O meu marido foi visitar os pais alegando que estavam doentes, então resolvi surpreendê-lo e apareci sem avisar…

O meu marido foi ter com os pais “doentes” e eu decidi fazer uma surpresa e aparecer sem aviso…
Todas as manhãs, Leonor acordava ao som da chuva a bater no parapeito e via nuvens cinzentas pela janela. A meteorologia parecia alinhar-se com o seu estado de espírito inquieto, incerto, cheio de suspeitas mal definidas.
Já há três semanas consecutivas que o seu marido, Tiago, arrumava o saco de desporto e anunciava:
Os meus pais não estão nada bem, vou ficar com eles uns dias.
A primeira vez, Leonor compreendeu. A sogra, Maria Rosa, tinha sido operada há pouco tempo à vesícula e o sogro, António Joaquim, queixava-se de pressão alta. Com sessenta e cinco anos, o corpo começa a dar sinais de desgaste.
Claro, vai disse Leonor. Dá-lhes um abraço e diz que estou preocupada também.
Tiago partia sexta à noite e regressava segunda de manhã. Chegava cansado, calado, como se voltasse de um turno pesado. Respondia aos cuidados dos pais com frases curtas:
Estão melhores. Mas ainda fracos.
Mas o que dói à tua mãe? perguntava Leonor.
Dói tudo. É da idade respondia de forma evasiva.
Na semana seguinte, a história repetiu-se.
Estão outra vez mal? estranhou Leonor.
A mãe caiu, magoou-se. O pai está nervoso. Tenho de ir explicou Tiago, enquanto punha camisas lavadas na mala.
Queres que eu vá também? Posso ajudar.
Não é preciso. É tudo muito apertado lá em casa. Fica tu por aqui.
Leonor concordou. Sempre manteve o respeito pela família do marido, sem se intrometer, sem conselhos. Maria Rosa era uma mulher reservada, pouco dada a demonstrações de afeto. Falavam educadamente, mas faltava calor.
A terceira viagem deu-se no fim de semana seguinte.
O que foi agora? perguntou Leonor, observando Tiago a guardar calças de ganga e camisola.
O pai está mesmo mal. A pressão descontrolada. A mãe não se aguenta sozinha.
Chamaram o médico?
Chamaram. Mas já sabes como são os médicos de família agora. Receitaram comprimidos e pronto.
Tiago falava com convicção, mas o tom era demasiado ensaiado, sem emoção de quem teme pelos pais doentes.
Tiago, não era melhor interná-los? Se é assim tão grave?
Não querem, têm medo. Dizem que preferem estar em casa.
Tiago fechou a mala e beijou a mulher na face.
Não te esqueças de mim. Vou tentar despachar-me rápido.
Depois do marido sair, Leonor ficou sozinha com um incómodo crescente. Lembrou-se da última vez que tinha falado com a sogra ao telefone. Fazia um mês, mais ou menos. Maria Rosa tinha ligado para dar os parabéns a uma amiga.
Na altura, a sogra estava animada, quis saber novidades do trabalho da nora, contou como andava a cuidar do jardim. Não houve qualquer queixa de saúde. Pelo contrário Maria Rosa gabava-se do tomate e dos seus planos para o inverno.
Estranho murmurou Leonor, à janela, a ver chover. Se está assim mal, porque não me liga? Antes, sempre avisava quando estava doente.
Na segunda-feira, Tiago regressou ainda mais calado e sombrio.
Como vão os teus pais? perguntou Leonor.
O pai está um pouco melhor. A mãe ainda fraca.
E o que disse o médico?
Que médico? respondeu Tiago, confuso.
O médico de família. Disseste que tinham chamado.
Ah, sim. Mandou vigiar. Se piorar, vão para o hospital.
Tiago trocou de roupa e foi para o computador. O assunto terminou aí.
À noite, enquanto o marido estava no banho, Leonor apanhou o telemóvel dele. Nunca tinha espreitado o telefone de Tiago, mas algo dizia-lhe que devia.
Não encontrou nenhuma chamada para os pais. Nem feita, nem recebida. Nas últimas duas semanas, zero contactos com Maria Rosa ou António Joaquim.
Como é possível? sussurrou Leonor. Se está lá a viver, nem precisaria de chamar…
Mas normalmente, até quando Tiago viajava, os pais ligavam pelo menos uma vez a Leonor. Para saber se estava tudo bem, se era preciso enviar algo ao filho. Desta vez, silêncio absoluto.
A quarta viagem foi na sexta-feira seguinte.
Outra vez os teus pais? Leonor confirmou.
Sim. A mãe está com febre. Deve ter apanhado frio.
Tiago, desta vez vou contigo. Posso ajudar a cuidar.
Para quê complicares? cortou Tiago, seco. Já tens trabalho bastante.
Não é problema. Afinal, são teus pais. Portanto, são meus também.
Leonor, não vás. Está tudo tão apertado. Vais acabar por te constipar.
Tiago falava com convicção, mas evitava olhar para Leonor. Arrumava as coisas rapidamente, como se estivesse atrasado para o comboio.
Vais apanhar o comboio das sete?
Sim, o normal.
Queres que te leve à estação?
Não é preciso. Vou sozinho.
Tiago beijou Leonor e saiu apressado. Deixou a casa cheia de interrogações e coincidências estranhas.
No sábado de manhã, Leonor ficou em casa, a pensar. Os pensamentos cruzavam-se, não lhe davam descanso. Por um lado, seria injusto acusar Tiago sem provas. Por outro, era suspeito haver tantas incongruências.
Estou a imaginar coisas, ou será mesmo o que penso? Leonor repreendeu-se. Talvez os pais estejam realmente mal e eu só esteja a criar problemas.
Ao almoço, resolveu: se os sogros estão doentes, vão ficar felizes por receber mimos da nora. Leonor decide fazer um bolo, compra fruta, prepara uma cesta e vai visitar os pais de Tiago.
Vai ser surpresa. pensou Leonor. Vou fazer uma visita inesperada aos doentes e surpreender o Tiago.
A cozinha tornou-se uma festa de aromas. Leonor preparou massa de bolo, usando a receita da sua mãe. Enquanto o bolo estava no forno, comprou fruta e sumo na mercearia.
Às três da tarde, tudo pronto. O bolo arrefecia na mesa, o saco de laranjas e bananas junto à porta. Leonor vestiu um vestido bonito, maquilhou-se um pouco e partiu para a estação.
No comboio, sorriu ao imaginar a reação do marido: Tiago abriria a porta, vê-la com os sacos, ficaria surpreendido e depois sorriria.
Leonor? Mas de onde vens? diria ele.
Vim ver-vos responderia ela. Vim cuidar dos doentes.
A viagem até à casa dos sogros durou uma hora e meia. Maria Rosa e António Joaquim moravam numa vila perto de Lisboa, numa casa de dois andares com jardim. Tiago cresceu ali, conhecia todos os recantos.
Leonor bateu à porta e aguardou. Quem abriu foi a sogra.
Leonor? Maria Rosa ficou surpreendida. O que fazes aqui?
Estava ótima. As faces rosadas, olhos vivos, nada de sinais de doença. Usava um fato de treino confortável, cabelo apanhado.
Maria Rosa, bom dia Leonor gaguejou. Vim visitar-vos. O Tiago disse que estavam doentes.
Doentes? Maria Rosa riu-se alto. Mas qual doença? Estamos melhores do que nunca! Quem te disse isso?
Leonor sentiu o rosto a arder. O coração acelerou e os sacos ficaram pesados nas mãos.
Mas o Tiago… Ele disse que estava a cuidar de vocês, que estavam mal.
Cuidar? Maria Rosa abanou a cabeça. Leonor, não vemos o Tiago há uma semana! Ou mais!
Do fundo da casa veio a voz de António Joaquim:
Rosa, quem é?
É a Leonor, veio cá! respondeu Maria Rosa.
O sogro apareceu no corredor. Um homem de setenta, já com cabelos brancos, mas forte, de calças de trabalho e camisa de flanela. Devia estar na oficina.
Ora, a nossa nora! António Joaquim ficou contente. Que surpresa boa! Não nos visitas muitas vezes!
António Joaquim, e o Tiago? Leonor perguntou diretamente.
Não faço ideia… Estará no trabalho? Ou em casa convosco?
Ele disse que vinha para cá. Que vocês estavam doentes, precisavam de cuidados.
Maria Rosa e António Joaquim trocaram olhares intrigados.
Leonor, estamos ótimos. E o Tiago não aparece desde… quando foi, Rosa?
No São Pedro, em Julho lembrou Maria Rosa. Veio cá para o aniversário.
Sim, desde aí nem telefonou, confirmou António Joaquim.
Tudo dentro de Leonor caiu. Cada explicação do marido, cada viagem para cuidar dos pais pura mentira.
Leonor, mas o que aconteceu? Maria Rosa preocupou-se. Estás branca como a cal. Entra, bebe um chá.
Não, obrigada. Tenho de ir murmurou Leonor.
Mas como assim? Acabaste de chegar! Trouxeste até bolo, eu vi! insistiu Maria Rosa.
Fica para vocês Leonor entregou os sacos. Desfrutem.
E o Tiago? António Joaquim não percebeu. Porquê não veio contigo?
Não sei respondeu honestamente.
Maria Rosa e António Joaquim acompanharam Leonor até ao portão, sem entender nada. Leonor caminhou para a paragem, sem sentir os pés.
Pensamentos cortavam a cabeça: onde passou Tiago os fins de semana? Com quem? Porque usou os pais como desculpa? Há quanto tempo dura esta mentira?
O autocarro demorou meia hora. Leonor olhou pela janela o cinzento de setembro e tentou juntar as peças. Todas as viagens do marido tornaram-se um insulto. Cada explicação, uma manipulação cruel.
Então, enquanto eu preocupava-me com os pais dele, ele… Leonor nem queria terminar o pensamento.
No comboio, pegou no telefone, pronta a ligar a Tiago. Depois desistiu. Que ia perguntar? Onde andava? Com quem? Porque mentia?
Melhor esperar em casa. Olhar-lhe nos olhos quando contasse mais uma mentira.
Chegou a casa às oito da noite. Silêncio absoluto. Sentou-se no sofá, a aguardar.
Tiago apareceu segunda de manhã, como sempre. As chaves tilintaram, a porta abriu-se. Entrou cansado, amarrotado, com o mesmo saco de desporto.
Olá grunhiu, indo para o quarto. Como correu o fim de semana?
Bem respondeu Leonor com calma. E contigo?
Custou. Os meus pais estão pior.
Sim? Mas o que têm concretamente?
A mãe com febre, o pai esteve toda a noite a medir a pressão. Foi duro.
Tiago falava sem olhar. Arrumava roupa suja na cesta, tirava medicamentos da mala.
Tiago chamou Leonor, baixinho. Olha para mim.
O marido ergueu os olhos. Viu-se um receio neles.
Onde estiveste nestes dias? perguntou Leonor diretamente.
Ué, com os meus pais. Já te disse.
Os teus pais estão ótimos. Não te vêem há semana.
Tiago ficou imóvel, a segurar uma camisa.
Do que estás a falar?
Ontem fui visitá-los. Queria ajudar. Maria Rosa riu-se quando perguntei pela doença.
O rosto de Tiago ficou pálido.
Foste lá? Para quê?
Porque confiei em ti. Achei que estavam mesmo doentes.
Leonor, tu não percebes…
O quê que não percebo? interrompeu. Que tens mentido todo o mês? Que usaste os teus pais como desculpa?
Não foi mentira…
Então o quê? Leonor avançou. Tiago, onde passaste os fins de semana? Com quem?
Tiago virou-se para a janela.
Não posso explicar agora.
Não podes ou não queres?
Leonor, acredita em mim, não é o que parece.
E o que parece? Leonor perguntou, fria.
Que tenho outra pessoa. Outra mulher.
Não é isso?
Tiago ficou calado. Calado mais um minuto, depois outro. Por fim, suspirou fundo.
É confessou Tiago, em voz baixa.
Leonor assentiu. Estranhamente, não sentiu raiva. Só vazio e clareza.
Percebo.
Leonor, não é sério! Foi apenas… aconteceu…
Aconteceu há um mês?
Antes. Mas não sabia como te contar.
Então mentiste sobre os pais doentes?
Queria perceber o que quero. Descobrir o que preciso.
E já sabes?
Tiago voltou ao silêncio.
Tiago, pergunto: sabes o que queres?
Não sei respondeu honestamente.
Eu sei disse Leonor. Quero alguém que não minta. Que não se esconda atrás dos pais para ter um caso.
Não é um caso…
Chama o que quiseres. O resultado é o mesmo mentiste o mês todo.
Leonor foi ao quarto e tirou uma mala do armário.
O que vais fazer? Tiago assustou-se.
Vou sair Leonor arrumou algumas coisas essenciais. Vou ficar com uma amiga. Enquanto decido tudo.
Decidir o quê?
Tu, com os teus sentimentos. Eu, com os papéis para o divórcio.
Leonor, espera! Podemos falar??
Falar sobre o quê? Leonor fechou a mala. Sobre como passaste o mês inteiro a enganar-me? Sobre as aflições pelos teus pais, que afinal estavam bem?
Não quis magoar-te…
Por isso magoaste ainda mais.
Leonor pegou nos documentos, pôs o telemóvel e o carregador na mala.
Se quiseres explicar algo, liga. Mas duvido que haja desculpa para mentiras destas.
E o nosso lar? E a família?
Família é confiança disse Leonor. O lar divide-se pelos advogados.
Leonor caminhou até à porta.
Espera pediu Tiago. Podemos tentar de novo? Eu acabo com tudo, recomeçamos…
Recomeçar? E se voltares a mentir sobre os teus pais?
Não vou mentir. Prometo.
Tiago Leonor parou à porta. Prometeste fidelidade. Vês o que aconteceu às tuas promessas.
Leonor saiu do apartamento, fechou a porta. No prédio, silêncio interrompido apenas por música a tocar lá em cima.
Na rua, caía uma chuva miudinha. Igual ao mês passado, quando tudo começou. Leonor ergueu o colarinho do casaco e seguiu em direção ao metro.
O telemóvel tocou quando desceu ao túnel. O nome do marido apareceu no ecrã. Leonor rejeitou a chamada e guardou-o na mala.
A decisão estava tomada. Viver com alguém que mentiu durante um mês, usando os pais como desculpa para uma traição, já não era opção. A confiança foi destruída, a família também.
Agora vinham as conversas com advogados, a partilha de bens, uma nova vida. Mas ao menos essa vida seria honesta. Sem mentiras sobre pais doentes ou viagens secretas.
O metro levava Leonor do passado para um futuro incerto, mas verdadeiro.

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O meu marido foi visitar os pais alegando que estavam doentes, então resolvi surpreendê-lo e apareci sem avisar…
Eles achavam que a sua mansão era símbolo de segurança, mas uma pequena luz vermelha revelou uma história completamente diferente