O Banco Vazio Serafim Rodrigues pousou o seu termo nas pernas e conferiu a tampa para garantir que não vazava. Sentado na ponta do banco junto à entrada da escola, onde os outros avós e pais não circulavam tanto, esperava com o saquinho de migalhas para os pombos num bolso e o papel dobrado com o horário da neta no outro. Ao seu lado, como sempre, já estava o Sr. Nicolau Almeida. Trocavam poucas palavras – cada um sabia que aquela rotina era mais do que hábito. Falavam dos netos com o mesmo cuidado com que partilhavam as sementes ou o chá. E pouco a pouco, tornou-se naquele banco parte dos seus dias – uma segurança, um retalho de companhia. Mas numa manhã de chuva, Serafim chegou ao banco e encontrou-o vazio. A ausência do amigo, que primeiro pareceu atraso, tornou-se inquietação. Procurou notícias junto do vigilante da escola, das mães que passavam, da família do neto do Sr. Nicolau. Descobriu que o velho companheiro estava internado, vítima de um AVC. Serafim tentou enviar-lhe uma mensagem com chá e palavras: “O banco está no lugar. Estou à espera. E logo que possa, levo o chá.” Soube que Nicolau sorriu ao receber a notícia. As tardes passaram e o banco manteve-se vazio, mas Serafim continuou a trazer migalhas para os pombos e a esperar pela neta – agora, com a certeza de que o valor daqueles encontros ultrapassava a simples rotina. O banco vazio tornou-se símbolo de significado, saudade e continuidade.

Banco vazio

Coloquei o meu termo nos joelhos e conferi a tampa tenho mania de ver se não está a verter, mesmo quando já sei que está segura. Sentei-me na ponta mais afastada do banco junto à entrada da escola primária, ali onde os pais não se acotovelam nem me batem com as mochilas. No bolso do casaco estava o saquinho com migalhas secas para os pombos, no outro, uma folha dobrada ao meio com o horário da minha neta quando tem apoio, quando vai à música. Décor tudo de cor, mas ter o papel no bolso acalma-me.

Ao meu lado, como sempre, já estava o Joaquim Fernandes. Segurava um pequeno saquinho de sementes e ia tirando uma atrás da outra, sem sequer olhar. Não as comia, só passava as sementes de uma mão para outra, como se estivesse a contar. Quando me aproximei, ele acenou com a cabeça e chegou-se para o lado, deixando espaço. Nunca trocamos cumprimentos altos, é como se tivéssemos medo de quebrar a ordem do recreio.

Hoje eles têm teste de matemática disse Joaquim, mirando as janelas do segundo andar.

A minha tem leitura respondi eu, surpreendendo-me ao dizer “a minha”.

Gosto que o Joaquim nunca faz troça disso.

Conhecemo-nos sem cerimónias. Primeiro calhou estarmos ali na mesma hora, depois comecei a reconhecê-lo pela maneira como usava o casaco, pelo andar, até pela forma como mexia as mãos. Joaquim chegava sempre dez minutos antes do toque, sentava-se no mesmo banco e olhava sempre primeiro para o portão, como quem verifica se está fechado. Eu ficava de pé, ao início, mas um dia cansei, sentei-me ao lado dele. Desde então, aquele canto passou a ser dos dois.

No pátio da escola tudo era sempre igual, e essa rotina dava-me conforto: o segurança na cabine, que ora vinha fumar, ora voltava para dentro sem nunca levantar os olhos; a professora do primeiro ciclo, que marchava com uma pasta ao peito a falar apressada para o telemóvel: “Sim, sim, depois das aulas”. Os pais discutiam sobre actividades e trabalhos de casa. As crianças corriam para as janelas na hora do intervalo e acenavam cá para baixo. Eu dava por mim a esperar não só pela minha neta, mas por toda aquela repetição.

Um dia, o Joaquim trouxe um segundo copo e colocou ao lado do meu termo.

Eu não bebo, disse ele, como quem pede desculpa. Pressão alta.

Eu posso, respondi, hesitando antes de deitar dois dedos de chá no copo. Quer ao menos cheirar?

Joaquim sorriu de lado.

Cheirar posso.

Esse passou a ser o nosso ritual: eu deitava chá, ele segurava o copo, para não haver derrame, e depois devolvia-me vazio. Às vezes partilhávamos bolachas, outras era só silêncio. Aprendi que o silêncio ao lado do Joaquim não incomoda: é uma pausa numa conversa que vai continuar.

Sobre os netos falávamos com a mesma delicadeza com que se discute o tempo. O Joaquim dizia que o Tiago detestava Educação Física e inventava sempre desculpas para ficar na sala. Eu ria e contava que a minha Leonor corria tanto que a professora implorava que “não galgasse tanto”. Com o tempo, as conversas foram além: Joaquim confidenciou que após perder a esposa, demorou a conseguir sair de casa, e foi a escola que lhe deu um motivo, porque “era preciso”. Não respondi logo com a minha parte, mas naquela noite, enquanto lavava a loiça, dei por mim com vontade de partilhar também.

Vivo com a minha filha e neta num T2 na periferia de Lisboa. A filha trabalha na contabilidade, chega cansada, fala por frases curtas. A neta é barulhenta, barulho de criança, nada ofensivo. Tento ser útil sem atrapalhar. Às vezes penso que sou como uma cadeira a mais na cozinha: não estou no caminho, mas sempre recordo o aperto.

Naquele banco, pela primeira vez senti que esperavam por mim não apenas por necessidade. O Joaquim perguntava: “Como vai a pressão?” ou “Já foi ao médico?”, com verdade. E eu respondia com sinceridade, sem rodeios.

Um dia, Joaquim apareceu com um saquinho pequeno de comida para pássaros.

Os pombos já sabem disse. Veja como vêm ter connosco.

Peguei no saquinho, deitei um punhado de sementes no chão. Os pombos chegaram de imediato, como se tivessem recebido ordem. O barulho das patinhas na areia deu-me conforto: um gesto simples capaz de melhorar o dia de alguém, mesmo que só um pombo.

Aos poucos comecei a contar com aqueles encontros como parte do meu dia. Não era “enquanto a neta está nas aulas”, nem “enquanto tenho tempo”. Era uma rotina que não queria perder. Passei a chegar cedo, para garantir o lugar e ver o Joaquim aproximar-se, tirar as luvas, olhar para as janelas.

Naquela segunda-feira cheguei como sempre, e vi o banco vazio. Fiquei parado, como se tivesse enganado o pátio. O banco molhado ainda tinha um folha amarela colada à madeira. Tirei o lenço, limpei o canto e sentei-me. Pus o termo ao lado, as migalhas no colo. Olhei para a cabine do segurança ele distraía-se no telemóvel, nem reparou.

“Deve ter-se atrasado”, pensei. O Joaquim, às vezes, ficava retido na farmácia. Deitei chá num copo, bebi, esperei. Quando tocou o sinal da saída, ele não apareceu.

No dia seguinte, o banco ainda estava vazio. Já não limpei nada, sentei-me num pedaço seco, com jornal por baixo. Olhava para o portão e seguia cada figura de homem idoso de casaco escuro. Nenhum era ele.

Ao terceiro dia, senti uma espécie de raiva. Não do Joaquim, mas por não ter explicação. Cheguei a pensar: “Pois, então não faz falta”. Depois veio a vergonha. Não tinha direito de cobrar nada. E mesmo assim, cá dentro, exigia.

O Joaquim usava um telemóvel antigo, de teclas. Já o tinha visto procurar números, semicerrando os olhos. O número dele, escrevi-o num bloco uma vez que discutimos como chamar um táxi para um torneio do Tiago. Em casa, liguei. O sinal fez-se ouvir, depois caiu. Repeti, igual.

No quarto dia fui falar com o segurança.

Desculpe, o senhor Joaquim Fernandes tentei explicar avô do Tiago, vinha sempre aqui. Não o viu?

O segurança ergueu os olhos, com ar de quem pedem a senha de computador.

Avôs há muitos respondeu. Não decoro caras.

Alto, de bigode acabei por descrever, ouvindo a minha voz com pena.

Não sei, e voltou ao telemóvel.

Tentei perguntar à mãe que costuma reclamar à porta sobre trabalhos de casa.

Sabe do Joaquim Fernandes?

Eu só quero ir buscar o meu, cortou ela.

Fui à mãe jovem do carrinho, que por vezes me sorria.

Desculpe, conhece o Tiago, da turma 3.º B?

Tiago? pensou. Sim, calminho. Porquê?

O avô deixou de aparecer.

Ela encolheu os ombros.

Se calhar, está doente. Nesta altura, todos ficam.

Regressei ao banco, sentindo a inquietação subir-me à garganta. Tentei convencer-me que não me dizia respeito. Mas sempre que olhava para o espaço vazio ao lado, sentia que traía algo importante, fingindo normalidade.

Em casa contei à minha filha enquanto cortava os legumes.

Pai, há tanta razão para deixar de vir. Pode ter ido à terra.

Teria avisado, disse eu.

Não faças filmes, suspirou. Olha pela tua pressão.

A Leonor ouviu, com o caderno à frente.

O avô Joaquim? Ele é engraçado. Uma vez disse que leio mais rápido do que ele pensa.

Sorri, e o sorriso doeu.

Vês? Ele deve ter coisas a fazer.

Assenti, mas à noite não consegui dormir. Ouvi a minha filha ao telefone na sala ao lado. Quis levantar-me e tentar ligar ao Joaquim outra vez, mas temi ouvir uma voz estranha ou o silêncio.

No dia seguinte, enquanto esperava, vi o Tiago sair da escola por último, a mochila maior que ele. Ao lado, uma senhora de cabelo curto, com ar sério, que percebi ser a mãe.

Demorei a abordar. Deixei-os andar um pouco, depois aproximei-me.

Desculpe, é mãe do Tiago?

Ela olhou de lado.

Sim. Quem é?

Eu esperava com o seu pai, o Sr. Joaquim. Eu sou o Manuel Ramos. Ele deixou de vir, fiquei preocupado.

Ela mediu-me com o olhar, pensativa.

Está no hospital disse por fim. Teve um AVC. Não é grave quer dizer, está estável. Tiraram-lhe o telemóvel para não perder.

Senti as pernas a fraquejar. Apoiei-me à alça da mala.

Onde está?

No Hospital Municipal, ali na Avenida dos Pinheiros. Mas não deixam entrar qualquer um, entende?

Entendo, disse eu, sem saber como se pode proibir entradas a quem está só.

Obrigada por perguntar, disse ela, mais suave. Ele vai gostar de saber que se lembraram.

Pegou no Tiago e foram embora. Fiquei parado à porta. Senti alívio por haver resposta, mas outra preocupação com a gravidade do motivo.

Cheguei a casa, contei outra vez à filha, que franziu o sobrolho.

Não vais meter-te nisso, avisou. Ainda te inscrevem a tomar conta dos outros. E afinal, o que te liga a ele?

O que ouvi não foi zanga, foi medo: medo de que eu arranjasse mais uma preocupação que me tirasse o chão.

Nada, admiti. Mas mesmo assim.

No dia seguinte, fui ao centro de saúde onde costumo fazer análises. Lá lembro-me de ter visto o contacto da assistente social num cartaz. O cheiro a lixívia, gente com papéis, protestos na recepção. Tirei senha, esperei.

A senhora ouviu-me, muito séria.

É familiar?

Não, respondi com verdade.

Então não posso dar informações, disse. Dados pessoais.

Não peço diagnósticos, disse eu, a voz a falhar. Queria deixar uma mensagem. Ele está sozinho, entende? Encontrávamo-nos todos os dias.

Compreendo, admitiu. Pode deixar recado com a família, ou junto à enfermaria, se o deixarem. Sem consentimento, não posso.

Saí para o corredor, sentei-me no banco. Senti-me envergonhado, como quem pede esmola. Pensei: “Pronto, sou só um velho ridículo a meter-se onde não deve.” A vontade era ir para casa e esquecer a escola.

Mas lembrei-me de Joaquim a segurar o copo de chá, do saco das sementes que me dava sem dizer nada. Pequenos gestos que tornavam o dia mais leve. Percebi que agora era a minha vez de fazer alguma coisa.

Fui ter com a mãe do Tiago à escola, pedi o contacto. Hesitou, mas viu a minha insistência e ditou o número.

Mas sem invenções, avisou. Aquilo tem regras.

Liguei à noite.

Fala Manuel Ramos. Gostava de deixar umas palavras ao Joaquim. Pode?

Ouvi pausa.

Agora fala pouco, disse ela. Mas ouve. Amanhã vou visitar. O que digo?

Olhei para o bloco de notas, onde tinha escrito coisas que agora me pareciam estranhas.

Diga que o banco está lá. Que espero por ele. Que o chá levo quando puder.

Direi, respondeu.

Fiquei tempo sentado na cozinha. A filha lavava loiça, fingia não ouvir, depois pousou o prato e disse:

Pai, se quiseres, vou contigo quando deixar.

Assenti. Não me interessava o acto, mas que ela disse “vou contigo”, e não “não faças isso”.

Uma semana depois, a mãe do Tiago voltou junto a mim, na escola.

Ele sorriu quando falei do banco contou. E fez sinal com a mão, como quem chama. O médico diz que vai demorar a recuperar. Depois, talvez venha viver connosco. Já não o deixamos sozinho.

Senti o vazio instalar-se. Soube que aqueles encontros não voltariam a ser diários. Ficou um espaço frio, como a ausência de um casaco no cabide.

Posso escrever-lhe uma carta?

Pode, respondeu. Mas curta. Custa-lhe ouvir por muito tempo.

Em casa, peguei uma folha limpa. Escrevi grande: “Joaquim Fernandes, estou aqui. Obrigado pelo chá e pelas sementes. Espero por si quando puder sair. Manuel Ramos”. Acrescentei: “O Tiago está forte.” Revi, não quis mudar nada. Dobrei e pus num envelope, escrevendo o apelido que sabia, pois Joaquim uma vez mostrou o recibo da água, reclamando do valor.

No outro dia, levei o envelope à escola e confiei à mãe do Tiago. Envelope seco, limpo, segurava-o como se fosse coisa frágil.

Quando tocou a campainha e os alunos saíram ao pátio, ergui-me como sempre. A minha neta correu-me ao abraço, a falar animada dos trabalhos. Ouvia, mas vigiava do canto do olho o banco. Vazio. Só que daquela vez, o vazio não doeu. Tinha-se tornado lugar importante, mesmo que a rotina antigo não estivesse lá.

Antes de sair, tirei o saco das migalhas do bolso e espalhei no chão. Os pombos vieram rápidos, como se conhecessem o horário melhor que as crianças. Olhei para eles e pensei que já podia vir não só esperar, mas não me fechar para o mundo.

Avô, porque estás tão quieto? perguntou a Leonor.

É nada, respondi, pegando-lhe na mão. Vamos. Amanhã voltamos.

Disse-o não prometendo a ninguém, mas como decisão para mim. E, de repente, os passos fizeram mais sentido.

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O Banco Vazio Serafim Rodrigues pousou o seu termo nas pernas e conferiu a tampa para garantir que não vazava. Sentado na ponta do banco junto à entrada da escola, onde os outros avós e pais não circulavam tanto, esperava com o saquinho de migalhas para os pombos num bolso e o papel dobrado com o horário da neta no outro. Ao seu lado, como sempre, já estava o Sr. Nicolau Almeida. Trocavam poucas palavras – cada um sabia que aquela rotina era mais do que hábito. Falavam dos netos com o mesmo cuidado com que partilhavam as sementes ou o chá. E pouco a pouco, tornou-se naquele banco parte dos seus dias – uma segurança, um retalho de companhia. Mas numa manhã de chuva, Serafim chegou ao banco e encontrou-o vazio. A ausência do amigo, que primeiro pareceu atraso, tornou-se inquietação. Procurou notícias junto do vigilante da escola, das mães que passavam, da família do neto do Sr. Nicolau. Descobriu que o velho companheiro estava internado, vítima de um AVC. Serafim tentou enviar-lhe uma mensagem com chá e palavras: “O banco está no lugar. Estou à espera. E logo que possa, levo o chá.” Soube que Nicolau sorriu ao receber a notícia. As tardes passaram e o banco manteve-se vazio, mas Serafim continuou a trazer migalhas para os pombos e a esperar pela neta – agora, com a certeza de que o valor daqueles encontros ultrapassava a simples rotina. O banco vazio tornou-se símbolo de significado, saudade e continuidade.
Let letecký spoj meškal dva dni. Vrátila sa domov skôr… Vrátila sa, počula ženský smiech a pochopila, že jej pokojný prístav už niekto obsadil.