Olha, deixa-me contar-te o que se anda a passar cá em casa, porque já não sei bem o que pensar. Os meus pais, há anos atrás, compraram um T2 em Lisboa para mim e para a minha irmã, sabes? Sempre disseram que um dia, quando chegasse a altura, iríamos vender aquele apartamento para cada uma de nós ficar com o seu próprio T1. Era o plano deles, tudo muito às claras.
Entretanto, a minha irmã Catarina conheceu o António, apaixonaram-se e casaram. Ela perguntou-me, com todo o jeitinho, se me importava que eles viessem viver comigo no nosso apartamento. Pronto, achei que não era problema, afinal de contas, éramos família, e aceitei.
No início, tudo correu na paz do Senhor, ninguém incomodava ninguém. Mas há uns meses, a Catarina veio com a notícia de que está grávida. A partir daí, tanto ela como o António começaram a insinuar e depois a dizer mesmo às claras que eu devia sair de casa, para eles poderem ficar com o quarto onde estou agora. Dizem que o bebé precisa do espaço e já fazem planos como se eu não existisse: onde vai ficar o berço, a cor das paredes, essas coisas todas. Falam disto à minha frente, como se eu fosse um móvel a mais na casa.
Agora, eu pergunto-te: achas isto normal? Afinal, eu também sou dona de metade da casa e continuo a pagar as minhas contas, não sou visita! Ainda por cima, ando a estudar e só recebo uma bolsa e faço uns biscates, sabes bem que isso mal dá para sobreviver em Lisboa quanto mais para pagar renda noutro lado Acham mesmo que eu posso ir alugar uma casa como se ganhasse o Euromilhões?
No início tentavam convencer-me com paninhos quentes, mas agora já nem se dão ao trabalho, falam como se já estivesse decidido. Já ouvi a Catarina a contar amigos onde vai ficar o quarto do bebé e até discutir em que cor vão pintar a minha parede! Sinto-me mesmo posta de lado, como se nem lá morasse.
Falei com os meus pais sobre isto e a minha mãe desvalorizou, a rir-se, disse que é coisa de grávidas, que daqui a nada passa. Pediu-me para não ligar, para não entrar em stress. Mas como é que eu consigo ignorar, se quase todos os dias me deitam dali abaixo com conversas destas?
Sinto-me como uma estranha na minha casa, parece que ninguém quer saber do meu lado da história. E a Catarina continua igual, só pensa nela. Sinceramente já não sei o que fazer. Aconselhas-me o quê?






