Aquela mulher está a manipular o meu marido, só pode! desabafava Mafalda.
Mafalda olhava para o telemóvel como quem observa uma panela de pressão prestes a explodir. Aquela irritação antiga estava quase a ferver outra vez.
O Ricardo já lhe ligava pela terceira vez naquela noite.
Mafaldinha, desculpa, desculpa mesmo a voz dele vinha cansada, enrolada em culpa. Eu sei que tínhamos combinado ir ao teatro mas olha, a Soraia diz que o Martim está com febre altíssima. Ela não se desenrasca sozinha Estás a ver a situação, não estás?
Mafalda via, pois via.
Até via bem demais.
Ricardo, nós já comprámos os bilhetes, disse ela, com aquela calma que só mascara o caos interior. Andamos há mes e meio à espera desta peça!
Eu sei, querida. Juro-te que compenso depois, prometo. Mas é uma emergência, é o nosso filho, não o posso deixar sozinho assim
Mafalda desligou, respirou fundo e ligou à amiga.
Leonor, tu consegues acreditar nisto?! passeava-se pela sala, braços a gesticular Mais uma vez! Já perdi a conta! Ora é o miúdo, ora é o carro da ex que pifa, ora é um pretexto qualquer
Mafalda, mas olha que o rapaz pode mesmo estar doente sugeriu Leonor, pé ante pé.
Eu sei! Mafalda afundou-se no sofá. As crianças estão sempre doentes, não é novidade. Agora, o estranho é que a Soraia parece que não tem pais, nem amigas, só existe o Ricardo para lhe acudir always que alguma coisa corre mal!
Pois
Pois, pois, nada! Mafalda saltou do sofá. Ela percebe-se que ele é um coração-mole, que larga tudo para salvar o dia. E aproveita-se disso descaradamente!
Do outro lado, Leonor soltou um suspiro.
Tens a certeza que a culpa é dela?
Então, de quem havia de ser?! Mafalda ficou petrificada.
Não sei Mas pensa comigo: se uma mulher liga ao ex-marido e ele larga tudo sempre quem está mesmo a ser usado?
Mafalda ficou de boca aberta, fechou-a, e sentiu uma fisgada desconfortável dentro dela.
Leonor, não digas disparates, cortou Mafalda. O Ricardo é só um pai responsável. Não consegue deixar o filho sem ajuda.
Está bem, querida, eu só estou a conversar.
Mas aquele só a conversar ficou-lhe atravessado como uma espinha que não sai por nada.
O Ricardo chegou a casa tardíssimo nessa noite. Desalmado, desalinhado, olhar de cão abandonado.
Desculpa, amor, fui um tolinho abraçou-a por trás, enterrando o nariz no pescoço dela. Prometo-te bilhetes novos, para os melhores lugares, está descansada.
Mafalda não disse nada. Limitou-se a olhar para a rua, a pensar: quantas vezes já ouvi estas promessas? Cinco? Dez? Vinte?
Sempre o mesmo refrão: Sabes como é, não é?
Sim, achava que sabia. Mas o quê, já nem sabia.
Depois, vieram as pequenas coisas.
Aquelas tão discretas como pó na mobília só se nota quando passas o dedo. Eis, ali, um depósito acinzentado de dúvidas.
O Ricardo agora andava estranho com o telemóvel. Antes deixava-o em todo o lado: mesa, sofá, até na casa de banho. Agora andava com ele sempre colado, até para buscar um copo de água.
Ricardo, para quê esse apego todo ao telemóvel? atirou Mafalda uma noite, a tentar ser leve.
O quê? Oh é hábito do trabalho. Nunca se sabe quando toca.
Pois, pois.
Depois, Mafalda deu por si a ver o calendário do telefone dele, ia apontar a reposição da peça, aquela que perderam. E encontrou lá: Buscar Martim ao infantário às 16h, Levar documentos do carro à Soraia, Ligar à S. sobre as vacinas.
S. de Soraia, claro.
Ricardo, disse ela ao jantar, mexendo o chá com uma colher já sem açúcar Sabes quando é que é a minha defesa de mestrado?
Ele levantou os olhos do prato.
A defesa? Hmmm… Em maio, não é?
Em março. Daqui a duas semanas.
Ah. Pois é. Desculpa, cabeça de vento.
Cabeça de vento para ela, mas para a Soraia lembrava-se dos horários ao segundo.
Depois houve aquela do dinheiro.
Mafalda tropeçou num extracto bancário que ele esqueceu na mesa. Três transferências de 300 euros cada uma. Destinatária Soraia Lamas.
Ricardo, o que é isto aqui? perguntou, segurando o papel.
Nem pestanejou. Só respirou fundo.
Estava a ajudar a Soraia a mãe dela ficou doente, precisou de pagar medicamentos. Depois para as actividades do Martim Ela está sozinha com o miúdo. Compreendes, não compreendes?
Novecentos euros, Ricardo. Em três meses.
E depois? É o meu filho! Vou deixá-los a passar necessidades?!
Mafalda pousou o papel.
Claro que não tens. Só é estranho não teres mencionado nada.
Não foi por mal! Só sabia que ias logo fazer este drama todo!
Aquele drama todo dito assim, fazia-a sentir uma louca ciumenta, cheia de manias.
Depois houve a cena do carro.
Mafalda entra, senta-se, e vê no banco de trás um desenho de criança. Estava lá uma casa, flores, sol e três bonecos. Papá. Mamã. Martim.
Sem Mafalda à vista.
Pegou no desenho, leu no verso desenhado às três pancadas: Para o papá, do Martim. A nossa família.
Ricardo, o que é isto?
Ah, foi o Martim que fez. Giraço, não é? Está um artista.
Mafalda olhou para o papel, depois para Ricardo, depois de novo para o desenho.
Aqui diz a nossa família.
Pois, ele é pequeno. Na cabeça dele, família é eu, a Soraia e ele. Sabe-se lá. Coisas de puto.
Mafalda deixou o desenho, sentou-se direita, pôs o cinto e ficou calada o caminho todo.
A seguir, a Soraia começou a aparecer em carne e osso.
Primeiro para buscar umas coisas do Martim que ficaram em casa do Ricardo. Depois para falar das férias grandes. Depois porque ia passar aqui perto e decidi dar um saltinho.
Soraia era cordial, sorridente, impecável.
Mafalda, olá! dizia, como se fossem best friends. Não te importas? O Ricardo está?
Sempre que ela saía, o Ricardo ficava ausente, calado, a olhar o vazio, a responder com monossílabos.
O que é que tens? perguntava Mafalda.
Nada, só cansaço.
Mafalda começou a sentir-se a outra na própria casa. Ela era o extra, o acessório dispensável.
Até que ouviu, um dia, sem querer, um telefonema.
Ricardo fechou-se na casa de banho, mas deixou a porta entredabrta Mafalda apanhou isto:
Soraia não chores. Vou ajudar-te, claro que vou. Sabes que estou sempre aqui para ti.
Voz sumida, baixa, quase mansa.
Mafalda afastou-se, sentou-se no sofá, e de repente percebeu.
O problema não era ela manipular o Ricardo.
Ele deixava-se manipular. Porque assim lhe dava jeito.
Mafalda ficou três dias de bico calado. Nem uma cena. Só a observar tudo, metodicamente, como quem estuda um insecto raro ao microscópio.
E foi vendo…
Que o Ricardo sabia o horário da Soraia melhor do que o aniversário dela. Sabia quando era o futebol do Martim, a reunião na escola, a consulta da Soraia No calendário estava tudo. No dela, nem a data da defesa de mestrado.
Que o telefone vibrava e ele saltava logo, respondia quase escondido e depois vinha com aquela cara de quem está a fazer marosca.
Até que um dia, durante o banho do Ricardo, o telefone tocou. Mafalda espreitou para o ecrã.
Soraia.
Quase sem pensar, atendeu.
Ricardo? a voz da Soraia era doce, a chorar. Ricardo, podes vir? Preciso mesmo de ti Não sei a quem mais recorrer.
Mafalda calada.
Ricardo? Estás aí? Estou mesmo aflita. Tu sempre foste o meu apoio
Mafalda desligou. Pousou o telefone. Sentou-se e deu uma gargalhada.
Santa paciência, como foi tonta. Que burra de todo.
Ricardo saiu da casa de banho, de toalha à cintura, cabelo a pingar.
Olha que foi a Soraia a ligar, disse Mafalda, serena.
Ele deslizou.
Atendeste-lhe o telefone?!
Atendi. Ela estava a chorar. Pediu para ires. Disse que sempre estiveste ao lado dela.
O Ricardo ficou índeciso, os olhos a saltar as desculpas uma a uma.
Vês, começou A Soraia está num mau bocado. Não tem ninguém. Só eu. Não posso abandoná-la!
Abandonar?! Mafalda soltou um riso. Ricardo, vocês divorciaram-se há quatro anos, lembras-te? Ela já não é tua mulher. É a tua ex. Já a largaste. Há séculos.
Mas temos um filho em comum!
E quê? Tens de ir a correr sempre que ela diz Martim? De passar-lhe dinheiro às escondidas? De saberes toda a vida dela ao detalhe?
Estás a exagerar!
Eu!?
Mafalda sentiu-se rebentar por dentro. Pegou na mala. Foi buscar as coisas.
Sabes, Ricardo, passei meses a convencer-me que o problema era ela. Que ela te manipulava. Que usava o miúdo. Que era a vilã. Mas a verdade o problema és tu. És tu que deixas. Aliás, gostas até. Dás-te bem com a coisa de ter duas vidas. Uma ex a precisar, e uma nova que aguenta. Não escolhas nada, que assim não te custa.
Mafalda, não vás.
Não estou a fugir, disse calmamente. Estou a sair. Desta fantochada onde sou sempre a número três. Não vou lutar com a tua ex-mulher. Saio do vosso teatrinho.
Ricardo ficou ali parado, na sua miséria de banho-tomado.
Mafalda, espera. Vamos conversar.
Não há conversa. Ela vestiu o casaco. Tu tomaste a tua decisão há muito. Eu é que demorei a ver. Mas agora vejo. Clarinho.
Abriu a porta.
Adeus, Ricardo. Dá cumprimentos à Soraia. Agora pode ligar-te à vontade.
A porta bateu, discreta.
Passado um mês, Mafalda estava num café com a Leonor.
Então, e tu, como andas? perguntou a amiga, cautelosa.
Bem, Mafalda sorriu. Mesmo bem!
E era verdade. Na primeira semana custou, apertada por dentro, aquela vontade de ligar, de escrever, de voltar. Mas aguentou-se. Arrendou um estúdio pequenino, arranjou um part-time, defendeu o mestrado.
Ricardo ligou-lhe. Muito. Escreveu mensagens enormes, um novelo de desculpas e juras.
Mafalda, perdoa-me. Fui um idiota. Percebi agora. Deixa-me recomeçar.
Mafalda já não respondia. Sabia, finalmente: recomeçar para quê? O problema nunca foi a Soraia. Foi sempre ele. E até o Ricardo perceber sozinho, nada muda.
E ele, como está? perguntou Leonor.
Quem?
O Ricardo, ora.
Ah, não sei. Não falamos.
Leonor mordeu a língua.
Não te arrepende nada?
Mafalda pensou. Terá pena? Nem por isso. Sinceramente sentia outra coisa leveza. Como tirar uma mochila das costas carregada de pedras.
Fiz a escolha certa. Acabou o café. Por mim. E por ele também.
Leonor sorriu.
És uma mulher de coragem.
Nem tanto, Mafalda acenou. Apenas cresci.
Ricardo ficou sozinho.
Soraia, surpreendentemente, deixou de telefonar com a regularidade habitual. Pelos vistos, sem Mafalda como plateia, o drama já não tinha tanta piada. Quando o Ricardo tentou reatar alguma coisa, apanhou um gelo desses de fazer cubos no Verão.
Foste tu que escolheste aquela altura, Ricardo disse Soraia. Agora faz pela vida. Eu também fiz pela minha. Não preciso nem quero ajuda tua.
O Ricardo tentou reconquistar Mafalda. Esperava-a à porta de casa, mandava mensagens intermináveis. Ela manteve-se firme.
Ricardo, deixa-me. E liberta-te também. Não somos para ficar juntos. Tu sempre quiseste duas vidas. E eu só quero uma. Mas que seja verdadeira.
Mafalda caminhava pelas ruas do Porto já noite, a pensar como as coisas mudam. Tinha tanto medo de ficar sozinha, de perder o Ricardo. Mas quando o perdeu percebeu que não tinha perdido nada.
Porque quem não sabe escolher, nunca vai dar nada de verdade.
E ela merecia só o que fosse mesmo verdadeiro.
Acham que ele devia ir atrás da primeira mulher, já que com a Mafalda não deu?







