– Vais continuar a dar à luz até quando? – Perguntou-me a mãe do meu marido com sarcasmo.

És uma fábrica de bebés? Quantos filhos mais planeias ter? disparou a mãe do meu marido, dona Manuela Rodrigues, com um tom carregado de sarcasmo que enchia a cozinha fria do apartamento em Lisboa.

Olá para si também! Dona Manuela, não precisa de ser tão irónica, por favor. O Hélder contou-lhe que estamos à espera de mais um bebé? E isso perturbou-a? respondeu Mafalda, tentando manter a cortesia enquanto o nervoso ia-lhe crescendo no peito.

Claro que me perturbou! Já depois do terceiro neto pedi-te, encarecidamente, para parares com isso. Mas ninguém dá ouvidos à voz da experiência! Ainda me lembro quando te dei aquele pacote de preservativos no Natal, para ver se os começavas a usar… Mas não, continuas igual! resmungou Manuela, ajeitando a gola do casaco, como que a proteger-se do que lhe parecia uma tempestade.

Mafalda recordou a cena do último réveillon. Enquanto os ponteiros do relógio tocavam as doze badaladas e todos brindavam com taças de espumante de Lamego, Manuela tinha-lhe entregue, com uma falsa simpatia, um embrulho colorido que revelava uma caixa de preservativos do tamanho de uma caixa de sapatos. Toda a família percebeu a indireta; seria hora de parar.

Ouvimos o seu recado, mas não se discute com a natureza, Dona Manuela, respondeu Mafalda, a voz firme mas sem levantar o tom.

Queres brincar? Então desenrasca-te sozinha com essa criançada; não contes mais comigo para nada E olhe que até aqui mal ajudava atirou Mafalda, já quase a desligar o telefone.

E sem que houvesse tempo para mais palavras, Manuela desligou abruptamente. Um silêncio pesado caiu no quarto. Mafalda pousou o telemóvel sobre a colcha de linho, sorriu com esperança e passou a mão pela barriga. Ainda não se notava nada, mas o sonho do quarto filho pairava no ar.

Era isto que tanto incomodava Manuela Rodrigues. Ao fim de contas, nunca tinha dado verdadeira ajuda nem financeira, nem prática. Passava pela casa dos netos uma vez por mês e, quando muito, trazia um saco de rebuçados nos anos. Mafalda tentava não se queixar. No fundo, já nem falava disso ao Hélder. O mais importante era que os filhos estivessem calçados, vestidos e alimentados.

Hélder era trabalhador, ganhava bem na fábrica de móveis em Odivelas, e Mafalda, sempre despachada, arranjara forma de costurar em casa para ganhar uns trocos extra. Com o negócio a crescer, chegou a contratar uma ama. Assim, os miúdos brincavam e iam ao jardim enquanto ela se concentrava nos moldes e agulhas.

A vida familiar deles era boa. O único espinho era mesmo a má disposição da sogra. Manuela Rodrigues sempre olhou Mafalda de lado e, com o nascimento dos filhos, foi ficando mais azeda. Quando soube da terceira neta, até tentou convencer o filho a obrigar Mafalda a interromper a gravidez. Mas, com o tempo, acabou agarrada à menina, e o cenário acalmou. Agora, com o quarto filho a caminho, as dúvidas e zangas recomeçavam.

Não tinham planeado mais um tão cedo foi surpresa e bênção, pensava Mafalda. Ou Deus a mandava, ou o destino. O que viesse, haveria de ser criado com amor.

Mas à sogra a notícia caía sempre mal. Mafalda tinha a certeza: o medo de Manuela era que o filho dela deixasse de lhe passar a mesada, ou fosse fechar a pequena loja que tinha na Mouraria. Com mais filhos, os gastos aumentariam, o que, para Manuela, significava perder o apoio.

Mafalda nunca se opôs à ajuda de Hélder à mãe, desde que não faltasse nada aos próprios filhos. Tinham o necessário, por isso ela apoiava a bondade do marido. Ele já tinha pago os dentes à mãe, levado-a de férias à Nazaré e até lhe pintara o apartamento de novo.

Se Mafalda acertava nas contas da sogra, o cenário só pioraria e aquelas pressas, cobranças e má língua só a deixavam mais à beira de um ataque de nervos.

Mas, gostasse ou não Manuela Rodrigues, nem um mundo de lamúrias conseguiria que Mafalda mudasse de ideias. Estava decidido: iam receber aquele bebé com os braços abertos.

Só restava aquela pergunta suspensa no ar húmido da casa: terá uma mãe o direito de dizer a um casal quantos filhos podem ter?

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