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0143
A minha irmã quer que eu saia do nosso próprio apartamento porque vai ter um bebé. Será isto normal? O que devo fazer nesta situação difícil?
Olha, deixa-me contar-te o que se anda a passar cá em casa, porque já não sei bem o que pensar.
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024
A ex-mulher do meu marido pediu-me para tomar conta dos netos deles, e eu dei-lhe uma resposta à altura
Oh Maria da Graça, não custa assim tanto, pois não? São só três dias! A Beatriz está mesmo aflita, ganhou
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0211
A ex-mulher do meu marido pediu-me para tomar conta dos netos deles, e eu dei-lhe uma resposta à altura
Oh Maria da Graça, não custa assim tanto, pois não? São só três dias! A Beatriz está mesmo aflita, ganhou
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014
– Aquela mulher só manipula o meu marido! – indignava-se a Inês Inês olhava para o telemóvel e sentia aquele velho irritação a fervilhar por dentro. Era já a terceira chamada do Sérgio naquela noite. – Inês, desculpa, por favor… – A voz dele estava cansada, culpada, demasiado familiar. – Eu sei que combinámos ir ao teatro, mas olha… A Olga ligou, diz que o Dioguinho está com febre alta, quarenta. Ela sozinha não consegue. Tu entendes, não entendes? Inês entendia. Bem demais até. – Sérgio, temos os bilhetes comprados – respondeu ela, calma, embora por dentro tudo gritasse. – Esperámos mês e meio por esta peça! – Eu sei, querida. Vou compensar, prometo. Mas é uma criança, não a consigo deixar assim. Depois de desligar, Inês ligou à amiga. – Leonor, consegues acreditar nisto?! – e andava pela sala, gesticulando. – Outra vez! Terceira vez este mês! Ou é o filho doente, ou o carro da ex que avaria, ou mais uma desculpa qualquer! – Inês, mas se calhar ele está doente mesmo… – arriscou Leonor. – Eu sei! Claro que sei! As crianças doentes são normais. O que não é normal é a ex dele ligar-lhe sempre a ele! Não tem pais? Amigas? – Pois… – Pois nada! – Inês saltou do sofá. – Ela manipula-o! O Sérgio é boa pessoa, não enxerga! Ela sabe que ele largará tudo e vai ajudá-la. E aproveita-se! Leonor soltou um suspiro. – Tens a certeza que o problema é ela? – E havia de ser quem?! – Inês parou. – Não sei. Pensa. Se ela liga ao ex-marido e ele vai sempre a correr… quem é que usa quem? Inês ficou calada. Sentiu algo desagradável a apertar por dentro. – Leonor, não digas disparates – cortou ela. – O Sérgio só quer ser um bom pai. Não pode deixar o filho sozinho! – Está bem, está bem – apressou-se a amiga. – Foi só uma ideia. Mas aquele “foi só uma ideia” ficou cravado como um espinho. Sérgio voltou tarde, cansado, desfeito, com ar de culpa. – Desculpa-me, amor – abraçou-a por trás, encostou o nariz ao pescoço dela. – Compro novos bilhetes, para lugares ainda melhores. Juro. Inês ficou em silêncio. Olhava pela janela. Quantas promessas iguais já ouvira? Cinco? Dez? Vinte? Sempre o mesmo: “Compreende…” Compreendo, pensava Inês. Só não sei bem o que é que compreendo. E então, começaram a acumular-se pequenas coisas… Primeiro, nem se notava – como pó numa estante que só se vê ao passar o dedo. Um dia, reparou que o Sérgio nunca mais largava o telemóvel. Antes, deixava-o pela casa – mesa, sofá, casa de banho. Agora andava sempre com ele. Até à cozinha só para ir buscar água! – Sérgio, porquê esse telemóvel sempre contigo? – perguntou ela num tom leve. – Eu? Ah, é do hábito do trabalho… Ligam-me muito. Passou. Noutro dia, Inês mexia no calendário do telemóvel dele para apontar o teatro (o tal que perderam) e viu: “Buscar o Dioguinho à creche 16h00.” “Levar documentos do carro à Olga.” “Telefonar à O. sobre as vacinas.” O. – era Olga. – Sérgio, sabes quando é a minha defesa de mestrado? – perguntou ela ao jantar, a remexer o seu chá. Ele levantou os olhos. – Mestrado? Em maio, acho eu? – Em março. Daqui a duas semanas. – Pois… Desculpa, cabeça de vento. Cabeça de vento – mas lembra-se do calendário da Olga ao minuto. Depois foram os dinheiros. Inês deu com o extracto bancário esquecido na mesa. Três transferências de vinte mil euros. Destinatária: O. Loureiro. – Sérgio, isto o que é? Nem pestanejou. – Para a Olga. A mãe dela adoeceu, precisou de pagar medicamentos. Depois para o Dioguinho, uns cursos. Ela está sozinha com o miúdo. – Sessenta mil em três meses, Sérgio. – E então? É meu filho! Não vou deixá-los passar necessidades! Inês pousou o papel. – Claro que não. Mas estranho não me teres dito. – Não me esqueci! Só sabia que ias começar com essas cenas todas! Aquele “essas cenas” soava como se ela fosse histérica. Pequena, ciumenta, mesquinha. Houve também aquele desenho no carro. Inês sentou-se ao lado do condutor e viu, no banco de trás, um desenho de criança. Uma casa, flores, sol, três pessoas. Pai, mãe, Dioguinho. Sem ela. Pegou no desenho. Leu no verso: “Ao pai, do Diogo. A nossa família.” – Sérgio, isto é o quê? – Foi o Dioguinho que fez. Giraço, não é? Tem jeito, o miúdo. Inês olhou o desenho. Depois ele. Depois o desenho. – Sérgio, está aqui “a nossa família”. – Pois. Ele é pequeno. Para ele a família ainda somos eu, a Olga e ele. É a cabeça de uma criança. Inês deixou o desenho. Sentou-se direita. Prendeu o cinto. Fez o caminho calada. Depois, Olga começou ela própria a aparecer. De início, uma vez – “buscar as coisas do Diogo que ficaram no Sérgio.” Depois – “combinar as férias de verão.” Depois – “passava por aqui, resolvi entrar.” Sempre calma, simpática, a sorrir: – Inês, olá! Não incomodo? O Sérgio está? E cada vez que ia embora, o Sérgio ficava distante, pensativo, monossilábico. – Que tens tu? – perguntava Inês. – Nada. Só cansado. Inês começou a sentir-se a mais. A que atrapalha. Até que, por acaso, ouviu um telefonema. Sérgio estava na casa de banho. Pensou que a porta estava fechada. Ela ficou entreaberta. Inês ouviu: – Olga, não chores… Já disse que ajudo… Claro que ajudo. Sabes que estou sempre aqui para ti. A voz dele, macia. Quase íntima. Inês saiu dali. Sentou-se no sofá. Percebeu tudo, de repente. Não é ela que o manipula. É ele que permite. Porque lhe convém. Inês aguentou três dias. Sem fazer cenas, só observando. Como quem estuda um inseto raro – friamente, de fora. E viu: Sérgio sabia toda a agenda da Olga. Sabia os horários da creche, das consultas, dos hobbies. No calendário, tudo dela. O dela – Inês – esquecia. Mensagens constantes. O telemóvel a vibrar. Ele a responder – e logo a cara com aquele ar suave, culpado, secretamente feliz. Uma noite o telefone tocou enquanto ele tomava banho. Inês viu: “Olga”. Por instinto, atendeu. – Sérgio? – a voz da Olga, a chorar. – Sérginho, podes vir? Estou tão mal. Não tenho ninguém. Só tu. Silêncio de Inês. – Sérgio? Estás a ouvir? Não aguento mais sozinha. Por favor. Sempre estiveste do meu lado. Inês desligou. Sentou-se. Riu-se, de repente. Que ingénua. Que cega. Sérgio saiu da casa de banho – molhado, só de toalha. – Olha que a Olga te ligou – disse Inês. Ele parou. – Tu atendeste?! – Atendi. Ela chorava. Dizia que tu sempre estiveste presente. Ficou mudo. Procurava o que dizer, pensava nas desculpas, ela via-o na cara dele. – Inês, ouve… A Olga está a passar uma fase complicada. Não tem ninguém. Só eu. Não posso deixá-la! – “Deixá-la”? – Inês sorriu. – Sérgio, divorciaste-te dela há quatro anos. Não é tua mulher. É tua ex. Já a deixaste. – Temos um filho em comum! – Então isso significa o quê? Que tens de acudir cada vez que ela diz “Dioguinho”? Mandar-lhe dinheiro às escondidas? Saber a agenda dela ao segundo? – Exageras! – Eu?! Sentiu algo partir por dentro. Pegou na mala, começou a fazer a mala. – Sabes, Sérgio, passei tanto tempo a convencer-me que o problema era ela. Que ela te manipula, que usa o filho, que não sabe largar. Mas a verdade é que o problema não é ela. É tu. És tu quem permite, tu até gostas. Dá-te jeito: duas vidas. Uma ex mulher que precisa, uma nova mulher que aguenta. E tu nada decides. Porque assim é mais cómodo. – Inês, não vás. – Não vou embora – disse ela baixinho. – Saio. Saio deste triângulo, onde o meu lugar é sempre o terceiro. Não estou a lutar contra a tua ex-mulher. Só saio do vosso jogo. Sérgio ficou parado no meio da sala – molhado, perdido, triste. – Inês, espera. Vamos falar. – Não há nada para falar. – Inês vestiu o casaco. – Tu escolheste há muito tempo. Eu é que fui burra o suficiente para não ver. Agora vejo. Clarinho. Abriu a porta. – Adeus, Sérgio. Manda cumprimentos à Olga. Agora ela pode ligar-te a qualquer hora. A porta fechou-se suavemente. Um mês depois, Inês estava num café com Leonor. – Então, como estás? – perguntou a amiga. – Estou bem – sorriu Inês. – Mesmo. E era verdade. Os primeiros dias doeram. Mas aguentou. Arranjou um T0, um trabalho, defendeu o mestrado. Sérgio ligou. Mandou mensagens longas, confusas, desculpas, promessas. “Inês, desculpa. Percebi tudo. Tinhas razão. Começamos de novo?” Inês não respondeu. Porque sabia – não valia a pena recomeçar. O problema nunca foi a Olga. Era ele. Enquanto ele não mudasse, nada mudava. – E ele? – Quem? – O Sérgio, claro. – Nem sei. Não falamos. Leonor sorriu. – Não te arrependes? Inês pensou. Arrepender-se? Não. Estranhamente, não. Sentia alívio. Como tirar um peso velho das costas. – Fiz uma escolha. Por ele. E por mim. Leonor sorriu. – Foste corajosa. – Não, só cresci. Sérgio ficou sozinho. A Olga, curiosamente, deixou de ligar. Afinal, sem Inês como plateia, o jogo perdeu sentido. E quando Sérgio tentou reaproximar-se, levou nega. – Foste tu que escolheste ela, lembra-te. Agora vive com isso. Eu já tenho a minha vida. Não preciso de ti para nada. Sérgio tentou recuperar Inês. Esperou-a à porta, mandou mil mensagens. Mas ela foi firme. – Sérgio, deixa-me. Deixa-te a ti também. Não somos compatíveis. Tu tentaste duas vidas ao mesmo tempo. Eu só quero uma. Mas verdadeira. Inês caminhava pela cidade ao entardecer – e pensava como é estranho o mundo. Tanto tempo a temer ficar sozinha, perder o Sérgio. E no fim, não perdeu nada. Porque quem não sabe escolher, não tem nada para dar de verdadeiro. E ela merecia tudo o que fosse verdadeiro. Afinal, achas que faz sentido ele voltar para a primeira mulher? Já que com a Inês não deu certo…
Aquela mulher está a manipular o meu marido, só pode! desabafava Mafalda. Mafalda olhava para o telemóvel
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0777
Quando a minha mãe descobriu que eu estava casada, tinha um bom emprego e o meu próprio apartamento em Lisboa, apareceu logo a pedir-me apoio financeiro.
Quando a minha mãe soube que me tinha casado, que tinha um bom emprego e que já tinha o meu próprio apartamento
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0233
“E afinal, o que ganhaste com essas tuas lamúrias?” – perguntou o marido. Mas o que aconteceu a seguir deixou-o sem chão Quando mais é que alguém acorda às cinco da manhã, se não quando o peito aperta? Mariana sentava-se na beira da cama, a olhar pela janela. O coração voltava a bater descompassado: dois toques, um vazio, três toques, silêncio. O médico disse ontem – ataques de pânico. Passou uma requisição para exames. Ao fim de dezoito anos, Mariana tinha passado de jovem ambiciosa, licenciada em Economia… a quê, afinal? Um apêndice aos negócios do marido? A contabilista autodidata que trata da papelada dele? A mulher-a-dias que à noite limpa o chão porque o André não repara na sujidade? — Acordaste? — André entrou na cozinha, cara amassada, ar aborrecido. — Outra vez não dormiste de noite? Mariana acenou em silêncio. Serviu-lhe café. Tirou do frigorífico o iogurte do pequeno-almoço — há uns cinco anos que ele só come aquilo. — Olha que hoje vou ao Porto. Três dias. Reunião com fornecedor. Importante. — André. Ela sabia que não devia começar. Sabia que ele ia olhar para ela com aquele ar — como quem diz “outra vez a choramingar”, a tentar arrancar-lhe uma simpatia que ele não sente. Mas mesmo assim, disse: — Não vás agora. Estou mesmo mal. O médico insiste nos exames. Ele ficou parado. Pousou a chávena. E soltou ar pelo nariz — daquele jeito de quem está farto de ouvir sempre a mesma conversa. — E o que é que conseguiste com essa tua choradeira? — Voz quase calma. Nem era irritação, era indiferença. — Tenho de trabalhar, Mariana. Trabalhar. Não me pedir para ouvir todos os dias essas tuas crises, o quão mal estás, o quanto estás cansada. Quem é que não está cansado?! Ele já fazia as malas. Daquela maneira rotineira — sabendo: ela vai calar-se. Vai engolir, culpar-se — “disse outra vez o que não devia, no momento errado”. Mas Mariana, por algum motivo, não se calou. — André,— levantou-se. Devagar. Serena.— Tu ainda te lembras a quem está registada a casa? Ele virou-se a rir. — Que interessa isso? Deve estar em nome dos dois, não? — Em meu nome. Só em meu nome. Pareceu que algo quebrou no ar. Mariana viu-lhe a cara mudar. — Estás a falar do quê? — Na altura, há oito anos, quando comprámos este apartamento, tinhas dívidas. Boas dívidas. O banco nunca te teria dado crédito. Lembras-te? Ele ficou calado. — Pois, o crédito está todo em meu nome. O apartamento também. E sou co-signatária dos teus empréstimos de negócio. Fiadora. Sem a minha assinatura, não renovas nada, não expandes nada — não fazes nada. André sentou-se de novo à mesa. Devagar. Como se as pernas lhe faltassem. — Para que dizes isso? — Só estou a lembrar-te. E mais,— Mariana abriu a gaveta do aparador. Tirou uma pasta. Pousou em frente dele. — Eu sei da Kátia. André olhava a pasta. Parecia pregado à cadeira, com aquela expressão de quem acabou de levar uma pancada pesada na cabeça — ainda não dói, mas já está tonto. — Da Kátia,— repetiu Mariana. Voz serena. Até estranhamente serena, para ela. — A contabilista do teu amigo Valério. Rapariga bonita, por acaso. Doze anos mais nova do que eu. Abriu a pasta. Tirou umas folhas. Uma. Outra. Pousou-as diante dele em leque — quase com solenidade, como se distribuísse cartas num casino. — Movimentos bancários teus. Aqueles que escondias tanto. Vês estas transferências? Quarenta mil. Cinquenta mil. Setenta mil. Todos os meses. Ele calado. — E esta é a troca de mails. — Mariana pousou uma folha. — Achavas mesmo que eu não sabia a senha do teu portátil de trabalho? André, fui eu que a criei, quando esqueceste a antiga, há três anos. André agarrou nas folhas. Leu rápido. Empalideceu. — Onde arranjaste isto?! — Que interessa? — Mariana serviu-se de água. Mão a tremer, mas pouco.— O que interessa é outra coisa. Tu usaste-a para passar dinheiro. Transferiste para o cartão dela. Achas que as Finanças gostavam de saber disso? André levantou-se. E começou a gritar. — Quem pensas que és?! Sempre dependeste de mim! Nunca ganhaste nada! Sempre encostada, a viver às minhas custas! — Encostada? — Mariana riu-se, amarga, meio partida por dentro. — Palavra engraçada. Não é? Encostada… que assinou todos os teus contratos com os bancos. Que tratou da contabilidade enquanto tinhas as tuas “reuniões”. Em meu nome está o apartamento. E sou co-signatária de todos os empréstimos. — Estás a ameaçar-me?! — Não. — Mariana foi até à janela. — Só estou a pôr os pontos nos is. Virou-se. — No último meio ano recuperei o diploma. Fiz formação — à noite, entre ataques de pânico e insónia. Tenho uma proposta de trabalho. Não é luxo, mas chega para alugar casa e sustentar-me a mim e à Clara. — Clara?! — ele estremeceu. — Vais levar a nossa filha?! — Viste-a no último mês? — Mariana chegou-se perto. — A sério. Quando foi a última vez que falaste com ela? André calado. Porque não lembrava, de facto. Mariana pegou ainda noutro documento. — Relatório da neurologista. Esgotamento nervoso crónico. Ataques de pânico. Recomendado — mudança de ambiente, psicoterapia, acabar com os fatores de stress. Vês esta linha? “Longa exposição a situação de stresse.” Sabes ao que isto te pode levar? — Mariana. — Se avançar com o divórcio agora, o tribunal vai ficar do meu lado. Mariana pousou a última folha. — E mais, sem a minha assinatura para a semana não renovas a linha de crédito no banco. O Valério ligou ontem. Sem mim, nada feito. André voltou a sentar-se. Atordoado. — O que queres afinal? Dinheiro? Mariana riu-se, curta, quase sem som. — Dinheiro? André, quero respeito. Quero que, pelo menos uma vez, admitas — sem mim não tinhas nada. Nem negócio. Nem apartamento. Nem essas viagens de trabalho que tanto estimas. Pegou na mala. — Tens até ao fim do dia. Eu e a Clara vamos para casa da Olívia. Pensa. E quando estiveres pronto a falar — liga. Não esperes é que eu volte a ser aquela Mariana que tudo aguentava sem dizer nada. Seis horas depois, André ligou. Mariana estava na cozinha da Olívia, com chá de hortelã. Sentia-se estranha. Como quem sai de um pântano, limpa o rosto e, de repente, descobre que respirar já não custa. — Alô, — atendeu. Voz firme. — Preciso de falar contigo. — Fala. — Não ao telefone. — Pausa. — Vem a casa. Mariana riu. — Não. Se quiseres falar, vens cá. Sabes o caminho? Uma hora depois, André apareceu. Furioso. Tenso. Com cara de quem está encurralado. A Olívia percebeu logo e levou a Clara para o quarto. Mariana ficou na cozinha. — Quem pensas que és?! — André bateu com o punho na mesa. — Estás a chantagear-me?! — Não. Só estou a pôr os factos em cima da mesa. — Que factos?! Mexeste nos meus papéis! Espreitaste-me o computador! — André,— Mariana suspirou,— achas mesmo que atacar-me agora é a melhor tática? Depois de tudo o que te mostrei? Ele calou-se. Porque sabia que ela tinha razão. — Escuta bem. — Mariana inclinou-se. — Não te quero destruir. Não vou às Finanças nem quero escândalos. Só quero que percebas — sem mim, não te resta nada. — Queres o divórcio? — Ele mal tinha voz. — E tu? André desviou o olhar. Calou-se. Depois exalou: — Com a Kátia, não foi nada. — Não interrompas. — Mariana fez sinal. — Já sabia de tudo há meio ano. Do dinheiro, da ficção das reuniões, das escapadinhas. Sabia… e calei-me. Porque pensei: isto passa. Ele volta a si. Riu amargamente. — Se calhar, só me custava encarar que o nosso casamento morreu há cinco anos. Fingimos sempre que estava tudo bem. — Mariana. — Cansei-me de ser um acessório na tua vida. De cada palavra, cada pedido meu serem postos de lado. Nem reparaste que estava a morrer de ataques de pânico ao teu lado! André estava branco, punhos cerrados. — Tens escolha, — disse Mariana. — Podemos tentar recomeçar. Sem mentiras, sem traições. — Ou vais-te embora e levas tudo. — Não. — Mariana abanou a cabeça. — Só levo o que é meu. O apartamento. A minha parte no negócio. Os teus créditos ficas tu a pagar. E eu começo nova vida. Levantou-se, dando o assunto por encerrado. — Tens três dias. Quando souberes, liga. Mas lembra-te — aquela Mariana, que tudo calava e sofria, morreu ontem às cinco da manhã. Na semana seguinte, André voltou. Desta vez sem pose, sem máscaras. Sentou-se na mesma cozinha, em silêncio. — O Valério disse que sem a tua assinatura o banco não renova nada. O negócio acaba. Mariana acenou. — Sei bem. — O que queres? Ela fitou-o. — Quero o divórcio. Ele empalideceu. — A sério? — Mais do que nunca. — Mariana serviu chá. As mãos já não tremiam.— Vou ao banco. Assino. Mas com uma condição — divorciamo-nos sem guerra. Tu ficas com a empresa, compras a minha parte. O apartamento é meu. A Clara fica comigo. — Mariana. — Decidi, André. — Ela sorria. — Sabes o que é mais incrível? Dormi pela primeira vez sem comprimidos. Dormi mesmo. Sem ataques. Ele ficou em silêncio. — E isso explica muita coisa. Não estou doente. Não preciso de me tratar. Só precisava de sair desta vida, onde eu não era nada. Mariana levantou-se. — Tens escolha. Ou aceitas isto — divorciamo-nos em paz. Ou vou ao tribunal, levo tudo e o resto é contigo. André baixou a cabeça. Sabia que tinha perdido. Aquela mulher, que ele julgava fraca, era afinal mais forte. — De acordo, — disse por fim. — Aceito. Três meses depois, o divórcio foi oficial. Mariana ficou com a casa e um bom montante pela sua parte do negócio. Arranjou novo emprego. André ficou sozinho na empresa e num apartamento novo. E com um vazio estranho que nunca parava… principalmente ao chegar a casa, sem ninguém com quem partilhar o dia, só. A Kátia, por acaso, foi-se embora um mês depois. Descobriu que não queria amor — queria conforto. Quando percebeu que André tinha agora as dívidas todas e não conseguia sustentar uma amante como dantes — perdeu-lhe o interesse. Mariana ficou a saber por Valério. Sorriu. E não sentiu nada. Nem pena, nem alegria. Só… nada. Afinal, será assim tão mau uma mulher envolver-se no negócio do marido? O que acha?
E afinal, o que é que ganhaste com tanta lamúria? perguntou o marido. Mas o resto… deixou-o de
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019
A minha esposa dormia ao meu lado… e de repente recebi uma notificação no Facebook de uma mulher a pedir-me para a adicionar. Aceitei o pedido e enviei-lhe mensagem: “Conhecemo-nos?” Ela respondeu: “Soube que casaste, mas continuo a amar-te”. Era uma amiga do passado, lindíssima na foto. Fechei o chat, olhei para a minha mulher a dormir tranquila depois de um longo dia de trabalho, longe da casa dos pais, confiando em mim para lhe dar segurança. Ao pensar nisto, bloqueei a mensagem, voltei-me para ela e adormeci ao seu lado. Sou homem, não menino; prometi-lhe fidelidade e assim continuará: lutarei sempre para ser marido fiel, que não destrói o seu lar.
A minha mulher estava a dormir ao meu lado… e de repente recebo uma notificação no Facebook e uma
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010
Tínhamos 22 anos quando terminámos. Um dia, ele disse-me que já não sentia o mesmo, que precisava de “outras coisas”. Poucos dias depois, uma amiga em comum ligou-me: — É verdade que ele anda com uma mulher bem mais velha? Perguntei-lhe o que queria dizer e ela enviou-me uma foto: ele num bar, abraçado a uma mulher claramente mais velha. Não era boato — era verdade. Quando as pessoas perguntavam, nunca inventei: dizia simplesmente que ele me deixou para estar com uma mulher bastante mais velha. Foi aí que tudo começou. Uma semana depois, uma amiga escreveu-me no WhatsApp: — Olha, está tudo bem contigo? Perguntei porquê. Ela respondeu: — Ele anda a dizer coisas estranhas sobre ti… Sem perceber, pedi-lhe que explicasse. Ela contou que ele andava a dizer que eu não tomava banho, que cheirava mal, que tinha mau hálito, até chegou a dizer que me viu com piolhos. Fiquei em choque, a olhar para o ecrã sem saber o que responder. A partir daí, vieram mais e mais comentários. Outra amiga ligou e disse que ele contou isto num jantar, a rir, na frente de várias pessoas. Disse literalmente: — Vocês nem imaginam o que eu aguentei. Quando lhe perguntaram porque não me deixou antes, respondeu: — Por pena. Comecei a notar olhares desconfiados. Pessoas que antes me cumprimentavam normalmente passaram a olhar-me de lado. Uma colega, que sempre teve uma ponta de inveja, ofereceu-me um desodorizante “só por precaução”. Não conseguia acreditar que uma mentira pudesse espalhar-se tão rápido. Ele disse uma vez — depois repetiu, sustentou e inventou ainda mais. Decidi escrever-lhe. Enviei-lhe uma mensagem curta: — Porque dizes essas coisas sobre mim? Ele respondeu horas depois: — Tu é que começaste a inventar sobre mim. Disse-lhe que só contei a verdade — que ele estava com outra mulher. Ele respondeu: — Isso não interessa a ninguém. Nunca negou o que disse. Nunca pediu para pararem os comentários. Nunca corrigiu ninguém. Só deixou tudo correr. Nessa altura, aparecia em público com aquela mulher, mas exigia que ninguém comentasse a diferença de idade. Eu era só dano colateral. A relação terminou, mas o murmúrio continuou durante meses. Tive de mudar de ambiente, deixar de ir a certos sítios, cortar com pessoas que insistiam em repetir o que ele dizia. Ele seguiu a vida dele. Nós, mulheres portuguesas, acabamos quase sempre por levar a parte mais dura quando os homens são inseguros.
Tínhamos 22 anos quando terminámos. Um belo dia, ele apareceu a dizer que já não sentia o mesmo e precisava
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0100
Perdi a vontade de ajudar a minha sogra quando soube o que ela fez. Mas também não consigo abandoná-la.
Perdi a vontade de amparar a minha sogra quando descobri o que ela tinha feito. Mas, por mais estranho
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077
Fui criada pela minha avó, mas agora os meus pais querem que eu lhes pague uma pensão de alimentos
Fui criada pela minha avó, mas agora os meus pais decidiram que devo pagar-lhes pensão de alimentos.