Cachorrinhos Golden Retriever descobrem a neve pela primeira vez em Portugal

Enquanto eu observo os meus irmãos peludos no quintal transformado num verdadeiro manto de inverno, sinto um calor especial apesar do frio. Saltitam com uma alegria contagiante, como cachorrinhos cheios de energia, brincando e tropeçando na neve, a tentar apanhar os flocos com as línguas. Aproveitam cada segundo deste raro dia de diversão ao ar livre.

Quando acabam de brincar, é o nosso Rusty ah, melhor dizendo, nosso Tuga! que os leva para dentro de casa. Os pequenitos, exaustos e felizes, enroscam-se no sofá, prontos para uma sesta bem portuguesa.

Ao ver aquele vídeo, impossível não sorrir. Cães a descobrir a neve pela primeira vez… sempre faz o coração ficar mais leve!

Os meus irmãos, o Duarte e o Tiago, nunca tinham vivido uma manhã assim, com o quintal cheio de neve. Eu e o nosso pai, o senhor António, resolvemos levá-los cá fora para que tentassem apanhar os flocos com a língua. Tenho vinte e cinco anos e confesso: foi das primeiras vezes que vi os nossos pastores australianos miniatura a experimentar a magia da neve.

No final, com todos juntos ao pé do aquecedor e um chocolate quente na mão, pensei: estes momentos são o verdadeiro tesouro da vida, mesmo que seja em Lisboa e mesmo que o frio seja raro por cá.

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Cachorrinhos Golden Retriever descobrem a neve pela primeira vez em Portugal
Ontem eu pedi demissão. Sem aviso prévio. Sem carta formal. Simplesmente deixei o bolo em cima da mesa, peguei a mala e saí da casa da minha filha. A minha “empregadora” era a minha própria filha — Cátia. E o salário, durante todos esses anos, achei que era amor. Mas ontem percebi: na economia da nossa família, o meu amor vale menos do que um tablet novinho. Chamo-me Ana. Tenho 64 anos. Sou oficialmente reformada, ex-enfermeira, vivo com uma pensão pequena nos arredores de Lisboa. Na prática — sou motorista, cozinheira, empregada de limpeza, professora particular, psicóloga e “SOS” para os meus dois netos: Miguel (9 anos) e Duarte (7 anos). Sou aquilo a que chamam de “aldeia”. Lembram-se? “É preciso uma aldeia para educar uma criança”? Hoje em dia, essa “aldeia” costuma ser uma avó exausta, que vive a café, valeriana e analgésicos. Cátia trabalha em marketing. O marido dela, Rui, na área de finanças. São boas pessoas. Pelo menos, é nisso que sempre quis acreditar. Estão sempre cansados. Sempre a correr contra o tempo. Creche — caro. Escola — complicado. Atividades extracurriculares — pior ainda. Quando o Miguel nasceu, olharam para mim como náufragos a pedir salvação. — Mãe, não conseguimos pagar uma ama, — disse Cátia a chorar. — E não confiamos em estranhos. Só em ti. E eu aceitei. Porque não queria ser um peso. Queria ser um apoio. Começo o dia às 5h45. Vou até à casa deles. Faço papas — não de pacote, mas “normais”, porque o Duarte nem cheira as instantâneas. Arranjo os miúdos. Levo-os à escola. Volto e limpo chão que não sujei, casa-de-banho que não utilizei. Depois é escola outra vez, atividades, inglês, futebol, trabalhos de casa. Sou a avó das regras. A avó do “não”. A avó do horário. E do outro lado há a Helena. Helena é mãe do Rui. Vive num condomínio moderno, junto ao mar. Lifting, carro novo, viagens. Vê os netos duas vezes por ano. Helena não sabe que o Miguel tem alergias. Nem faz ideia de como acalmar o Duarte numa crise de matemática. Nunca limpou vómito do banco de trás. Helena é a avó “sim”. Ontem o Miguel fez nove anos. Preparei-me durante semanas. Dinheiro tinha pouco, mas queria dar um presente verdadeiro. Durante três meses tricotei um cobertor pesado — porque ele dorme mal. Escolhi as cores que ele mais gosta. E fiz um bolo de verdade — nada de misturas prontas. Às 16h15 tocaram à porta. Helena entrou como um furacão — perfume, cabelo impecável, sacos. — Onde estão os meus meninos?! Os netos quase me empurraram para chegar até ela. — Avó! Ela sentou-se no sofá e tirou um saco com logotipo de tecnologia. — Não sabia o que vocês gostavam, então trouxe o mais moderno, — afirmou ela. Dois tablets topo de gama. — Sem restrições, — piscou-lhe o olho. — Hoje mando eu! Os miúdos ficaram em êxtase. Esqueceram o bolo. Esqueceram os convidados. Cátia e Rui radiantes. — Ó mãe, não precisavas assim… — disse Rui ao servir-lhe vinho. — Eles ficam mal habituados. Eu fiquei ali, com o cobertor na mão. — Miguel… também te fiz um presente… e o bolo já está pronto… Nem olhou para mim. — Agora não, avó. Estou numa fase difícil do jogo. — Passei o inverno a fazer isto… Suspiro: — Tais presentes ninguém quer, avó. A Helena deu-nos tablets. Porque é que és sempre tão aborrecida? Só trazes comida e roupa. Olhei para a Cátia, à espera que ela dissesse algo. Cátia riu sem jeito: — Ó mãe, não te zangues. Ele é criança. O tablet é mais apelativo. A Helena é “avó divertida”. Tu és… bem… és a do dia-a-dia. Avó do dia-a-dia. Como o prato de cada refeição. O trânsito de todos os dias. Precisa-se — mas não se nota. — Queria que a Helena vivesse aqui, — disse o Duarte. — Ela nunca obriga a fazer trabalhos de casa. E senti que algo dentro de mim partiu. Dobrei o cobertor. Pousei-o na mesa. Tirei o avental. — Cátia. Chegou. — O quê? Vais cortar o bolo? — Não. Chegou o fim. Peguei na mala. — Não sou um eletrodoméstico que se pode desligar. Sou tua mãe. — Mãe, para onde vais?! — gritou ela. — Amanhã tenho reunião! Quem vai buscar os miúdos? — Não sei — disse eu. — Talvez vendam um tablet. Ou deixem a “avó divertida” ficar. — Mãe, precisamos de ti! Parei. — Esse é o problema. Precisam. Mas não veem. Saí. Hoje acordei às nove. Fiz café. Fiquei na varanda. E pela primeira vez há anos não senti dores nas costas. Adoro os meus netos. Mas não vou viver mais como empregada gratuita, debaixo do rótulo “família”. Amor não é autodestruição. E avó não é recurso. Quem quer avó das regras, que respeite as regras. Por enquanto… Talvez me inscreva em danças de salão. Dizem que aí vão as “avós divertidas”.