A minha nora zangou-se comigo por causa do apartamento e começou a pôr o meu filho contra mim

A minha nora anda aborrecida comigo por causa do apartamento e agora faz questão de pôr o meu filho contra mim.

O meu filho foi arranjar uma rapariga que o leva a dançar conforme a música dela. Ultimamente, tem-lhe metido ideias na cabeça e, claro, começa a virar-se contra mim. Segundo ela, só penso em mim e não quero saber da felicidade deles tudo porque recusei trocar de apartamento.

O meu marido já partiu há uns anos, e o meu filho é o meu único rapaz. Criei-o com todo o carinho e cuidado, dei-lhe uma boa educação e tudo a que tinha direito. Antes de casar, morava connosco. Começou a trabalhar ainda na faculdade e, mal se licenciou, arranjou logo um emprego decente.

O meu filho é o meu orgulho! Sempre me saiu um rapaz jeitoso e trabalhador. O que é certo é que eu e o meu marido nunca conseguimos comprar-lhe um apartamento, porque a nossa vida sempre foi feita com um orçamento contado. Só conseguimos comprar um T2 para nós quando já íamos nos quarenta anos; antes disso, foi sempre a alugar, por isso nunca houve dinheiro que chegasse para mais apartamentos. Mas ora, tal como nós conseguimos começar do zero, também ele pode!

Quando o Martim me contou que estava a namorar com uma rapariga, fiquei felicíssima. Sempre quis dar-me bem com a nora nunca fui de armar confusão ou de fazer cara feia. O que eu queria mesmo era ver o meu filho feliz. Ao princípio, a Mariana pareceu-me bem toda simpática, educada e muito recatada, diga-se. Mas mal se casaram, começou o festival.

Foram de lua de mel, tudo muito bonito, mas, ao voltarem, a Mariana despede-se do trabalho! Diz ela que levava sempre nas orelhas dos chefes e que queria um emprego melhor. Conversa fiada, pensei eu parecia mais era que não queria era trabalhar!

Entretanto, a Mariana já vai para dois anos a viver às custas do Martim, sem fazer tenção de arranjar emprego. Juntaram-se no T1 dela, lá nos arredores de Lisboa. E, como ela se limita a ir dos salões de beleza para as lojas, o ordenado dele mal chega para pagar as contas! Ela derrete os euros todos em cremes e vestidos daquela loja que há no Chiado “à última moda”.

Nem consigo perceber como é que uma alma, em dois anos, não arranja trabalho. Deve ser profissional em entrevistas imaginárias Acho que gosta mesmo é de estar ali de pernas para o ar, à espera da mesada.

Certa vez perguntei-lhe se pensavam em ter filhos.
Só se for para os empilhar! respondeu-me logo. Num T1, nem pensar em crianças!
Bem, podiam ao menos começar a poupar para uma entrada do empréstimo sugeri eu.
A poupar de onde, se a nossa conta parece a travessa do bacalhau no fim do Natal? Mal dá para chegar ao fim do mês! atirou logo ela.

Mordi-me para não lhe responder que se trabalhasse, já tinham amealhado qualquer coisita. Se eles começassem a poupar, é claro que eu ajudava. Aliás, já tenho algum dinheiro posto de lado para uma emergência. Mas assim? Com ela só a gastar, não me apanham a dar um tostão. Ia tudo parar a cremes e sandes no brunch.

Agora, anda a falar muito dos relógios biológicos e que já era hora de pensar num netinho. Sinceramente, não vejo como criar um filho num estúdio. E pior: o Martim concorda com ela!

Ó mãe, estivemos a pensar Porque é que não trocamos de apartamento? Não é preciso papelada nem nada, fazíamos um troca-troca e pronto. Assim não andávamos preocupados com empréstimos, e para si um T1 chega bem.

Fiquei sem chão. O Martim nunca teria ideias destas sozinho, isso é o dedinho da Mariana, só pode. Disse-lhe que estava habituada àquele bairro, que já tenho as minhas rotinas e, que em árvore velha não se mudam passarinhos.

Mais uns aninhos de trabalho e já lhe damos uns netinhos disse-me a Mariana, a sorrir para o lado.

Recusei logo a proposta generosa. Trocar de casa? Nem pensar! A minha casa é o meu castelo.

Desde então, o Martim ainda tentou convencer-me mais umas quantas vezes, mas cada conversa só serviu para magoar mais ainda. Ele, que sempre foi miúdo honesto, agora armado em malandro, só porque a mulher o espicaça.

Vá, vamos embora, já viste que à sua mãe não lhe interessa nada se temos filhos ou não? Nem se dava ao trabalho de mexer um dedo por nós! ouvi a Mariana dizer da última vez que vieram cá.

Agora, o meu filho deixou de me ligar, não responde às chamadas, e parece que desapareceu! Não percebo esta birra dele. Não é parvo nenhum, mas basta a Mariana estar ao lado, que parece que o cérebro lhe foge para outras bandasPassou-se mais de um mês. A saudade apertava, o silêncio do telefone era ensurdecedor. Dei por mim a arrumar o quarto do Martim, a virar fotografias antigas, a lembrar-me dos serões a fazer bolos, das palmadas suaves acompanhadas de beijos no joelho esfolado. Nessa altura, percebi que estava sozinha, mas pior do que isso: percebi que a teimosia, por mais justa que me parecesse, não valia o vazio no peito.

Num fim de tarde, de joelhos na varanda a dar de comer às plantas, olho para a rua e vejo, ao longe, o Martim e a Mariana de mão dada, a caminhar devagar. Estavam diferentes olheiras mais vincadas, passos hesitantes, mas algo neles me deslumbrou: era a esperança.

Num impulso, desci as escadas e fui ao seu encontro. Parei a meio do passeio, o coração na boca.

Martim… Mariana… chamei, sem voz de mãe zangada, só voz de quem sente a falta.

Eles pararam. O Martim hesitou, mas a Mariana sorriu, cansada.

Podemos subir? perguntou ela.

Subimos. Sentámo-nos à mesa, o local das grandes conversas. Pela primeira vez, não houve acusações, nem recriminações. Ouvi-os como quem escuta uma música desconhecida, e tentei apagar o orgulho da garganta.

Mãe, nunca lhe quisemos tirar nada disse ele, a voz tremida. Procurámos só um modo de começar… juntos, sem medos. Talvez tenhamos pedido mal. Ou esperado demais.

A Mariana pegou-me nas mãos.

Não quero que o Martim escolha entre nós duas, porque ele é melhor do que isso. E eu também posso ser.

Ficámos assim, em silêncio, um trio remendado por mágoas e por tudo o que não dissemos. De repente, senti-me leve, mais leve do que há meses.

Sorri, comovida.

Vocês que procurem a vossa felicidade, da maneira que puderem. Eu só vos quero ver bem. E olhem, um dia, quando esse netinho chegar… há sempre espaço para mais um nesta casa.

O Martim sorriu, os olhos brilhantes. Mariana largou uma lágrima pequena, quase escondida.

Naquela noite, enquanto fechava a porta atrás deles, senti que o laço com o meu filho não era feito de casas ou de metros quadrados, mas de regresso, perdão e recomeço. E, pela primeira vez em muito tempo, adormeci sem ressentimentos pronta para lhes abrir a porta do meu lar, e do meu coração, sempre que precisassem.

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Александър Младенов винаги е смятал, че любовта може да бъде купена с пари.