O Inverno de 1987 em Portugal: Não se falava nas temperaturas, mas nas filas intermináveis das mercearias. A neve era intensa, mas a cidade despertava antes dela. Às cinco da manhã, diante do Minipreço do bairro, as luzes ainda apagadas e a fila já formada. Ninguém sabia ao certo o que ia chegar — diziam que vinha carne e leite. Garrafas vazias nas sacolas, sobretudo grossos, rostos cansados, esperavam em silêncio, como se fizessem aquilo há uma vida. Maria, aos 38 anos, operária de têxteis, foi a sexta a chegar, levantou-se às quatro e meia, bebeu café à pressa, saiu de casa sem fazer barulho, deixando o marido adormecido com a esperança de que houvesse algo extra na mesa. As listas faziam-se em papéis, mantinham-se as posições, repartia-se chá, partilhavam-se piadas secas, ninguém se queixava alto. No meio da fila, Maria avistou dona Valéria, viúva recente, frágil, encostada ao frio, e ofereceu-lhe o seu lugar. O gesto percorreu a fila, respeitado por todos. O tempo passou; avisaram que leite e ovos só chegavam para os doze primeiros. Maria sabia que ficaria sem nada, mas sentiu alívio por dona Valéria garantir o essencial. Quando só restou uma última porção, decidiram partilhar — e a funcionária, comovida, encontrou mais um pouco para cada uma. Saíram unidas para a neve, silenciosas, mas vistas por todos. Naquelas filas, em anos difíceis, o mais importante não era a comida, era o calor humano. Se esta história lhe trouxe memórias, partilhe nos comentários: algumas histórias só pedem para ser continuadas.

O inverno de 1987 foi um daqueles invernos de que ninguém fala pelas temperaturas, mas pelas filas intermináveis. A neve era pesada, mas Lisboa ainda assim acordava sempre mais cedo. Às cinco da manhã, em frente ao supermercado do bairro, as luzes permaneciam apagadas, e já existia uma fila longa de pessoas.

Ninguém sabia ao certo o que trariam naquela manhã. Diziam, à boca pequena, que talvez viesse carne ou leite. As pessoas chegavam com garrafas de vidro vazias nos sacos de pano, com sobretudos grossos, e caras marcadas pelo cansaço. Dispunham-se fila fora, uns atrás dos outros, calmamente, como se aquela rotina fizesse parte da vida desde sempre.

Custódia chegara em sexto lugar. Tinha trinta e oito anos e trabalhava numa fábrica de roupa perto do Intendente. Pôs o despertador para as quatro e meia, bebeu um café à luz da cozinha e saiu do prédio sem ruído. Em casa ficou o marido, a dormir ainda, na esperança de que nesse dia houvesse algo mais para pôr à mesa.

A fila engrossou num instante. Alguém passou uma folha rasgada, fizeram-se listas de nomes apressados. Uns lembravam-se do seu lugar outros corriam a casa e voltavam logo. Partilhava-se chá quente de um velho termo, voavam piadas secas para animar o tempo. Queixar-se, ninguém se queixava em voz alta. Não adiantava nada.

Por volta do meio da fila, Custódia reparou nela. Estava encostada à parede do prédio, braços cruzados sobre peito, batendo os pés para espantar o frio. Pequena, com um lenço cinzento atado sob o queixo e um sobretudo gasto, demasiado fino para aquele gelo. Tremia, o saco pendendo-lhe da mão.

Era a Dona Violeta.

Custódia reconheceu-a de imediato vivia uns prédios à frente. Ficara viúva havia dois meses, o marido partira de repente e, desde então, mal era vista na rua. Agora, ali estava, quieta, sem dizer palavra, com os olhos postos no chão.

Dona Violeta! chamou Custódia.

A velha senhora levantou a cabeça devagar, surpresa pela voz conhecida. Sorriu quase sem força.

Custódia olhou o lugar dela na fila décima quinta. Depois olhou de novo para Dona Violeta.

Venha comigo para a frente, fique aqui no meu lugar. Com este frio não pode ficar aí atrás, Dona Violeta.

A idosa esboçou um protesto, mas Custódia já lhe abria espaço. Ninguém estranhou, alguém murmurou deixe, filha. Dona Violeta tomou o lugar de Custódia à frente, que por sua vez foi para o fim da fila.

Passaram quase quarenta minutos nisso. A fila avançava devagar. Quando finalmente abriram as portas do supermercado, a notícia caiu sem delicadezas: havia leite e ovos só para os primeiros doze.

Custódia fez as contas num segundo. Não ia chegar a tempo de nada daquela vez. Sentiu só um leve consolo pelo menos Dona Violeta, que agora estava cá na frente, ia levar alguma coisa para casa.

Onde vai? Volte já! Este lugar era seu, menina! Eu sou velha, pouco preciso. Não pode ir de mãos a abanar! gritou-lhe dona Violeta.

Não se preocupe, Dona Violeta. Deixei-lhe o lugar de coração. Hei de desenrascar-me quando vierem mais mantimentos.

Menina, venha cá para a frente. Eu vou-me embora, não fico cá mais!

As pessoas na fila olhavam para elas, admirados era raro ver gestos destes quando a barriga ronca de fome. A bondade parecia estar a desaparecer dos dias normais.

Custódia foi ter com ela, surpresa também pela insistência. Agarrou-lhe o braço num gesto inesperado.

Fique, Dona Violeta. Esperamos juntas. E depois dividimos o que houver. Mas não vai para casa sem nada.

A velha não respondeu. Fez um gesto de cabeça. Aproximaram-se, mais para aquecer do que por outra coisa. Ali estavam, duas mulheres pequenas, de braço dado, enquanto a fila ia avançando.

Quando chegaram ao balcão, restava apenas uma ração: leite, uns poucos ovos e um pedaço pequeno de carne. Custódia pronunciou-se logo:

Dividimos.

A senhora do balcão olhou bem para elas para as mãos vermelhas do frio, para a maneira como a idosa se encostava à Custódia, quase como mãe e filha. Ficou uns segundos calada. Empurrou a balança, baixou um pouco o estore, para que ninguém visse lá atrás. Então, retirou uma última garrafa de leite, guardada de reserva para qualquer eventualidade. Colocou-a, sem dizer palavra, no saco velho de Dona Violeta, depois repartiu o naco de carne ao meio, metendo um pedaço em cada saco e atou tudo com jeito.

Assim fica melhor murmurou. Chega para as duas.

Custódia tentou agradecer mas não conseguiu dizer nada. Dona Violeta baixou os olhos e murmurou um Deus lhe dê saúde, quase impercetível no ruído das compras.

A empregada da loja acenou-lhes.

Vão lá, que já estiveram demais ao frio.

Saíram sem olhar para trás. Caía uma neve miúda. A fila adelgaçara. Os que tinham assistido à cena calavam-se, mas guardavam-na na memória.

Esta história não foi conhecida por muitos. Ficou com aqueles que ali estiveram, naquela manhã gelada, numa fila igual a tantas outras dos supermercados de Lisboa. Circulou, mais tarde, de boca em boca, simples, sem floreados. Sabes o que se passou uma vez na fila? Assim começavam as histórias. Ninguém fazia disso grande espetáculo. Eram só recordações.

Porque, nesses anos, as filas não serviam só para esperar comida. Serviam para nos lembrar que éramos pessoas. Porque nos olhávamos nos olhos, segurávamos o lugar uns aos outros, cedíamos espaço a quem tinha mais frio ou mais anos. Porque, do pouco de cada um, nascia um quase normal.

A história da Custódia e da Dona Violeta é só uma entre muitas. Houveram outras assim, tantas filas, tantas manhãs frias. Nem todas acabaram bem. Mas bastaram o suficiente para ficar na memória.

Porque, no meio da escassez, o que nunca falta é a humanidade.

Hoje, ao recordar isto, percebo: às vezes, basta dar um pouco de nós, mesmo quando tudo parece pouco, para acender um lume no inverno dos outros. Essa foi a lição daquele dia.

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O Inverno de 1987 em Portugal: Não se falava nas temperaturas, mas nas filas intermináveis das mercearias. A neve era intensa, mas a cidade despertava antes dela. Às cinco da manhã, diante do Minipreço do bairro, as luzes ainda apagadas e a fila já formada. Ninguém sabia ao certo o que ia chegar — diziam que vinha carne e leite. Garrafas vazias nas sacolas, sobretudo grossos, rostos cansados, esperavam em silêncio, como se fizessem aquilo há uma vida. Maria, aos 38 anos, operária de têxteis, foi a sexta a chegar, levantou-se às quatro e meia, bebeu café à pressa, saiu de casa sem fazer barulho, deixando o marido adormecido com a esperança de que houvesse algo extra na mesa. As listas faziam-se em papéis, mantinham-se as posições, repartia-se chá, partilhavam-se piadas secas, ninguém se queixava alto. No meio da fila, Maria avistou dona Valéria, viúva recente, frágil, encostada ao frio, e ofereceu-lhe o seu lugar. O gesto percorreu a fila, respeitado por todos. O tempo passou; avisaram que leite e ovos só chegavam para os doze primeiros. Maria sabia que ficaria sem nada, mas sentiu alívio por dona Valéria garantir o essencial. Quando só restou uma última porção, decidiram partilhar — e a funcionária, comovida, encontrou mais um pouco para cada uma. Saíram unidas para a neve, silenciosas, mas vistas por todos. Naquelas filas, em anos difíceis, o mais importante não era a comida, era o calor humano. Se esta história lhe trouxe memórias, partilhe nos comentários: algumas histórias só pedem para ser continuadas.
Тя ми каза, че не ми е мястото на Софийската Седмица на модата — но аз бях причината всички да са там