Mãe, tenho de te contar uma coisa, mas tens mesmo de te sentar.
A Leonor largou-se no sofá ao lado da Marina e encolheu as pernas, ajeitando-se melhor. Os olhos brilhavam tanto que a Marina pousou o livro, tirou os óculos e ficou a olhar, porque a filha só aparecia assim, com cara de quem tinha descoberto um tesouro, desde os doze anos, quando ganhou a Olimpíada de Literatura da cidade.
Conheci um homem. Num café, foi por acaso Bom, não totalmente por acaso, estávamos em mesas ao lado, ele puxou conversa e, acredita, estivemos à conversa durante três horas! Consegues imaginar?
A Leonor era uma pressa a contar, saltava de pormenor em pormenor, baralhava-se, voltava atrás. Chamava-se Rodrigo, tinha trinta e quatro anos, trabalhava num gabinete de arquitetura, tinha uma piada incrível, e era o único no mundo que nunca a interrompia e a ouvia mesmo até ao fim. Três encontros em dez dias. No último ficaram a passear na marginal até às duas da manhã, nem se lembraram que tinham de trabalhar cedo.
Ele entende-me de uma forma que nunca ninguém conseguiu. Quando digo alguma coisa, ele já sabe onde quero chegar, parece bruxo. Penso: mas onde é que estiveste este tempo todo?
A Marina ouvia-a com a cabeça levemente inclinada, e houve um momento em que abanou devagar a cabeça, não num tom de reprovação, mas de puro espanto.
Vê-se que estás rendida. Não me lembrava de te ver assim, Leonor.
A Leonor ficou calada. Não abruptamente, mas como se todas aquelas palavras animadas lhe tivessem esgotado e restasse outra coisa, sumida. Baixou o olhar para as mãos entrelaçadas e ficou assim, a ganhar coragem.
Só que
Só que o quê? a Marina franziu o sobrolho e chegou-se para a frente, a tentar decifrar a filha. Leonor, o que se passa?
Ele é casado.
A Marina recostou-se devagar no sofá. Não disse nada logo, ficou uns segundos em silêncio, e à Leonor esses segundos pareceram horas, suficientes para se arrepender de tudo o que tinha dito.
Leonor, isso não é um só que. Isso é complicado. Percebes, não é? Estás a entrar numa família que não é tua, estás a mexer na vida dos outros.
Mãe, ele próprio me disse que já não ama a mulher há muito tempo. Disse-me que só lá está por causa do filho, juro, estou a ser sincera, não estou a inventar.
E o filho, não conta? Já pensaste no que estás a fazer? Estás a intrometer-te na vida de pessoas e a tomar decisões que não são tuas.
Eu não decidi nada, mãe, só
Só estás a namorar com um homem casado. Três encontros em dez dias. E vens contar-me isso cheia de brilho nos olhos, como se não fosse nada.
A Leonor levantou-se, já não aguentava ouvir. Marina também se pôs de pé, mas não foi atrás, ficou ao pé do sofá. E, se calhar, foi isso que ainda custou mais; se a tivesse ido abraçar, Leonor sentia que talvez conseguisse respirar. Mas só ficou a olhar. Leonor pegou no casaco, enfiou-se nas mangas e saiu, a tentar engolir as lágrimas que já não segurava.
Em casa, ficou quase vinte minutos na entrada, nem tirou os sapatos, as palmas das mãos encostadas às bochechas molhadas. O telemóvel vibrou-lhe no bolso e, no ecrã, apareceu o nome dele. Limpou a cara à manga, endireitou-se, puxou o ar e atendeu.
Olá o Rodrigo disse-o com tanta ternura que a Leonor quase se desfez de novo, engoliu em seco, a segurar-se.
Contei à minha mãe. Sobre ti, sobre nós.
E como é que ela reagiu?
Mal. Disse que estou a estragar uma família. E que sou uma pessoa horrível. Não usou estas palavras, mas foi isso.
O Rodrigo ficou calado um tempo. Ela ouvia-lhe a respiração, percebia que tentava encontrar as palavras.
Leonor, olha Eu já nem sei o que fazer. A minha filha tem quatro anos, e eu penso nela todos os dias. E se eu sair, sinto que a estou a trair. Mas continuar assim também não consigo. E parece-me baixou ainda mais a voz parece-me que a Marta me tem traído também. Se formos para tribunal, isso pode fazer diferença, mas…
Calou-se, e a Leonor ficou a escutar aquele silêncio. Foi aí, naquele compasso mudo, que sentiu que algo mudava por dentro. Uma ideia, daquelas que andam a pairar mas nunca se dizem ao espelho.
Rodrigo Tens mesmo a certeza de que a tua filha é tua? Dizes que desconfias das traições dela.
Silêncio
O Rodrigo não voltou a ligar nessa noite, nem no dia seguinte. Leonor mandou-lhe só uma mensagem curta, das que não pressionam, só a dizer que estava ali para o que precisasse. Respondeu-lhe só no dia seguinte: Fiz o teste. Fico à espera de resultados. Não consigo falar agora, desculpa. Leonor não insistiu, embora lhe custasse não pegar logo no telefone.
O mês pareceu interminável. O Rodrigo ligava, às vezes tarde, quase sempre em conversas curtas, e Leonor percebia, pelo silêncio entre frases, pelo modo como mudava de assunto para coisas banais tipo a pastelaria nova ao lado de casa servia croissants malucos , o quanto ele estava a sofrer.
Ela não perguntava, não forçava nada, só ia estando, falava de trabalho, de trivialidades, para que ele pudesse respirar, nem que fosse por cinco minutos.
E depois chegou aquela quinta-feira. Chovia tanto que Leonor nem hesitou em deitar-se cedo, precisava de dormir. Às onze, tocou a campainha. Vestiu uma camisola à pressa e foi abrir.
Rodrigo estava à porta, ensopado, olhos vermelhos, papel amarrotado na mão. Não disse nada, nem precisava: Leonor leu-lhe tudo na cara antes de ver o papel. Agarrou-o pelo pulso do casaco e puxou-o para dentro, fechou a porta com o pé e abraçou-o com uma força que só se tem quando se ama mesmo alguém.
Não é minha saiu-lhe murcho, e a Leonor pareceu-lhe impossível tanto sofrimento em duas palavras. Quatro anos, Leonor. Quatro anos a achar que era meu, a viver com alguém que me deixou viver essa ilusão. E ela sabia. Sempre soube.
Leonor passou-lhe os dedos pelos cabelos molhados e não disse nada, porque ali ninguém precisava de palavras. Ele só precisava de alguém que o agarrasse e não o largasse.
O divórcio arrastou-se uns meses, foi duro, uma epopeia. Ela foi com ele ao advogado, tratou de papéis, fazia-lhe jantar quando ele voltava dos tribunais com cara de quem tinha visto o mundo desabar.
Ela não se queixava, nunca pedia atenção, mesmo quando se sentia perdida ou sozinha. Mas o Rodrigo ia-se recompondo dava para perceber: aos poucos, via-se-lhe outra vez luz nos olhos, uma força nova, como se ela lhe devolvesse uma parte do que a Marta tinha levado durante anos.
Passou quase um ano. Casaram-se no registo, sem grande festa, mas a Leonor disse que foi o melhor dia da vida dela, porque era real. Compraram um novo apartamento, ainda cheirava a tinta, e ela adorava aquilo por ser sinal de um começo deles.
Depois nasceu o Lourenço. Puseram-no nos braços da Leonor na maternidade, tão pequeno e já com uma voz de protesto enorme. Olhou para o Rodrigo, ali parado, com medo de respirar, e só pensou em como, um ano antes, nada disto parecia possível.
Duas semanas depois de sair do hospital, Leonor pousou um envelope à frente do Rodrigo.
O que é? Rodrigo olhou para o envelope, depois para ela, quase a sorrir.
Anda, abre. Leonor subiu com as pernas para cima do sofá e aconchegou o Lourenço, que dormia, junto ao peito. Não é falta de confiança, é só para o coração ficar mais leve. Imaginas se trocavam bebés no hospital? Assim temos a certeza, este é mesmo o nosso gritador.
O Rodrigo abriu a folha, leu as linhas, pousou-a na mesa. Depois sentou-se ao lado dela, agarrou-a devagar com o Lourenço, e ficaram ali, juntos, até os vizinhos fazerem barulho do outro lado da parede. Leonor fechou os olhos, e pensou que finalmente os pais, lá em casa, tinham descongelado: o pai apertara a mão ao Rodrigo na semana passada e até se ofereceu para montar o berço, e a Marina levou umas meias de lã para o neto, três vezes maiores do que precisava, mas com tanto carinho que a Leonor quase desatou a chorar.
E nesse instante pensou que, afinal, tinha feito bem em não desistir naquele dia, há um ano atrás.






