Filomena tornou-se órfã aos quatro anos de idade. Nunca conseguiu recordar como a mãe foi atropelada pelo carro do vizinho da rua. O pai entregou a vida pela filha. De tanto sofrer, envelheceu demasiado cedo e mal sobrevivia no dia-a-dia. Filomena nunca foi visitar o pai. Depois de casar-se, construiu o seu próprio mundo. Ligava de vez em quando, sem pressa nem vontade. O marido dela não gostava que Filomena gastasse euros num homem que considerava inútil. O pai sempre contou com o apoio da filha para enfrentar a velhice. Um vizinho sugeriu pedir pensão de alimentos no tribunal. Filomena não pensaria diferente dele. No tribunal, a filha esperava-o aos prantos.
Pai! Ficou tão cansado de esperar por mim que teve de ir ao tribunal? Filomena perguntou, com os olhos arregalados. Filomena, não tive dinheiro para pão nestes dois últimos dias. Achei que cumpriria as promessas que me fez. Talvez eu tenha criado-te mal… Sabias que eu trabalhava. Além disso, o meu marido comprava-te comida e enviava-te dinheiro. De repente, o marido de Filomena interrompeu: Chega de manipulação. Envio dinheiro todos os meses. Não era para o gastar em festas. Filomena começou a soluçar, virando-se para longe. Tenho algo imprescindível para te contar. Filomena virou-se devagar.
Naquela altura, a tua mãe ainda estava viva. Cheguei a casa cansado e ela estava sentada na cozinha, com o olhar perdido no vazio. Vi um embrulho ao lado dela. Era uma menina pequenina. A tua mãe encontrou-a numa caixa junto aos contentores de trânsitos. Decidimos criá-la como nossa própria filha. Filomena, eras tu. Sempre te adorei. Perdoa-me, filha! O pai deixou o processo cair. Durante a conversa, percebeu-se que o marido de Filomena nunca visitara o sogro. Gastara os euros com festas, mulheres e jogos, como numa nuvem de sonhos irrequietos. Sentiu-se traída, perdida por ter dedicado tantos anos ao vazio de um homem. Filomena mudou-se para casa do pai. Agora vivem felizes, num mundo onde o pão nunca terminou e as tristezas desvaneceram, como ecos num sonho lusitano onde tudo parece possível.







