Duarte, não quero magoar-te, querido.
Duarte estava sentado no parapeito da janela, olhando para as ruas de Lisboa, mergulhado nos seus pensamentos, enquanto esperava pelo pai. Tinham passado dois anos desde que a mãe o deixara. Arranjou uma nova vida para ela, dissera-lhe o pai, um dia, com uma tristeza que reverberava no silêncio da casa. Por que razão o deixara? Ninguém sabia ao certo. Para Duarte, as respostas pareciam esconder-se entre as sombras dos corredores. Aos poucos, foi aprendendo a esquecer.
O pai fazia tudo para compensar a ausência. Duarte tinha já dez anos era um miúdo crescido, perspicaz, e as mentiras tinham deixado de fazer sentido. Aos poucos, aprendera a lavar a loiça, a arrumar as suas coisas e deixara de brincar com brinquedos a infância parecia-lhe cada vez mais distante.
Agora, quase um homem, sentia-se tremendamente sozinho. Secretamente, sonhava em ter um cão queria um amigo fiel. Mas o pai negava sempre o pedido:
Quem vai cuidar dele, Duarte? Eu passo o dia a trabalhar, tu andas na escola e ainda és demasiado novo para tanta responsabilidade.
Em vez de um cão, numa tarde luminosa, o pai levou para casa uma mulher. Chamava-se Beatriz. Passou a viver com eles. Duarte esforçava-se por ignorá-la. Parecia-lhe um corpo estranho, uma peça deslocada. Mas o pai chamava-lhe esposa e sonhava que o filho voltasse a ter uma mãe.
Não preciso dela! disse-lhe Duarte com uma franqueza gélida. Assim seguiram, dia após dia: o pai sorria com Beatriz, trocavam carinhos, riam-se juntos. A cada riso, Duarte sentia um nó no peito um desconforto surdo, pesado.
Pai, quero que ela se vá embora.
Duarte, eu quero que fique. A vida sem uma mulher sem uma esposa, sem uma mãe é demasiado difícil para nós.
Chegaram os dias quentes do verão. Duarte corria pelo bairro com os amigos, até que começaram a sussurrar rumores assustadores:
Ouviste? O teu pai e a madrasta vão meter-te num colégio interno ou, pior, num lar de órfãos.
O medo colou-se-lhe à pele. Afinal, por que razão não o abandonariam? Talvez quisessem outro filho e ele, Duarte, fosse apenas um estorvo. Tomou a decisão de se preparar para o pior.
Um dia, entreaberta a porta da sala, ouviu um fragmento de conversa: Vai ser melhor para ele, devíamos mesmo enviá-lo.
Foi quanto bastou. Passou a noite em claro, o estômago embrulhado, até tomar uma decisão drástica precisava de se livrar de Beatriz. Começou com pequenas provocações: punha demasiado sal no chá dela, deixava o fogão aceso sob uma frigideira vazia, respondia com arrogância. Beatriz percebeu a origem das provocações e, um dia, chamou-o:
Temos de conversar, Duarte. Vejo que estás zangado.
Não estou a ver do que falas tentou iludir-se.
Duarte, não quero magoar-te, querido
Beatriz fez uma pausa, com um suspiro. Alugámos uma casa na Costa da Caparica para passarmos parte do verão. Queríamos fazer-te uma surpresa mas acho que está na altura de sermos sinceros. O teu pai encontrou um cão, vamos buscá-lo hoje. Gostavas de vir connosco?
Não estás a mentir? Duarte ficou boquiaberto, súbito com os olhos marejados. Atirou-se nos braços dela, abraçando-a com toda a força acumulada por meses de medo.
Beatriz quase desabou em lágrimas: Então vá, meu amor, está tudo bem agora. Não precisas chorar mais. E afagou-lhe o cabelo com ternura.
Quando o pai regressou do trabalho, partiram juntos para buscar o cachorro. Duarte sentiu, pela primeira vez, o rancor diluir-se em esperança. Já não via Beatriz como um inimigo. Reconciliaram-se. O cãozinho adormeceu nos braços de Duarte, embalado. A casa encheu-se finalmente de alegria.







