Saltita pelo mundo, como uma cabra

Saltavas pelo mundo como uma cabra
Nós vamos fazer coisas incríveis juntas, Filipa, vais ver Margarida gesticulava animadamente, sentada no parapeito da janela do dormitório. Tu com o teu consultoria, eu em marketing, e depois pimba, abrimos a nossa agência. Tudo está por acontecer!
Filipa ergueu a cabeça do resumo e riu, deixando cair a longa trança pelas costas.
Magda, o nosso exame é daqui a uma semana e tu já estás a construir um império.
E então, não posso sonhar? Margarida saltou do parapeito e caiu ao lado dela na cama afundada. Fala a sério, Filipa. Não somos como aquelas galinhas do nosso curso. Somos inteligentes. Vai dar certo para nós.
Filipa largou a caneta e encarou a amiga despenteada, numa t-shirt desbotada, mas com olhos brilhantes. E, por alguma razão, acreditou nela nesse instante, sem duvidar.
Vai dar certo, claro que vai murmurou ela…
Dez anos passaram como um suspiro abafado…
…Filipa mastigou esses anos com os dentes. Estágio numa multinacional, depois noites sem dormir a fazer relatórios, inglês empresarial ao nascer do sol, mandarim aos sábados. Congressos, fóruns, novas ligações. Subia, esfolando cotovelos e joelhos, sempre sem parar. Aos trinta, Filipa vestia ternos de lã italiana, voava para negociações em Tóquio, esquecera quando chorara de exaustão pela última vez simplesmente não tinha tempo.
…Margarida conheceu Ricardo no terceiro ano. Ele era mecânico, cheirava a gasolina e olhava para ela como se fosse a única mulher do universo. No quarto ano, Magda engravidou; no quinto, largou a faculdade. A agência de marketing dissipou-se entre as primeiras dentadas da filha e a chegada do segundo bebé. Agora, o império de Margarida era um T3 num bairro de Lisboa, onde comandava panelas, birras de crianças e uma torneira teimosa.
Ainda se encontravam, de vez em quando cada vez menos.
Filipa trazia prendas das suas viagens: um lenço de seda de Milão, chá das montanhas de Fujian. Sacava fotografias da mala, mostrava templos de Quioto, contava histórias de negociações com os japoneses.
Lá é tudo insinuado, nada direto, imagina! Três meses a aprender etiquetas para não meter o pé na argola logo na primeira reunião.
Margarida acenava, girava o pacote de chá nas mãos e permanecia em silêncio. Depois, suspirava pesado.
Tens sorte. Cá por casa, a Leonor trouxe outro vírus do infantário, Ricardo desaparece no trabalho, dinheiro nunca chega…
Filipa não sabia o que responder. Entre elas havia uma muralha de diferentes vidas, diferentes línguas, diferentes aromas o seu perfume a duzentos euros contra o sabão infantil de Magda.
…No aniversário de Margarida, Filipa chegou diretamente do aeroporto. Terno azul-escuro, sapatos de salto, cabelo arranjado no lounge da empresa. Entrou no grupo com facilidade, riu, explicou o novo projeto, recebia olhares curiosos dos homens, respeitosos das mulheres.
Margarida estava no canto…
Vestido antigo, o mesmo do jantar de Natal da empresa do Ricardo, três anos antes. Cabelo num rabo apressado, porque faltara tempo de manhã Leonor fez birra outra vez. Observava Filipa a brilhar no centro, todos de boca aberta a ouvir, e dentro dela nascia algo escuro, amargo, pegajoso.
Não era inveja.
Era pior…
Filipa foi à cozinha buscar água e ficou parada à entrada. Margarida estava junto da janela, agarrada ao copo de vinho, a olhar através do vidro num vazio cego.
Magda, porque estás sozinha? Filipa aproximou-se, tocou no ombro da amiga. Vem, estão a trazer o bolo.
Margarida deu um puxão, afastando-lhe a mão.
Vai. Estão a espera de ti lá dentro.
Filipa franziu a testa, mas não cedeu. Serviu-se de água, bebeu e começou com cuidado:
Olha, queria falar Vejo que tens saudades de trabalhar. Na empresa há uma vaga júnior, mas com futuro. Posso falar com os Recursos Humanos, entravas como estagiária…
O copo bateu na bancada, o vinho fez uma poça vermelha.
Estágio? Margarida virou-se, e Filipa recuou perante o rosto dela. Para mim? Estágio?
Magda, só quero ajudar…
Ajudar? Margarida soltou uma risada, mas era dura, ressequida Ouves-te a ti mesma? A grande Filipa Matos a descer para a amiga miserável, cheia de benevolência. Obrigada pelo favor!
Não percebeste Filipa esforçou-se por manter a calma. Só te queria dar uma hipótese porque vejo que queres algo mais.
E pedi-te? Margarida aproximou-se e Filipa recuou instintivamente. Mudaste tanto, Filipa. Antes eras normal, agora Só és arrogante. Olhas para todos de cima, com o teu Tóquio e os teus vestidos caros.
Não é justo.
Não justo? Margarida elevou a voz e alguém da sala espreitou, mas voltou logo. Justo é tu publicares a tua vida perfeita, todos os dias no Instagram no avião, na conferência, o smoothie a quinhentos euros! Achas que é fácil ver isso e sentir-se normal?
Filipa ficou sem ar de surpresa…
Só partilho felicidade, Magda.
Felicidade? Margarida bufou. Só queres exibir-te. Mostrar a todos o quanto és bem-sucedida, e nós ficamos a sentir-nos fracassados. Mulheres normais aos trinta têm família, criam filhos e tu? Saltas pelo mundo como uma cabra, sem marido, sem filhos. Estéril!
A palavra cortou-lhe profundamente, no ponto mais vulnerável.
Trabalhei, Filipa forçou-se a falar sem tremer. Trabalhei noites enquanto vias novelas. Aprendi línguas enquanto cozinhavas sopa. Foi a minha escolha, tenho direito a ela.
Ah, deixa-te disso! Subiste à custa dos outros, sabes bem. Achas que não sei como empurraste a Inês naquela empresa? Egoísta! Sempre só pensaste em ti!
Filipa ficou calada, olhando para a antiga amiga. Os lábios trémulos, as manchas vermelhas no rosto, a raiva acumulada anos, finalmente liberta.
De repente, tudo ficou claro. Dolorosamente, quase nauseante.
Não me odeias, Magda disse Filipa baixo. Odeias-te a ti. Porque tiveste medo de arriscar. Porque desististe. É mais fácil achar-me má do que admitir que te acobardaste.
Margarida ficou pálida.
Vai-te embora!
Já vou, Filipa pousou o copo e dirigiu-se à porta. Adeus, Magda. Boa sorte com a tua vida acolhedora.
Filipa pegou na mala e empurrou a porta da entrada. A chuva fria bateu-lhe no rosto, mas não se encolheu, entrando na cortina cinzenta.
Os saltos batiam no asfalto molhado. O caro terno colava-se às costas, o rímel já escorria pelas faces, mas pouco importava. Filipa caminhava em direção ao metro, respirando cada vez mais leve.
Era estranho esperava a dor. Pensou que sentiria saudade de quinze anos de amizade, da rapariga de olhos brilhantes no dormitório, das ideias e planos partilhados. Mas só encontrou alívio, surdo, quase vergonhoso.
A amizade delas não morrera hoje. Apagou-se lentamente, ano após ano, conversa após conversa. Sempre que Filipa partilhava alegria e só recebia desprezo de volta. Sempre que falava de projetos e Magda revirava os olhos. Sempre que tentava ajudar e Magda só a puxava para baixo.
Filipa desceu ao metro e sentou-se num banco vazio, ignorando as marcas molhadas da roupa. Tirou um espelho da mala, viu o reflexo rímel desfeito, cabelo desleixado, olhos vermelhos. Sorriu e guardou o espelho.
Amanhã acordaria às seis, faria um penteado, vestiria outro terno, iria trabalhar. Porque a vida não acaba por causa da inveja alheia…
Um mês depois, Filipa foi chamada pelo diretor executivo. Entrou no gabinete pronta para tudo novo projeto, crítica, maratona de reuniões. Mas o Senhor Álvaro apenas lhe entregou uma pasta de documentos e Filipa leu a primeira página.
Nomeação para diretora regional de Ásia.
Contrato anual em Singapura.
Mereces, Filipa Matos o diretor encostou-se na cadeira. O conselho votou por unanimidade. Partes dentro de três semanas, consegues preparar tudo?
Filipa ergueu os olhos dos papéis e assentiu.
Consigo.
Saiu do gabinete com a pasta junto ao peito e permitiu-se parar alguns segundos no corredor vazio. Lá fora, o sol de novembro desenhava linhas de ouro e escarlate no céu. Em algum lugar, no bairro adormecido, Margarida preparava o jantar enquanto lamentava as injustiças ao marido.
E Filipa arrumava as malas para Singapura.
Nunca, nem uma só vez na vida, arrependeu-se da sua escolha. Como se diz: cada um sabe para o que estudou…

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