Без категорії
020
Depois de conversar com a menina adotada, percebi que nem tudo estava tão claro quanto parecia
Depois de uma longa conversa com a menina adotada, percebi que nem tudo estava tão claro quanto parecia.
Без категорії
028
Os nossos parentes vieram visitar-nos e trouxeram prendas — mas logo quiseram que puséssemos tudo na mesa
Olha, tenho que te contar o que aconteceu cá em casa no outro dia, vais-te rir. Sabes aquelas situações
Без категорії
0110
A minha mãe quis cobrar-me pelas hortaliças da horta que ela própria cultiva
No ano passado, a minha mãe fez algo que jamais esperava decidiu vender-nos os legumes da horta dela.
Без категорії
0139
Casei-me aos 50 anos, pensei ter encontrado a felicidade, mas nem imaginava o que o destino me reservava…
Casei-me aos 50 anos, achei que finalmente tinha encontrado a felicidade, mas mal sabia eu o que me esperava
Без категорії
063
Injustiça — Mãe — repetiu a Inês —, porque é que me chegou só trezentos e trinta mil euros e não um milhão? Que valor é este? Dava para ouvir o secador dela na casa de banho. Ela desligou-o e respondeu: — Está tudo certo — a mãe, Vera, já tinha decidido o destino daquele milhão que nem era dela —, trezentos e trinta. Mas à Inês devia ter calhado bem mais. — Trezentos e trinta? Mãe, onde estão os outros seiscentos e setenta? Estava à espera de quase um milhão. Esse dinheiro veio do meu pai, foste tu que vendeste o apartamento e tinhas de mo transferir. — Ai, Inês, não venhas com essas contas — respondeu —. Sabes que fiz tudo como deve ser. — “Como deve ser?” — o soalho até rangia de indignação — Eu dei-te procuração para venderes o meu apartamento, que recebi como herança do pai. Pedi para me enviares o dinheiro. E então? Onde está o resto? Inês percebeu que tinha relaxado cedo demais. — E enviei! — o secador voltou a funcionar — Só que fiz como mãe. Como uma boa mãe. Dividi o dinheiro por todos os filhos. Igual. A tua parte direitinha está aí. O que era direito dela, era o valor total. — Dividiste a herança do meu pai por três? Por mim e por eles? — Inês referia-se aos meios-irmãos — Mãe, esse dinheiro é só meu! É do meu pai! Temos pais diferentes, já que isto te surpreende. — Que diferença faz quem é o pai? — a mãe terminou de secar o cabelo e começou a pentear-se — O dinheiro é da família. Eles são teus irmãos. Eu sou tua mãe. Achas que te ia deixar gerir tudo sozinha enquanto eles ficavam a ver navios? Nada disso. Tratei de ser justa. Tudo igual para todos. Como gostava de voltar atrás ao dia em que assinou aquela procuração… — Iguais? Partiste o meu milhão em três! Trezentos e trinta mil euros! E a casa valia mais. — Sim, ficou um bocadinho acima do milhão depois de todas as taxas e impostos — disse Vera, — arredondei. O resto fiquei eu, pelo trabalho que tive com a papelada. Achas que ias ter paciência para tratar disso? Não! Fiz eu tudo, enquanto tu estavas a trabalhar. — E não te cansaste? — Não faltes ao respeito! — ralhou — O teu pai era o teu pai, mas eu sou tua mãe, quem manda sou eu. E outra coisa, já és crescidinha, és a mais velha, precisas de menos do que eles. Dividi por igual. Os rapazes em breve vão criar família. Tu és rapariga, não precisas de tanto. — E eu não vou criar família? Ou tenho de viver de migalhas porque sou rapariga e não esperam grande coisa de mim? — perguntou Inês, com ironia — Transfere-me o resto, mãe. Agora. — Não. Seco. Ponto final. A mãe sabia bem que Inês não ia agir. Meter a mãe em tribunal por causa de dinheiro? Dificilmente. Ninguém ia entender, ainda mais condenar. E mãe continua sempre mãe — mal ou bem, ainda falavam. Umas semanas depois, com as contas já em ordem, Inês viu nas redes sociais: o João exibia-se junto de um Polo azul, novinho em folha. O Miguel postou: — A minha nova máquina! Os irmãos compraram carros baratos. Muito bem. Inês guardou os seus 330 mil. Pensou em esperar. Como dizia a avó: “Paciência de ouro”. Passou mais de um ano. Inês trabalhava, juntava dinheiro, planeava. Não esqueceu a situação, mas conseguiu ultrapassar. A mãe portava-se como se nada fosse: ligava, falava de tudo e de nada. Mas, naquele dia, a voz da mãe estava diferente, até deu arrepios a Inês. — Que se passa, mãe? — A avó… — Vera hesitou — a avó do João e do Miguel… faleceu esta manhã. Inês sentiu-se estranhamente desligada, como num filme. Aquela “avó”, não era dela, nunca foi importante na sua vida — era só “a sogra da mãe” ou “avó dos irmãos”. Mas, claro, sentiu pena. — Os meus sentimentos. — Tenho de tratar do funeral, dos papéis, não tenho tempo para nada. Estou sozinha, os rapazes… não sabem lidar com isto. Vens? Ajudas-me? Não era má vontade, mas Inês não podia sair do trabalho. — Mãe, estou no trabalho. Não posso largar tudo para ir ao funeral de uma pessoa que vi três vezes na vida — respondeu Inês. Nunca a levaram a casa dessa avó. — Por favor! — pediu a mãe — Faz-me mesmo falta. — Não vou, mas ajudo com dinheiro. Quanto precisas? Diz e transfiro já. A mãe hesitou, mas pensou que dinheiro não atrapalha. — Não é a mesma coisa… mas pronto. Uns vinte mil chegam? — Tratado. E mando mais um pouco para qualquer coisa que faça falta. Considera uma homenagem… à memória dela. — Obrigada, Inês. És sempre um apoio. Inês desligou sentindo-se horrivelmente satisfeita. Arranjou desculpa: não foi, mas ajudou. Agora ninguém podia criticar. Meio ano passou. O funeral ficou lá atrás. Miguel e João já deviam ter comprado novos brinquedos — motas ou telemóveis, talvez. Numa terça-feira calma, Inês decidiu que era o momento. Ligou à mãe, estava a preparar-se para uma reunião no trabalho. — Olá mãe! Está tudo bem? — Inês! Vai-se andando. O Miguel conseguiu emprego novo, melhor. O João… também anda bem, arranjou namorada. — Fico contente. Olha, mãe, queria perguntar uma coisa… — O quê? — a mãe ficou logo defensiva. — Já passou meio ano do falecimento da avó. Já trataram da herança, certo? Desta vez, a conversa ainda custou mais do que quando falou dos 330 mil euros. — Inês, o que é isso agora? Claro que sim. — Pronto. E a minha parte da herança? — Que herança é essa? — a mãe fingiu não perceber, mas Inês percebeu logo quando ela mentia. — Da avó. — Mas não era tua avó. — Que diferença faz? — Inês devolveu a lógica da mãe — Sou tua filha, disseste que não se pode excluir nenhum filho. “O dinheiro é da família”, verdade? O meu milhão dividiste pelos três. Fizeste “justiça igual”. — Inês, isso não é a mesma coisa! — Vera ficou nervosa — Isto é outra situação! — O que é que tem de diferente? Disseste várias vezes: “a herança é da família, quem manda sou eu, todos os filhos devem ter o mesmo!” — Não compares… — Olha que conveniente! Quando era o meu dinheiro, do meu pai, passou a ser de todos e ficou dividido igual. Agora, com o dinheiro da avó deles, já há famílias separadas? — Não estejas a pegar por tudo! — a mãe bufou — Queres que diga aos rapazes que tens direito à herança da avó deles? — Só quero que uses o teu método: dividiste o meu dinheiro entre todos porque “a mãe manda e o dinheiro é dos filhos”. Agora aplica o mesmo. Também tenho direito. Vendeste a casa, certo? — O dinheiro já foi. — Gastaste em quê? Nos carros? Nas obras? Eu também quero. Onde está a minha parte? Disseste que eu tinha de aceitar menos porque sou rapariga. Não aceito. A mãe pensava, certamente, numa saída da armadilha que criou. Sempre foi assim naquela família! Os rapazes, filhos do padrasto, eram considerados; a avó nunca aceitou Inês — “filha de outra”. A mãe nunca defendeu. — Inês, mas para que queres dinheiro? Trabalhas, estás de saúde, és nova. Não precisas de tanto. O Miguel e o João têm de pensar em casas, são homens! É mais difícil para eles! — Quer dizer, a tua opinião é: herança do meu pai, é de todos, porque somos irmãos. Herança da avó deles, é só deles porque são homens e eu sou rapariga, não preciso de nada? — Não te ponhas a ser respondona — disparou — Para que tanta ganância? A mãe nunca ia admitir que estava errada. Inês era egoísta só porque pedia justiça. — Pela procuração eras obrigada a dar-me o valor todo do apartamento. O prazo legal ainda não passou. Não estou a ameaçar, mas… — Inês! Vais ameaçar-me? — sussurrou, assustada. — Não, mãe. Mas ainda posso pedir o que é meu. Pensa nisso. Um mês depois, transferiram-lhe o que restava em dívida e depois… bloqueada em tudo.
Injustiça Ó mãe, exclamou Leonor, com ar incrédulo, porque é que só me calharam trezentos e trinta mil euros?
Без категорії
08
Todas as Terças-Feiras Liana apressava-se pelo metro lisboeta, apertando na mão um saco de plástico vazio, símbolo do insucesso do dia — duas horas perdidas a vaguear por centros comerciais sem encontrar a prenda ideal para a afilhada, filha da sua melhor amiga. A Maria, que aos dez anos deixara os póneis para se apaixonar pela astronomia, mas arranjar um bom telescópio dentro do orçamento era tarefa de gigante. O dia já se despedia, e fundo, debaixo da terra, sentia-se aquele cansaço especial do final do dia. Liana, deixando passar a multidão que saía, eximiu-se devagar até ao escadote. Foi nesse momento que, entre o burburinho dos sons do subsolo, um fragmento de conversa lhe chegou aos ouvidos, claro e carregado de emoção. — Nem imaginava que o voltaria a ver, juro — dizia uma voz jovem, um pouco trémula, atrás dela. — Agora ele busca a miúda ao colégio todas as terças. Ele, de carro, e vão os dois ao parque das Amoreiras, aquele das carroceis… Liana parou a meio do escadote rolante, voltando-se de relance para fitar quem falava — um casaco vermelho vivo, rosto ansioso, olhos faiscantes — e a amiga, escutando atenta, a acenar. “Todas as terças-feiras.” Ela também tivera um dia assim. Três anos antes. Nem segunda-feira de recomeços difíceis, nem sexta de promessas de descanso. Terça-feira. O dia em que o mundo dela girava. Todas as terças-feiras, às cinco em ponto, largava a escola onde lecionava Português e Literatura e quase corria para o outro lado da cidade. Para a Academia de Música São Carlos, no velho palacete de soalhos rangentes. Ia buscar o Marco. Sete anos, pequeno para a idade, sério, com o estojo do violino quase do seu tamanho. Não era filho dela — era sobrinho. Filho do irmão António, que morrera num acidente terrível havia três anos. Nos meses após o funeral, as terças eram o ritual de sobrevivência. Para o Marco, que se fechara num silêncio quase absoluto. Para a mãe, Olga, que se partira por dentro e mal se levantava. E para a própria Liana, que tentava colar os cacos da vida conjunta, ancorando toda a família em si, sendo o pilar neste naufrágio. Recordava tudo. Como o Marco saía da aula, olhar em baixo, mãos nos bolsos. Como ela lhe tirava o violino pesado, e ele, mudo, lho entregava. O caminho até ao metro. As histórias leves para lhe distrair o peso — um erro engraçado num ditado, um corvo que roubou o pão de um colega. Numa dessas tardes chuvosas de novembro, ele perguntou: “Tia Lia, o pai também não gostava de chuva?” E ela, num misto de dor e ternura, respondeu: “Detestava. Corria sempre para debaixo de qualquer beiral.” E então, ele tomou-lhe a mão. Forte, como gente grande. Não para o levarem, mas como se tentasse agarrar um fio que se escapava. Não a mão — mas o pai. Apertava os dedos dela, toda a força infantil misturada com uma saudade feroz e luminosa. Sim, o pai fora real. Corria à chuva. Odiava lama. Existira não só na memória, nem num suspiro dos avós. Ali mesmo, no ar húmido de Lisboa, naquela rua de novembro. Durante três anos, a vida de Liana dividia-se entre antes e depois. E o dia verdadeiro, o dia vivido, era a terça-feira. Os outros eram pano de fundo. Preparava-se para ele: comprava o Compal de maçã favorito do Marco, enchia o telemóvel de cartoons divertidos para animar na viagem, inventava temas de conversa. Depois… a Olga foi recuperando. Arranjou emprego, depois — um novo amor. Decidiu começar de novo, numa cidade do Norte, longe da mágoa. Liana ajudou a empacotar tudo, guardou o violino no saco certo, abraçou forte o Marco na plataforma. “Escreve, telefona, — dizia, a morder o choro. — Estou sempre aqui”. Ao início, ele ligava todas as terças, às seis em ponto. Ela voltava a ser a tia Lia, com quinze minutos de perguntas ansiosas — a escola, o violino, os novos amigos. Aquela voz era um fio ténue ligando-os através de Portugal inteiro. Depois, passou a ligar de quinze em quinze dias. Crescera, havia outras atividades, trabalhos de casa, jogos com amigos. “Tia, esqueci-me de ligar terça passada, tive um teste,” — escrevia, e ela respondia: “Não faz mal, querido. Correu bem?” Depois — só pelas datas importantes. Aniversários, Natal. A voz dele estava mais firme. Já não falava de si: “Tudo bem”, “Normal”, “A estudar”. O padrasto, Sérgio, era bom homem, calmo, não quis ser pai, só ser presença. Isso bastava. Há pouco, nasceu a irmã, Alina. Na foto das redes sociais, Marco segurava o bebé com ternura desajeitada. A vida, cruel e generosa, ia em frente. Crescia uma nova rotina, feita de quotidiano, de fraldas, de horários escolares e projectos. Para Liana, restava a pequena mas cada vez mais estreita prateleira de “tia do passado”. Agora, soterrada no ruído do metro, aquelas palavras — “todas as terças” — soaram não a acusação, mas a eco suave. Como recado daquela Liana que, durante três anos, foi porto, base, âncora e dádiva. Aquela Liana sabia quem era naquele mundo: apoio, referência, bênção no dia-a-dia de um pequeno ser. Era precisa. A rapariga de casaco vermelho tinha a sua batalha, o seu compromisso entre feridas antigas e a urgência dos dias. Mas aquele ritmo — “todas as terças-feiras” — era linguagem universal. Dizia: “Estou aqui. Conta comigo. És importante neste dia, nesta hora”. Uma língua que Liana já foi fluente e quase esquecera. O metro arrancou. Liana endireitou as costas, olhando o reflexo no vidro do túnel. Na sua estação, já sabia o que faria: encomendaria dois telescópios iguais — simples mas bons. Um para a Maria. Outro, para enviar ao Marco. Assim que ele recebesse, ela enviaria mensagem: “Marco, este é para podermos olhar para o mesmo céu, mesmo em cidades diferentes. Que achas de, na próxima terça, às seis, se estiver limpo, vermos juntos a Ursa Maior? Vamos acertar o relógio? Beijinhos, tia Lia”. Subiu ao mundo noturno da cidade e o ar vinha frio, renovador. A próxima terça já tinha destino. Não um dever, mas um pacto doce entre dois seres ligados por memória e por uma ternura serena, inquebrável. A vida seguia. Continuavam no seu calendário os dias que, em vez de passar, podiam ser marcados. Dias pequenos milagres de sincronia — um olhar ao céu partilhado a quilómetros. Para uma memória que já não dói, mas aquece. Para um amor que aprendeu a linguagem das distâncias e assim ficou mais quieto, sábio e resistente.
Todas as terças-feiras Leonor apressava-se para o metro, apertando na mão um saco de plástico vazio.
Без категорії
075
A Avó Que Só Tinha Olhos para Um Neto: A História de Katya, Dima e o Amor Partilhado Numa Família Portuguesa
A avó fazia sempre distinção entre os netos E eu, avó? perguntava ela baixinho. Oh, Matilde, tu já estás
Без категорії
024
Foi-se e Ainda Bem — Como assim “o número que ligou está desligado”? Mas há cinco minutos estava ao telefone com alguém! — Natália ficou plantada no meio do hall de entrada, apertando o telemóvel contra o ouvido. Olhou para a cómoda. A caixinha das jóias estava no mesmo sítio. Mas algo não batia certo: a tampa não estava completamente fechada. — Romeu! — chamou para dentro do apartamento. — Estás na casa de banho? Natália aproximou-se devagar da cómoda. Quando tocou na madeira polida, um arrepio percorreu-lhe as costas: lá dentro, não havia nada. Nada de nada. Nem o talão da ourivesaria, que ela usava de marcador de página, restava. As jóias tinham desaparecido… e o dinheiro também. Verdade seja dita, ela própria lho entregara… — Meu Deus… — sussurrou, escorregando até ao chão. — Como é possível? Ontem discutimos sobre o papel de parede… E ele prometeu que íamos ao Algarve em agosto… E tudo começou de forma ridiculamente banal. Em junho do ano passado, o pistão do seu “pópó” encravou-lhe. Na oficina pediram-lhe um balúrdio, por isso, irritada, foi ao grupo “Ajuda Auto Portugal” procurar resposta. “Pessoal, alguém sabe se é possível desbloquear o pistão do travão se ficou preso? — escreveu, com uma foto da roda suja em anexo”. As respostas choveram. Uns diziam “não te metas nisso, rapariga”, outros sugeriam trocar a peça. De repente, apareceu um comentário de um tal Romeo85: “Não ligue, menina. Compre um spray WD-40 e um kit de reparação barato. Tire a roda, empurre o pistão com o pedal, mas atenção, não vá até ao fim. Limpe tudo com líquido de travões e lubrifique. Se o cilindro estiver limpo, o carro vai andar impecável”. Aquilo pareceu-lhe sensato, sem arrogância. “E se o cilindro estiver picado?”, respondeu ela. “Só trocando. Mas pelo aspecto das fotos, o seu carro está bem estimado. Duvido que esteja assim tão mau. Se precisar, mande mensagem privada, ajudo como puder”. E assim ficaram a conversar. Romeu percebia mesmo do assunto. Numa semana explicou-lhe como mudar o óleo, escolher velas e até aconselhou que anticongelante não usar. Natália começou a dar por si à espera das mensagens dele. “Olha, Romeu, vales ouro — escreveu no final de julho. — Se quiseres, um dia destes ofereço-te um café… ou algo mais forte, com o dinheiro que poupei”. A resposta não chegou logo. Demorou três horas até o telefone piscar. “Natália, adorava aceitar. De verdade, mas neste momento estou de serviço, uma missão longa… E estou… fora de Portugal, digamos assim”. “Fora? Onde?” “Mais longe é impossível. Não quero mentir-te. Gosto mesmo de ti, enquanto pessoa. Mas não estou em missão: estou a cumprir pena. EPL-Tires, se isso te diz alguma coisa”. O telemóvel caiu-lhe no sofá. Tudo dentro do peito lhe doeu. Um presidiário? Ela, mulher de bem, contabilista numa empresa importante, há duas semanas a trocar mensagens com um criminoso?! “Porquê?” — conseguiu perguntar, mãos a tremer. “Artigo 217. Burla. Fui parvo, armei-me em esperto, e caí na ratoeira. Falta-me menos de um ano. Se quiseres apagar o chat, compreendo”. Natália não respondeu. Só bloqueou o contacto e andou três dias sem saber de si. Colegas no escritório perguntavam se estava doente. Ela só pensava: “Porquê? Porque é que um homem tão inteligente, tão jeitoso, tem de estar lá dentro?” Passada uma semana, recebeu um email — Romeo tinha guardado o endereço dela. Não o apagou, só fechou o chat. “Natália — escreveu ele. — Não estou chateado. Sabia que ia ser assim. Tu és boa pessoa. Homens como eu não te servem para nada. Quero agradecer-te pelas conversas. Foram as melhores duas semanas dos últimos três anos. Sê feliz. Adeus”. Natália leu aquilo à mesa da cozinha e desabou a chorar convulsivamente. Dava-lhe pena dele, dela própria, e desta vida injusta. — Porque têm sorte todas as outras? Uns são casados, outros uns meninos mimados; e logo o único homem decente, está atrás das grades! — perguntava-se. Mais uma vez, não respondeu… *** Natália tentou ir a encontros, mas não dava certo. Um durante a noite toda só falou dos selos que colecciona, outro apareceu com as unhas pretas e quis dividir a conta do café. Em março, no seu trigésimo quinto aniversário, sentiu-se especialmente sozinha. De manhã, surge uma notificação. “Parabéns, Natália! — escreveu Romeu. — Sei que não devia incomodar, mas não resisti. Que estejas sempre feliz. Mereces tudo. Com pão e fio de cobre fiz um presente… Se pudesse, dava-to pessoalmente. Só quero que saibas que algures no Alentejo há um homem hoje a brindar à tua saúde com um chá horrível”. “Obrigada, Romeu — respondeu ela, cedendo. — Fez-me bem.” “Respondeste! — vinha radiante. — Como estás? E o carrinho? Não te deixou mal nos frios?” E assim recomeçaram a conversar. Agora era todos os dias. Romeu ligava-se sempre que podia. A voz dele era forte, rouca, agradável. Contava-lhe histórias da vida: das traquinices com o irmão, que agora criava os sobrinhos, dos planos que tinha para recomeçar do zero. — Não volto à minha terra, Natália — dizia ele ao telefone, enquanto ela preparava o jantar. — Os velhos amigos só puxam para a má vida. Queria ir para onde ninguém me conhece. Trabalho não me falta. Vou para a construção civil ou oficina. — E para onde ias? — Ia até ti. Arranjava quarto ou T0 baratinho. Era só para saber que respiramos o mesmo ar, que estamos próximos. Só isso… Não faças ideia errada. Em maio, Natália estava apaixonada. Sabia o horário das rotinas dele, quando tinha banho, quando trabalhava no pavilhão. Mandava-lhe caixas com chá, bolachas, meias quentinhas, pequenas peças para inventos. — Romeu, aguenta até ao fim — pedia ela. — Não te metas em chatices. — Por ti, sou um santo, querida — ria-se. — Em abril estou cá fora. — Estou à tua espera. *** Em abril, Natália estava à porta da prisão. Levava para ele um casaco novo, calças de ganga, sapatilhas. O coração batia tanto que parecia querer saltar do peito. Quando ele saiu, não era bem o que ela esperava — baixo, forte, cabelo grisalho já rente. Mas quando sorriu e disse: — Olá, patroa, — lançou-se a correr para o abraçar. — Meu Deus, estás vivo — murmurava ela, aninhada na barba áspera. — Achavas que eu desaparecia? — ele puxou-a com força. — Cheiras a flores, sabias? Foram para casa dela. Na primeira semana, foi como um conto de fadas. Romeu começou logo a arranjar tudo: consertou a torneira, arranjou a fechadura que já emperrava há meses. À noite, ficavam na cozinha, partilhavam vinho verde e ele divertia-a com histórias antigas, sempre tentando evitar os piores episódios. — Ouve, Romeu — insistiu ela ao décimo dia. — Disseste que querias alugar casa. Mas não faças isso. Aqui tens espaço, e é mais divertido estarmos juntos. Assim poupas, compras as tuas ferramentas, começas vida nova. — Natália, não está certo — torceu o nariz, mexendo o açúcar no café. — O homem devia arranjar a casa. Agora vivo à tua custa, estou a incomodar. — Deixa-te disso! — ela colocou-lhe a mão sobre a dele. — Já não somos estranhos. Vais levantar-te, encontrar trabalho, tudo se resolve. — O meu irmão ligou ontem, — disse ele, desviando o olhar. — O miúdo está doente, precisa de uma operação cara. Pediu dinheiro. Eu… como vês, não tenho nada, só vergonha. Vergonha da família. — Quanto é? — perguntou ela, prudente. — Muito… Meio milhão. Eles já conseguiram juntar um pouco. Estava a pensar ir a Lisboa trabalhar em obras. Ganhar rápido. Natália calou-se. Os tais quinhentos mil estavam na caixinha das jóias. Juntou-os durante três anos, poupando em tudo. Era para renovar a casa de banho, trocar o azulejo, pôr aquela cabine moderna de hidromassagem… — Eu tenho esse dinheiro — sussurrou. Romeu levantou a cabeça de rompante. — Nem penses! Esse é o teu pé-de-meia. Não aceito. — Romeu, é família. Tu disseste que é sagrado. Leva, depois devolves. Agora estamos juntos. Ele hesitou e recusou durante dois dias, andou cabisbaixo, até voltou a fumar no varandim, coisa que prometera largar. No fim, Natália pegou nas notas e pô-las em cima da mesa. — Toma. Vai à tua família, entrega. Ou faz a transferência. — Prefiro entregar em mãos — abraçou-a. — Assim aproveito e vejo com ele oportunidades noutros lados. Vou só dois dias, Natália. Vou já e volto já… daqui a pouco. *** Natália estava sentada no chão do corredor há uma hora. As pernas dormentes, sem sentir dor. Recordava a noite anterior. Estiveram a ver uma comédia sem graça, ele riu e abraçou-a nos ombros, e ela sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. — Se calhar depois de amanhã saio bem cedo — disse ele antes de dormir. Mas afinal tinha desaparecido antes. Ela dormia, nem ouviu a roupa. Só de relance sonhou ouvir a porta, mas achou que seria dos vizinhos. Às duas da tarde decidiu ligar ao tal “irmão”. O número que ele escrevera “para uma emergência”. — Estou? — atendeu uma voz áspera. — Quem fala? — Bom dia, sou… sou a namorada do Romeu. Ele foi ter consigo hoje, não foi? Silêncio total. Depois, um suspiro fundo. — Menina, qual Romeu? O meu irmão chama-se diferente e só sai da cadeia em outubro. A cabeça de Natália rodou. — Como… outubro? Mas ele saiu. Em abril. Fui eu que o fui buscar ao EPL-Tires. — Escute — a voz tornou-se agressiva. — O meu irmão, Alexandre, está em Alcoentre. Esse Romeo… É um antigo colega de cela, saiu há dois meses. Roubou-me o telemóvel durante o tempo que estive na limpeza e copiou todos os contactos. Deve ser mais uma das que ele enrolou. Nisso é artista. Tirou o curso no técnico, desenrasca-se em tudo. Natália pousou lentamente o telemóvel no chão. Lembrou-se dele a ensiná-la a trocar as velas do carro. — O essencial é não apertar demais, — dizia ele. — Senão espeta a rosca, e acabou-se. — Pois, estraguei tudo — murmurou Natália. — Meti-me numa bela alhada. Natália de repente percebeu que não sabia rigorosamente nada do “namorado”. Nunca lhe viu o BI, nem o papel de soltura do EPL. E se ele nem sequer se chamava Romeu?! *** Natália, claro, foi à polícia apresentar queixa. Mostrou a foto, e descobriu muita coisa interessante sobre o ex-companheiro. Chamava-se mesmo Romeu — e isso era a única verdade. A pena fora por crime grave, metade da vida passada atrás das grades — conheceu Natália já cumpria o terceiro castigo. Natália benzeu-se, mudou as fechaduras e achou que ainda teve sorte. Porque pelo que se passava com as anteriores…
Foi-se, ainda bem Como assim «telemóvel desligado»? Mas há cinco minutos estava a falar com alguém!
Без категорії
030
Quando a Cuca Canta de Dia: O Desafio de Sacha com a Sogra que Invadiu o Seu Lar e Transformou a Vida do Casal Português numa Batalha de Banhos, Poltronas e Corações
Cuco diurno cantou mais que devia Não, ela está a gozar comigo! rebentou Mafalda. Nuno, vem cá já!
Без категорії
01
Quando a Cuca Canta de Dia: O Desafio de Sacha com a Sogra que Invadiu o Seu Lar e Transformou a Vida do Casal Português numa Batalha de Banhos, Poltronas e Corações
Cuco diurno cantou mais que devia Não, ela está a gozar comigo! rebentou Mafalda. Nuno, vem cá já!