Quando a Cuca Canta de Dia: O Desafio de Sacha com a Sogra que Invadiu o Seu Lar e Transformou a Vida do Casal Português numa Batalha de Banhos, Poltronas e Corações

Cuco diurno cantou mais que devia

Não, ela está a gozar comigo! rebentou Mafalda. Nuno, vem cá já! AGORA!

O marido, que acabara de largar os ténis no hall, apareceu à porta, já a desapertar o colarinho da camisa.

Mafaldita, outra vez…? Acabei de sair do escritório, a cabeça pesa-me como uma sardinha podre…

Outra vez?! Mafalda apontou para a borda da banheira. Olha bem, faz favor. Onde está o meu champô, hein? E aquela máscara caríssima que comprei ontem?

Nuno semicerrava os olhos míopes numa fila impecável de frascos.

Ali reinava um garrafão gigante de shampoo de alcatrão, uma embalagem familiar de Burdock do Campo e um boião de vidro pesado, castanho, com creme de cheiro duvidoso.

Eh… A minha mãe trouxe as coisas dela. Deve ser mais conveniente ter tudo à mão… murmurou, fazendo de tudo para não encarar a mulher.

Conveniente? Nuno, ela não vive cá! Agora olha para baixo.

Mafalda agachou-se e puxou de debaixo da banheira uma bacia de plástico. Lá dentro estavam depositadas as suas preciosidades francesas, a esponja chique e a gilete.

O que é isto, Nuno? Arrumou tudo da minha higiene no alguidar encardido e pôs o Bardana dela em destaque!

Decidiu que as minhas coisas ficaram junto à esfregona, mas o Buraco do Campo no altar da higiene!

Nuno soltou um suspiro daqueles de novela portuguesa.

Mafaldita, não te passes. A mãe anda em baixo, sabes bem. Eu ponho tudo no sítio e depois jantamos? Ela fez umas almôndegas à moda antiga…

Eu não como nada disso! cortou Mafalda. És tu que dás guarida à tua mãezinha todos os dias? Porque é que ela manda e desmanda neste apartamento? Isto é minha casa, pá!

Sinto-me aqui como quem arrenda quarto e nem direito ao papel higiénico tem!

Mafalda empurrou o marido e saiu disparada, enquanto Nuno, a medo, voltava a enfiar o alguidar da mulher para debaixo da banheira.

A questão das casas, que arruinou gerações de portugueses, nunca foi problema para Mafalda e Nuno.

Nuno tinha o seu T1 arejado num prédio novo, deixado pelo avô.

Mafalda herdou da avó um T2 charmoso, daqueles antigos a cheirar a pão quente.

Casaram e assentaram arraiais em casa do Nuno novo, fresco e com ar-condicionado. O T2 de Mafalda foi arrendado a um casal simpático de Setúbal por um dinheirão.

Com os sogros, a coisa era guerra fria que, às vezes, cheirava a diplomacia.

D. Lurdes e o marido, o silencioso e educadíssimo sr. Manuel Dias, viviam lá para os lados de Benfica.

Uma vez por semana chá das cinco, perguntas de compromisso sobre saúde, trabalho, um sorriso polido.

Mafaldinha, estás tão magra! dizia D. Lurdes, empurrando-lhe fatias de bolo. Nuno, não alimentas a tua mulher?

Ó mãe, vamos ao ginásio, pronto! respondia Nuno, a revirar os olhos.

E ficava por aqui. Nada de visitas-surpresa, conselhos de donas de casa ou inspeções às limpezas.

Mafalda até se gabava às amigas:

Com sogra destas, até me saí na lotaria. Nunca se mete, nem mexe no casamento, nem chateia o Nuno».

E o castelo ruiu numa terça-feira cinzenta, quando o sr. Manuel, após 32 anos de casamento, fez as malas, deixou um bilhete em cima da mesa da cozinha: Fui para o Algarve, não procures! bloqueou tudo e fugiu.

Momento de fraqueza não era só expressão, era mesmo a chefe de receção do hotel em Quarteira, onde o casal ia há anos no verão.

Para D. Lurdes, de sessenta já feitos, foi chão que lhe fugiu.

Vieram lágrimas, chamadas de madrugada, análise exaustiva da tragédia:

Como? Porquê, Mafaldinha, porquê?!

Mafalda, ao início, até a acompanhava. Comprava-lhe valeriana no Pingo Doce, ouvia os desabafos em repetições dignas de novela, e assentia com educação às maldições dirigidas ao cota mulherengo.

Mas o estoque de paciência esgotou depressa laivos de lamúria começaram a irritar-lhe os nervos.

Nuno, a tua mãe ligou-me cinco vezes só esta manhã. Pediu para ires lá trocar uma lâmpada, juro. No corredor.

Eu percebo tudo, mas… e isto acaba quando?

O marido encolheu-se no capuccino:

Ela está sozinha, Mafalda. Viver ao lado de um homem a vida toda e de repente… vá lá, não sejas dura.

Trocar uma lâmpada é coisa que qualquer um faz ou chama o eletricista do bairro. Ela quer mesmo é nós lá de volta. E para quê?

Vieram então as primeiras dormidas do Nuno em Benfica.

Mafalda, a mãe tem medo de dormir sozinha dizia ele, a fazer sacos de viagem. Diz que a casa faz eco, só silêncio. Durmo lá duas noites, só isso

Duas noites?! retrucou ela de sobrancelha erguida. Acabámos de casar há meia dúzia de meses e tu já foges metade da semana? Não quero dormir sozinha!

Ó Mafalda, é temporário. Quando ela se recompor, passa.

O temporário virou um mês.

D. Lurdes exigia o filho quatro noites por semana ao serão e para dormir.

Inventava tensão arterial, ataques de pânico, entupia de propósito a canalização.

Mafalda via Nuno a rebentar pelas costuras entre duas casas e acabou por cometer Aquele Erro. O tal que todas se arrependeriam.

***
Decidiu ter uma conversa franca.

Ouça, D. Lurdes empurrou ela a sobremesa no domingo. Se custa tanto estar sozinha, porque não passa os dias connosco?

O Nuno trabalha, eu teletrabalho. Assim está aqui no centro, pode ir ao jardim, estar connosco. Depois à noite, o Nuno leva-a a casa.

A sogra olhou para ela de lado.

Ah Mafaldinha, és tão esperta. Tens razão, para quê estar a apodrecer à janela sozinha?

Mafalda achava que seriam visitas duas vezes por semana, chegar perto do almoço, sair antes de Nuno.

Mas D. Lurdes tinha outros planos: apareceu às sete da manhã!

Quem é? murmurou Nuno, a esfregar os olhos ao som da campainha.

Abriu ele a porta.

Sou eu! respondeu ela, cheia de energia. Trouxe ricotta fresquinha do mercado!

Mafalda enfiou-se debaixo das mantas.

A sério?! resmungou para o marido. Onde é que ela foi desencantar ricotta a esta hora?!

A mãe sai cedo Nuno já vestia as calças. Dorme, que eu trato disso.

Dali em diante foi o inferno. D. Lurdes não só passava lá o dia vivia oito horas pela casa.

Mafalda tentava trabalhar, mas ouvia constantemente ao ouvido:

Mafalda, anda cá, o pó do televisor está à vista. Olha, tenho aqui um paninho, já resolvo.

Ó D. Lurdes, estou em reunião daqui a cinco minutos!

Ai, reunião quê… Estás para aí a ver bonecada no ecrã.

E já agora, rapariga, andas a passar as camisas ao Nuno muito a despachar, vê lá se te ensino a fazer vincos a sério.

Toma lá, que ainda tens tempo antes de atender clientes.

Tudo era tema de crítica.

Como cortava a cenoura: O Nuno gosta em tirinhas, não aos cubos.

Como fazia a cama: O cobre-leito tem de tapar até o chão, não só até ao meio!

Como cheirava a casa de banho: Devia sentir-se cheirinho bom, aqui parece cave.

Mafalda, não te aborreças, dizia ela enquanto espreitava para as panelas. Mas este teu caldo está salgado.

O Nuno habituou-se a sopas light! Tem o estômago fraquito, não sabia?

Vai lhe dar cabo do aparelho digestivo com essa mão pesada de sal. Sai daí, deixa-me coser mais água nisto.

A sopa está ótima respondia Mafalda entre dentes cerrados. O Nuno repetiu ontem!

Ai, é um sensível, não te quer magoar. Tem pena de ti, coitadinho.

Ao almoço, Mafalda já estava pelos cabelos.

Fugia para a pastelaria e ficava horas só para não ouvir lições de vida.

A cada volta, piorava: primeiro apareceu a caneca preferida da sogra enorme, rosa choque, dizeres À Melhor Mãe.

Depois ocupou um cabide do hall com o impermeável. Uma semana depois, Mafalda descobriu uma prateleira inteira no armário dedicada à mudança de roupa e dois robes de senhora.

Para que é esses robes aqui?! perguntou, horrorizada, ao encontrar uma coisa turca cor-de-rosa ao pé das suas combinações de seda.

Ora Mafaldinha, fico aqui o dia inteiro, canso-me, gosto de roupa de casa.

Somos todos família, não fiques assim com trombas.

Nuno, ante as queixas da mulher, só sabia responder o mesmo:

Vai lá, Mafalda, sê compreensiva. Perdeu o marido, precisa sentir-se útil. São só gavetas, qual é o stress?

Não são as gavetas! A tua mãe está-me a tirar do meu próprio lar!

Estás a exagerar. Ela ajuda, limpa, cozinha. Tu própria disseste que detestavas passar a ferro

Prefiro andar amarrotada do que usar roupa passada por ela! bufava Mafalda.

O marido era surdo seletivo.

***
Aquilo das embalagens na casa de banho foi a gota.

Nuno, anda cá! gritou D. Lurdes da cozinha. Os almôndegas arrefecem!

Mafaldinha, vem também, pus pouco picante na tua porção, sei que não gostas…

Mafalda irrompeu pela cozinha, onde a sogra já mandava vir com os pratos.

D. Lurdes perguntou calmamente. Porque pôs as minhas coisas debaixo da banheira?

Ela nem pestanejou. Encostou o garfo ao prato do Nuno e sorriu.

Ah, Mafaldinha, era disso? Estavam quase vazias, ocupavam espaço, e o cheiro era um terror. Até fiquei enjoada!

Pus as minhas, que já conheço bem. As tuas arrumei todas certinhas, não estão a incomodar.

Espero que não te importes. Já precisava de organizar aquilo!

Eu importo-me avançou Mafalda. Aquela casa de banho é minha. Aqueles produtos são meus. E a casa também!

Que tua, minha querida? D. Lurdes deixou-se cair na cadeira com um suspiro de novela. A casa está no nome do Nuno.

Tu aqui és dona, claro… com respeito à mãe dele.

Nuno quase virou transparente.

Oh mãe, vá lá… Também há a casa da Mafalda… Só vivemos aqui porque calhou…

Uma casa velha, essa? desdenhou D. Lurdes. Um antro dos tempos da avó.

Nuno, anda jantar… Vês que a tua mulher já está de trombas, deve ser fome.

Mafalda fitou o marido. Esperou.

Esperou que dissesse: Mãe, chega. Ultrapassou os limites. Arrume as coisas e regresse a sua casa.

Nuno ficou a apalpar o ar, olhando de uma para a outra. E… sentou-se à mesa.

Mafalda, anda comer. Falamos depois. Ó mãe, também não devia ter mexido nas coisas, a sério…

Estás a ver?! proclamou D. Lurdes, triunfante. O meu Nuno entende. Mafaldinha, não sejas egoísta. Família é tudo partilhado!

O elo de Mafalda rachou de vez.

Tudo partilhado? repetiu. Pois bem.

Deu meia volta e saiu da cozinha.

Nuno ainda berrou algo, mas ela nem ouviu. Fez as malas em vinte minutos, enfiou o essencial nas malas.

Nem quis saber dos frascos na banheira comprava outros.

Saiu ao som de dois coros: marido a suplicar ponderação, sogra a resmungar e a dar bicadas disfarçadas.

***
Mafalda estava decidida: não voltaria. Pediu divórcio logo na semana a seguir.

O marido, ainda legal, telefonava todos os dias a pedir que voltasse, enquanto a sogra ia transferindo os pertences para o T1 do filho.

Mafalda, cá para ela, tinha a certeza: era isso mesmo que D. Lurdes sempre quis…

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

11 − 4 =