Não gostas? A porta é serventia da casa! disse Manuela, sem cerimónia, aos parentes indesejados.
Durante trinta anos, a Manuela fez tudo em silêncio. O marido pedia ela assentia. A sogra aparecia sem avisar punha chá ao lume. A cunhada chegava de malas e bagagens arranjava-lhe logo um quarto. São só uns dias, prometia a cunhada. Ficava três meses.
Que mais podia ela fazer? Se se desse ao escândalo, logo diziam que era má mulher. Se dissesse não, lá vinha a fama de dura de coração. A Manuela habituou-se a aguentar. E aprendeu até a calar as pequenas mortes diárias, servindo sempre os desejos alheios.
O marido, António Ribeiro, era homem simples. Chefe de obras, gostava das jantaradas com vinho e daqueles brindes à amizade, sempre com uma asneira para os patrões. Chamava a Manuela de minha dona de casa e não percebia porque chorava ela de noite. Estás cansada? Descansa. Vem família? Dá de comer. Simples.
Quando ele morreu, Manuela ficou sozinha num T3 nas Olaias. O funeral foi como mandam as regras: mesa posta, vinho, palavras bonitas. A família juntou-se, chorou e foi à vida dela. Manuela pensou: “Pronto, agora vou poder ter paz.”
Mas era sonhar alto.
Passada uma semana, a cunhada, Rosa, liga-lhe:
Manuela, amanhã passo aí com umas compras.
Não é preciso, Rosa.
Ora, deixa-te disso! Não te vou bater à porta de mãos a abanar.
Apareceu com dois sacos de arroz e uma exigência: dar guarida ao sobrinho João Paulo, que vai entrar na universidade em Lisboa. Manuela ainda tentou recusar, com jeito:
Mas ele não tem direito a residência universitária?
Isso demora! Onde é que o rapaz fica, na rua?
Manuela cedeu. E no quarto de canto instalou-se o João Paulo. Era desmazelado meias pelo corredor, pratos sujos pelo lava-loiça, música alta até tarde. E estudar, nem vê-lo. Arranjou antes trabalho como estafeta e usava a casa de Manuela como entreposto.
João, tu não vais procurar outro lugar? tentou ela, baixinho, ao fim de um mês.
Ó tia Manuela, e como é que pago renda sem dinheiro?
Duas semanas depois, aparece a Mariana, filha do falecido António do primeiro casamento. Trazia trinta anos de mágoas e as contas atrasadas:
O pai deixou-te a casa, e eu? Eu também sou filha!
Manuela ficou calada. A casa estava em nome do marido, tinha passado legítima para ela. Mas Mariana olhava-a como se Manuela tivesse roubado alguma coisa.
Sabes o que é viver com um filho, tudo arrendado?
Manuela tentou explicar que aquela era a única casa que tinha, que nem dinheiro tinha no banco, que mal sabia o que ia fazer dali para a frente. Mariana, no entanto, não veio para entender. Veio exigir justiça.
Foi aí que começou a romaria.
Ora vinha a sogra, Dona Emília, sempre cheia de opiniões: Vende esse apartamento, compra menor. Ora vinha a Rosa, ora vinha a Mariana uma vez ou outra todos juntos.
Sempre a mesma cena: Manuela punha a mesa, preparava chá, ouvia mágoas.
Certo dia, já falavam claramente em dinheiro:
Manuela, para quê tanto espaço só para ti? disse Rosa, com o cházinho na mão. Vende o T3, compras um T1. E com o resto ajudas os filhos.
Que filhos? estranhou Manuela.
Ora, a Mariana e o João Paulo. Não estão eles a precisar?
Manuela olhou para todos cunhada, Mariana, sogra. E percebeu, de repente: não vinham para consolar ninguém. Vinham era para dividir o espólio.
Não estão satisfeitos? disse baixo. A porta é ali. Façam o favor de sair.
O silêncio caiu pesado.
Como disseste? Rosa parecia nem acreditar.
Disse para saírem. Da minha casa, disse Manuela, erguendo a voz.
Todos olharam para ela como se estivesse a falar chinês.
Isto é que é família?! atirou Rosa, indignada.
Família é aparecerem só para comer e ver televisão?
Mãe, ouviste isto? lamentou a Rosa para Dona Emília. Bem dizia eu que ela era cheia de manias!
Dona Emília não disse nada. Quase nunca dizia olhava apenas, com aqueles suspiros mudos E Manuela percebia: para eles, era sempre ela a má da fita.
Dona Emília disse Manuela à sogra , passou a vida a ensinar-me como agradar ao marido, pôr a mesa E quando eu chorava à noite, sabe o que dizia? Aguenta, mulher sofre. Lembra-se?
Sogra apertou os lábios.
Pois aguentei. Mas agora chega. Acabou-se. É como o azeite na garrafa: houve, acabou.
Rosa agarrou a mala:
Vou contar tudo ao João Paulo! Vai ver quem tu és!
Força. Mas leva-o daqui. Amanhã já não está cá, senão ponho as tralhas dele na rua.
Foram-se embora, porta a bater que até a lâmpada abanou. Manuela ficou na cozinha, com as mãos a tremer. Foi à torneira, encheu um copo de água, bebeu de uma só vez, coração aos saltos.
Pensou: “Meu Deus, o que é que eu fui fazer?!”
Depois: Mas o que é que fiz de tão errado? Expulsei uns indesejados de minha casa?
Nessa noite, não dormiu. Dava voltas e voltas, a cabeça a moer as coisas como uma máquina de lavar antiga. E se tivessem razão? E se fosse eu má pessoa? Devia era ter aguentado?
De manhã, tudo ficou nítido. Aguentar era para ser temporário. Ela tinha aguentado trinta anos. Isso já era rendição.
João Paulo foi-se embora dois dias depois. Rosa nem lhe falou nos olhos quando veio buscá-lo, ele a resmungar que ela era “olda bruxa”. Manuela desta vez nem chorou, nem tentou remediar. Só silêncio.
Uma semana depois, liga-lhe Mariana:
Estivemos a pensar… dizia, cautelosa.
Estiveste a pensar com quem? cortou Manuela. A tua mãe morreu em 1992. A Dona Emília é minha sogra. Ex-sogra.
Silêncio do lado de lá. Mariana não esperava esta frieza.
Pronto, pronto… Olha, não há razão para zangas. O pai amava-te, sabes?
Amava, à maneira dele. Mas a casa é minha. Legalmente. Não devo nada a ninguém.
Mas, pelo menos por justiça…
Justiça? Manuela riu-se. Justiça seria se me tivessem dado os parabéns uma vez na vida. Ou telefonado sem pedir dinheiro. Isso, sim, era justiça.
Estás azeda, Manuela disse Mariana. A solidão fez-te amarga.
Não. Só deixei de fazer de conta.
As semanas arrastaram-se. Manuela ia ao hospital, trabalhava como auxiliar, voltava para casa, jantava sozinha. Às vezes a vizinha, Dona Clara, aparecia com uns bolinhos.
Então, Manuela, como andas? Triste?
Não estou triste.
E os teus, já não te chateiam?
Já não.
Fazes tu muito bem disse a Dona Clara, num tom decidido. Passei a vida a ver essa gente abancar-te aí em casa! Boa rapariga, finalmente!
Manuela sorriu. Pela primeira vez, sentiu-se mesmo leve.
Mas o pior não era o corte com a família. O pior era o silêncio todo. Não ter com quem partilhar chá, nem uma conversa ao fim do dia. Foi aí que percebeu: tinha vivido a vida inteira para os outros.
E agora? Agora era aprender a viver por si. E, verdade seja dita, assustava mais do que as críticas da cunhada.
Um mês depois, nova invasão. Rosa apareceu sem avisar. Veio de reforço: trouxe João Paulo, a sogra e ainda a Mariana. Tudo de uma vez, como tropa de assalto.
Manuela abriu a porta: estavam todos, ali no patamar, em comitiva. Rosa à frente, os outros a reboque.
Então, Manuela, pensaste bem? começou Rosa.
Pensar em quê?
Na casa, pois claro. Vais vender ou não?
Manuela olhou de uns para outros. Tinham vindo mesmo à séria. Achavam que um mês sozinha lhe destruiria a vontade, que ela própria pediria para voltarem.
Entrem disse. Já que vieram.
Foram todos para a cozinha. Sogra logo ao frigorífico. Mariana no telemóvel. Rosa de frente para Manuela, braços cruzados.
Manuela, sabes lá o trabalho que é manter este apartamento só para ti. E a conta da luz, e o IMI? Mais vale vender, aproveitas a diferença.
Mas eu gosto da casa assim respondeu ela, calma.
Sozinha?! Mariana atira, sem largar o telefone. Olha aqui, tens melhor: vendes, compras T1 nos subúrbios. Sobra uns 150 mil euros. Dá 50 mil para mim, 50 mil para o João Paulo e ficas com o resto.
Manuela só a olhava. Mariana toda produzida, mala cara, unhas impecáveis.
Então e eu? perguntou, devagar. Mudo-me para o fim do mundo para vos dar dinheiro?
É justo! irrompe Mariana. O pai trabalhou anos por esta casa!
Não contrapôs Manuela. Esta casa foi dada pelo Estado, em 1984. Remodelei tudo do meu bolso.
Ó Manuela, não armes confusão cortou Rosa. Estamos a tentar ser civilizados. Somos família.
E aí, Manuela sentiu um estalo por dentro. Um interruptor. Fim da luz.
Família? Onde andavam quando estive internada há três anos? Quem me visitou? Rosa, tu foste?
Rosa desconversou:
Andei ocupada.
E você, Dona Emília, alguma vez ligou?
Sogra calada, a mirar a janela.
E tu, Mariana, tinhas ideia de eu estar no hospital?
Ninguém me disse
Pois claro, porque nunca quiseram saber. Como agora. Vocês vieram pela casa!
Estás histérica! queixou-se Rosa.
Não. Chega, pronto. Acabou-se a paciência.
Levantou-se, abriu a porta.
Podem sair. Agora. E não voltem.
Ficastes maluca?! Mariana gritou. Tu não és ninguém!
Pois não consentiu Manuela. Ainda bem.
Rosa levantou-se também:
Se o António soubesse…!
Sabia, sim. Mas mandava sempre em mim. Agora decido eu.
Vais arrepender-te! Mariana cuspiu. Quando fores velha, vais pedir-nos ajuda!
Manuela sorriu. Cansada, mas em paz.
Sabes, Mariana, tenho 58 anos. Vivi trinta a pensar que se fosse boazinha, gostariam de mim. Que, se cedesse sempre, me dariam valor. Mas não. Quanto mais cedia, mais queriam de mim. Não, não vou pedir nada. Nunca.
Saíram em silêncio. Rosa, vermelha. Sogra, sem uma palavra. Mariana ainda bateu a porta.
Manuela ficou no corredor, toda a tremer. Entrou na cozinha e chorou. Não de pena de alívio.
Uma semana depois, Dona Clara liga-lhe:
Ouvi dizer que disses-te umas verdades lá aos teus!
Só fui honesta.
Ainda bem! Olha que tenho uma neta, a Beatriz. Tem 30 anos, separou-se, anda à deriva. Queres conhecer? É trabalhadora!
Marcou o encontro. Beatriz era tímida, discreta. Trabalhava como contabilista, alugava um quarto. Viam-se para chá, conversas longas.
Não queres vir morar cá? sugeriu Manuela, de repente. Tenho espaço. Dividimos as contas.
Um mês e Beatriz mudou-se. Era fácil partilhar a casa com quem respeitava o espaço, não criticava, não se metia.
Manuela inscreveu-se na biblioteca municipal aquela onde fora funcionária. Agora era leitora. Pegava em livros que nunca antes teve tempo de ler.
Pensava, às vezes, na família. Como andariam? Rosa e João Paulo? Mariana e a filha? Dona Emília?
Mas nunca sentiu vontade de pegar no telefone.
Meio ano depois, Dona Clara conta-lhe:
Sabes que a tua cunhada mudou-se para casa do filho, numa residência? Diz que não aguenta o campo.
Que fique bem, respondeu Manuela.
E a Mariana? Casou-se com um empresário, dizem que agora nada em dinheiro.
Fico feliz por ela.
Dona Clara olhou-a, meio surpreendida.
Não te dói estas coisas?
O quê?
Eles nem dão pela tua falta.
Manuela sorriu.
Dona Clara, eles sempre viveram sem mim. O que mudou foi só eu ver isso.
Nessa noite, Manuela sentou-se à janela. Lá fora, a cidade ao lusco-fusco, gente a regressar a casa. Beatriz preparava o jantar e cantava baixinho na cozinha.
Manuela pensou: isto é a felicidade. Não é agradar à família. É saber dizer “não” e não morrer de culpa.
E tu, alguma vez tiveste de pôr fim à invasão dos parentes?







