A Substituição: Quando a Sofia, veterana da logística em Lisboa, acolheu a novata Milena com receitas de família e conselhos de vida, não imaginava que, no momento da crise e das demissões, seria justamente a aprendiz a tentar tomar o seu lugar na empresa — mas, entre relatórios, bolos e traições, o verdadeiro valor da experiência portuguesa fala mais alto.

Dona Isabel Antunes, faça o favor de se apresentar. Esta é Filipa, a nossa nova colega. Vai integrar o seu departamento.

Isabel ergueu os olhos do ecrã e encontrou à sua frente uma jovem de vinte e poucos anos. Cabelos castanhos presos num rabo-de-cavalo impecável, o rosto aberto numa expressão de timidez e esperança. Filipa mudava o peso de um pé para o outro, apertando uma fina pasta contra o peito.

Muito prazer disse a rapariga, inclinando levemente a cabeça. É uma honra poder estar aqui. Prometo que vou dar o meu melhor.

O chefe, Dr. Manuel Pires, já se encaminhava para a porta, mas fez uma pausa.

Dona Isabel, tem já vinte anos na logística desta empresa. Ensine a Filipa como tudo se faz. Mostre-lhe o sistema, os percursos, o contacto com os transportadores. Em um mês, deverá estar pronta para gerir uma área sozinha.

Isabel acenou, estudando a recém-chegada. Vinte e três anos podia muito bem ser sua filha, se a vida tivesse seguido outro rumo. Aos cinquenta e cinco, Isabel aceitara há muito que a família ficara por sonho. Só trabalho, o apartamento com os seus vasos de sardinheiras na janela e o Tareco, o seu gato.

Senta-te aqui disse Isabel, apontando para a secretária ao lado. Vamos orientarmo-nos.

Na primeira semana, Filipa trocava os códigos das transportadoras e esquecia-se de registar dados no sistema. Isabel corrigia com paciência, explicava de novo, fazia esquemas em folhas soltas para ajudar.

Repara, aqui escreveste Porto, mas a mercadoria vai para Faro. São quatrocentos quilómetros de diferença, percebes?

Filipa corava ate às orelhas, pedia desculpa, logo corrigia. E voltava a errar, mas pelo menos em pontos diferentes.

A meio da segunda semana, o trabalho já fluía melhor. Filipa aprendia depressa, anotando cada palavra de Isabel num caderno gasto com gatos desenhados na capa.

Dona Isabel, porque não trabalhamos com esta transportadora? Os preços são simpáticos.
Porque já falharam os prazos duas vezes. Reputação vale mais que um desconto, lembra-te disso.

Filipa abanava a cabeça, fazia uma nota. Um dia, do nada, perguntou:

É a senhora que faz os pastéis? Sempre que abre o seu tupperware, cheira maravilhosamente.

Isabel sorriu de lado. No dia seguinte, trouxe um recipiente maior, com pastéis de bacalhau acabadinhos de fazer. Durante o almoço, Filipa devorava-os com alegria, como se provasse iguarias do outro mundo.

A minha avó fazia assim dizia, apanhando as migalhas com cuidado. Já faleceu há dois anos. Tenho tantas saudades dela.

De impulso, Isabel pousou a mão em cima dos dedos finos da rapariga. Filipa não se afastou; sorriu-lhe com gratidão.

Vieram depois as queijadas, o bolo de laranja, o pão-de-ló que Filipa garantiu ser o melhor que já comera na vida. Isabel dava por si a cozinhar de propósito a dobrar, só para a poder mimar. Um calor doce, há muito esquecido, preenchia-lhe o peito.

Dona Isabel, posso pedir um conselho? Não é do trabalho.
Força.
O meu namorado pediu-me em casamento. Só namoramos há meio ano. Acha cedo?

Isabel afastou os papéis, olhou-a demorada, reparando nos olhos inquietos de Filipa.

Se duvidas, é porque é cedo. Quando for mesmo ele, nem te passa pela cabeça perguntar.

Filipa soltou um suspiro profundo, como se tirasse um peso das costas; usufruía do alívio que Isabel lhe dava gratuitamente.

Ao fim do terceiro semana, Filipa já negociava sozinha com os transportadores, revia trajetos, apanhava erros alheios. Isabel vigiava-a com orgulho discreto tinha formado alguém.

A senhora é como uma mãe para mim. Das boas, não daquelas sempre a criticar como a minha.

Isabel franziu o rosto, desviou-se para a janela.

Anda lá, põe-te a trabalhar.

Mas o sorriso já não a largou o resto do dia.

Filipa reinventou-se nesse mês. Isabel via como já conduzia as conversas com desenvoltura, despachava os pedidos, navegava os ficheiros como peixe na água. A aluna superava as expetativas.

Na reunião de sexta-feira, o Dr. Manuel Pires surgiu carregado, olhar sombrio. Sentou-se à cabeceira, rodou um lápis entre os dedos, respirou fundo antes de falar.

Estamos numa situação delicada começou, varrendo a sala com os olhos. O mercado está em recessão, perdemos três grandes clientes para os concorrentes. A direção vai avançar com redução no pessoal.

Isabel trocou olhares com os colegas. Todos sabiam o que ia dentro daquela palavra: cortes.

Ao longo do mês, cada departamento será avaliado continuou o chefe. Até lá, mantenham a rotina.

De volta à secretária, Isabel olhou disfarçadamente para Filipa. A rapariga fitava o ecrã, os dedos suspensos sobre o teclado.

Cinquenta e cinco anos. Isabel fazia as contas. O salário dela era dos mais pesados do departamento. Anos de casa, significado de indemnização alta. Em termos de contabilidade era o alvo perfeito. Doía era uma traição silenciosa mas aguentaria. Reforma à porta, algum de lado, casa paga há muito.

Mas Filipa A rapariga já não era a mesma. Já não conversava ao almoço, não pedia para repetir do bolo de laranja, desviava o olhar de Isabel, respondia com evasivas.

Filipa, estás bem? Isabel sentou-se num canto da mesa dela. É sobre os cortes?

A jovem sobressaltou-se, forçando um sorriso.

Não, está tudo bem. Só cansada.

Mas Isabel via não estava. Pobrezinha. Agora que começava a caminhar, já ia ser cortada. Tão injusto.

Duas semanas de nervos miudinhos. Os colegas cochichavam nos corredores, especulavam quem seria o primeiro. Filipa trabalhava calada, concentrada. Isabel apanhou-lhe alguns olhares estranhos, porém desculpou com o stress.

Na quinta-feira, depois do almoço, a caixa de entrada acendeu: Dona Isabel, dirija-se ao gabinete do diretor.

Levantou-se, endireitou o casaco. Chegara o momento. Vinte anos na empresa agora, o fim. Estava pronta.

Abriu a porta e ficou de pedra.

Na cadeira à frente do Dr. Manuel sentava-se Filipa. Costas direitas, pasta no colo, rosto fechado.

Entre, sente-se indicou Manuel. Temos um assunto importante a tratar.

Isabel sentou-se devagar, o olhar saltando de um para outro. Filipa não ousava olhar-lhe nos olhos.

A Filipa trabalhou arduamente Manuel folheou uns papéis à sua frente e identificou várias falhas graves nas suas tarefas, Dona Isabel.

Isabel deixou de respirar. Tudo parecia surreal: Filipa, o caderno dos gatinhos, falhas. Aquela Filipa que comia os seus pastéis, que pedia conselhos de coração aberto.

Estive a analisar os registos dos últimos oito meses Filipa falou enfim, mas encarava apenas o diretor, ignorando Isabel. Encontrei onze discrepâncias relevantes. Códigos trocados, falhas nas guias de remessa, datas trocadas.

Abriu a pasta, tirou folhas com tabelas marcadas a amarelo. Isabel reconheceu a sua própria letra.

Acho que consigo assumir esta área melhor Filipa enunciou com voz firme, como quem lê regulamentos. A Dona Isabel, mesmo experiente, já não acompanha o ritmo. Para a empresa, sou a opção mais económica e eficiente. São números.

O Dr. Manuel recostou-se, tamborilando na mesa.

Dona Isabel, o que tem a dizer?

Levantando-se com esforço, Isabel pegou nos papéis, percorreu as linhas amarelas. Não eram erros não propriamente.

Não me vou justificar pousou-os de volta. Em vinte anos percebi que não se faz tudo perfeito a cada segundo. O essencial é o resultado final. As mercadorias chegam a horas, os clientes ficam satisfeitos, as contas batem certo.
Mas falhas assim podem ser fatais! Filipa inclinou-se, pela primeira vez a voz traía emoção. Só quero ajudar a empresa!

O chefe semicerrou os olhos, não zangado, apenas cansado:

Sabe, Filipa, de que tipo de empregados não precisamos? De quem trai colegas para ganhar posição.

Filipa empalideceu.

Eu conheço essas supostas falhas continuou ele. Não são erros. São jeitos de anos, talento em contornar entraves, acelerar processos. No papel parecem excessos, mas são sabedoria. A Filipa ainda é inexperiente para entender isso.

Filipa cravou as unhas no apoio do assento.

Tem duas semanas até sair o chefe arrumou a pasta. Quero o seu pedido de demissão na minha mesa até ao final do dia.
Por favor a voz de Filipa quebrou-se. Preciso desta oportunidade, tenho uma prestação da casa mal comecei

Devia ter pensado antes. Pode ir.

Filipa levantou-se, a pasta caiu-lhe das mãos, folhas espalharam-se ao chão. Apanhou-as a medo, sem levantar a cara, tentando esconder as lágrimas.

A porta fechou-se, abafada, quase sem ruído.

Viu, Dona Isabel? e o chefe abanou a cabeça. Quase que lhe tirava o tapete debaixo dos pés Cuidou de uma cobra.

Isabel ficou em silêncio. O peito ecoava oco.

Trabalha connosco até o último dia, Dona Isabel. Profissionais destes não se desperdiçam. Combinado?

Acenou com a cabeça e saiu.

Filipa já estava sentada à sua mesa, olhos presos no monitor. Ao passar, cruzaram olhares: o olhar dela duro, magoado, oculto por pestanas húmidas.

Isabel não reagiu. Sentou-se, abriu o programa de encomendas.

Os pastéis no tupperware junto ao vaso de sardinheiras ficaram por tocar até escurecer.

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A Substituição: Quando a Sofia, veterana da logística em Lisboa, acolheu a novata Milena com receitas de família e conselhos de vida, não imaginava que, no momento da crise e das demissões, seria justamente a aprendiz a tentar tomar o seu lugar na empresa — mas, entre relatórios, bolos e traições, o verdadeiro valor da experiência portuguesa fala mais alto.
Não tens dinheiro para comer? Vai trabalhar! Até quando vais viver às custas dos outros? Hoje fui despedido do emprego, mas não fico por aí a pedir esmola.