A ex-mulher do meu marido pediu-me para tomar conta dos netos deles, e eu dei-lhe uma resposta à altura

Oh Maria da Graça, não custa assim tanto, pois não? São só três dias! A Beatriz está mesmo aflita, ganhou uma viagem para o Algarve de última hora, não tem com quem deixar os meninos, e eu… tu já sabes, a tensão está impossível, as costas então, nem falo. O António é o avô, é obrigação dele ajudar.

A voz do outro lado da linha era tão forte que o António nem ligou o altifalante. No fogão, Rosa, mexendo no tacho do arroz de legumes, ouvia tudo sem dificuldades. Aquela voz aguda, com aquele tom de exigência birrenta, reconheceria onde fosse. Dona Laurinda. A primeira, e infelizmente inesquecível, esposa de António.

António lançou um olhar de lado a Rosa, enquanto segurava o telefone ao ombro e cortava pão, fatias tortas e nervosas.

Ó Laurinda, ouve, espera um pouco Que tem a viagem da Beatriz? Eu e a Rosa já tínhamos combinado ir passar o fim-de-semana

Quais planos? cortou a Laurinda, sem cerimónia. Tratar das hortaliças? Visitar monumentos? António, estamos a falar dos teus netos, do Afonso e do Tiago. Os miúdos precisam dum exemplo masculino, não de mimos de mulher. Nem os vês há mais dum mês. Então, tens consciência? Ou a tua madame nova não deixa ar para nada?

Rosa pousou a colher e desligou o lume. Madame nova Já há oito anos era mulher de António. Oito anos serenos e felizes, não fossem as frequentes tempestades de Laurinda a perturbarem-lhes o sossego. No início era exigência para aumentar a pensão da filha já adulta, depois pedidos sem fim: para obras, médicos, até carro. António, homem de coração mole e consciência sensível, pagava e pagava, sempre culpado de ter deixado a casa embora só o tenha feito quando Beatriz já era maior e a vida com Laurinda arrastava-se como vizinhos que mal se conhecem.

Não fales assim da Rosa disse António, com mais firmeza apesar da hesitação. Não é por causa dela. Mas olha, avisa-se com tempo, não? Os miúdos têm seis anos, é preciso energia e olhos neles, já não somos nenhuns novos

Pois! interrompeu Laurinda, triunfal A idade não perdoa, mas mexermo-nos faz bem. Passavas três dias com os netos e ficavas logo vinte anos mais novo. Vai ser assim: a Beatriz leva-os amanhã às dez. Eu mal me mexo, já disse. Nem discutas, António. É a tua família!

Do outro lado da linha, silêncio breve; Laurinda desligou. António pousou o telefone devagar, sem coragem de cruzar o olhar com Rosa.

Na cozinha, só o tique-taque do relógio marcava ritmo. Lá fora, Lisboa embalava-se no início dum aguaceiro de verão. Rosa pegou no pano, limpou uma mesa já limpa, pensativa.

Então, amanhã às dez? perguntou com voz neutra.

António finalmente olhou-a, suplicante.

Rosinha, desculpa Ouviste tudo, ela nunca desarma. A Beatriz vai de viagem, Laurinda a queixar-se São os netos.

António, Rosa sentou-se em frente dele, as mãos pousadas compostas são teus netos. Eu até gosto deles, mas sejamos francos: nem o meu nome dizem, sou só aquela senhora, porque assim lhes ensinaram. E cada visita é uma invasão, porque a Beatriz acha que criança deve poder tudo.

Eu cuido deles! apressou-se António Só peço que faças uma comidinha, uma sopa, uns panados Eles adoram, ainda que não confessem!

Rosa sorriu tristemente. Já sabia como seria: António, ao fim de duas horas a correr atrás deles, já pediria para se deitar só um bocadinho, e os gémeos selvagens acabariam por cair todos aos seus encargos. Saltos no sofá, migalhas pelo chão, desprezo por qualquer aviso: a avó Laurinda disse que aqui pode tudo, porque o avô manda.

Tínhamos bilhetes para o D. Maria no sábado recordou ela. Íamos tratar das roseiras na quinta.

O teatro espera, trocamos os bilhetes. As flores, pronto Rosa, ajuda-me só esta vez. A Beatriz prometeu não voltar a fazer.

Só esta vez, pensou Rosa. Já perdera a conta a quantas vezes ouvira isto. Normalmente cedia, por dó ao marido, evitando conflito. Mas algo mudara naquele dia, talvez pela forma como Laurinda, sem sequer pedir consentimento, logo desalojara tempo e vida da casa deles.

Não, António disse então Rosa, calma.

António piscou, como quem não percebe.

Não?

Não. Desta vez não haverá meninos. Não cancelo planos, não devolvo bilhetes, nem fico três dias na cozinha a alimentar crianças que na última visita me disseram que o meu caldo cheirava mal e que a mãe cozinhava melhor.

Rosa, então E a Beatriz? O que lhes faz?

A Beatriz que resolva. Mulher feita, com marido, sogra, amas disponíveis. Porque tem de ser sempre eu a sacrificar-me?

Nós corrigiu António.

Não, António. Porque sou eu que limpo, cozinho, lavo a roupa depois de verdadeiras batalhas campais. E tu jogas ao avô bonzinho umas horas, depois vais tomar o comprimido para as dores de cabeça. Eu não sou empregada de graça para filhos de gente que me despreza.

António franziu o sobrolho. Não estava habituado à esposa tão firme. Normalmente, Rosa era só delicadeza e tato.

Então O que queres que faça? Que ligue a Laurinda a dizer que não? Ela faz uma cena de arromba.

Não ligues Rosa levantou-se e foi até à janela. Que venham.

Aceitas então? iluminouse ele.

Não aceito. Deixa vir. Logo se vê.

Sábado amanheceu radioso, ao contrário do ambiente lá em casa. António andava de um lado para outro, ajeitava almofadas, consultava o relógio. Rosa, tranquila, tomou o pequeno-almoço, vestiu o vestido de linho, passou um leve batom e pôs um livro e um guarda-chuva na mala.

Vais sair? espantou-se António ao vê-la arrumar as coisas.

Temos teatro às sete, não esqueceste? E antes disso vou ao cabeleireiro, talvez um passeio junto ao Tejo. Preciso de arejar a cabeça.

Rosa! Eles chegam a qualquer momento! O que vou fazer sozinho? Nem sei o que lhes dou a comer!

Vais descobrir. És o avô. Um homem de exemplo, certo?

Nesse instante, tocou a campainha. Pressa, impaciência. António correu à porta, Rosa ficou no quarto a calçar as sandálias.

Pela entrada, ouviam-se vozes.

Que sorte, não apanhei trânsito! era Beatriz, a filha. Pai, olha, toma conta deles. Roupa está aí, o tablet carregado. Qualquer coisa, liga. Bolas, tenho de ir já, o táxi está à espera!

Beatriz, espera comida, os horários? balbuciava António.

Que horários, é fim-de-semana! Coze uns rissóis. Pronto, beijinhos, meninos, portem-se com o avô!

Porta que bate, crianças aos saltos, À conquista!.

Rosa sai então do quarto. Os dois rapazes já pulavam no móvel do hall atrás do chapéu do avô. António, com o saco ao lado, estava perdido. Mas a surpresa maior vinha da porta, ainda por fechar: Laurinda em pessoa.

Veio de muletas, mas vigorosa, maquilhada, com peúgas de lã e brincos reluzentes.

Ah, tu. Laurinda olhou Rosa de cima a baixo. Espero que tenhas tudo preparado? Nada de fritos para os meninos, o Tiago não pode com laranjas, o Afonso odeia cebola. A sopa, só do dia. E não fiquem agarrados ao telemóvel!

Falava como uma dona de casa a mandar na criada. António encolheu-se, esperando rebentar.

Rosa foi ao espelho, compôs o cabelo, pegou na mala.

Bom dia, Dona Laurinda. Bom dia, meninos.

Os gémeos pararam um segundo, depois continuaram. Rosa, com voz doce:

Obrigada pelos conselhos, Dona Laurinda. Deixe-os com o António, ele hoje é o responsável.

Então e tu vais para onde? Laurinda abriu os olhos.

Hoje é meu dia livre. Tenho compromissos, teatro, amigos. Volto só à noite. Ou talvez amanhã.

Laurinda corou, pôs-se à frente da porta.

Isto é loucura! Tens dois miúdos em casa! São netos do teu marido! É a tua obrigação…

A minha obrigação é só com quem prometi. Nunca prometi ser ama dos seus netos. Eles têm mãe, pai, e duas avós. A senhora está reformada, não está?

Mas tenho as costas!

Eu tenho a vida. E não a vou gastar para servir vontades de quem me fala assim.

António! Está a ouvir esta falta de respeito? Homem ou boneco? Mete-lhe juízo!

António olhava para cada uma, uma guerra de mundos nos olhos: anos de submeterse à Laurinda contra o respeito próprio e o amor por Rosa.

Laurinda a Rosa avisou-me, tem coisas dela. Pensei que me ia safar

Safar como? Laurinda esbracejou Ao fim duma hora já vais querer a cama. Quem lhes cozinha? Quem lhes dá banho? Ela vai-se passear, fazer o quê? E a família aflita?

Família? Rosa deixou de sorrir, o olhar duro Vamos esclarecer: eu e o António somos família. A senhora, a Beatriz e os meninos são parentes do António, não meus. Aguentei telefonemas a desoras, pedidos de dinheiro, insultos. Mas transformar a minha casa em creche e a mim em criada grátis? Nunca mais.

Que disparate! Esta casa ainda é do meu marido! Bom, ex-marido Mas tem direito!

Ele pode receber quem quiser. Não tem direito de me obrigar a ser criada dos convidados. António, tu decides. Ficas com as crianças e a Laurinda, que se sente ótima afinal, ou eu vou à minha vida.

Rosa deu passos na direção da porta.

Pára! Laurinda agarrou-lhe o braço Só sais quando fizeres o almoço dos meninos! A Beatriz já vai de viagem! E eu fico com eles aqui?

Rosa, sem perder o controlo, soltou o braço da ex-sogra.

Não são os meus problemas, Dona Laurinda. Chame um táxi, vá para casa e faça sopa. Ou peça à Beatriz que volte. E se me volta a agarrar, chamo a polícia: ninguém invade minha casa nem me põe a mão.

O silêncio caiu como lápide. Os meninos, sentindo o choque, ficaram imóveis. António olhava-a como nunca: com deslumbramento e susto. Afinal, aquela mulher suave tinha nervos de aço.

Laurinda respirava arfante.

És um demónio Egoísta! Vou contar a toda a gente quem és tu!

Conte. — respondeu Rosa, erguendo o queixo — Não me importa.

Abriu a porta e saiu.

António, tens a chave. Resolve. Se não conseguires, vemo-nos quando os netos forem embora.

O elevador fechou-se detrás dela, cortando o escarcéu. Cá fora, o ar cheirava a madressilva depois da chuva. As mãos tremiam, mas a alma estava leve. Tinha finalmente dito não.

E foi um dia bom. Visitou uma exposição, tomou café no Rossio, passeou no Jardim da Estrela, entregou-se à liberdade. Desligou o telemóvel, livre de pressas e lamúrias.

Ao regressar tarde do teatro, ligou-se de novo. Dez chamadas de António. Uma mensagem: A Laurinda levou os meninos. Estou em casa. Desculpa.

Quando Rosa chegou quase às onze, tinha a casa arrumada, silêncio. António na cozinha, com o chá frio à frente. Ar cansado, mas tranquilo.

Olá murmurou ele.

Olá. E os meninos?

Laurinda levou-os. Gritou uns desaforos, ameaçou cortar relações. Chamou a Beatriz, que chorava e queria devolver a viagem. Fez um pandemónio.

E tu?

Levantou os olhos, diferentes.

Pela primeira vez na vida, mandei-a calar. Quando começou a insultar-te, disse-lhe claramente: ou respeita a minha mulher ou nunca mais vê um euro meu fora aquilo que tem direito por lei. E que não quero vê-la aqui em casa.

Rosa passou-lhe a mão nos ombros, ele encostou-se, aliviado como nunca.

Ela levou os miúdos, quase arrancou a porta. Declarou-nos renegados.

Sobrevivemos — Rosa sorriu. — E a Beatriz?

Ligou a chorar do aeroporto, disse que precisava de ajuda. Transferi uns euros para uma ama lá mesmo. Levou os miúdos. Laurinda recusou ajudas, alegando crise nas costas.

Resolveu-se então. Mãe é para levar os filhos. É assim.

Rosa António fitou-a emocionado obrigado.

Por ter deixado tudo em cima de ti?

Por me obrigares a ser homem, não menino à mercê da ex-mulher. Vivi sempre com medo de desagradar, a culpa Hoje percebi: só te devo a ti. Tu és a minha família. — fez pausa — Fui um cobarde.

Importa é que mudaste riu-se Rosa Queres chá? Com bolo de cereja. Trouxe para ti.

Depois, silêncio de paz. No dia seguinte, nem sinal da Laurinda. Mensagem de Beatriz, dizendo que chegaram bem. Parecia que o ar na casa ficou mais limpo, como se as mágoas tivessem desaparecido.

Passou uma semana. Rosa, na quinta a podar as rosas, António ajudando.

Sabes disse ele, apoiado na enxada a Laurinda telefonou ontem.

Rosa, alerta.

Queria o quê?

Dinheiro. Diz que os remédios subiram.

E deste?

Não. Disse-lhe que andamos a poupar para renovar a casa e que tinhas uma nova gabardine. Ela desligou. Mas cá estamos, inteiros.

Até és capaz de me fazer rir Rosa riu-se de gozo. E tens razão: o céu não caiu.

Não caiu confirmou António, sorrindo, leve como nunca Ficou até mais azul.

Aquele episódio dos netos à força mudou-lhes a vida. Rosa percebeu que dignidade é saber dizer não sem gritar, e António que o respeito da esposa vale muito mais do que um acordo com um passado que já não lhe pertencia.

Claro, os netos continuaram a aparecer. Mas agora, combinado com antecedência, horários certinhos, Laurinda nunca mais cruzou a porta. António ia buscar os meninos, levava-os ao Jardim Zoológico, e entregava-os contentes. Isso agradava a todos. Os meninos tinham um avô relaxado, não um homem esgotado entre duas mulheres em guerra. E Rosa ficava, enfim, com o recato e o companheiro que merecia.

Por vezes, ao entardecer na varanda da quinta, Rosa pensava nessa tarde em que só pegou na mala e saiu para o teatro. O melhor espetáculo da sua vida sem se lembrar sequer do título da peça. A verdadeira peça foi ali, no corredor de casa, e terminou feliz.

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