalho.

Ou a tua mãe que venha. Eu não fico mais.

O que se passa?

Vai ao Insta da tua irmã. Vê bem onde ela está. Depois falamos.

Pausa. Suspiro.

Ok, saio mais cedo.

Hugo chegou duas horas depois. Olhou os miúdos, olhou para a mulher.

Vi a foto disse baixo.

E então?

Não sei… Amigos antigos…

Hugo, ela chega sempre alegrezinha. Da última foi um tipo num todo-o-terreno, agora isto. Estás cego?

São meus sobrinhos. Não têm culpa.

E eu tenho? Não são meus filhos, não sou obrigada a criá-los. Queres ajudar, ajuda, mas deixa-me fora!

É minha irmã!

Desfez a família e atirou os filhos para cima de nós para ir à sua vida.

Não digas disparates!

Digo o que vejo. Sempre com conversas: médico, entrevistas. Tudo mentira, Hugo.

Ele calou-se, esfregou a cara.

Pronto disse por fim. Percebi-te.

Rita chegou tarde; os pequenos já dormiam enroscados num cobertor no sofá. Abriu a boca para se queixar do trânsito e do telemóvel, mas Hugo travou-a:

Rita, chega. Não voltas a deixar os miúdos o dia todo e desaparecer. Não somos amas.

Ela olhou para Inês, percebeu tudo.

Foi ela que te virou?

Não. Fui eu que decidi.

Ela bufou, pegou nos miúdos ao colo:

Família, está visto.

Saiu sem agradecer. A porta bateu de abanar os vidros.

De manhã, estavam à mesa, chá e torradas. Telefone toca Mãe no visor.

Hugo atendeu.

Sim, mãe.

Inês captou só bocados a mãe zangada da coluna:

Então, a tua irmã precisa e vocês lavam as mãos? Eu não consigo!

Mãe, nós também temos a nossa vida.

Ah é? Compraram casa, perderam vergonha! Enfim…

Desligou. Hugo pousou o telemóvel, olhou para Inês.

Está chateada.

Percebi.

Pouco falaram depois. Lá fora, o sol batia. Na janela, o vaso vazio das mudas. Inês olhou para ele e pensou: mudaram-se pela paz e sossego. Pela sua casa, pelo seu quintal, por si. Acabaram com as crianças dos outros, os problemas dos outros, e a família a achar que deviam tudo.

Hugo cobriu-lhe a mão com a sua.

Desculpa murmurou. Devia ter cortado isto.

Ela não respondeu; apertou-lhe antes os dedos. Não era vitória nada, a sogra insultada, Rita fula, guerra fria no horizonte. Mas pela primeira vez em semanas, sentiu não só cansaço, mas alívio. Disse não. E ele ouviu.

O resto? Depois se vê.

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Eles Não São Meus Filhos! Ajuda a Tua Irmã se Quiseres, Mas Não À Minha Custa: Ela Acabou com a Família e Agora Quer Impingir-nos as Crianças Para Tratar da Própria Vida — Que casa acolhedora que vocês criaram, mano. Até fico com inveja. Joana passou o dedo pela toalha da mesa, observando a cozinha com ar crítico. Neusa colocou a saladeira na mesa e sentou-se em frente ao marido. Estêvão sorriu para a irmã, sem perceber como a mulher apertava o guardanapo com força. — Demos o nosso melhor. Foram seis meses à procura até encontrarmos algo decente. Para esta casa, venderam o apartamento e mudaram-se para perto da família do Estêvão, numa freguesia sossegada perto do Porto. Quintal próprio, horta, silêncio — Neusa sonhava com isso há três anos. Dois meses antes, o sonho tornou-se real. — Eu é que não consegui segurar a família — suspirou Joana, baixando o olhar para o prato. — Passaram-se três meses e ainda parece um nevoeiro. Acordo de noite, não está lá ninguém. Os miúdos perguntam pelo pai… E eu sem saber o que dizer. Dona Teresa, sentada à cabeceira, estendeu a mão para afagar a filha. — Aguenta, querida, tudo se resolve. O importante é que as crianças estejam bem. O teu ex ainda vai chorar por ter ido embora. O Gil, o sobrinho de quatro anos, escorregou da cadeira e foi correr para a sala. Logo a seguir, ouviu-se uma queda — algo partira-se. — Gil, cuidado! — gritou Joana, sem se levantar. A pequena Alice, de três anos, começou a lamuriar-se ao colo da mãe. Joana balançava-a distraidamente e continuava a conversa: — Pelo menos estão por perto agora. Se não fosse isso, a mãe depois da operação mal se mexe, não tenho quem me ajude. — Olha que mal cheguei cá de táxi — queixou-se Dona Teresa, esfregando o joelho. — Quarto andar sem elevador, a tensão sempre aos saltos. Quase que caía antes de chegar. Tomara eu ter energia para netos… Neusa levantou-se para ir buscar o almoço. No parapeito da janela estavam as mudas de tomateiros — pequenas raízes verdes em copinhos de turfa. Daqui a um mês já podia plantá-los na terra. Primeiros tomates caseiros da vida. — Espero que não levem a mal se um dia ou outro deixar aqui os miúdos… — a voz de Joana apanhou-a na cozinha. — Só mesmo em aperto. Raramente. Preciso procurar trabalho, tratar de papéis do divórcio, ir a médicos… E as crianças? Neusa virou-se. Joana olhava para o irmão com aquele ar meigo que Neusa já conseguia descodificar. Vinte e sete anos, mas sempre a mesma cantiga. Estêvão acenou, solidário. — Claro, Joaninha. Estamos cá para ajudar, não é Neusa? Todos se viraram para ela. Três pares de olhos à espera do sim inevitável. — Sim, claro, quando for preciso — disse Neusa. Joana iluminou-se. — Vocês são os meus salvadores. Prometo que não abuso, só umas horinhas. As visitas saíram perto das onze. Estêvão chamou um táxi para a mãe, ajudou-a nas escadas. Joana acomodou os filhos na velha “Renault” e, acenando da janela, gritou: “Obrigada pelo serão, são os melhores!” Neusa arrumava a mesa, colocava pratos na pia. Estêvão apareceu por trás, abraçou-a e beijou-lhe o cabelo. — Correu bem, não achas? A mãe ficou feliz, a Joaninha já ri. Fizemos bem em vir. — Pois. — Estás cansada? — Um pouco. Neusa não disse o que lhe pesava. “Só quando for mesmo preciso” — esse tipo de promessa ela conhecia bem. Sempre virava “todos os dias, porque é mais fácil assim”. Na semana seguinte, o telemóvel tocou cedo. — Neu, salva-me. Tenho consulta e a mãe não aguenta com os miúdos. É mesmo só três horinhas, juro que passo antes do almoço! Neusa olhou para o portátil, para as tabelas do relatório trimestral. O cliente esperava para sexta-feira. — Joaninha, o relatório está apertado… — Eles portam-se bem, é só ligares a televisão! Por favor, Neu, estou mesmo aflita. Meia hora depois, os miúdos estavam lá. Almoçaram, Joana não apareceu. O resto do dia foi-se arrastando até ao fim da tarde. Estêvão chegou às seis, encontrou os sobrinhos na sala: — Olha que a Joaninha ainda não veio? — Não… prometeu vir ao almoço, mas depois disse que se atrasava. — Não faz mal — encolheu os ombros, tirando uma cerveja do frigorífico. — São da família. Ficam à vontade. Neusa calou-se. O Gil já tinha entornado sumo no tapete, e a Alice tinha ficado sem fraldas — só havia uma no saco. Joana só apareceu perto das nove, fresca, alegre, a cheirar a café. — Desculpa, perdeu-se o tempo. Obrigada, salvaste-me! O relatório Neusa acabou de madrugada, já sem cabeça, com o grito das crianças ainda na cabeça. Quatro dias depois — outra vez. Entrevista importante. Joana aparece às nove, promete buscar às três. Estêvão estava de folga na noite anterior, dormia até ao almoço. Levantou-se, foi para a cozinha. — Ainda aqui andam? — Pois. — Deixa lá, não stresses, eu cá fico. Cá ficou, mas colado ao futebol, enquanto Neusa corria entre miúdos e portátil. Gil chamou duas vezes: “Tio, joga comigo”. “Já vou, agora não posso.” Joana levou-os às oito da noite. À terceira semana já era rotina: três vezes por semana, às vezes mais. Médicos, advogados, entrevistas, amigas. “Só umas horas” acabavam à noite. Uma noite, depois de mais uma maratona: — Estêvão, isto não pode continuar assim. — Então? — Três vezes por semana. Não consigo trabalhar. Franziu o sobrolho. — Neusa, ela está a passar um mau bocado. Ficou sozinha com dois filhos. Temos de ajudar. — Mas diz que vem buscar à hora de almoço e aparece à noite. Não é ajuda, é… — É o quê? Neusa engoliu “abuso” e “calcar-nos”. Olhou-o e calou-se. — A mãe ligou hoje — disse ele. — Diz que a João precisa de tempo. Ficou num oito, nova, vida desfeita. Eu sou o irmão, tenho de apoiar. — E eu? — Tu és a minha mulher, é óbvio. Somos uma família. Neusa desviou o olhar para a janela. Lá fora anoitecia, o parapeito com as mudas esticadas a pedir terra. Ela queria tratá-las no sábado. Discutir era inútil. Na sexta à noite, Estêvão chegou e logo disse: — A Joana ligou. Pediu para ficar com os miúdos amanhã. Tem duas entrevistas e o carro está a precisar de mecânico. Neusa fechou o portátil e olhou-o. — Já falámos disto, Estêvão. Não posso todos os fins-de-semana. — Não sejas assim, é minha irmã. Que custa? Vais estar em casa. — Trabalho em casa. Não fico sem fazer nada. — Então trabalhas enquanto veem desenhos animados. Vai lá. Viu-lhe o rosto cansado, irritado. Calou-se. Sábado ela ia tratar das plantas. Ou ia tentar. — Está bem. Que traga. De manhã, Joana apareceu com vestido novo, cabelo arranjado, maquilhada como para uma festa. — Obrigada, obrigada, são uns anjos! Seis horas no máximo vou buscar. — E o saco? — Já trago! Dois minutos, entra com a mochila quase vazia. — Fraldas, roupa. Obrigada, vou-me atrasar! A porta bateu. Neusa ficou na entrada com duas crianças e o saco. Estêvão estava na garagem, a tratar do carro do vizinho. Ao meio-dia, Gil fartou-se dos desenhos e começou a correr pela casa. Alice choramingava — queria comer, depois água, depois colo. Neusa dividia-se entre os miúdos e a cozinha a tentar fazer almoço. Estêvão entrou por volta das duas: — Está tudo bem? — Preciso tratar das mudas, podes olhar por eles? — Sim, já vou. Ela foi para a horta, começou a plantar. Passados dez minutos, ouviu-se estrondo e choro. Largou tudo e correu. Na sala, Gil estava ao pé do parapeito, vaso estilhaçado, terra espalhada, mudas desfeitas. As que ela cuidara dois meses. — O que se passou? — Subiu ao parapeito, não deu para evitar. Neusa olhava a terra no chão, os caules partidos. — Tia Neu, estás zangada? — Gil olhava assustado. — Não, vai ter com o tio Estêvão. — Deixa lá, são só mudas. Plantas mais. Ela calou-se. Não eram só mudas. Era o sonho dela de paz que adiava por causa dos filhos dos outros. Às seis Joana envia sms: “Atraso-me mais um pouco”. Às sete, silêncio. Neusa liga, está desligado. Pelas oito, ouve um jipe de luxo a chegar. Joana sai, alegre, cheiro a licor. Nenhuma entrevista. Nenhum mecânico. Joana largou os filhos e foi divertir-se. — Então, como correu a entrevista? — Ah, disseram que depois chamam. — E o carro? — Para a semana há vaga. Mentira. — Olha, na quarta pode ser? Preciso de ir a outra entrevista. — Não. Seco, firme. Joana ergueu o olhar. — Como assim? — Não posso. Tenho coisas para fazer. Fez beicinho, olhos húmidos. — Tu sabes o que eu estou a passar. Pensei que vocês me iam apoiar. Nem um dia… — Já apoio há três semanas. Mas não sou ama nem creche. — Que descaramento! Eles não te são estranhos! — Não são meus filhos. São teus. A tua responsabilidade. Estêvão surgiu. — O que se passa aqui? Joana foi logo lamuriar-se. — A tua mulher não me quer ajudar. Só peço um dia. Engoliu em seco, pegou nos filhos e saiu sem agradecer. Neusa ficou a ver as luzes da rua, um misto de culpa e alívio. — Para quê isto tudo? — perguntou Estêvão. — Só disse não. — Ela pediu com jeitinho… Depois — silêncio durante dias. Até que Estêvão aparece: — Joana ligou para mais uma entrevista. Só mais esta vez. — Já chega… — Só desta. Se se atrasar, eu resolvo. Ela acedeu. No dia seguinte, Joana entra, beijos rápidos aos filhos e desaparece. Neusa acabou por espreitar o telemóvel. Foto nova no Facebook: Joana numa esplanada, copos à volta, alguém a abraçá-la. “Saudades da minha vida normal”. Nenhuma entrevista. Telefonou ao Estêvão. — Vem ficar com os teus sobrinhos. — O quê? Estou a trabalhar… — Então chama a tua mãe. Eu não cuido mais deles. — Mas… — Vai ao Facebook da tua irmã. Vê tu. Estêvão chegou, viu as fotos. — Se calhar foi só um lanche… — Ela anda sempre alegre, sai em carros caros, nunca foi a entrevistas nenhumas. Não vês? — São meus sobrinhos, não têm culpa. — E eu tenho? Não são meus filhos. Não tenho de os criar. Se quiseres ajudar a tua irmã, faz tu isso. Mas não à minha custa. Silêncio. Joana chegou tarde, Estêvão travou-a. — Joana, chega. Isto não volta a acontecer. Não largues mais os miúdos aqui para desaparecer. — Ela pôs-te contra mim, foi? — Não, fui eu. Puxou os filhos e foi-se embora. No dia seguinte, telefonema: a sogra. — Então não ajudam a tua irmã? Já não têm coração! — Mãe, temos a nossa vida. — Casa nova, perderam a vergonha! Que bela família… Desligou. Estavam na cozinha, sol na janela, o vaso já vazio. Estêvão apertou-lhe a mão. — Desculpa. Devia ter travado isto antes. Neusa não respondeu. Mas era a primeira vez, em semanas, que sentia alívio. O resto… logo se vê.
Colegas e amigas invejavam Svetlana — ela conquistou um homem mais velho, bem-sucedido e influente. André era quinze anos mais velho do que ela e dirigia a empresa onde trabalhava.