O quarto do hospital deixava-me inquieta e irritada. Tapei os ouvidos com as mãos para não ouvir o choro insuportável dos recém-nascidos no quarto ao lado. Só desejava fugir dali o mais depressa possível e esquecer aquele pesadelo para sempre…
Mariana, querida, ao menos olha para ela! pedia a velha parteira, tia Amélia. É igualzinha a ti, parece moldada a papel químico!
Não! Por favor, não insistam. Já disse que não quero. Escrevi a declaração, não escrevi? O que mais querem de mim? desabafei quase a chorar. Não tenho para onde ir com ela, percebe? Não posso!
Calma! Vais assustar o bebé. Como assim, não tens para onde ir? És sem-abrigo? apertou os olhos tia Amélia. Tens mãe, pai?
Tenho, sim, uma mãe muito idosa que já precisa de ajuda. Nem consigo aparecer lá na aldeia com uma criança. Vão gozar comigo.
Que se riam enquanto podem! Só faz bem, anima a aldeia! sorriu tia Amélia. Mas a sério, eles um dia esquecem, mas tu nunca vais esquecer que abandonaste essa menina, vais arrepender-te o resto da vida!
Agarrei o rosto nas mãos e chorei em silêncio. Amélia percebeu que eu estava quase a ceder, faltava tão pouco…
Olha bem! O narizinho dela é igual ao teu, redondinho, e os olhos, vê-se logo que vai ser uma menina lindíssima, de olhos claros, como a mãe.
Mas eu nem fraldas tenho. E como é que volto para casa com ela, se nem dinheiro para o bilhete me resta? comovi-me, baixando as defesas.
Isso resolve-se! O hospital tem um fundo, arranjamos o que for necessário. Eu própria levo-te à estação. E então? Já pensaste no nome da tua filha?
Leonor
Lindo nome! Fica-lhe mesmo bem. Pega nela, dá-lhe de comer, eu venho daqui a pouco.
Tia Amélia, quase sem respirar, entregou-me a bebé nos braços. Peguei nela com uma delicadeza incerta, com as lágrimas a escorrerem-me pela cara. Ao senti-la junto ao peito, percebi que nunca seria capaz de a abandonar.
Então? Resolveu-se? perguntou a médica. Vai desfazer a declaração?
Sim! respondeu sorrindo tia Amélia, limpando uma lágrima.
Na plataforma da estação, parecia que acordava de um pesadelo. Segurava a Leonor contra o peito, como se temesse que ma levassem. Ao lado, Amélia fazia-me companhia como tinha prometido.
Obrigada! Que vergonha do que pensei fazer, confessei, baixinho.
A tua vida não está fácil, mas os maus tempos passam e uma filha é para sempre Eu própria cometi um erro que nunca se apaga, desabafou Amélia, olhando para longe.
Que erro, tia Amélia? Sempre pensei que fosse um anjo.
Tive uma situação como a tua, mas nem mãe, nem casa tinha. Tentei acabar com a gravidez indesejada fui a uma curandeira, não resultou bem. Fiquei estéril para sempre.
Não havia mesmo nada a fazer? perguntei, perplexa.
Não, abanou a cabeça. O meu marido era bom homem, mas também me deixou, quando soube que nunca iríamos ter filhos…
Que pena, tia e com tantos bebés nas tuas mãos e nenhum para acolher.
Mariana, cuida bem da Leonor. Lembra-te, se um dia precisares, sabes onde me encontrar.
Abraçámo-nos, como se já fôssemos família. O comboio apitou ao longe. Fiquei a acenar da janela até já não ver tia Amélia, ela ali sozinha no cais, a limpar as lágrimas que lhe fugiam.
A viagem de regresso foi longa e pesada. Cheguei junto ao portão de casa, segurando Leonor com uma mão e um grande saco com as roupinhas que me tinham dado no hospital. «E agora, como será que a mãe vai reagir?» perguntava-me, cheia de medo.
Mariana? És tu, rapariga? ouvi da vizinha, Dona Rosa, espreitando pelo portão.
Sim, Dona Rosa. A mãe está em casa?
Não sabes nada? surpreendeu-se. Vai para meio ano que a tua mãe faleceu
Talvez tenha sido melhor assim, que a mãe não tenha vivido para ver tamanha vergonha O bebé é teu? apontou para Leonor.
É, sim senhora! respondi, firme.
De pernas a tremer, entrei no pátio. Vontade de gritar e chorar de dor e desespero. Mas tinha Leonor nos braços. Não podia perder a cabeça, precisava de pensar primeiro nela. «Calma, filha, agora somos duas, e juntas vamos conseguir», disse-lhe, aconchegando-a com força.
***
Dez anos passaram. Era quase Natal. Andava a correr pela cozinha, enquanto a Leonor olhava, pensativa, pela janela, para o jardim coberto de geada.
Mamã, porque não tenho avó? As minhas amigas visitam sempre as avós e avôs no Natal. Trazem presentes, fazem bolos, ficam sempre tão contentes por ir lá queixou-se.
Infelizmente, a nossa avó já cá não está. Nem chegou a conhecer-te, filha respondi, num tom triste.
E a outra avó?
Qual outra, Leonor? perguntei, surpreendida.
Ora, toda a gente tem duas avós! insistiu.
Hum Bem, se calhar tens razão. Sabes, há uma senhora muito boa que te viu nascer, quase como avó. Trabalha no hospital. Que dizes de lhe fazermos uma visita e levar uns bolinhos? sorri, lembrando-me da tia Amélia.
Assim foi: no dia seguinte, partimos para a cidade. No hospital, pedi para chamar a tia Amélia, a parteira.
Ela já se reformou! informou a enfermeira. Teve de sair por motivos de saúde.
Que pena! Viemos de tão longe para a ver, será que me pode dar o contacto dela? pedi.
Isso não posso. E quem é você para a Amélia? perguntou desconfiada.
Sou sobrinha, menti, percebendo que se dissesse a verdade não conseguiria nada. Há tanto tempo que não a vejo, perdi o endereço Por favor, ajude-me insisti.
Se faz favor, queremos muito conhecer a avó pediu a Leonor, com olhos tristes.
Pronto, vou ver o que consigo.
Pouco depois, a enfermeira voltou com um papelinho. Deu-nos o endereço e pediu para darmos cumprimentos à tia Amélia.
Vamos dizer, sim senhora! agradeci, muito feliz.
Apanhámos um táxi. Subimos ao terceiro andar com o coração apertado: «Que não seja tarde demais». A porta abriu-se logo. Tia Amélia estava lá, para nossa felicidade, ainda cheia de vida.
Boa noite! cumprimentei, sorrindo.
A senhora analisou-nos bem, com ar intrigado.
Mariana?! exclamou, quase sem voz.
Sim! Como está? Não mudou quase nada! Esta é a Leonor, lembra-se?
Claro que sim! riu tia Amélia. Entrem, minhas queridas!
Meia hora depois, sentadas à mesa, conversávamos animadamente. Tínhamos tanto para contar uma à outra. Leonor brincava com o gato no sofá, vendo desenhos animados.
Fiquem comigo, Mariana. Estou sozinha, e vocês também pediu tia Amélia meigamente. A Leonor pode ir para uma boa escola e tu arranjas trabalho.
Não sei Deixar a minha casa custa-me tanto. E se forem vocês para lá? Temos espaço, posso até comprar uma vaquinha, há um ar tão puro, o rio mesmo ali ao lado, o verão é uma maravilha tentei convencê-la.
Talvez! Sempre sonhei ter um quintal, vacas nunca ousava sonhar! riu-se ela, com os olhos a brilhar de esperança.
Está decidido! Vamos todas para minha casa! exclamei, feliz.
Avó Amélia, vais estar sempre connosco agora? Leonor abraçou-a com força.
Sempre, minha menina. Sempre quis ter uma neta assim!
No dia seguinte saímos, nós e as malas, rumo à aldeia. Todas íamos com uma felicidade intensa. Eu, por já não estar sozinha com Leonor e ter junto de nós alguém de coração. Tia Amélia, por finalmente encontrar família, deixando o bulício da cidade para viver num paraíso de verde e paz. E Leonor, radiante, porque agora também tinha a sua avó.







