Ai, eu não conseguiria fazer isso. A pessoa vira um fardo, um vegetal, é de enlouquecer cuidar de do…

– Ai, eu não conseguia, juro. A pessoa vira quase um vegetal nessa fase… e é de dar em louco cuidar de alguém acamado! O melhor é pôr mesmo num lar! E não me olhes assim, ó Luísa! Para quê tanto sentimentalismo? Olha, aos animais também dão uma injeção quando não há mais nada a fazer. E pronto. E nós, parece que temos de ser todos santos. E ainda há países onde levam os velhotes para a serra e lá os deixam. E ainda…
– Oh, Toína, cala-te por amor de Deus! Tem vergonha nessas palavras! É a nossa mãe, pá! Que serra, estás boa?
– Olha que, minha querida, mãe é vossa, não minha. É mãe do meu marido, somos claras, não é a mesma coisa. E mesmo que fosse minha, faria igual. Luísa, vá que cuidar das crianças é adorável são tão queridos! Mas uma pessoa adulta, assim, a precisar de tudo… Desculpa, mas é só trabalho e cheiros e não há esperança! Ah, olha, queria mesmo perguntar: e casa dela agora? Com ela a viver aquilo tudo contigo, a casa está parada, às moscas. Devíamos venderantes que preços baixem. O Vasco precisa para a universidade, o Pedro quer casar. No fundo, nós precisamos mais. Tu tiveste a miúda já tarde, quando crescer já nem sabes. Era bem feito abrires mão da casa em favor do teu irmão e… – e a Toína já não acabou.
– Luísa! Luísa, filha, onde estás? ouviu-se lá do quarto.
– Vai lá, Toína, ela acordou, e fui logo a empurrar a Toinha para fora.
A minha cabeça parecia uma máquina de lavar, e a mãe não andava nada bem, não dormia há três noites. Fiquei a pensar: Será que ouviu o nosso paleio? Ai, que vergonha!
Entrei no quarto. Precisava abrir a janela, ar pesado, sufocante. Mas a mãe sente sempre frio. Envolvi-a melhor na manta de lã. Quando ouviu os meus passos, ajeitou-se na cama e tentou arranjar o cabelo. Olhei-lhe para as mãos: eram grandes, cheias de força de outros tempos, mas já tão magras, com veias salientes. Mexia nos lençóis, dedos sempre a procurar alguma coisa. Os olhos, perdidos e frágeis, fitavam o vazio. Já nem vê. Dizem que podia recuperar alguma visão num olho, mas eu cá perdi a esperança. Troquei a roupa da cama, dei-lhe de comer. Ela enroscou-se e adormeceu. E eu lá fui, a correr, ao centro de saúde, tentar perceber, pedir conselhos. Só me apetecia fugir à responsabilidade, estava exausta.
Desabafei com o médico: que não melhorava, que era um fardo enorme. Ele, distinto, de barbas, ia preenchendo papelada, sem levantar olhos, com uma fila de espera atrás. Finalmente, olhou-me, cansado.
– O trabalho é muito, não é?suspirei eu.
– Muito. E dos médicos não chega para as encomendas. Se eu tivesse um frasco com um só remédio que servisse a toda a gente, acabavam-se as filas e os doentes também, sorriu.
– Mas que remédio é esse? Isso existe?a esperança em mim acesa.
– Juventude. Quando pisoavesou, Afinal, porque esse ar tão triste? Repare: você está cansada, eu percebo. Mas a sua mãe queixa-se? Quando era criança, não era ela que se levantava a meio da noite, que lhe fazia chá, que a embalava? Agora foi ela que ficou dependente. Pense lá: a sua mãe já se lamentou?
Enchi os olhos de recordações. Eu, com oito anos, doente, a mãe pegava-me ao colo. Era duro para ela, mas era sempre ela. O chá de limão, a compota de frutos vermelhos que arranjou não sei onde. Quase meia-noite e, mesmo assim, a mãe lá se foi a correr arranjar as bagas que eu tanto queria. De manhã, fiquei boa. Ela foi direta para o trabalho, eu fiquei a dormir. Toda a vida trabalhou em dois, três lugares diferentes, para eu ter tudo do melhor.
Houve um inverno em especial, lembro-me de ficarmos a olhar para um vestido na montra de uma loja. Prateado, brilhante. A mãe olhou-o com desejo, mas depois virou costas, sorriu-me, fez-me uma festa na cara e levaram-me a escolher um casaco, uns botins. Para ela? Nada. Lembro de um dia termos conseguido comprar um bolinho cor-de-rosa e branco, assim pequeno, mas naqueles tempos de carestia parecia um milagre. Comi quase todo sozinha. A mãe só comeu uma lambidela de creme. Olhei para ela cheia de culpas, ela abraçou-me com ar de não faz mal, filha, quando melhorar, compro-te outro.
– Os filhos crescem. E esquecem o quanto os pais deram de sidisse o médico. Você já foi pequena e indefesa. Agora, é a sua mãe que precisa. Quer mesmo despachar a sua mãe? Pense sóquando ela já cá não estiver, terá tempo livre, noites descansadas. Sente que será mais feliz assim?
– Nada disso fui atrapalhada, se preciso de ajuda, venho cá, desculpe estar assim, depois volto!
Sai disparada. As bochechas em brasa. O que é que eu ando a fazer? Como é que posso sequer pensar em perder a mãe? Não, não, não aguento sem ela. Sou crescida, a filha já é grande, mas a mãe a mãe é tudo! Lembrei-me de tantas vezes que me afundei nos joelhos dela a chorar, ou a sofrer por dentro e só pensar quando chegar a casa, a mãe resolve, vai acalmar, vai dizer como sair disto
Toca o telemóvel. O Jaime, meu irmão.
– Que queres agora? Já cá esteve a Toína, querem a casa? Fiquem com ela, passem bem, já chateiam! A mãe adora-te, só te chama. Sempre a perguntar por ti, mesmo agora. E tu? Quando estiveste acamado três meses, quem esteva lá? Pois! A mãe foi sempre só ela connosco! desliguei-lhe o telefone.
Andava na rua, nem senti a chuva, só sentia a cara molhada de lágrimas. Passei na montra de uma loja de roupa. Vejo um vestido igual àquele, prateado. Disparei para lá, falei com a vendedora.
– Só há este tamanho. Precisa maior, não serve sussurrou ela, um pouco sem jeito.
– Eu sei, claro que não serve para mim. É para a minha mãe. É magrinha, vê-se logo. Só quero embrulhado bonita, faz favor, limpei o nariz.
A moça ficou a olhar, sem saber responder. Pronto, decidi hoje, ao chegar a casa, visto a mãe. No caminho, passei na pastelaria, comprei um daqueles bolos cor-de-rosa, como nos velhos tempos. Ela nem vai ver direito, mas quero contar-lhe como é bonito.
Subi as escadas mais rápido do que nunca. Ao abrir a porta, ouvi a minha filha, a Aninhas, cantar baixinho ao lado da avó que sorria e recebia festinha na cabeça.
– A Luísa chegou. Vai, filha, descansa um pouco, estás exausta, meu amor, já te dei demasiado trabalho, disse a mãe, esticando o braço, virou a cabeça, vagueando para perceber onde eu estava.
Um nó na garganta não me deixava respirar. Isto é que são provas de vida, e nem toda a gente aguenta. E eu, ainda há pouco, estava a vacilar.
– Mãe! caí-lhe nos braços.
É esse o sentimento Enquanto temos pais, somos filhos. Sem eles, somos órfãos, não importa se temos 10, 20, 40 ou 60 anos. Todos precisamos de mãe.
– Mãe, comprei-te o vestido, sabes? Aquele da montra, parecido com aquele prateado antigo. E um bolo. Vamos vestir e tomar chá. Vais ver como vais ficar linda! comecei a pentear-lhe o cabelo.
Ela mexia, curiosa, no vestido novo, sorria sem jeito. Vesti-a, ajeitei-lhe o cabelo. A Aninhas foi buscar um perfume, pintou-lhe os lábios e pôs água a ferver.
Ficámos ali, a tomar chá, a recordar. E só pensava: que bonita é a minha mãe Um rosto bondoso, tranquilo, já quase não se vêem desses. Desaparecem com aquela geração. Nunca se queixou, nem um ai, mesmo doente. De repente, batem à porta. O Jaime, sempre grande, aparece com um ramo de flores e um ananás.
– O que é que trazes o ananás, oh Jaime? ri-me.
– A mãe, uma vez, quis experimentar e não havia dinheiro Olha, se quiser, trago-te um todos os dias! Desculpa lá, Luísa, e não ligues à Toína, que mulher danada! Que fique a mãe connosco muitos anos, não quero casa nenhuma. Quando melhorar, passa lá para minha casa uns dias, e vamos à festa dos bolos juntos! respondeu ele.
Entrou, não se calou com o vestido da mãe, ela ria como se tudo fosse normal, como se nem tivesse estado doente.
Os dias para mim correram diferentes. Fiz questão de lutar com todas as forças por cada um deles. Passei a imaginar e se a mãe já aqui não estivesse? Não, não podia viver sem ela. Mesmo quando se portava como uma criançaeu dava-lhe banho, penteava. Só pensava: só fica cá, em qualquer estado, quero-te perto! dizia a todos.
Expulsei o desespero de casa. Sorria mais, contava piadas à mãe, dizia-lhe que ia levantar-se em breve, transformava cada dia num pequeno aniversário. Às vezes enchia a sala de balões com a Aninhas, às vezes era noite de karaokeela adora cantar! E canta tão bem! Voltou a cantar conosco.
Luísa, tens aí qualquer coisa amarela vestida, não tens? perguntou um dia, de repente.
Deixei fugir o pano das mãos. Tinha posto um vestido amarelo com flores pequeninas.
Estás a ver, mãe? Dizes isso porque estás a ver melhor! Ai mãe, que felicidade! e atirei-me para ela.
E, devagarinho, apoiada pelas paredes, a mãe começou a andar outra vez. Só nesse momento respirei de alívio. Nunca a deixei ir para a antiga casa, ficou sempre connosco. Mais vale assim.
Vamos viver nós as três. Eu, tu e a Aninhas. Ainda há tanto para fazer. Ainda tens de me ensinar a fazer broa, os tabuleiros ainda ali estão e eu nunca faço pão direito. O Jaime prometeu vir, beijava a mãe.
O meu irmão veio logo depois. Um gigante! Ela sempre lhe chamava urso. Levou a mãe ao colo até ao jardim, sentou-a no banco, ficou ali a seu lado, os dois tão queridos. Orgulhosa da nossa mãe, tão arranjadinha, de sobretudo novo, gorro giro, parecia uma boneca.
Finalmente, descansei. Um passo de cada vez, tudo é possível. Só vivi para ouvir a sua voz, todos os dias. Porque nela há força! Como uma flor precisa de água e sol para não murchar, nós precisamos das mães. Elas são o nosso sol, a nossa água, a nossa raiz.
E o que posso desejar a todas? Que nunca lhes falte um coração de mãe a bater. Que recebam sempre mimo e surpresas dos filhosramos de flores num dia de chuva, um vestido novo mesmo sem ocasião, porque qualquer mulher sorri com um gesto assim. E, acima de tudo, que nunca deixemos para amanhã:
Amo-te, minha mãe. Fica sempre comigo! És o melhor da minha vida.

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