Pensionista confessa: “Já lá vão mais de seis anos desde a última vez que vi o meu filho” — Uma conversa com a vizinha que partiu o coração, recordações de aniversários ignorados e visitas recusadas pela nora, a solidão após a venda do apartamento em Lisboa e uma vida dedicada ao filho que agora a esqueceu

Lembro-me ca se fosse ontem, embora tudo se tenha passado há tantos anos, quando perguntei à minha vizinha, D. Alda, sobre o filho dela.

Há quanto tempo não fala com o seu filho? aventei, sem imaginar que esta simples pergunta haveria de pesar tanto no coração de alguém. Ela suspirou fundo e, no olhar, já trazia a tristeza dos anos.

Já passam mais de seis anos desde a última vez que o vi. Assim que casou, telefonava-me de vez em quando, só que depois foi-se afastando, desapareceu do meu mundo. Numa ocasião, comprei-lhe um bolo de aniversário e fui fazer-lhe uma visita e, ao recordar, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas silenciosas.

E depois, D. Alda, o que aconteceu?

Foi a minha nora, a Ângela, quem abriu a porta. Disse, com voz seca, que ali eu não era bem-vinda. O meu filho, o Tomé, limitou-se a olhar-me, sem uma palavra, desviando o olhar como se eu tivesse alguma coisa a lamentar. Foi a última vez que o vi, nunca mais me procurou.

Ele nunca mais lhe ligou?

Liguei-lhe uma vez, quando vendi o meu apartamento T3 em Benfica para comprar um mais pequeno em Campo de Ourique. Era justo ajudá-lo, dei-lhe algum dinheiro. Veio cá, assinou a papelada, recebeu o valor e nunca mais me atendeu o telefone.

Sente-se muito sozinha ou já se habituou à ideia? perguntei-lhe, tocada pela história.

Estou em paz, minha querida. Quando era jovem, fiquei sozinha com o Tomé o pai dele trocou-me por outra mulher e fui eu quem o criou, dei-lhe tudo o que podia: amor, carinho, sacrifício. O Tomé cresceu num lar com afectos. Depois quis sair de casa, arrendar um apartamento para ele. Fiquei contente, pensei pronto, o meu filho já é homem, vai fazer a sua vida.

Mas era a Ângela quem queria independência; achava que ninguém deveria intrometer-se nas festas deles, queria o espaço só para os dois. Logo depois, ela engravidou.

Fala disso com tanta serenidade, D. Alda Não fica triste por o Tomé tê-la abandonado assim, já com idade?

A tristeza já passou, filha. Habituamo-nos a tudo. Gosto de viver aqui, o prédio é novo, a vizinhança é simpática, dinheiro não me falta para o que preciso. Todas as manhãs ponho a chaleira ao lume, saio para a varanda e tomo o meu chá a ver Lisboa a acordar. Quando era nova, só sonhava descansar um pouco mais: andava sempre a correr para dois empregos. Imaginava-me a envelhecer rodeada de família mas o fado quis que fosse assim, sozinha, e já não lamento.

E um animal de estimação? Dois até. Faziam-lhe companhia.

Sabes, amorzinho, até os gatos vão embora dos donos de vez em quando e um cão, não poderia, não sei se amanhã abro os olhos ou não. Não posso assumir uma vida se não tenho certezas de que posso protegê-la. Já cometi um erro grande uma vez, chega

Tentava compor-se, orgulhosa ainda, mas não conseguiu disfarçar as lágrimas caíram-lhe pelo rosto, numa despedida suave do que já não volta.

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Pensionista confessa: “Já lá vão mais de seis anos desde a última vez que vi o meu filho” — Uma conversa com a vizinha que partiu o coração, recordações de aniversários ignorados e visitas recusadas pela nora, a solidão após a venda do apartamento em Lisboa e uma vida dedicada ao filho que agora a esqueceu
Зовицата пожела да отпразнува юбилея си у нас и настоя за освобождаване на апартамента