De Empregada a Membro da Família: Quando Aleuvina Decidiu Casar Após os 63, o Filho e a Nora Ficaram em Choque e Não Sabiam Como Reagir ao Novo Recomeço, Enquanto a Nova Vida se Transformava em Uma Rotina de Trabalho e Desilusão na Casa do Marido, Até Que Aleuvina Escolheu Retomar Seu Lugar ao Lado dos Verdadeiros Familiares

Tornei-me uma criada

Quando decidi que ia casar-me, o meu filho, Ricardo, e a minha nora, Margarida, ficaram em choque com a notícia e nem sabiam como reagir.

Tens mesmo a certeza de que estás pronta para mudar assim a vida, nesta idade? perguntou Margarida, trocando um olhar com o meu filho.

Mãe, mas porquê uma decisão tão drástica? Ricardo mostrou-se preocupado. Eu entendo, passaste muitos anos sozinha e dedicou-se quase toda a sua vida à minha educação, mas agora casar não faz sentido.

Vocês são jovens, por isso pensam assim respondi, tentando manter a calma. Tenho sessenta e três anos, ninguém sabe quanto tempo temos neste mundo. E quero usar o tempo que me resta junto de quem amo.

Pelo menos não te precipites com os papéis tentou Ricardo convencer-me com razão. Conheces o Domingos há poucos meses e já vais mudar toda a tua vida.

Na nossa idade não há tempo a perder argumentei. E o que preciso de saber, já sei: ele tem dois anos a mais que eu, mora com a filha e o genro num apartamento bom em Lisboa, recebe uma pensão decente e tem casa na Ericeira.

E onde pensas viver? Ricardo insistiu. Nós moramos juntos, mas não há espaço para mais ninguém cá em casa.

Não se preocupem, o Domingos não quer invadir o vosso espaço; eu vou viver com ele expliquei. O apartamento deles é grande, a filha dele, Célia, simpatizou comigo, são todos adultos e não há motivo para discussões ou conflitos.

Ricardo ficou inquieto e Margarida tentou convencê-lo a aceitar o meu desejo.

Talvez sejamos egoístas admitiu ela. Claro que é conveniente para nós, dependemos da tua ajuda, estás sempre com a Matilde. Mas tens todo o direito de procurar a tua própria felicidade, e agora surgiu esta oportunidade. Não devemos impedir.

Não seria melhor viverem juntos sem casar? Evitávamos confusões e festas desnecessárias murmurou Ricardo. Não quero imaginar a mãe vestida de branco numa boda com bailarico

São de outra geração, deve dar-lhes sensação de segurança Margarida tentou justificar.

Acabei por casar com o Domingos, homem que conheci por acaso numa esplanada do bairro, e mudei-me pouco depois para o apartamento dele. No início tudo parecia perfeito; fui bem acolhida, o marido respeitava-me e finalmente senti que tinha direito a ser feliz nesta fase da vida. Todos os dias eram alegres e a sensação de pertença numa família grande era reconfortante. Só que, em pouco tempo, percebi como a dinâmica ali funcionava.

Não gosta de fazer um arroz de pato hoje ao jantar? sugeriu Célia, a filha de Domingos. Eu fazia, mas estou atolada de trabalho, mal paro em casa, e a dona Leonor tem sempre tempo livre.

Percebi o recado: fiquei responsável pela cozinha. Daí passei a fazer compras, limpar a casa, lavar roupa, e até acompanhar Domingos à Ericeira para tratar do jardim.

Agora que estamos casados, a quinta é território comum disse Domingos. A filha e o genro nunca têm tempo, a netinha ainda é pequena. Vamos tratar de tudo em conjunto.

Aceitei, até gostava de me sentir útil e fazer parte desta família, onde todos se apoiavam. Sentia que o primeiro marido, Francisco, nunca me tinha dado essa felicidade, pois era preguiçoso e desapareceu logo que o Ricardo fez dez anos. Ya passaram vinte anos sem qualquer notícia dele. Por isso, achava tudo certo e as tarefas não me incomodavam.

Oh mãe, que trabalheira essa da quinta para ti! protestou Ricardo, quando soube. Deves chegar a casa exausta, não te faz bem.

Faz, sim, gosto de cuidar das coisas, de mexer na terra respondi, já reformada. Se tudo correr bem, colhemos fruta e legumes até para partilhar convosco.

Mesmo assim, o Ricardo achava estranho que ninguém nos convidasse para jantar ou sequer para um café. Nós chamámos Domingos cá a casa, ele prometeu vir mas nunca aparecia, sempre com desculpa de falta de tempo e energia. Com o tempo desistimos. Só queríamos saber se eu estava feliz.

Durante alguns meses tudo correu relativamente bem, as tarefas até davam algum prazer. Só que começaram a aumentar sem aviso e começaram a tornar-se um fardo. Domingos, mal chegava à Ericeira, agarrava-se logo às costas ou queixava-se de dores no peito. Era eu que carregava os sacos, varria folhas, levava o lixo.

Outra vez feijoada? torceu o nariz António, o genro de Domingos. Ontem já comemos isto. Pensei que hoje seria especial.

Não consegui ir às compras, ainda tive de lavar todas as cortinas e pendurá-las expliquei, exausta. Depois ainda me deu uma tontura e precisei descansar.

Percebo, mas não sou apreciador de feijoada cortou António.

Amanhã a Leonor faz-nos um jantar digno de um rei! logo Domingos prometeu.

E lá estava eu, no dia seguinte, de volta à cozinha desde cedo, para à noite ver tudo desaparecer em meia hora. Arrumei tudo, ficou impecável, mas desde então só ouvia críticas e exigências, e Domingos tomava sempre o partido da filha e do genro.

Não sou mais nova, também me canso, não percebo porque tenho de fazer tudo sozinha desabafei, num momento de frustração.

És minha esposa, portanto cuidas do lar disse Domingos, como quem recita uma obrigação.

Se sou tua esposa, devia ter direitos também, não só deveres chorei.

Depois lá me acalmei e voltei à postura solícita, tentando agradar a todos para manter o ambiente pacífico. Até que num dia, Berta e António iam a um jantar com amigos e decidiram que eu tomasse conta da neta.

Peço que a pequena fique com o avô ou vão consigo, porque hoje tenho de ir visitar a minha neta Matilde disse eu, determinada.

Mas agora temos todos de adaptar-nos às tuas vontades? Berta não gostou.

Ninguém é obrigado, mas também não sou obrigada a fazer tudo por vocês lembrei. Hoje é o aniversário da Matilde, avisei desde terça-feira. Não só ignoraram como ainda querem que eu fique presa aqui.

Assim não pode ser gritou Domingos, furioso. Os planos da Berta vão por água abaixo e a tua neta não perde nada se a felicitares amanhã.

Não perde nada se todos formos visitar os meus filhos juntos, ou então tu ficas com a neta e eu vou e volto insisti.

Já sabia que só podia dar nisto o teu casamento rosnou Berta. Cozinha mal, limpa mal, e só pensa nela.

Achas mesmo isso, depois de tudo o que fiz aqui? perguntei ao Domingos. Diz sinceramente, procuravas mulher ou doméstica?

Não faças isso, agora a culpa é minha? Domingos desviava o olhar. Não armes barraca.

Só pedi que falasses a verdade insisti.

Faz como entenderes, mas na minha casa não admito esse comportamento respondeu Domingos, com ar ofendido.

Assim sendo, demito-me peguei na mala e nos presentes para a Matilde.

Aceitam de volta esta avó descompensada? carreguei tudo até à porta do Ricardo. Casei e voltei, não queiram perguntas, só digam: aceitam ou não?

Claro que sim! Ricardo e Margarida correram para me abraçar. A tua cama está pronta, estamos felizes por ver-te aqui.

Felizes mesmo? quis ouvir eu, aquela resposta tão aguardada.

E por quem mais haveríamos de estar felizes? Margarida sorriu.

Naquele momento senti que era tudo: mãe, avó, sogra, e nunca criada. Sempre ajudei no que estava ao meu alcance e nunca fui explorada ou maltratada. Ali era família, havia respeito e carinho. Pedi a separação e tentei esquecer tudo o que passei. Agora só queria viver tranquila e perto dos meus.

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De Empregada a Membro da Família: Quando Aleuvina Decidiu Casar Após os 63, o Filho e a Nora Ficaram em Choque e Não Sabiam Como Reagir ao Novo Recomeço, Enquanto a Nova Vida se Transformava em Uma Rotina de Trabalho e Desilusão na Casa do Marido, Até Que Aleuvina Escolheu Retomar Seu Lugar ao Lado dos Verdadeiros Familiares
— Não precisas de te sentar à mesa. O teu papel é servir-nos! — declarou a minha sogra. Fiquei de pé junto ao fogão na quietude da cozinha matinal — de pijama amarrotado, cabelo apanhado de qualquer maneira, a cheirar a torradas e café forte. Ao lado, minha filha de 7 anos desenhava espirais coloridas com marcadores, alheada. — Outra vez com esses teus pãezinhos de dieta? — ouvi atrás de mim. Assustei-me. Na porta estava a minha sogra — rosto intransigente, voz sem paciência para desculpas. De robe, cabelo preso num coque apertado, lábios cerrados. — Ontem almocei o que havia! — continuou, batendo a toalha na mesa. — Nada de sopa, nada de comida “normal”. Sabes fazer uns ovos decentemente? Nada dessas tuas modas modernas! Desliguei o fogão e abri o frigorífico. O peito apertou-se-me de raiva, mas engoli em seco. Não à frente da minha filha. E não ali, onde cada centímetro me sussurrava: “Estás aqui de passagem”. — Já vou tratar disso, — disse com esforço, voltando-lhe as costas para esconder a voz trémula. A minha filha não tirava os olhos dos marcadores, mas espreitava a avó com desconfiança silenciosa. “O que é viver com a mãe dele?” Quando o meu marido sugeriu mudarmo-nos para casa da mãe dele, até pareceu lógico. — É só por pouco tempo. Dois meses no máximo. Ficamos mais perto do trabalho e o crédito da casa está quase aprovado. Ela não se importa. Hesitei. Não por conflicto com a minha sogra — dávamo-nos com educação. Mas sabia a verdade: duas mulheres adultas na mesma cozinha… é terreno minado. E a minha sogra era obcecada por ordem, controlo e moralismos. Não houve alternativa. Vendemos logo o nosso apartamento, o novo ainda não estava pronto. Fomos os três para o T2 dela. “Só por uns tempos.” O controlo tornou-se rotina Os primeiros dias foram calmos. Ela até pôs um banquinho para a neta e ofereceu tarte. Mas, ao terceiro dia, vieram as “regras”: — Aqui há ordem — disse ao pequeno-almoço. — Às oito toda a gente de pé. Os sapatos ficam na sapateira. Os produtos combinam comigo. E televisão baixo, tenho ouvidos sensíveis. O meu marido encolheu os ombros a rir: — Ó mãe, é só por uns tempos. Aguenta-se. Acenei em silêncio. Mas “aguenta-se” começou a soar como sentença de prisão. Comecei a desaparecer Passou-se uma semana. Depois outra. O regime apertava. A minha sogra tirou os desenhos da miúda da mesa: — Estorvam. Tirou a minha toalha axadrezada: — Não é prática. Os meus cereais “desapareceram” da prateleira: — Estavam ali há muito tempo, deviam estar estragados. Os champôs também foram arrumados: — Não quero tralha a estorvar. Sentia-me não como hóspede, mas como alguém sem direito a voz ou opinião. A minha comida era “esquisita”. Os meus hábitos, “inúteis”. A minha filha, “demasiado barulhenta”. E o meu marido sempre: — Aguenta. Esta é a casa da mãe. Ela sempre foi assim. Dia após dia, ia perdendo quem era. Da mulher calma e confiante quase nada restava. Apenas adaptação e silêncio. Viver sob regras que não eram minhas Todos os dias acordava às seis, ocupava a casa de banho cedo, preparava papas, despachava a miúda… para não apanhar a “tempestade” da sogra. Ao jantar, cozinhava duas vezes. Uma para nós. E outra “à moda dela”. Sem cebola. Depois com cebola. Depois só na panela dela. Depois só na frigideira dela. — Só peço coisas normais — censurava ela. — Como deve ser, como toda a gente faz. O dia em que me humilhou à frente de todos Uma manhã, mal lavei a cara e liguei a chaleira, entrou ela na cozinha — como se as pessoas não merecessem privacidade. — Hoje vêm cá as minhas amigas às duas. Estás em casa, por isso tratas tu da mesa. Uns pickles, uma salada, qualquer coisa para o chá — só isso. “Só isso” com ela era mesa de banquete. — Mas, eu não sabia… — Vais ao supermercado. Já fiz a lista. Nada complicado. Vesti-me e fui às compras. Comprei tudo: frango, batatas, endro, maçãs para tarte, bolachas… De volta, cozinhei sem parar. Às duas, estava tudo pronto: mesa posta, frango assado, salada fresquinha, tarte dourada. Chegaram três pensionistas, de cabelos arranjados, perfumadas à antiga. Logo na primeira conversa percebi: não era “do grupo”. Era o “serviço de mesa”. — Anda lá… senta-te aqui connosco — sorriu a sogra. — Para nos ires servindo. — Servir-vos? — repeti. — Qual é o problema? Nós somos mais velhas. Para ti não custa. E lá fiquei: com tabuleiro, colheres, pão. “Passa o chá.” “Dá-me o açúcar.” “Já acabou a salada.” — O frango está seco — resmungou uma delas. — A tarte está tostada demais — disse outra. Cerrei os dentes. Sorri. Juntei pratos. Enchi chávenas. Ninguém me perguntou se queria sentar. Ou se precisava respirar. — É tão bom quando há uma dona de casa jovem! — comentou a sogra em tom falso. — Tudo depende dela! E, naquele momento… algo quebrou dentro de mim. À noite, disse a verdade Depois de os convidados saírem, lavei a loiça, arrumei tudo, lavei a toalha. Sentei-me na ponta do sofá com uma chávena vazia entre as mãos. Caiu a noite. A miúda dormia enroscada. O marido, com os olhos no telemóvel. — Olha… — comecei baixo, mas firme. — Eu já não aguento isto. Ele levantou o olhar, espantado. — Estamos a viver como estranhos. Sinto que só sirvo para servir. E tu… tu não vês isso? Não respondeu. — Isto não é lar. É vida de quem se anula e aguenta. Estou aqui com a nossa filha. Não quero aturar mais meses disto. Estou farta de ser invisível. Ele acenou… devagar. — Perdoa-me por não ter reparado antes. Vamos procurar casa. Arrendamos qualquer coisa… mas é nossa. E começámos a procurar nessa mesma noite. O nosso lar – mesmo pequeno O apartamento era minúsculo. O senhorio deixou móveis velhos. O soalho rangia. Mas assim que entrei… senti alívio. Recuperei a voz. — Chegámos — suspirou o meu marido, pousando as malas. A sogra não disse nada. Nem tentou impedir-nos. Não sei se ficou magoada, ou percebeu que exagerou. Passou uma semana. De manhã, acordávamos com música. A filha desenhava no chão. O marido fazia café. E eu sorria ao ver tudo isto. Sem stress. Sem pressa. Sem mais “aguenta”. — Obrigado — disse ele uma manhã, abraçando-me. — Por não teres calado. Olhei-o nos olhos: — Obrigada a ti. Por me ouvires. A nossa vida não era perfeita. Mas era o nosso lar. Com as nossas regras. Com o nosso barulho. Com a nossa vida. E isso era real. ❓E tu, o que farias? Aguentavas “só uns tempos” ou ias-te logo embora na primeira semana?