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0171
“Está Na Hora de Crescer, Luís! — Quando o Marido de Quarenta Anos Ainda Vive Como Adolescente e Decide Pôr em Risco Tudo Pela Família Problemática: Uma História Real de Uma Mulher Portuguesa que Carregou a Casa nas Costas… Até Dizer Basta”
Está na hora de cresceres, disse Margarida ao marido. A reação dele tirou-a do sério Imaginem viver com
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0253
«Não gostou? A porta da rua é serventia da casa», rebateu Júlia às visitas indesejadas Trinta anos Júlia viveu calada. O marido mandava, ela acatava. A sogra aparecia, ela punha o chá. A cunhada chegava com malas, ela acomodava no quarto dos fundos – “só por uns dias”, prometia a cunhada, mas ficava três meses. E o que fazer? Se criasse caso, diriam que era má esposa. Se negasse, achariam ela sem coração. Júlia foi se acostumando a aguentar. Até aprender nem notar como sua vida própria virava apenas serviço aos outros. O marido, António Lopes, era homem simples. Era encarregado de obras, gostava de petiscos regados a vinho e queixumes do patrão. Chamava Júlia de “minha dona de casa” e não entendia por que, às vezes, ela chorava à noite. “Ora, estás cansada, descansa. Se veio família, dá de comer. Simples.” Quando ele morreu, Júlia ficou só no T3 de Chelas. Fez o velório como manda o figurino: mesa posta, vinho, discursos de “bom homem”. A família reuniu-se, chorou, foi-se embora. Júlia pensou: “Agora enfim vou descansar.” Pois sim. Na semana seguinte, liga a cunhada, Paula: – Júlia, amanhã vou passar aí. Levo umas compras. – Não é preciso, Paula. – Ora essa, pareces de fora! Não vou de mãos a abanar! Chegou com dois sacos de arroz e um pedido: alojar o sobrinho Tiago, “que vai entrar na faculdade em Lisboa”. Júlia tentou recusar delicadamente: – Mas ele vai ter residência, não vai? – E até lá fica onde? No banco do metro?! Júlia cedeu. Tiago acampou-se no quarto dos fundos. Tinha maus modos: meias espalhadas, pratos na pia, música até tarde. Estudar, não estudava – mas arranjou emprego como estafeta e usava o apartamento como base. – Tiago, será que já não procuras outro sítio? – sugeriu Júlia, cautelosa, um mês depois. – Ó tia, nem tenho dinheiro para renda! Duas semanas depois, apareceu a filha do falecido António, Vera, do primeiro casamento. Chegou armada em mágoas antigas e no direito: – O pai deixou-te o apartamento, e a mim?! Eu sou filha! Júlia não sabia o que responder. A casa estava no nome do marido e, por lei, passou a ser dela. Mas Vera olhava-a como se tivesse sido uma ladra. – Percebes como me custa? – insistia Vera. – Sou mãe solteira, pago renda! Júlia tentou explicar que só tinha aquela casa, sem mais dinheiro, que nem ela sabia como se ia arranjar. Mas Vera não veio ouvir, só queria “justiça”. A onda de visitas piorou. A sogra brotava com conselhos: “Vende essa casa, compra uma menor.” A cunhada com mais um sobrinho. Vera com novas exigências. Em cada visita, Júlia punha a mesa, servia chá, ouvia reprimendas. Até que um dia falaram da casa sem rodeios. – Júlia, para que queres três quartos sozinha? – sorveu a cunhada o chá. – Vende isto, compra um T1. O resto, ajudas os miúdos. – Quais miúdos? – estranhou Júlia. – Ora, a Vera. O Tiago. A vida custa. Júlia olhou – cunhada, Vera, sogra. E sentiu: não vieram consolar. Vieram dividir. – Não gostam? – disse baixinho. – Podem ir-se embora. Silêncio. – O que disseste? – repetiu a cunhada, devagar. – Para irem-se embora – disse Júlia, mais alto. – Da minha casa. Todos olharam para Júlia como se falasse outra língua. Ou praguejasse. – Achas-te dona disto tudo? – indignou-se a cunhada. – Somos família! – Que família? – sussurrou Júlia. – A que só aparece para comer e ver televisão? – Mãe, estás a ouvir isto? – indignou-se a cunhada para a sogra. – Bem te dizia, esta Júlia é uma orgulhosa! A sogra, calada, só observava – sempre suspirava, dizendo sem palavras “a ingrata da Júlia fez asneira outra vez”. – Dona Helena – falou Júlia à sogra –, trinta anos a ensinar-me como ser boa mulher, como agradar, como pôr a mesa. E quando eu chorava à noite, sabe o que dizia? ‘Aguenta. Todas temos de aguentar’. Lembra-se? A sogra apertou os lábios. – Pois aguentei. Mas acabou. A paciência acabou-se. Como o óleo na lata. Acabou. A cunhada agarrou a mala: – O Tiago vai saber de tudo! Vai saber quem és! – Conte-lhe. Só leve-o daqui. Amanhã. Ou ponho-lhe as coisas à porta. Foram-se embora, porta a bater, lustre a tremer. Júlia ficou na cozinha. Mãos a tremer, coração aos saltos. Bebeu água da torneira de um trago. Pensou: “Meu Deus, o que fui fazer?” Depois: “Mas afinal, que fiz eu? Só corri hóspedes indesejados da minha casa!” Não dormiu. Mexia, remexia. Pensamentos a moerem como roupa na velha máquina da avó. E se tinham razão? Será que era má? Deveria aguentar mais? Mas de manhã veio a clareza. Aguentar devia ser temporário. Trinta anos não é paciência. É rendição. Tiago saiu dois dias depois. Paula foi buscá-lo, sem lhe olhar nos olhos. O sobrinho, a resmungar “velha bruxa”. Júlia calada. Dantes choraria, tentaria explicar-se. Agora, silêncio. Uma semana depois, Vera ligou: – Eu e a avó pensámos… – disse cauta. – Com que avó? – cortou Júlia. – A tua morreu em 92. Dona Helena é minha ex-sogra. Silêncio. Vera não esperava. – Pronto, pronto – apressou-se. – Decidimos não brigar. O pai gostava de ti… – Gostava, à maneira dele. Mas a casa é minha. Por direito. Não devo nada a ninguém. – Por justiça… – Justiça? – Júlia sorriu. – Justiça era se, em trinta anos, me dessem um ‘parabéns’. Ou ligassem só para perguntar se estava bem. Isso seria justiça. – Estás amarga – disse Vera, fria. – A solidão endureceu-te. – Não. Só deixei de fingir. Os dias arrastaram-se. Júlia ia ao hospital – trabalhava como auxiliar –, jantava sozinha. A vizinha, Dona Clávia, surgia com empadas: – Júlia, está tudo bem? Não estás triste? – Não. – A malta da tua família já não aparece? – Não. – Fazes bem – elogiou Dona Clávia. – Sempre achei: quando é que tu tinhas juízo? Finalmente! Júlia sorriu. Sincera, pela primeira vez. O mais difícil não foi a mágoa da família. O pior foi o silêncio. Ninguém para dar as boas-noites, ninguém para partilhar o chá. Percebeu: a vida inteira existiu para os outros. E agora? Agora tinha de aprender a existir para si mesma. Isso, sim, era assustador. Um mês depois, Paula voltou – sem aviso. Com Tiago, sogra, Vera. Todos de uma vez. Júlia abriu a porta – eles ali, cara de comitiva. – Então, Júlia? – começou a cunhada. – Já mudaste de ideias? – Sobre o quê? – estranhou Júlia. – A casa. Vendes? Júlia olhou cada rosto. Tinham vindo à séria. Acharam que um mês de solidão a dobraria. – Entrem, se quiserem. Entraram. Sentaram na cozinha. Sogra foi checar o frigorífico. Vera no telemóvel. Paula de frente para Júlia. – Estás a ver que sozinha não te safas. Despesas, arranjo… Para quê tanto espaço? – Gosto do espaço, sim – respondeu Júlia. – Mas estás sozinha! – intrometeu-se Vera, largando o telemóvel. – Achei aqui negócio: vendes, compras T1 na margem sul. Sobram cem mil euros. Trezentos mil para cada. Eu, Tiago e tu. Júlia calada. Mirou Vera – unhas de gel, mala cara. – Ou seja, eu devo ir para longe, para sobrar vosso dinheiro? – Ora, é justo! – bufou Vera. – O pai sempre investiu nesta casa! – Não. Foi atribuída pelo Estado, em 84. As obras fui eu que paguei. – Júlia, não compliques – insistiu Paula. – Falamos na boa. Somos família! Algo se partiu por dentro de Júlia. Um estalido. – Família? Onde esteve a “família” quando fui operada há três anos? Foste lá, Paula? A cunhada desconversou. – E a senhora, Dona Helena? Ligou-me? Sogra calada, de olhos na janela. – E tu, Vera? Sabias que estava no hospital? Vera: – Ninguém me disse. – Pois. Porque ninguém quis saber. Hoje também não querem. Só querem a casa. – Júlia, não te exaltes – começou Paula. – Não estou exaltada. Só já chega. Chega. Levantou-se, foi à porta. – Vão-se embora. Agora. Nunca mais voltem. – Perdestes a noção?! – berrou Vera. – Quem pensas que és? Nem da família és! – Pois não. Graças a Deus. Paula levantou-se: – O António se soubesse! – Se soubesse, obrigava-me a ceder. Como sempre. Mas não está cá. E agora mando eu. – Vais arrepender-te! – murmurou Vera. – Ficarás velha e doente, irás rastejar à nossa porta! – Olha, Vera, tenho 58 anos. Trinta vivi achando que se fosse boazinha, me amariam; cedendo, me respeitariam. Mas não: quanto mais cedia, mais exigiam. Não. Nunca vos irei bater à porta. Saíram calados. Paula ruborizada. Sogra taciturna. Vera esbofeteou a porta. Júlia ficou no corredor. Mãos a tremer, cabeça a zunir. Na cozinha, sentou e chorou. Não de pena – de alívio. Na semana seguinte, Dona Clávia ligou: – Ouvi dizer que tiveste um arrufo com todos? – Não arrufo. Só disse a verdade. – Fizeste bem. Olha, tenho uma neta, Catarina. Trinta anos, separada. Sozinha, não sabe que fazer. Queres conhecê-la? É boa rapariga, trabalhadora. Conheceram-se. Catarina era calada, tímida, contabilista, alugava quarto. Passava por chá, conversavam horas. – Não queres vir morar cá comigo? – sugeriu Júlia de repente. – Tens uma cama livre. Pagas só as despesas. Catarina mudou-se um mês depois. Viver com quem respeita o espaço é fácil – não se mete, não critica, não ensina. Júlia inscreveu-se na biblioteca do bairro, onde um dia trabalhou. Ia buscar livros, aqueles que antes nunca podia ler. Às vezes pensava nos parentes: Como andariam? Paula com Tiago? Vera com a filha? Sogra? Mas nunca tinha vontade de ligar. Meio ano depois, Dona Clávia contou: – Ouviste? Tua cunhada foi morar com o filho. Numa residência. Na aldeia estava deprimida. – Ainda bem – respondeu Júlia. – E a Vera? Casou. Com empresário. Passeia toda fina. – Boa sorte para ela. A vizinha olhou Júlia, curiosa: – Não te magoa? – Porquê? – Eles seguiram sem ti. Júlia sorriu: – Dona Clávia, sempre seguiram sem mim. Só agora é que entendi isso. À noite, Júlia sentou-se junto à janela. Lá fora, lusco-fusco, candeeiros, gente a regressar a casa. Catarina a cantarolar, fazendo o jantar. Júlia pensou: eis a felicidade. Não é no aplauso da família. É poder dizer “não” e não morrer de culpa. E a si, já lhe calhou lidar com familiares “penetras”? Amigos, sigam a página para não perder nenhum dos próximos relatos!
Não gostas? A porta é serventia da casa! disse Manuela, sem cerimónia, aos parentes indesejados.
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079
A vizinha do lado achou que a minha colheita era de todos, mas tratei-lhe da mania da borla num instante
Ó Maria das Dores, não faças essa cara, vizinha! Então agora contas os pepinos? Aqueles já estão quase
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0153
A minha sogra deu-me as suas roupas antigas de presente no meu 30.º aniversário – e eu não escondi a minha desilusão
Ó, Joana, explica-me lá Porque é que puseste aquele maionese baratucho na salada russa? Já te disse mil
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078
A família do meu marido apareceu de surpresa na minha quintinha para descansar, mas eu entreguei-lhes pás e ancinhos
A família do meu marido apareceu na minha quinta para descansar, e eu entreguei-lhes pás e ancinhos Então
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067
A família do meu marido apareceu de surpresa na minha quintinha para descansar, mas eu entreguei-lhes pás e ancinhos
A família do meu marido apareceu na minha quinta para descansar, e eu entreguei-lhes pás e ancinhos Então
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064
A minha sogra decidiu inspeccionar os meus armários na minha ausência, mas eu preparei-lhe uma surpresa à portuguesa
Mas porque é que tens fronhas de almofada de conjuntos diferentes na cama? Isso é falta de cuidado, e
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0220
A Substituição: Quando a Sofia, veterana da logística em Lisboa, acolheu a novata Milena com receitas de família e conselhos de vida, não imaginava que, no momento da crise e das demissões, seria justamente a aprendiz a tentar tomar o seu lugar na empresa — mas, entre relatórios, bolos e traições, o verdadeiro valor da experiência portuguesa fala mais alto.
Dona Isabel Antunes, faça o favor de se apresentar. Esta é Filipa, a nossa nova colega. Vai integrar
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024
Mãe, Sorri para Mim A Ana não gostava quando as vizinhas vinham lá a casa e pediam à mãe para cantar uma música. – Ó Maria, canta lá, tens uma voz tão bonita, e ainda danças que é uma maravilha! – a mãe começava a cantar, as vizinhas acompanhavam, e por vezes até todas dançavam juntas no pátio. Naquela altura, a Ana vivia com os pais numa aldeia, na sua própria casa, juntamente com o irmão mais novo, o António. A mãe era alegre e acolhedora, e quando as vizinhas partiam, dizia: – Voltem sempre, foi uma tarde bem passada! – prometiam que sim. A Ana nunca percebeu porque não gostava de ver a mãe cantar e dançar, até sentia vergonha. Na altura andava no quinto ano e um dia disse: – Mãe, não cantes nem dances, por favor… Fico envergonhada – nem ela própria sabia bem o porquê. Mesmo agora, já adulta e mãe, não consegue explicar. Mas a Maria respondeu-lhe: – Ana, não tenhas vergonha quando eu canto, pelo contrário, deves alegrar-te. Não vou cantar e dançar para sempre, agora ainda sou jovem… A Ana não pensava nisso naquela altura, nem imaginava que a vida podia ser tão difícil. Quando a filha andava no sexto ano e o irmão no segundo, o pai foi-se embora. Pegou nas coisas e saiu para nunca mais voltar. A Ana não sabia o que se tinha passado entre a mãe e o pai. Mais tarde, já adolescente, acabou por perguntar: – Mãe, porque é que o pai nos deixou? – Vais perceber quando fores crescida – respondeu a mãe. A Maria não conseguiu contar à filha que apanhou o marido, lá em casa, com outra mulher, a Vera, que morava ali perto. A Ana e o António estavam na escola e ela foi a casa de repente buscar a carteira. A porta não estava trancada, estranho, já que o marido devia estar a trabalhar, era só onze da manhã. Entrou em casa e viu uma cena chocante no quarto. Os dois, Ivan e Vera, ficaram surpreendidos a olhar para ela, como se nada fosse. À noite, quando o marido apareceu do trabalho, houve um escândalo. Os filhos brincavam na rua, não ouviram nada. – Pega nas tuas coisas, juntei-as no quarto, e vai-te embora. Nunca te vou perdoar. O Ivan tentou, mas sabia que a mulher não o perdoaria nunca. – Maria, foi uma asneira, pode ser que esqueçamos isto? Temos filhos! – Vai-te embora. – foi o único que ela disse, e saiu para o pátio. O Ivan levou as coisas e saiu, a Maria ficou por detrás da casa, a chorar. Nunca mais quis ver o marido, a dor da traição ficou-lhe cravada. – Não faz mal, hei de dar conta do recado com os miúdos – pensou, a chorar. – Nunca hei de perdoá-lo. E não perdoou. Ficou sozinha com dois filhos. Sabia que seria difícil, mas só sentiu na pele o quanto depois. Teve de arranjar dois empregos: limpava durante o dia e à noite trabalhava numa padaria. Não dormia o suficiente, o sorriso desapareceu-lhe do rosto. O pai morava a poucas casas dali, a Vera tinha um filho da idade do António, eram colegas na escola. A Maria nunca proibiu os filhos de falarem com o pai, iam visitá-lo. Brincavam todos juntos, mas iam sempre comer a casa. A Vera não os acolhia, só para brincar. Às vezes, o filho da Vera vinha também a casa da Ana e do António, os vizinhos olhavam, admirados. A Maria dava de comer a todos, não se importava com o enteado. Mas a Ana nunca mais viu a mãe sorrir. Era carinhosa e boa, mas fechou-se em si mesma. Quando a Ana chegava da escola, ansiava por um momento com a mãe, e contava-lhe as novidades. – Mãe, acredita, o Gonçalo levou um gatinho para a aula, e o gato miou tanto que a professora ralhou com o Gonçalo, pensava que era ele! No fim descobriu, expulsou-o e chamou a mãe dele à escola. – Pois… Está bem… – respondia a mãe, distante. A Ana percebeu que nada parecia alegrar a mãe, ouvia-a chorar à noite, parada à janela a olhar para o vazio. Só já adulta percebeu. – A minha mãe devia estar exausta, trabalhava dia e noite. E devia faltar-lhe saúde… Dava tudo de si por mim e pelo António. Andávamos sempre bem vestidos, as roupas lavadas e passadas. – recordava-se a filha. Nessa altura, pedia: – Mãe, sorri, já não me lembro da tua última vez sorridente. A Maria adorava os filhos, à sua maneira, não era muito de abraços, mas elogiava-os quando tinham boas notas e portavam-se bem na escola. Cozinhava-lhes refeições deliciosas, a casa estava sempre arrumada. A Ana sentia o amor da mãe quando ela lhe penteava o cabelo. A mãe fazia-lhe festas na cabeça, triste, com os ombros caídos. Os dentes começaram-lhe a cair cedo, tirava-os mas não punha novos. Quando acabou a escola, a Ana nem pensou em entrar na universidade, não queria deixar a mãe sozinha, sabia que precisavam de dinheiro. Arranjou trabalho numa loja perto de casa. Ajudava a mãe, o António estava a crescer e precisava de roupa nova e sapatos. Um dia, o Miguel entrou na loja, era de outra aldeia. Gostou logo da Ana, apesar dela ser bem mais nova. – Como te chamas, lindinha? – perguntou com um sorriso. – És nova aqui, nunca te vi. – Ana, também nunca o vi por aqui. – Sou da aldeia a oito quilómetros, Miguel é o meu nome. Assim se conheceram. O Miguel começou a vir buscá-la de carro ao trabalho. Passeavam, conversavam no carro. Levou-a à terra dele, vivia com a mãe, muito doente. Já fora casado; a mulher foi-se embora para a cidade com a filha, não quis cuidar da sogra. Tinha uma boa casa, fazenda grande, dava-lhe boa comida. A mãe estava sempre no quarto. – Ana, queres casar comigo? – propôs o Miguel. – Gosto muito de ti. Mas aviso já, tenho de cuidar da minha mãe, mas eu ajudo-te. A Ana ficou contente, mas conteve-se. Cuidar da sogra não lhe custava nada. O Miguel aguardava tenso. – Aceito, assim ao menos como carne e natas à vontade – pensou, mas respondeu só com “está bem, aceito”. O Miguel ficou radiante. – Ana, sou mesmo feliz, amo-te… e não pensei que uma rapariga tão nova aceitasse casar com um homem mais velho e divorciado. Prometo nunca te fazer mal, seremos felizes. Trabalhava bastante e ajudava na fazenda. Depois do casamento, a Ana mudou-se. Já nem queria tanto morar com a mãe. O António já crescido andava a estudar mecânica no Colégio do concelho, ia a casa nos fins-de-semana e férias. O tempo passou. A Ana era feliz com o marido. Tiveram dois filhos, um a seguir ao outro. Ela não trabalhava fora, havia muito que fazer em casa, as crianças e a sogra (que faleceu dois anos depois de viverem juntos), e a fazenda. O Miguel encarregava-se dos trabalhos mais duros. – Ana, não carregues baldes pesados, deixa isso para mim, trata só das vacas, das galinhas, dos patos, que dos porcos encarrego-me eu. A Ana sabia que o Miguel a amava, adorava os filhos. Apesar de nunca ter tido uma quinta grande com a mãe, depressa aprendeu tudo. O Miguel era generoso: – Ana, vamos levar carne e leite à tua mãe. Ela tem de comprar tudo, e nós temos caseiro. A Maria agradecia, mas nunca mais se viu sorrir. Mesmo com os netos, estava séria. Iam visitá-la muitas vezes, a Ana tinha pena dela e não sabia como a animar. – Ana, porque não vais falar com o padre na igreja, pode ser que te aconselhe – sugeriu o Miguel, e ela achou boa ideia. O padre prometeu rezar por ela e disse: – Pede a Deus que a tua mãe encontre uma boa pessoa no caminho dela. A Ana rezou e pediu. Um dia, a Maria disse à filha: – Ana, não me emprestas dinheiro? Quero pôr uma prótese, já não posso mais sem dentes. – Mãe, querido, pago-te tudo! – respondeu, contente, mas sabia que a mãe ia insistir em devolver. Deu-lhe o dinheiro que faltava. Falaram ao telefone, porque a Ana não pôde ir logo, pois o marido andava a ajudar o tio, o senhor Nicolau, que se mudou da cidade para a aldeia, depois da mulher o deixar. O Miguel ajudava-o com os papéis da casa nova. O Miguel ia lá muitas vezes, a Ana por vezes também ia. Até que um dia o marido chegou a casa e disse: – Parece-me que o tio Nicolau está a pensar casar. Ouvi-o ao telefone, ficou-me a impressão… – Faz ele muito bem – disse a Ana, – ainda é novo, precisa de companhia para aquela casa boa. Pouco depois, o próprio Nicolau apareceu lá. – Quero convidar-vos para cá vir. Encontrei o meu primeiro amor, estudámos juntos. Amanhã mudo-a para cá, depois de amanhã venham cá. Dois dias depois, o Miguel e a Ana foram lá com presentes. Quando a Ana entrou em casa, ficou pasmada. À frente dela estava a mãe, a sorrir. A Maria estava transformada, notava-se que era outra mulher. – Mãe! Estou tão feliz… Mas porquê não disseste nada? – Não quis dizer antes, e se não desse certo? – Ó tio Nicolau, e você porque não disse nada? – Tive medo que a Maria mudasse de ideias… Agora estamos felizes. O Miguel e a Ana ficaram radiantes ao verem a Maria e o Nicolau juntos, felizes e com o sorriso sempre no rosto. Obrigada por ter lido esta história, por subscrever e apoiar. Que a sorte esteja consigo na vida!
Mãe, sorri Nunca gostei muito quando as vizinhas cá do bairro vinham cá a casa e pediam à minha mãe para
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0117
Pensionista confessa: “Já lá vão mais de seis anos desde a última vez que vi o meu filho” — Uma conversa com a vizinha que partiu o coração, recordações de aniversários ignorados e visitas recusadas pela nora, a solidão após a venda do apartamento em Lisboa e uma vida dedicada ao filho que agora a esqueceu
Lembro-me ca se fosse ontem, embora tudo se tenha passado há tantos anos, quando perguntei à minha vizinha, D.