Lembro-me bem daquele verão distante, quando tudo parecia correr tão calmamente em Lisboa, até que as águas se agitaram por causa de assuntos de família e dívidas inesperadas. A irmã da minha esposa, a querida Beatriz todos a tratavam como o orgulho da família. Em todas as reuniões, fosse em nossa casa, fosse no velho restaurante em Alfama, só se falava nela: a bela estudante que se destacou no liceu, a licenciada brilhante, agora empregada num respeitável ministério lá nos Restauradores. Uma filha de ouro!, diziam sempre os pais.
Já a minha esposa, a mais velha, não chegou sequer a acabar o ensino superior e casou-se cedo comigo. Por sorte minha, naquela altura já eu tinha uma pequena empresa a crescer, um modesto mas confortável apartamento próprio, um carro estacionado à porta, e um vencimento que nos dava sossego. Apesar disso tudo, era sempre Beatriz quem brilhava aos olhos de todos.
Pois bem, nesse verão, Beatriz veio da sua cidade do interior para nos visitar em Lisboa. A certa altura, pediu-me um empréstimo: queria comprar um apartamento, precisava de fazer um crédito e faltava-lhe dinheiro para a entrada. Para mim, aqueles seis mil euros não eram grande coisa eu podia ajudar, claro. Garantiu-me, com a formalidade de quem tem tudo controlado, que assim que o seu ordenado caísse, pagaria o que devia, certinho todos os meses.
Aceitei sem dificuldades. Não podia imaginar que, pouco mais de uma semana depois, Beatriz partisse de malas feitas rumo ao Algarve, onde passou dias de lazer em Portimão, a publicar fotografias a sorrir ao sol. Espantou-me aquela notícia: quem não tinha dinheiro para a entrada de uma casa encontrava, subitamente, fundos para umas férias de luxo à beira-mar?
Contava às tias que tinha estado o ano inteiro a poupar para aquela viagem, mas não escapava àquele detalhe: nunca chegou a dar entrada no tão falado crédito para o apartamento. Quando a confrontei sobre o assunto, encolheu os ombros e disse que afinal mudara de ideias, já não queria comprar nada. Então pedi, calmamente, que me devolvesse o dinheiro, visto que não fora para férias que lho emprestara, mas sim para um lar. Foi com leveza e alguma audácia que me respondeu:
Oh, eu vou ganhar muito dinheiro, podes esperar mais um tempo, agora não tenho nada comigo, ficou tudo no Algarve.
Ali percebi que nunca tencionara comprar apartamento algum. Pedi uma e outra vez, mas o discurso era sempre o mesmo.
O pior de tudo é que virou histórias do avesso quando falou com a sogra: pintou-me como o cunhado sem coração, que exige dinheiro antes do tempo, esquecendo-se de que família é para ajudar, não para cobrar. Assim, os pais renovaram o pedestal da filha mais nova, enquanto nós que só tínhamos querido ajudar fomos vistos de repente como os gananciosos da família. E é desta forma que, recordando agora à distância, percebo como as correntes familiares podem mudar de direção com uma simples maré de Verão.







