Diário, hoje acordei cedo, ainda com o coração apertado pelo luto. Toda a família, tanto os parentes próximos quanto os mais distantes, foi se encontrando no cartório, aqui em Lisboa. Cada um escondia, até onde podia, aquela expectativa: será que o tio Adam deixou-nos algum dinheiro? O notário estava atrasado e o ambiente, tenso. Quanto tempo vamos esperar? Quero descobrir logo se o meu pai deixou algo para mim, assim posso ir embora, murmurava a filha mais velha de Adam, a Madalena, claramente inquieta.
Ana, devias portar-te com mais compostura. Estamos aqui porque o pai morreu, afinal, comentou o primo Miguel. Não me chames tia, Miguel. Ainda sou jovem. Chama-me pelo meu nome, por favor, respondeu Ana, aborrecida, cheirando a ressentimento. Miguel retrucou, um pouco irritado: Podes pintar-te e fazer mil tratamentos, mas não vais ficar mais nova…
Finalmente, o notário entrou, olhou para todos com cuidado e pegou uma pasta de documentos da mesa.
Estão todos prontos para ouvir o testamento? perguntou ele. Todos assentiram, ansiosos. O notário abriu a pasta, um sorriso enigmático no rosto, e começou a leitura das últimas vontades de Adam. Deixo-vos uma herança. Mas, para recebê-la, vão ter de encontrá-la. Quando era criança, vivi com os meus pais na aldeia; não tínhamos muito, mas éramos felizes juntos. Na antiga casa está um cofre onde guardo todo o dinheiro, mas só pode ser aberto com uma chave secreta. O notário vai entregar-vos um mapa e supervisionar o cumprimento das regras. Boa sorte, meus queridos!
Todos ficaram perplexos, absorvendo a ideia de que o velho ainda queria brincar connosco, mesmo depois de partir. Madalena foi a primeira a reagir. Eu e o meu marido vamos já para a aldeia. Quem vem connosco? Ana e Miguel, no entanto, decidiram não se envolver: O pai sempre gostou destas partidas, aposto que há truques. Não precisamos do dinheiro, disse Ana. Assim, Madalena, o marido e outros parentes partiram para a aldeia.
Chegando lá, começaram a cumprir os desafios entraram no celeiro para ver os animais, procuraram pistas nas pilhas de palha e até rastejaram pelo lamaçal. Os aldeãos largaram o trabalho só para ver aquela confusão. Em poucos minutos, o vestido de marca de Madalena era apenas um trapo sujo e rasgado. Quando finalmente encontraram a chave e abriram o cofre, ficaram boquiabertos: dentro, apenas um bilhete e uma porção de rebuçados coloridos.
O dinheiro foi doado a uma instituição de solidariedade, e ficam com o que merecem. Obrigado por animarem a minha aldeia. O sentimento amargo misturou-se com uma certa admiração. Afinal, Adam sempre soube surpreender-nos mesmo depois da partida.






